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Vamos até à conversa com Paulo Santos, especialista em assuntos europeus. Boa noite, Paulo Santos. Sob pena de eventualmente podermos ter que interromper esta conversa caso Gabriel Attal fale entretanto. Queria começar por lhe perguntar, Paulo Santos, que impacto é que estes resultados, pelo menos desta primeira volta, ainda não sabemos como é que tudo terminará na segunda, poderão ter a nível europeu?

Eu acho que a sua pergunta está respondida na primeira parte.

Ainda há muita água que vai passar por baixo da ponte.

Não vale a pena. Deixe-me só rapidamente.

Claro.

A questão é esta: o grande desafio neste momento é saber o que é que vai acontecer, sobretudo com aquelas circunscrições em que há mais que dois candidatos pra segunda volta. E isso vai depender muito da posição dos partidos que no fundo não estarão representados em todos os casos. A esquerda, a tal Frente Popular já veio dizer que provavelmente dará a indicação de desistência aos seus candidatos que estão em terceiro lugar, que são aqueles que tiveram mais de 12,5%. Isto pode resultar em menos eleição ou menos sucesso por parte dos candidatos desta Frente Nacional, do Rassemblement National. E portanto, é uma incógnita o resultado final. As eleições em França não são como aqui, portanto, nesse aspecto, não temos uma transcrição direta do número de votos e da proporção relativamente aos lugares na Assembleia Nacional. Dito isto, é evidente uma enorme vitória, de quatro para 12 milhões de votantes, é uma manifestação eu diria quase que arrasadora da vontade do povo francês de mudar, ainda por cima, não vou dizer a coligada, porque está no outro lado, está no extremo, está na oposição a essas propostas, mas também com o crescimento substancial da esquerda e da extrema-esquerda que está envolvida nesta Frente Nacional. Portanto, é uma mudança do panorama político em França quase radical, provocada evidentemente pela decisão de Emmanuel Macron de convocar estas eleições.

Foi um erro de cálculo, no seu entender, Paulo Santos, essa decisão de Emmanuel Macron, tendo em vista agora estes resultados que estamos a ver desta primeira volta?

Olhe muito sinceramente não faço ideia e não faço ideia por uma razão simples, porque acho que ninguém faz senão ele próprio. Mas há uma teoria, uma tese, tem havido várias análises nesse sentido que dizem que Emmanuel Macron fez uma espécie de jogada de pôquer e portanto apostou tudo. E o que é que ele fez? Ele basicamente diz assim: "Faltam três anos para as presidenciais", o que ele não quer é que lhe suceda Marine Le Pen, com quem já se confrontou. E para isso ele apostou tudo no atual primeiro-ministro e portanto Gabriel Attal parecia ser o seu trunfo, por ser muito jovem, por ter ainda mais três anos para essa possibilidade. Com esta decisão que ele faz, ele devolve à Frente Nacional ou Rassemblement National, o ônus da governação. E o ônus de uma governação muito difícil, onde provavelmente todos os equívocos, todos os paradoxos, todas as impossibilidades desse programa vêm ao de cima e se calhar daqui a três anos o candidato favorito de Macron, ou pelo menos um candidato mais moderado poderá ter hipótese de vencer Marine Le Pen. Essa é a especulação que muita gente fez relativamente ao que estará no pensamento ou estaria no pensamento do presidente francês quando convocou essas eleições, conhecendo ele as sondagens, conhecendo ele a que se arriscava.

Sendo certo que se no caso da Frente Nacional conseguir formar governo, a coabitação entre Macron e Bardella não será fácil, Paulo Santos.

Será a mais difícil de todas aquelas que já aconteceram na Quinta República, em que de facto nas experiências anteriores em que tivemos um presidente seja de esquerda e depois um primeiro-ministro de direita, seja um presidente de direita e depois um primeiro-ministro de esquerda as coisas correram relativamente bem. Porque apesar de tudo concordavam no essencial, os tais valores republicanos tão frios e gozados, neste caso isso não vai acontecer.

Até porque estamos a falar aqui de um partido mais de fora do sistema, digamos assim.

De um partido que vem de fora do sistema, mas que agora passa a ser sistema. Agora isso é uma outra questão quando se fala destes partidos é bom termos noção disso. Nós temos exemplos já na Europa e portanto podemos já começar a analisar o percurso feito nesse sentido. Até que ponto é que se mantêm fora do sistema ou até que ponto, e esta é talvez a questão principal e mais preocupante, até que ponto é que um partido que vem de fora do sistema, depois o que faz é estando fora do sistema quer lá permanecer e põe em causa o sistema em si e sobretudo a sua base democrática. E em alguns países da Europa isso poderá estar a acontecer. Temos assistido a isso. É um caminho longo e é uma discussão difícil. Neste caso, e temos outro exemplo, por exemplo, em Itália, em que um partido que também veio de fora do sistema, a Chata de Itália, basicamente fizeram outra coisa. E têm feito, apesar de tudo, um percurso que mostra uma vontade de fazer parte desse sistema e de respeitar as regras fundamentais. Neste caso não faço ideia, porque justamente estamos perante um partido que está há muito tempo em busca desta solução, que fez apesar de tudo um processo de suavização das suas propostas, mas com um jovem de 28 anos poder ser primeiro-ministro em breve, naturalmente na relação com o Macron, isso vai se tornar muito complicado, porque naturalmente ele já o disse, não vai prescindir daquilo que são os pontos principais do seu programa e alguns dos pontos principais do seu programa, obviamente muito problemáticos.

E este resultado desta primeira volta das legislativas poderá ser um primeiro passo para que a Frente Nacional possa aspirar em 2027 a ter um presidente?

Claro. Essa é a versão oposta, se quisermos é o verso e o reverso da medalha, da tese de que Macron convocou essas eleições para obrigar a Frente Nacional, Rassemblement National, nós continuamos a chamar Frente Nacional, mas o Rassemblement National a governar. E governando, perder um bocadinho desta sua aura de partido justamente fora do sistema, que vai mudar a política, que vai acabar com os velhos políticos. E aqui também repare que há aqui uma luta, entre aspas, entre duas propostas de dois jovens muito jovens. Este agora ainda é mais jovem. Bardella tem 28 anos, mas o próprio primeiro-ministro Gabriel Attal também tem 34. Estamos a falar de gente muito nova numa proposta que em si mesma já representa uma mudança em relação àquilo que tem sido tradicional na velha política da França republicana.