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Boa noite. Bem-vindos à emissão especial do Observador a partir do 14º Congresso do Livre, no Pavilhão Municipal da Costa da Caparica, concelho de Almada. Junta-se agora a nós o fundador do partido e porta-voz Rui Tavares. Discursou há poucos minutos, à hora que estamos a gravar esta entrevista, falou dessa necessidade de mudança de ciclo político. A legislatura terminar mais cedo do que o previsto é o desejável neste momento?
Não, desejável não é. Pode é vir a ser inevitável. E se o for, é porque os maiores partidos, mas muito em particular o primeiro-ministro Luís Montenegro, que é quem tem a obrigação de ter a iniciativa política de marcar a agenda, o terão tornado inevitável de alguma forma. A julgar por este primeiro mês e pouco, esse risco existe, realmente. Muitas votações no Parlamento são decididas por uma carambola de última hora, sem dar previsibilidade nenhuma. Na última sessão parlamentar, a certa altura, até assistimos ao caricato de já termos encerrado a sessão e do líder parlamentar Hugo Soares querer pedir basicamente uma recontagem de uma proposta de resolução que o PSD, partido do governo, tinha perdido. Fazia quase lembrar aquele dito chinês que não só o futuro é imprevisível, mas o passado também é imprevisível, porque tinha acabado de acontecer. Não é maneira de governar um país. E se a grande vantagem que, apesar de tudo, tinha esta solução minoritária de governo, mas que foi a Belém dizer que tinha estabilidade, se alguma vantagem podia apresentar às pessoas, era não irmos para eleições já. E eu creio que as pessoas em geral estão cansadas de legislaturas que não chegam até ao fim.
É por uma questão de falta de habilidade do governo ou uma questão de vontade do governo de não chegar ao fim?
Vamos ser justos, não são os únicos. Nós já vamos na terceira legislatura em pouco tempo. Uma não chegou ao fim porque a esquerda não se entendeu para um orçamento. Outra não chegou ao fim porque uma maioria absoluta do PS se deixou fragilizar tanto que depois, às tantas, um caso judicial a deitou abaixo. Esta acho que ainda começa mais debilitada, porque de certa forma parece que Luís Montenegro não saiu de campanha eleitoral e com isso acaba a minar a principal vantagem que é as pessoas queriam agora estar um período em que não estivéssemos em campanha eleitoral, em que houvesse uma governação relativamente normal. Isso mesmo em minoria seria possível fazer, com mais diálogo, com negociação parlamentar verdadeira, que não existe de todo.
Mas não há o risco de Luís Montenegro conseguir passar a mensagem de que não o estão a deixar governar e com isso beneficiar numas eleições futuras, seja daqui a seis meses ou daqui a um ano?
Talvez seja essa a tática, é uma tática que tem um bocadinho de Cavaco Silva nos anos 80 e um bocadinho de Carlos Moedas em Lisboa agora recentemente, só que é à vista de toda a gente e não está a funcionar. Quer dizer, este governo num mês e tal não tem uma proposta de futuro que seja mesmo sua.
Acha que o governo não está a alargar a sua base popular como Antão Santos o aconselhou a fazer na tomada de posse? Não está a conseguir fazer isso?
Não, não está a conseguir fazer isso e há algumas coisas que seria possível fazer. Vou dar o exemplo de uma causa que era de nicho, mas agora é cada vez mais generalizada: o círculo nacional de compensação. Nós defendemos, a Iniciativa Liberal defende, o Bloco de Esquerda defende, vários partidos estão abertos a discutir, o PSD revelou ser o mais fechado no debate que nós fizemos na Assembleia da República sobre o assunto. E é um debate importantíssimo, porque joga com a questão dos votos do interior e com a revolta que as pessoas têm no interior por estar a viver num sistema eleitoral que basicamente é diferente do do litoral. No litoral vivemos em multipartidarismo.
Aumenta o ressentimento em relação à política.
E aumenta o ressentimento. Um governo minoritário poderia dar uma demonstração de boa vontade. Não estou a dizer que seria fácil, não estou a dizer que seria imediato, vir à fala com os outros partidos e tentar resolver alguns problemas da nossa democracia. Nós nunca poderíamos dar o acordo ao PSD sobre Serviço Nacional de Saúde ou fiscalidade ou políticas económicas, mas sobre questões de democracia e de justiça, já o dissemos várias vezes, e até apanhámos alguma pancada por isso, que estaríamos a favor de dialogar.
Pelos restantes de esquerda, seguramente.
Sim, durante a campanha eleitoral. Bem, nem isso está a acontecer. Será que é uma tática de curto prazo até às europeias e que depois as coisas mudam? Pode ser. Seria bom, mas mesmo assim, reconstruir a confiança depois de umas europeias, mais difícil.
Mas os dois maiores partidos não estão a fazer das europeias uma segunda volta das legislativas.
Bem, e se estão é errado. Mas acho que ainda mais responsabilidade disso tem o partido que é de governo. Um partido que é da oposição faz oposição, é o que é normal que faça. Um partido de governo, se quer governar com alguma estabilidade sendo minoritário, não pode fazer, por exemplo, o que fez o PSD e o CDS também, a propósito do IRS, vir dizer-nos a nós, restantes deputados na Assembleia da República, que não percebemos nada, que somos obtusos, que não percebemos o que eles propuseram, que não percebemos o que é que Luís Montenegro disse no discurso de discussão do programa do governo. Agora diga-me, acha que isto é uma maneira de se construir confiança quando se é minoria no Parlamento? Claro que não é.
E nós estamos aqui a falar da tal mudança de ciclo político, caso haja eleições antecipadas, e também do alargamento da base popular em relação às últimas eleições. O Livre teria condições para crescer agora se houvesse eleições? Estaria num ponto desejável para ir a eleições no partido?
É irônico, de certa forma, porque o Livre cresceu em todos esses ciclos políticos que terminaram precocemente. Claro que as atenções, e também por razões que eu não discuto, estão muito viradas para o crescimento da extrema-direita, que foi um crescimento dramático. Mas, na verdade, a legislatura de 2019 se terminou precocemente em 2021. O Livre regressou ao Parlamento, portanto, beneficiou com as eleições antecipadas Na legislatura seguinte, conquista um grupo parlamentar e, portanto, beneficiou. E eu acho que se fossem eleições antecipadas, nós beneficiaríamos também. Agora, vamos olhar isto do ponto de vista do país e não do ponto de vista do Livre. Para o país não é bom. Se nós passarmos de ciclos políticos normais para miniciclos políticos e depois para microciclos políticos de um ano ou de seis meses, evidentemente, isso vai gerar uma situação de desânimo entre as pessoas, frustração, de desorientação, que pode beneficiar atores bem mais oportunistas e bem mais malévolos da política e, portanto, nós não queremos que isso aconteça.
Referiu aqui também no seu discurso neste primeiro dia de congresso, que o Livre deve estar preparado para governar com as forças progressistas. Isto normalmente não corre bem, quando um partido cresce e depois assume logo que quer governar. Não está a dar passos maiores do que a perna?
Não, porque eu não estou a dizer que quero governar. Eu estou a dizer que o Livre tem que se preparar para isso. E, portanto, quero ser completamente honesto com toda a gente em relação a isso. É um processo. Se houvesse eleições antecipadas daqui a um ano e se o ciclo político mudasse e se houvesse uma maioria progressista plural, não acredito que fosse uma maioria absoluta do PS, o Livre já teria que nesse ano conseguido enraizar-se, falar com a sociedade civil, com os académicos, com os especialistas, com os técnicos, com as pessoas que estão no terreno, com as associações locais, para conseguir ter a capacidade de ação executiva, que é diferente daquilo que a gente faz agora, que é a ação legislativa. E portanto, quanto mais tempo nós tivermos para nos prepararmos, de certa forma melhor. Agora, olhando para a maneira como o país está e sendo nós progressistas e ecologistas e querendo virar o ciclo político, eu tenho noção de que estamos a quebrar um tabu e que aquilo que estamos a dizer é extremamente audaz e ambicioso. Quero ser transparente com as pessoas, que é, o Livre tem que se preparar, mas se nós demoramos dez anos para chegar aqui, para conseguir-
O que é que difere, por exemplo, da mensagem do Bloco de Esquerda, que em tempos também chegou a afirmar que tinha essa ambição de poder entrar num governo?
O Bloco de Esquerda falará por si, mas o Livre vem de uma tradição, de uma família política europeia, que é o Partido Verde Europeu, que sempre acreditou que através das instituições nós conseguimos fazer as mudanças necessárias para reformular a maneira como vivemos. Isso pode ser numa junta de freguesia, numa câmara municipal, numa região ou a nível nacional. Nunca tivemos esse ADN de partido de protesto, sempre fomos um partido de projeto e de proposta. E o que é natural quando se é um partido de projeto e de proposta, é depois querer ver as propostas aprovadas e implementadas.
O Livre tem menos pruridos do que o resto da esquerda em comprometer-se com a governação.
Nós nascemos com esse dilema resolvido. É um dos dilemas com os quais nós nascemos já resolvidos. Um deles é o da convergência à esquerda, sempre assumimos como natural, era um tabu, e isto também é um pouco um tabu à esquerda do PS, sempre foi. Nós não temos uma esquerda do PS que se tenha abalançado a governar mais do que ao nível municipal, mas também digo que o Livre que esteja preparado para o fazer e que depois não aconteça o que acabaram de me dizer, que é depois correr mal, tem que se preparar muito bem e isso é um caminho que ainda precisa.
Portanto quer que o Livre seja o primeiro partido à esquerda do PS que quebra o tabu da governação.
Sim, mas quero, antes disso, dizer às pessoas aqui neste congresso, às que estão presencial e às que estão por via remota, e a toda a gente que tem esperanças no Livre, que isto é um caminho que temos que fazer. Não estamos preparados de um dia para o outro. E isso significa conseguir fazer crescer em escala este partido e é uma missão ainda mais complexa do que ter trazido este partido dos seus inícios há dez anos até onde estamos hoje, que como vocês sabem, e nós assumimo-lo com toda a transparência, foi um caminho que teve vicissitudes, teve avanços e recuos. O que nós queremos agora, e isso é absolutamente necessário que o Livre mostre, é que não somos partido de dar um passo à frente e dois atrás.
Agora damos vários passos à frente, mas havia pastas que fizessem sentido o Livre assumir, Ambiente, por exemplo?
Não, isso é de facto dar muitos passos à frente. Há pastas e há áreas políticas...
Que são especialmente relevantes para o partido, daí a pergunta.
Sim.
Ou que seria mais fácil preparar a esse curto prazo.
E posso dizer que nos apaixonam e sim, nas quais temos quadros preparados que sabem muito do assunto. E vocês viram aqui, na ecologia é absolutamente claro que o debate que se faz no Livre acerca da ecologia é um debate que está muito para lá até de outros partidos que se dizem ambientalistas. É um debate muito baseado nos factos fundamentais, muito baseado na ciência. É um debate profundo, porque como dizia aqui o Jorge Pinto, não é só o debate ecológico do "tenha cuidado com a torneira aberta enquanto lava os dentes". Como dizia o Carlos Teixeira, é um debate que não se fixa só na transição energética para combater as alterações climáticas, mas também percebe que estamos a perder muita biodiversidade e que é preciso restaurar a natureza e, portanto, claro, nessa área, parece-me evidente que o Livre tem uma preparação até comparativa com o resto da base de conhecimento no partido, que é muito grande. Na área dos direitos humanos, na área dos assuntos europeus, na área da educação e do ensino superior e da investigação, porque temos muitos investigadores. Também na área do trabalho, com a semana de quatro dias, com as questões da parentalidade, que a Isabel Mendes Lopes tem trabalhado muito nos direitos com o Paulo Moacho. Vamos fazendo o nosso caminho, mas mesmo juntando estas áreas todas, isso não faz uma governação de um país, faz uma participação numa governação progressista e ecológica onde estejam também outros partidos.
E Pedro Nuno Santos tem capital para liderar essa frente progressista, como diz, ou ficou fragilizado depois da derrota nas legislativas?
Acho que a questão da liderança é uma questão que se faz por marcar a agenda, ter ideias novas e conseguir mudar o debate público. E, portanto, nós à esquerda não podemos pensar que a questão da liderança à esquerda é como a questão das lideranças à direita. A liderança carismática, personalizada, populista.
Neste caso, há algumas ideias que nós associamos a Pedro Nuno Santos. Fora se tem carisma ou se não tem carisma, pelo menos sempre foi um homem que se identificou como sendo de esquerda, muito adepto das convergências à esquerda e querendo marcar alguma diferença até em relação a outras pessoas do Partido Socialista.
Quero deixar claro, até porque isto podia ser entendido, como não era, uma espécie de crítica enviesada. Eu acho que as lideranças à esquerda atuais, a Mariana Mortágua, o Paulo Raimundo e o Pedro Nuno Santos e a própria liderança do Livre, que é uma liderança que tem este lado muito colegial, tem um alinhamento e uma capacidade De construção conjunta, maior do que havia antes e ainda bem. Quer dizer, às vezes as coisas não correm sempre bem, como já mencionámos durante a campanha eleitoral, mas estivemos em contacto, conseguimos dirimir alguns mal-entendidos e isso constrói confiança. E acho que há até, no horizonte, momentos políticos, como as autárquicas, em que perante uma direita que se está a radicalizar muito e que está cada vez mais conservadora, é preciso assumir o campo progressista e que os progressistas ganhem em municípios importantes.
Lisboa é seria um bom teste para isso.
Lisboa é, evidentemente, determinante também por uma razão que toda a gente sente em Lisboa e na área metropolitana. Lisboa não tem visão estratégica neste momento, por parte da sua presidência. Digo isto com algum pesar, porque eu tenho uma boa relação cordial e até afável com Carlos Moedas, mas a verdade é que a coligação PSD/CDS em Lisboa não tem visão. Nós não temos uma ideia de para onde é que querem levar Lisboa no futuro, para além de algumas coisas de imprensa, de redes sociais e coisas um bocado propagandísticas. Mas isso também significa que a esquerda não se pode ficar, e aí voltamos à questão da liderança, por escolher nomes e protagonistas, costurar uma coligação e avançar. Não, do ponto de vista do LIVRE, em Lisboa, também noutros locais do país, é preciso pensar mais como fez Jorge Sampaio nos anos 80. Não foi só avançar por uma liderança para Lisboa, foi fazer uma espécie de Estados Gerais em Lisboa, que depois até foram copiados por António Guterres, foi falar com a sociedade. Mariana, só para complementar aqui, mas neste momento, em Portugal, não é só Lisboa que é politicamente emblemático e determinante. Se pensarmos, eu há bocadinho mencionava que no 25 de Abril uma dúzia de jovens de Campo Maior vieram ter conosco e não se conformam com a ideia que agora se criou de que o Alentejo está a virar à extrema-direita. E eu acho que vitórias também no interior do país, também em zonas rurais, candidaturas apoiando movimentos de cidadãos independentes, em que os partidos à esquerda dizem: "Este movimento de cidadãos independentes é interessante, vamos apoiá-los", são determinantes para mostrar que nós não abandonamos ninguém.
Ia lhe perguntar, já agora a nível nacional, como dizia que é preciso fazer uma preparação antes de haver, de facto, uma solução à esquerda, se isso está a ser feito, o Bloco de Esquerda fez aquela tentativa, ou seja, fez as reuniões com os partidos de esquerda, disse que queria fazer uma espécie de frente de esquerda. Isso está a resultar ou foi uma espécie de número, que foi um bocadinho a maneira como, pelo menos, o interior do PS viu essa iniciativa?
Não, não vou caracterizar dessa maneira, porque tivemos uma conversa.
Mas está a ter um funcionamento prático?
Aqueles encontros, aquele diálogo que houve, é algo que para nós é natural. E já o fizemos várias vezes ao chegar à Câmara Municipal de Lisboa, pedir reuniões, noutras câmaras onde até estamos em convergência e em coligação com o próprio Bloco de Esquerda, como Oeiras, que já foi aqui mencionado pelo Tomás Cardoso Pereira, aqui neste congresso, que é uma coligação Bloco, LIVRE e Volte com o movimento independente. E, portanto, para nós é normal, é preciso é que tenha uma certa regularidade e neste momento o que aconteceu, com a proximidade de muitos atos eleitorais, legislativas, Madeira e europeias, em sequência, ainda não foi possível dar tempo ao tempo para essa construção.
Não o preocupa a ideia de que possa haver uma convergência maior entre o PS e o Chega, pelo menos nas instituições, do que propriamente uma frente de esquerda?
Não, de todo. Eu acho isso uma atoarda por parte do PSD. Acho que os partidos defendem as suas ideias, defendem o que está no programa. Era o que faltava por parte do PSD, que continua completamente desorientado a não perceber que a extrema-direita, se eles lhes dão a mão, acabam com o braço comido, e depois vir dizer que é qualquer partido à esquerda que se faz. Os partidos à esquerda não têm feito outra coisa senão denunciar a extrema-direita e, às vezes, com acusações. Eu lembro-me bem como é que foi no mandato passado com Augusto Santos Silva, quando ele era firme com a extrema-direita, a direita do PSD e IL vinham dizer: "Coitadinho do Chega, não pode ser assim, não os tratem assim, senão dão-lhes a atenção que eles querem". A direita não tem uma estratégia para a extrema-direita. A esquerda pode ter uma que até podem achar que é errada, mas é de acordo com os nossos princípios e é de rejeição da extrema-direita.
Deixe-me perguntar se a esquerda se deve entender para apoiar o candidato único para o somar a Paulo de Sousa e, enfim, nesse caso, se tiver nomes na cabeça.
Não, eu não vou dar nomes porque acho que as presidenciais devem emergir muito da sociedade civil. Acho, e já acho isto há muito tempo, acho que até antes de estar no LIVRE, que a esquerda não pode habituar-se a ser uma máquina de perder eleições presidenciais, e já está há 20 anos a perdê-las. E isso talvez signifique que aquela ideia que a esquerda tem tido, que é ir à primeira volta toda separada, porque depois, na segunda volta pode ser qual-- é, ou então o candidato que passar à segunda volta ganha, tem um exemplo de um caso, que é Soares 86. Nunca mais uma eleição presidencial, na verdade, foi assim, nem aquelas que nós ganhámos, nem aquelas que a direita ganhou.
É preciso mudar de receita.
Se calhar, volto ao exemplo de Jorge Sampaio. Jorge Sampaio nos anos 90 é um exemplo. Eu estive nessa campanha como cidadão independente do grupo de jovens que apoiava Jorge Sampaio e não era do PS, não votava no PS, e Jorge Sampaio tinha sido um líder do PS, mas oferecia a credibilidade e a confiança para avançar para essas eleições. Mas foi isso também que nós no LIVRE fizemos, tanto com a candidatura de Sampaio da Nova, que era um candidato independente, que praticamente metade do PS também apoiou e que o LIVRE apoiou, fizemos um referendo, e depois com a Ana Gomes, que até é militante do PS, que o LIVRE apoiou. Estou a falar do passado, mas estou a apontar para o futuro, porque isso aí a cada um compete à própria gente.
Ainda estão ativos, até, no espaço público, os dois.
Sim, e são pessoas com quem Trabalhamos muito bem, temos um enorme respeito e temos uma relação até de grande amizade.
Deixe-me só aproveitar para irmos à vida interna do LIVRE nestes minutos finais. Este congresso surge na fase do maior fulgor do partido. Isto parece um bocado dissonante face à nossa parte inicial da entrevista, mas o LIVRE não corre um certo risco de implosão, alguns militantes falaram disso, de se perder nestes conflitos internos e jogos de poder?
Não acho que implosão, nem isso me passa pela cabeça. Quer dizer, as pessoas que formaram o LIVRE ganharam uma coesão, uma resiliência durante anos muito difíceis. Nós propusemos a geringonça, ficamos de fora do Parlamento em 2015. Nem subvenção pública tínhamos. Ficamos com uma dívida de campanha, na altura, fruto também de alguma inexperiência, de alguma ingenuidade, que assumimos. E esta gente, muitos jovens que estão aqui, eu posso falar à vontade, na altura eram jovens, agora são menos jovens, eu não estava na direção, aguentaram o barco. Depois passamos por uma coisa que todo o país viu e que foi brutalmente traumática, eleger a Joacine Katar Moreira para a Assembleia da República e depois perder a representação parlamentar. Aliás, não foi isso, para ser justo, o LIVRE prescindir da representação parlamentar foi uma coisa completamente inaudita, que também mostrou de que massa é feito este partido. Quer dizer, é um partido que põe convicções à frente de cargos e princípios à frente de poder. E isso também tempera. E portanto, eu acho que enquanto o LIVRE tiver essa têmpera, e se lembrar disso, os riscos existem sempre.
Mas é importante lembrar-se disso. Por exemplo, já existiram militantes que compararam com o PAN, ou avisaram. Não podemos transformar no PAN, temos que ter atenção ao que aconteceu no PAN.
Sim, acho que foi o Paulo Muacho que mencionou isso e acho que ele foi muito judicioso nessa memória. Partidos que foram de deputado único para quatro deputados, ficaram muito perdidos, ensimesmados no discurso dentro do partido e voltaram para trás. E até tendo a possibilidade de evoluir para uma ecologia mais ampla, ficaram muito num nicho mais, digamos, ambientalista e animalista. É bom a gente aprender com os nossos erros e também com o percurso dos outros partidos. E enquanto aprendermos, enquanto houver gente que lembra isso, como foi o caso do Paulo, acho que estamos a vacinar-nos contra essa possibilidade.
E tem visto essa vacina funcionar, por exemplo, tivemos o caso muito recente do Francisco Paupério, em que houve problemas internos em relação ao processo de escolha dele como candidato. O LIVRE não voltou a embrulhar-se um bocadinho nesses problemas internos?
Há aí uma disjunção entre a maneira como o LIVRE olha para si e como os jornalistas olham para o LIVRE. Mas devo dizer, às vezes isto é para o bem ou às vezes é para o mal. Há bocado, quando ouvi apresentarem esta entrevista como parte da emissão especial sobre o Congresso do LIVRE, eu fiquei: "Uau!" Quer dizer, o LIVRE tem emissões especiais sobre o seu congresso, isso é uma coisa que a gente nunca pensou que viesse a acontecer. Do outro lado, do lado das primárias, este é o lado em que é uma boa surpresa. Do lado das primárias, o que é que acontece? Para nós, as primárias são uma banalidade. Nós fazemos primárias há 10 anos. Fizemos, se calhar, já 100 primárias. Tivemos, se calhar, já 1000 candidatos. E já houve outras situações que foram à Comissão Eleitoral, ou que houve queixas, ou que foram ao Conselho de Jurisdição, não foram tão visíveis quanto esta. E o processo funciona até dentro de um mecanismo que nem chega à direção política. Por exemplo, neste caso, a direção política nunca teve que se pronunciar sobre este assunto.
Quando se fala de um processo com suspeitas de viciação fortes, é uma acusação grave.
O que a gente tem que aprender é que uma coisa destas, quando corre mal agora, com o partido com esta visibilidade e com o partido com este tamanho, durante não sei quanto tempo, não se fala de outra coisa. E eu, por acaso, estou muito contente, não é para vos engraxar que a entrevista está a acabar, que em vez de serem cinco perguntas sobre primárias e uma sobre Portugal ou a Europa, foram cinco sobre aquilo que interessa à vida das pessoas, que são as primárias.
Só fazer mais uma para equilibrar. Aproveitando esse mote.
Mas isso para dizer, mas aí somos nós que temos que ser inteligentes e perceber, como eu dizia ali há pouco, que se os procedimentos internos não estiverem bem afinados, no momento em que eles correm mal, é só disso que se fala.
Há essa parte de haver mais visibilidade, mas há algum erro no processo, há uma precipitação? Neste caso foi, segundo o que percebo, porque houve um número maior daquele tipo de votos, que é voto em apenas um candidato, do que tinha acontecido antes. Isso levou a uma acusação, uma suspeição em relação à viciação do processo eleitoral. Não houve aqui uma precipitação ou há resistências em torno do Francisco Paupério, o que é que explica essa conclusão?
Eu sou membro da direção política do partido e ainda por cima sou recandidato numa lista a essa mesma direção política. E há pouco, quando eu dizia que dentro do LIVRE tem uma diferença com os outros partidos, isto corre por um processo em que temos uma comissão eleitoral, é como a nossa Comissão Nacional de Eleições, e temos o Conselho de Jurisdição, que é como se fosse o nosso Tribunal Constitucional, seria estranho e seria incorreto, ainda por cima num período que ainda estamos em eleições, a lista foi entregue, vir um ministro do governo falar do trabalho da Comissão Eleitoral. Isso não é para mim. Portanto, peço desculpa que há de haver um momento para a tal reflexão, há sempre momento para a tal reflexão sobre as primárias anteriores.
Mas até enquanto fundador do partido, este modelo de primárias abertas será sempre para manter, faz parte do ADN do LIVRE.
Sim, eu acho que as primárias abertas têm algumas vantagens que são importantes. Não dizemos que seja um sistema perfeito, não dizemos que seja um sistema bom para os outros partidos, cada partido faz como entende, para nós tem vantagens. Traz vozes novas, as pessoas não têm que pedir licença a ninguém para serem candidatas, não têm que ser convidadas para ser candidatas. E temos tido muita gente Que começou como candidato para umas primárias e hoje em dia é dirigente do partido. Estou me lembrando da Filipa Pinto, por exemplo, que também é membro do grupo Contacto Comigo. Estou me lembrando de muitos outros que começaram, e não é só primárias. As emendas para os programas, como vocês viram aqui, que são debatidas até de uma forma, se calhar para vocês um bocadinho fastidiosa, mas o Carlos Teixeira apareceu assim nas primeiras eleições e depois candidatou-se às primárias e ficou em número três. Portanto, isso para nós funciona. A questão é: como é que nós devemos avaliar, por exemplo, uma coisa que vai à comissão eleitoral, a comissão eleitoral toma uma posição, há um recurso para o CJ e o CJ decide de outra maneira. É o sistema a funcionar? É os regulamentos a funcionar? Sim, podemos dizer que sim, até porque não houve mais nenhum recurso, podia ter ido até ao Tribunal Constitucional, mas também, evidentemente, não é uma coisa que tenha funcionado 100% sem incidentes e, portanto, vamos avaliá-los. Para o órgão político, aquilo que nos compete aprender é: quando há um incidente, há um enorme risco que o partido seja desviado do seu curso e em vez de estar a falar da herança social, do passe ferroviário nacional, da taxação de megarricos globais, da crise da habitação, acaba tendo que fazer uma data de entrevista, tendo que só fala de primárias.
O Paulo Pélio, na lista que encabeça, conta com o apoio da direção. Acha que o partido está unido em torno dele? Teve uma votação muito partida na assembleia.
O que eu acho é que a partir do momento em que há uma equipa, essa equipa tem que funcionar. Até porque as nossas primárias, à diferença daquilo que as pessoas têm muitas vezes na ideia, que é as primárias à americana-
Desculpe interrompê-lo, porque disse isso nas declarações quando entrou aqui e a questão é: duvida que a equipa possa não funcionar?
Eu não tenho dúvidas que a equipa tem que funcionar. É a obrigação política dessa equipa. Até porque o LIVRE não pode, num debate europeu, que é um debate importantíssimo para nós, como partido de esquerda europeia, ter uma equipa que não tenha entrosamento e confiança mútua. E do lado do órgão político e de toda a gente, do grupo parlamentar, toda a gente do LIVRE, aquilo para que estamos disponíveis, aquilo para que eu pessoalmente estou disponível, é para que precisamente a equipe funcione em equipe. Porque como eu ia dizer, nas primárias à americana, as pessoas escolhem o Bernie Sanders contra a Hillary Clinton. Nas primárias do LIVRE, não é isso, até porque as pessoas não votam numa só pessoa, ou não é suposto que votem numa só pessoa. As pessoas organizam a lista, e essa lista é uma lista em que é verdade que há um lado competitivo, nas primárias, e há pessoas que ficam mais acima e mais abaixo, mas nós insistimos sempre, e isso é uma coisa que eu vou insistir sempre, até pedagogicamente, que temos que ter um acompanhamento das primárias de maneira que aquelas pessoas que ainda agora estiveram numa eleição, e portanto, de certa forma, numa competição, no dia a seguir, elas precisam uma da outra, porque o número um nunca é eleito se não tiver o apoio de uma número dois, e vice-versa.
E a direção vai tentar fazer esse trabalho.
Sim, e porque vocês lembram-se quando eu era deputado único, também estava lá a Isabel Mendes Lopes, que era a número dois. E se eu tropeçasse na escadaria do Parlamento, era ela que tinha que me substituir. Então, até por essas razões, é a equipa que é o essencial.
Rui Tavares, muito obrigado por se ter juntado a nós e à emissão especial.
Ainda estou um bocadinho incrédulo.
No Pavilhão Municipal da Costa da Caparica. Assim acontece também com todos os partidos com assento parlamentar e com grupo parlamentar, ainda por cima. O Observador voltará aqui também, sempre que se justificar, até domingo à tarde.