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A cimeira Data With Purpose é organizada pela Nova IMS e pelo município de Oeiras. Vai realizar-se no dia 25 de junho e tem "O Observador" como parceiro. O evento vai reunir especialistas em defesa, CEOs, investigadores, criadores, todos para discutir o papel dos dados. Paulo Portas será o orador da abertura do evento. Foi ministro da Defesa, vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros. Hoje é professor de Relações Internacionais e consultor estratégico em vários continentes. É com ele que falamos agora, a propósito desta cimeira Data With Purpose. Paulo Portas vai abordar o efeito da tecnologia, dos dados, da inteligência artificial nos conflitos. O que é que estes temas nos podem dizer sobre este nosso tempo?

Muito bom dia a todos. Eu acho bastante interessante esta cimeira com propósito, organizada pela Nova IMS, e por isso aceitei o desafio. A tecnologia sempre foi determinante na evolução dos conflitos. O que há de verdadeiramente novo, em relação aos dados, é uma circulação quase universal do território e do seu comércio. E em relação à inteligência artificial, aí estamos já noutro domínio, noutra etapa. E eu acho que o Papa Leão XIV tem bastante razão quando pede, não foi o primeiro a fazê-lo, mas foi o primeiro a fazê-lo com a vocalidade e a importância que tem a encíclica que ele publicou. Pede que a inteligência artificial seja excluída do conceito de guerra e das suas implicações operacionais. Aí estamos noutro domínio, podemos lá voltar antes, mas no caso da tecnologia, evidentemente, ela consegue alterar dados que se consideram inevitáveis num conflito. Para usar um exemplo muito recente, que as pessoas têm na memória, na guerra provocada pela Rússia quando invadiu a Ucrânia, as expectativas russas, como se lembrará, eram de chegar a Kiev em sete dias e ocupar a partir daí a Ucrânia.

Sim.

Isso não se verificou manifestamente. Já passaram quatro invernos, e os invernos naquela região têm, como sabe, um grande impacto do ponto de vista operacional, e a Ucrânia resistiu. Resistiu até mais. Por um lado, a uma força militar bastante superior, que quatro anos e tal volvidos não consegue ganhos territoriais significativos, confirmando uma velha teoria sobre os exércitos russos fora da Rússia ou fora da União Soviética, noutros casos, que foram frequentemente derrotados ou colocados numa situação em que tiveram que retirar.

No caso do Afeganistão, por exemplo.

Apenas o penúltimo.

Claro.

Mas isso aconteceu com japoneses, otomanos, lituanos, polacos, suecos, finlandeses e afegãos. E aconteceu na Ucrânia de uma forma exponencial. E, por outro lado, mais interessante, não é apenas que a Ucrânia tenha resistido a quatro invernos e não tenha sido forçada a uma rendição. A Ucrânia resistiu também à perda do fornecimento de equipamento militar pelos Estados Unidos, a partir do dia em que Donald Trump ganhou o seu segundo mandato. E isso podia ter sido um fator absolutamente determinante, porque quando não se tem fornecimentos militares de uma determinada natureza, fica-se remetido a uma posição defensiva. Ou seja, não se pode atacar, nem se pode atacar o adversário na base da sua indústria e da sua tecnologia de defesa.

Claro, o impacto da tecnologia neste conflito, Paulo Portas, é importante.

Ou seja, como é que a Ucrânia conseguiu superar a perda do apoio americano? Pela tecnologia.

Claro.

A Ucrânia tem hoje em dia uma das bases mais avançadas em termos de tecnologias de defesa. Se fosse membro da NATO, seria um membro utilíssimo da NATO, porque teria verdadeiramente valor acrescentado. As pessoas têm apenas a noção do que os drones de fabrico ucraniano ou com tecnologia ucraniana conseguem hoje em dia fazer, mas é muito mais do que isso do ponto de vista do sistema de comunicações e do sistema de informações, sem o qual não se pode aguentar um conflito em que se é a parte agredida e, portanto, está a fazer-se legítima defesa.

E o tema da sua keynote, Paulo Portas, é precisamente o efeito da tecnologia, dados, inteligência artificial nos conflitos do nosso tempo.

Eu tentarei apresentar alguns dados sobre os dados que podem explicar um pouco melhor a natureza que os dados hoje em dia assumem.

Que é um peso cada vez maior.

Nas relações internacionais, cada vez maior. A ponto de, provavelmente, ajudarem a mudar a natureza do que nós pensamos que é um conflito militar, sempre indesejável, mas em última ratio, acontece. Acontece até em circunstâncias que não são de última ratio. E eu dou-lhe um outro exemplo, o exemplo do Irão Que também está na nossa memória, está aliás, no nosso presente.

Sim.

Os Estados Unidos são a maior força militar do mundo, têm a mais importante marinha do mundo, têm uma supremacia militar enorme neste conflito. Curiosamente, tentaram evitar sempre "boots on the ground", ou seja, soldados no terreno.

Que é sempre o mais penoso, claro.

Circunstâncias da sua frente interna. Mas a verdade é que o Irão, com algumas capacidades relevantes, que também são conhecidas, usou, sobretudo, a astúcia contra a força. Ou seja, usou o bloqueio do Estreito de Ormuz como uma arma.

De forte impacto económico global.

Que não é geopolítica no sentido clássico, mas é geoeconómica no sentido mais moderno da palavra, conseguindo bloquear uma parte do tráfego essencial pra economia global funcionar e causando inflação nos países que dependem da energia e dos fertilizantes que passam pelo Estreito. Bastaria conhecer um bocadinho de história da expansão portuguesa pra perceber que o Estreito de Ormuz era um assunto muito delicado e manifestamente parece-me que a administração americana subavaliou a importância do Estreito de Ormuz. Portugal, como sabe, tomou Ormuz, não com um português exatamente suave, como é sabido. Para quê? Para controlar o comércio. Ora, aquilo que está em causa num bloqueio é evitar o comércio e causar dano a quem depende dele. E Portugal também esteve em Omã, que é o golfo seguinte. Não se pode falar do Estreito de Ormuz nem do Golfo Pérsico, sem falar a seguir no Golfo de Omã, durante muito tempo, precisamente pra controlar rotas marítimas comerciais. Bastaria saber um pouco disto para ter tido maior cuidado com a questão de Ormuz.

Ou seja, a história também é importante, claro.

A história e as lições aprendidas ou não. Porque o ponto é que não havendo nenhuma dúvida sobre a maior capacidade militar dos americanos, o que surpreendeu os americanos foi o uso de uma arma geoeconómica, que é o bloqueio de Ormuz. A um ponto, só há uma coisa pior do que bloquear um estreito, é haver dois bloqueios ao estreito, que é o que acontece neste momento.

E com custos pra economia global que estamos todos a pagar. Paulo Portas, quase a fechar esta nossa conversa. Esta conferência vai ser sobre a construção do futuro com dados, que estão a redefinir, no fundo, centros de poder, o conceito de soberania. Portugal está preparado para esta nova fase?

Bem, Portugal sempre foi um país aberto ao comércio e um dos grandes responsáveis, felizmente, pelo diálogo entre o Ocidente e o Oriente. E foi até, segundo alguns autores, um dos países, uma das nações que contribuiu mais para a ocidentalização do epicentro de gravidade estratégica do mundo. Portugueses, espanhóis, italianos, muito mais tarde os ingleses. Mas o mundo não era ocidental, como nós tendemos a achar. O mundo era até bastante oriental. E os descobrimentos portugueses são o contributo pra sua ocidentalização. Mas isto é uma questão menos relevante neste momento. Eu teria algum cuidado com o uso da expressão soberania digital. Por quê? Em primeiro lugar, porque os factos são os factos. A Europa dormiu na forma e hoje em dia, nas primeiras 15 grandes plataformas digitais do mundo, não há bandeiras europeias. Terá que um dia haver, mas o ponto de partida, se nós não formos negacionistas, é de que nós dormimos na forma. As plataformas digitais que se podem medir pelo seu valor, são essencialmente uma disputa entre americanos e chineses. E, portanto, a Europa, se quer ter um papel relevante do ponto de vista geopolítico, tem que acelerar o passo do ponto de vista da economia digital e tem que não perder a competição dentro de um conjunto de limites na inteligência artificial. Repara uma coisa: a nuvem não tem fronteiras, exceto na China. A cloud não tem fronteiras, exceto na China. Mas a cloud é essencialmente dominada por uma pequena oligarquia de empresas, não tanto de Estados, de empresas que capturam, controlam, armazenam e utilizam os dados.

E que têm valor estratégico muito grande.

Nós estamos aqui perante um problema completamente novo, que curiosamente o santo padre também assinala, que é quando ele diz: "Bem, a Igreja sempre defendeu o princípio da subsidiariedade face aos Estados, mas agora o problema da subsidiariedade põe-se face a uma oligarquia de empresas tecnológicas, que têm muito poder Muita capacidade de inovação, mas são escassamente escrutinadas relativamente ao sentido de responsabilidade e de bem comum com que utilizam o seu poder. Este é um ponto que essa discussão não vai terminar agora e vai ser cada vez mais interessante. Agora, a Europa está, por enquanto, de fora do pódio do ponto de vista das principais plataformas digitais, embora haja bons sinais, e eu espero que sejam não apenas prometedores, mas efetivos. E quando nós estamos a falar ou do espaço ou da cloud, é muito difícil estabelecer fronteiras. Este é um ponto que eu lhe queria chamar a atenção. O outro é histórico. Nós tendemos a achar, por deficiência do conhecimento histórico, que tudo o que está a acontecer é novo. Eu dou-lhe apenas um exemplo que mudou o destino da Segunda Guerra Mundial. E foi um exemplo de criptografia. Foi a desconstrução do sistema Enigma.

Que permitiu aos Aliados ter acesso a informações.

Permitiu ter muito maior acesso à informação, ou seja, a dados, acelerar o fim do Terceiro Reich e salvar milhões de vidas. Portanto, já nessa altura, a tecnologia que incidia sobre comunicações que tinham informação, foi determinante para a vitória dos Aliados e para a derrota do Terceiro Reich.

E, portanto, nos tempos que correm, temos um contexto que eleva isso.

Há novas formas de tecnologia, há novos desafios de tecnologia.

Que potenciam o valor dos dados.

Mas quem tiver liderança tecnológica está substancialmente mais bem defendido do ponto de vista das ameaças.

Muito bem, tudo pontos que o Paulo Portas vai certamente tocar na abertura que vai fazer da cimeira Data with Purpose.

Sem mencionar esse pequeno dado, que é uma guerra cotidiana invisível, chamado ciberinsegurança.

Que é uma arma também muito utilizada.

Que é a capacidade de causar danos devastadores em territórios terceiros, sem que os que são atacados saibam, tenham informação sequer elementar sobre quem ataca.

Tempos novos.

E há Estados que se especializam nisso. Como é sabido.

Sabemos.

Entre os quais a Rússia e a China.

Claro. Tudo temas que vão ser abordados então nesta cimeira Data with Purpose, que Paulo Portas vai abrir, vai ser o primeiro keynote speaker. Paulo Portas, obrigado por nos permitir esta pequena antecipação.

Obrigado eu.

Lá estaremos então no dia 25 de junho, no Centro de Congressos Tagus Park, em Oeiras. Quem quiser pode inscrever-se, a entrada é gratuita. Bom dia, Paulo Portas, mais uma vez e obrigado por este convite.

Muito bom dia.

Bom dia, obrigado.