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Junta-se agora a esta emissão especial o historiador Rui Ramos. Obrigada por estar também conosco. Temos estado aqui a olhar para este legado de Isabel II. Vai ficar isso, sem sombra de dúvidas, na história mundial. O que é que destaca Rui Ramos deste percurso, deste reinado de 70 anos?

Primeiro é o recorde de um monarca que reinou durante 70 anos, desde 1952. O que quer dizer que foi rainha no Reino Unido em épocas muito diferentes, no pós-guerra, imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial, durante os anos 60, durante os anos daquela grande transformação cultural por que passaram as sociedades ocidentais e o mundo. E depois acompanhou a Inglaterra durante todos os acontecimentos seguintes. Teve 15 primeiros-ministros. Um dos primeiros ministros que nomeou nasceu em 1874. O último que nomeou esta semana nasceu em 1975, 100 anos depois. Foi este enorme arco. Acho que isto vai ficar. Isto é uma aproximação tipo livro de recordes, mas acho que vai ficar. E depois vai ficar por aquilo que conseguiu representar cultural e politicamente na Grã-Bretanha. Ela fez com que a monarquia fizesse sentido numa época em que muitos diziam que provavelmente já não tinha justificação. Numa época de grandes transformações, a rainha Isabel II conseguiu fazer da monarquia aquele elemento de continuidade de que as sociedades continuam a precisar e sobretudo precisam quando estão a mudar muito, como as sociedades ocidentais desde a Segunda Guerra Mundial. Mudanças não apenas tecnológicas, também das referências culturais, enfim, uma mudança muito grande, talvez das maiores mudanças naquilo que nós conhecemos como história. E ela representou um ponto de estabilidade, alguém que estava ali sempre e em quem se podia confiar. Isso foi muito importante. Houve, desde o princípio do reinado dela, preocupações de adaptar a monarquia a tempos novos. Foi assim que ela foi das monarcas britânicas que mais viajou. Viajou não apenas no Reino Unido, mas no resto do mundo, logo desde os anos 50. Foi assim também daquelas que mais se expôs ao público, expondo a sua intimidade em documentários, logo também na década de 70, um famoso documentário sobre a vida quotidiana da família real britânica. Mas acima de tudo, ela impressionou com aquele sentido do dever que a caracterizava, com aquela tranquilidade que ela tinha na forma como se relacionava, por exemplo, com a fé. Enfim, ela era chefe da Igreja Anglicana enquanto rainha de Inglaterra, e ela falava disso normalmente, da sua fé cristã. Portanto, há toda uma série de elementos tradicionais de uma sociedade europeia que ela conseguiu representar e que de alguma maneira era uma referência num mundo a mudar, a tornar-se diferente todos os dias e talvez até um pouco estranho para alguma gente. E ela com isso conseguiu não apenas ser uma referência no Reino Unido, mas mais curiosamente e mais interessante, ser uma referência em todo o mundo. Quer dizer, há pouco vi notícias que referiam apenas "a rainha morreu". Rainha. Isto é, ela é a rainha, quer dizer, em todo o mundo ela é a rainha, não é apenas a rainha de Inglaterra, é a rainha. E foi esse símbolo, por vezes, para nós, nascidos depois numa outra geração, mas numa outra atitude também para com a vida, uma atitude que olha para a vida através do dever, do serviço, de um certo pudor, uma certa contenção. E ela representou tudo isso. E representou tudo isso não apenas no Reino Unido, que é uma monarquia, mas também no resto, em países que não são monarquias há muito tempo, mas que acompanhavam as suas histórias, as suas intervenções e tudo aquilo que lhe dizia respeito e que a conheciam como a rainha.

Podemos analisar esta declaração da Liz Truss e também o facto de já termos aqui este título. Carlos vai ser, ou já é, na verdade, rei Carlos III.

É, Carlos III, que não é propriamente um nome com grandes precedentes em termos da história monárquica britânica. Mas aqui o Carlos II acabou bem, aliás, foi casado com uma portuguesa. É a primeira vez que aparece um Carlos desde o século XVII. A Liz Truss fez a referência àqueles aspetos que são geralmente falados quando abordamos Isabel II, a comunidade britânica, a maneira como ela foi fundamental para manter todos aqueles países que tinham feito parte do antigo Império Britânico, associados, em grande medida, à volta do monarca, que continua a ser chefe de Estado de vários desses Países e, portanto, uma referência para esses países. Fez também referência, curiosamente, a algo que em 1952, quando Isabel II chegou ao trono, foi referido, que é a ideia de uma nova época isabelina. Quer dizer, a primeira época isabelina é a de Isabel I no século XVI, é uma grande época da história inglesa e nos anos 50, por causa do nome da rainha, a monarquia tem mil anos, dura independentemente dos monarcas, mas estes monarcas vão também moldando e os nomes têm ressonâncias. Nos anos 50 esperou-se uma nova época isabelina, quer dizer, uma nova época de prosperidade, mudança na Inglaterra. Isso nos anos 50, que eram anos do pós-guerra em Inglaterra e na Europa, portanto, ainda anos difíceis de recuperação dos destroços, dos sacrifícios da Segunda Guerra Mundial. Havia essa expectativa, essa confiança e de alguma maneira, independentemente das dificuldades por que o mundo está a passar hoje, quando olhamos para trás, para estes 70 anos, eu creio que Isabel II teria o direito de se sentir, de alguma maneira, satisfeita com o papel que desempenhou e com aquilo que conseguiu no Reino Unido. O país que parecia condenado à decadência depois do fim do Império Britânico, conseguiu arranjar outras dimensões, outra maneira de estar no mundo e continua a ser fundamental em termos de cultura, em termos também políticos, em termos de exemplo para o resto da Europa. Portanto, isso foi conseguido, e de alguma maneira essa época isabelina, que se esperava nos anos 50, realizou-se. Muito dependeu, de facto, da rainha. E a rainha acho que é também importante por uma outra razão: ela é uma pessoa a quem os seus biógrafos, mesmo os mais benevolentes, não atribuem qualidades extraordinárias, isto é, ninguém apresenta a rainha como um gênio. Portanto, é uma pessoa com qualidades, vamos dizer, normais. E essa pessoa normal foi capaz de desempenhar um papel extraordinário, isso acho que é importante dizer. Não apenas através da instituição da monarquia, mas através da maneira como ela entendeu o seu papel, daquilo que a primeira-ministra britânica agora referiu como a dignidade e a elegância. Foi algo que ela manteve através de vários momentos difíceis, até mesmo na própria família real. A família real converteu-se nestes últimos 70 anos, através dos meios de comunicação no Reino Unido, numa espécie de corte com os seus mexericos, com os seus incidentes, com todo aquele espetáculo associado às celebridades. Foram as primeiras celebridades, antes de aparecer outras celebridades televisivas, os membros da família real foram os primeiros. Por vezes isso criava um ambiente que não era fácil e a rainha conseguiu sempre estar acima disso. Isto é, esta pessoa que era uma pessoa com qualidades normais, mas teve essa capacidade de ultrapassar e de ter esse papel que hoje as pessoas associam à dignidade, à elegância, à tranquilidade, à firmeza das suas convicções, da sua noção do dever no mundo em que toda a gente pensa só nos seus direitos. Aqui está alguém que pensava nos seus deveres. Isso também foi importante. Isabel II também é importante por isto. Mostra o que é que uma pessoa pode fazer quando tem a consciência do seu dever. Ela fez como monarca de um grande país, mas é provável que muita gente o também possa fazer nos papéis que desempenha ou outros níveis da vida social, com a consciência do dever, e poder acabar como ela, muito provavelmente, tranquilamente, com a consciência de um dever cumprido. Ela cumpriu o seu dever.