Durante muito tempo, conhecer pessoas capazes de abrir horizontes profissionais parecia exigir uma passagem por Londres, Paris ou Nova Iorque. As grandes capitais concentravam empresas, universidades e encontros onde as oportunidades circulavam. Continuam a ter esse valor. Mas quem trabalha numa profissão digital pode hoje encontrar uma parte dessa riqueza humana numa vila madeirense ou numa pequena localidade de Bali. Para Portugal, esta mudança merece uma discussão que vá além do turismo.

Já fiquei em espaços da Outsite na Madeira, em Vilamoura, em Cascais, na zona do Guincho, e no Porto, assim como em Ubud e Pererenan, em Bali. Este percurso reúne realidades distintas: uma grande cidade, destinos turísticos consolidados e localidades de menor dimensão. O que as aproxima é a possibilidade de manter uma vida profissional exigente num lugar escolhido também pela qualidade de vida e pelas pessoas que ali se encontram.

É essa a proposta dos espaços de coliving orientados para o trabalho remoto: alojamento com privacidade, áreas partilhadas e condições para trabalhar desde o primeiro dia. Internet de alta velocidade, secretárias adequadas e uma cozinha equipada resolvem dificuldades práticas que uma fotografia de praia nunca mostra. A Outsite de Ponta do Sol reúne estas condições. Em Bali, a Outpost explica que os seus espaços de trabalho usam ligações de operadores diferentes para assegurar continuidade, além de salas de reunião e cabines para chamadas. Para quem tem de entregar trabalho, essa redundância pode valer mais do que a vista.

A infraestrutura humana conta tanto como a tecnológica. Os community managers, responsáveis pela comunidade, ajudam a integrar quem chega. Quando conhecem bem o território, aconselham onde comer, que atividades procurar e o que evitar; também explicam hábitos locais que uma pesquisa rápida dificilmente esclarece. A Outsite apresenta gestores locais na Madeira e em Pererenan. Um bom anfitrião aproxima-nos do lugar e dos seus habitantes, para lá do círculo de outros viajantes.

O que mais me interessa neste modelo é a proximidade entre pessoas com curiosidade semelhante e competências diferentes. Pode partilhar-se a mesa com alguém que escreve, trabalha em marketing ou desenvolve tecnologia, e conversar sobre saúde, bem-estar ou longevidade. No meu percurso entre a medicina computacional e a criação da CycleAI, dedicada à segurança de quem anda de bicicleta, cruzar disciplinas faz parte do trabalho. Estas comunidades oferecem um contexto fértil para esse encontro, sem exigir um congresso ou uma apresentação formal.

A afinidade também pode nascer do gosto por viajar, caminhar ou cuidar da alimentação. Fazer uma atividade em conjunto dá tempo para conhecer alguém para além do cargo que ocupa e ajuda a contrariar o isolamento do trabalho remoto. Uma conversa pode continuar no jantar do dia seguinte e tornar-se amizade, colaboração ou simplesmente uma ideia que nos acompanha. Convém deixar espaço para tudo isso, sem transformar cada encontro numa tentativa de fazer negócio.

Também há mais diversidade de idades do que o estereótipo do jovem com uma mochila sugere. Segundo o seu centro de ajuda, a Outsite recebe hóspedes entre os 25 e os 70 anos, com uma média de 35. É informação desta rede, não um retrato de todo o setor. Ainda assim, mostra a amplitude possível: quem começa a carreira pode conviver com profissionais experientes, pessoas a mudar de atividade ou a reorganizar a vida depois de os filhos saírem de casa. Partilhar interesses não exige estar na mesma fase da vida.

Em Portugal, Ponta do Sol ajuda a perceber o alcance desta transformação. O Digital Nomads Madeira Islands começou ali em fevereiro de 2021 e mantém um espaço de trabalho gratuito no Centro Cultural John dos Passos. Segundo os promotores, esse espaço já acolheu mais de dez mil pessoas, incluindo trabalhadores remotos e população local. Os almoços comunitários, as oficinas e as atividades de bem-estar dão continuidade aos contactos. Uma vila pode oferecer uma vida profissional internacional quando existem condições para as pessoas se encontrarem.

A dimensão do lugar também muda o quotidiano. Em Ponta do Sol, o mar, os cafés e a paisagem agrícola estão próximos. Em Bali, Pererenan e a vizinha Canggu mostram outra combinação de trabalho, surf e convívio, embora não devam ser confundidas com um refúgio rural intocado. O interesse destes destinos está na possibilidade de organizar o dia com tempo para viver fora do trabalho. Uma reunião continua a ser uma reunião; a diferença pode estar no que fazemos antes e depois dela.

Há ainda uma vantagem económica decisiva. Em Bali, o custo de vida pode ser substancialmente mais baixo do que em Lisboa, sobretudo na restauração local, nos transportes e em serviços do quotidiano. A comparação colaborativa da Expatistan entre Denpasar, em Bali, e Lisboa aponta nesse sentido, embora a própria plataforma assinale limitações na amostra. Para quem mantém rendimentos de trabalho remoto, esta diferença pode dar mais margem para poupar ou investir num projeto. A poupança depende da zona e do estilo de vida: alojamentos de gama alta e hábitos de consumo internacionais podem absorvê-la, sobretudo em destinos procurados como Canggu e Pererenan. Voos, seguros e vistos também entram na conta.

A alimentação é parte dessa qualidade de vida. A proximidade da produção agrícola pode facilitar o acesso a produtos frescos e sazonais. O Mercadinho Agrícola da Ponta do Sol, divulgado pelo município, é um exemplo concreto dessa ligação. Comprar a produtores locais e cozinhar em casa permite conhecer melhor o território e deixar rendimento na comunidade. A origem local merece ser procurada e confirmada: estar longe de uma metrópole não garante, por si só, que tudo o que chega ao prato foi cultivado perto.

Esta oportunidade pode chegar também ao interior português. A Rural Move já organizou experiências de trabalho remoto em Miranda do Douro e Figueiró dos Vinhos, aproximando participantes e comunidades locais. São experiências de escala limitada, mas ajudam a testar uma hipótese importante: haverá pessoas dispostas a viver nestes territórios se encontrarem boas condições de trabalho e relações sociais? Para quem escreve, programa, desenha ou presta consultoria à distância, a resposta já não depende apenas da localização dos clientes.

O investimento já tem exemplos concretos. Em 2023, a Extendam anunciou a aquisição do hotel M.Ou.Co, no Porto, numa operação com a Outsite e a participação da Keys REIM. Nos territórios de menor dimensão, atrair profissionais pode justificar a recuperação de edifícios, criar procura para serviços locais e reduzir a dependência da época alta. Mas a despesa de visitantes só se transforma em desenvolvimento duradouro quando cria ligações com empresas, escolas e trabalhadores locais. Abrir atividades à comunidade ou colaborar com um negócio da região permite que o valor ultrapasse os quartos ocupados.

Há condições para que esta aposta resulte. A pressão sobre a habitação deve fazer parte das decisões: o estudo económico da OCDE sobre Portugal de 2026 identifica dificuldades estruturais na construção e no arrendamento. Atrair novos residentes exige cuidar também de quem já lá vive. E trabalhar em viagem requer limites: os fusos horários podem prolongar o dia, mudar constantemente de lugar desgasta e voar com frequência tem custos ambientais. Ficar mais tempo permite construir rotinas e relações com maior profundidade.

Portugal deve tratar o coliving como uma oportunidade de aproximar talento e território. Isso passa por boas ligações digitais, serviços acessíveis e espaços de encontro abertos aos residentes. Gostaria de ver um jovem de uma vila portuguesa encontrar ali parceiros para um projeto internacional, sem sentir que tem primeiro de partir para uma capital. Esse seria um ganho que permaneceria muito depois de o último hóspede fazer o check-out.