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Vamos desde já ao encontro da enviada especial do Observador a Paris, a Cátia Bruno. Cátia, há pouco ficámos sem ligação, mas vamos retomar essa ligação contigo e se calhar começava por te lançar este dado, que já percebemos aqui, já houve declarações por parte da União Nacional, também já houve declarações por parte da Frente Popular de Esquerda, por parte do Renascença ainda não houve grandes declarações até esta hora.
Olá, Luís. Sim, a grande incógnita neste momento é o que é que o Renascença, o partido de Emmanuel Macron, quer fazer nesta segunda volta, tendo em conta o resultado que teve. Eu diria que é importante aqui olharmos para duas coisas. A primeira é, olhando para os resultados desta primeira volta, é evidente que a Frente Nacional, aliás, a União Nacional, antiga Frente Nacional, teve uma grande vitória. Não talvez a vitória com que chegou a sonhar, em que teria uma maioria absoluta à primeira volta, embora as sondagens sempre indicassem isso como praticamente impossível, mas teve uma subida extraordinária. Lembro que nas legislativas de 2022, que foram há apenas dois anos, a União Nacional teve 18% dos votos. Desta vez deve ter 34%. Portanto, há uma subida extraordinária. Há círculos eleitorais onde consegue ganhar a primeira volta, derrotando, por exemplo, vou dar o exemplo de Fabien Roussel, que é neste momento o secretário do Partido Comunista Histórico de França e que acabou de perder o seu lugar no Parlamento ao ser eliminado à primeira volta pelo candidato da União Nacional. Este é um primeiro facto. Agora, a primeira volta é a primeira volta, a segunda volta é a segunda volta. E esta subida tão estrondosa da União Nacional e da extrema-direita francesa parece estar a provocar um movimento que não aconteceu noutras eleições no passado, por exemplo, nas presidenciais. Lembro-me que nas presidenciais de 2022, eu também estive aqui em Paris na primeira volta e Jean-Luc Mélenchon quando discursou, não apelou diretamente ao voto a Emmanuel Macron. Disse simplesmente: "Não votem na senhora Le Pen", deixando a entender: "Votem em branco, não votem, façam o que entenderem, não votem nela". Desta vez, a esquerda, não só a França Insubmissa de Mélenchon, como todo o resto da Frente Popular, cujos líderes já vieram reforçar esse apelo na sequência das declarações de Mélenchon, disseram: "Iremos retirar os nossos candidatos quando eles são o terceiro classificado em cada círculo eleitoral", dando assim hipóteses para que o segundo classificado, que se pressupõe que seja o candidato do Renascença, o partido de Macron, tenha hipóteses de derrotar a extrema-direita. Ora, entretanto, o partido de Macron enviou um comunicado a dizer que irá fazer o mesmo, deixando, contudo, uma ligeira bicada, não à Frente Popular em si, mas à França Insubmissa de Mélenchon, que faz parte da Frente Popular e que é o rosto mais visível, mas também mais criticado dessa Frente Popular. E basicamente veio dizer: a França Insubmissa tem excessos antirrepublicanos, não tem capacidade para formar governo, mas tem capacidade para, e sobretudo a Frente Popular tem outros membros, que têm capacidade para negociar. E portanto, ao apelar a que o voto seja neles, no caso de eles estarem à frente do Renascença numa segunda volta, há aqui uma espécie de abrir a porta a um entendimento futuro, embora não seja uma mensagem tão clara como foi a de Mélenchon. Veremos o que diz Gabriel Attal, que é de facto o primeiro-ministro.
E que não sabemos ainda quando fala, não é, Cátia?
Luís, daqui ainda não ouvi, desculpa.
Não sabemos ainda quando fala Gabriel Attal.
Não sabemos. Foi dito ao início da noite, um pouco antes das projeções, que Attal iria falar a partir do Palácio de Mantignon, portanto, na residência oficial do primeiro-ministro. Não foram dadas horas. Saiu agora este comunicado do partido. Esperamos para ver quando é que Attal fala e o que é que irá dizer em concreto.
E o que é que poderá estar a atrasar essa declaração?
Eu penso que há aqui uma tentativa do macronismo de definir que estratégia exata adotar nesta segunda volta. O comunicado de imprensa que foi divulgado faz esse apelo para que se vote na Frente Popular caso esteja à frente do Renascença, mas ao mesmo tempo deixa claro que não quer grandes entendimentos com Mélenchon. E portanto, eu penso que há aqui um desejo da parte do macronismo de poder talvez conseguir uma maioria de governação e ceder a uma partilha do poder com a esquerda, mas uma esquerda que não seja controlada e dominada pela França Insubmissa de Mélenchon, uma esquerda com quem está mais em sintonia e que concretamente está mais ligada quer ao Partido Socialista de Glucksmann, quer aos Verdes. Agora, como é que essas condições podem ser impostas quando o próprio Mélenchon se tem assumido como o principal rosto da Frente Popular ao longo desta semana que passou? É difícil. No entanto, ainda falta uma semana de campanha e a própria Frente Popular tem muitas sensibilidades dentro dela, tem muitas ambições políticas, tem temas até onde discorda, por exemplo, o caso da guerra da Rússia contra a Ucrânia é um deles. Veremos que posição tomará Attal e depois como é que responderá o resto da esquerda. Mas parece-me que há aqui um desejo, pelo menos expressado por ambas as partes, de tentar alguma forma de união perante a possibilidade real da União Nacional chegar ao poder e conseguir ter um primeiro-ministro em coabitação com o presidente, que é de outra área política. Algo que já aconteceu em França, mas sempre com partidos ao centro. Nunca aconteceu termos um presidente de um partido do centro e um primeiro-ministro de um partido de extrema-direita. E portanto, perante esse cenário, todo o sistema político francês está aqui em reconfiguração e ainda para mais com este prazo apertado de campanha de apenas duas semanas, é como se todas estas negociações fossem feitas em tempo recorde e como se fossem feitas ao minuto. E temos visto como esta noite eleitoral, por exemplo, as declarações sucedem-se, tudo acontece de forma muito rápida, porque há uma sensação da maior parte dos partidos, que não a União Nacional, de que não há tempo a perder. A União Nacional está mais calma, está numa posição de vantagem, embora possa ter aqui dificuldades na segunda volta e não ter a maioria absoluta desejada, continua uma vaga de crescimento que se regista de eleição para eleição e que é constante, e cujo objetivo principal não é necessariamente estas legislativas, embora seria ótimo para a União Nacional que Bardella fosse primeiro-ministro, mas são sobretudo as presidenciais de 2027, onde Marine Le Pen será a candidata e onde pode muito possivelmente, dependendo do que acontece até lá, alcançar o grande objetivo que já acalenta há muitos anos.