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Explicador da Rádio Observador. Cem dias de António José Seguro no Palácio de Belém. Cem dias de mandato é um número redondo, por regra usado para fazer balanços e também perspetivar o futuro. António José Seguro foi eleito à segunda volta com uma votação recorde de 3,5 milhões de votos, com estilo mais discreto que o antecessor e apelos ao diálogo. Seguro diz manter uma boa relação institucional com o governo. É sobre estes primeiros 100 dias que vamos falar. Eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E são nossos convidados Duarte Marques, que esteve com Marcos Mendes na primeira volta e depois apoiou Seguro, e Rui Gomes da Silva, que apoiou André Ventura. Eu começo por si, Rui Gomes da Silva. Que balanço faz agora destes primeiros 100 dias de António José Seguro em Belém?
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Muito obrigado ao Duarte Marques. Um abraço ao Duarte Marques. Estranhamente apoiou um candidato do PSD e acabou por votar num candidato socialista, que era uma coisa que eu julgava impensável até há cento e poucos dias. Mas enfim. Em relação à expectativa que tinha de António José Seguro, ela não está a defraudar em nada aquilo que eu tinha, a expectativa que eu tinha. António José Seguro foi rigorosamente aquilo que se esperava, uma presidência feita de 100 dias sem nenhuma excitação, sem nenhuma coisa que viesse aos costumes dizer alguma coisa, sem nada nos seus discursos, nas suas posições, que tivesse alguma diferença a tudo aquilo que esperávamos. E tudo aquilo que fez a sua campanha, que foi praticamente não se mexer, não dizer nada que fosse contrário aos seus interesses, ou seja, levantar ondas, como se dizia em bom português, esperando que a esquerda votasse nele porque era o único candidato que se identificava com essa esquerda, deixando que houvesse umas primárias à direita e que nessas primárias fossem ganhas por André Ventura para que tivesse a votação que teve. Em relação aos discursos, em relação às posições, nada. O que é que foi nestes 100 dias que pudesse ter alterado a nossa visão disso? Um veto à lei das bandeiras. Sejam bem-vindos à realidade as pessoas que à direita votaram em António José Seguro, esperando que ele pudesse com isso amenizar os seus posicionamentos de esquerda e depois o discurso de 10 de junho, que foi um conjunto de uma mão cheia de nada e outra de nada nenhum, como se costuma dizer.
Rui Gomes da Silva.
Diga.
Já vamos voltar a si, queríamos também ouvir o Duarte Marques aqui neste arranque de conversa. O Duarte Marques que esteve com Marcos Mendes na primeira volta, acabou por apoiar António José Seguro na segunda volta. Tem aqui um fator acrescido de interesse também perceber como é que avalia estes primeiros 100 dias. Duarte Marques, deixa-me aqui fazer-lhe uma provocação: está desiludido com António José Seguro?
Boa tarde. Eu não resisto a responder ao Rui, lembrando que ele começou a apoiar o Almirante e acabou a apoiar o André Ventura.
Outra vez, Duarte?
O Rui é que fechou. Sempre vou lembrar esta exposição.
Se não fosse o PSD, diria que era por causa disso que o André Ventura tinha a segunda volta e não foi o almirante.
Eu acho que foi.
Mas olhe, mas em relação a si...
Meus senhores, assim ninguém se entende. Duarte Marques, por favor.
Eu acho que pessoalmente, em meu nome, e acho que a maioria dos portugueses também, não se sente desiludida com o António José Seguro. Aliás, tem cumprido aquilo que se esperava de um candidato moderado, a tentar cada vez, a cada dia, também diferenciar-se um bocado da agitação habitual de Marcelo Rebelo de Sousa, tem feito muita questão do salientar, de o dizer e de o referir. Até é um presidente que não agita as águas. Obviamente que os portugueses não queriam um presidente que viesse agitar as águas. Querem um presidente moderado, que saiba dizer que não quando é preciso ou quando acha que deve dizer que não, e ser colaborante com o governo naquilo que é a sua responsabilidade. E portanto, António José Seguro não está nem a surpreender, nem a desiludir, está a fazer aquilo que todos nós esperávamos quando se candidatou e quando votámos, uns votaram e outros não votaram nele. Do meu ponto de vista, é positivo estes primeiros 100 dias. Eu diria que a única nota dissonante, e ela é muito pessoal, foi deste relatório que António José Seguro fez sobre o touristime. Eu tive o cuidado de o ler e ao contrário da maioria das pessoas, muitas daquelas críticas que ele faz já existem na lei. A maioria das pessoas desconhece, são as leis que regem a proteção civil e a habitação. Admito até que alguns membros do governo as desconheçam, mas todas aquelas fragilidades do sistema que António José Seguro no seu relatório apontou, são um bocadinho fragilidades de conversa de café, ou seja, que são a perceção que é tida pelas pessoas, mas quem conhece o sistema e as regras, sabe que isso está tudo previsto. Por vezes, os dirigentes políticos e públicos é que não seguem, então lá está. Causa-me alguma estranheza que o gabinete do presidente, neste caso, não soubesse distinguir isso naquilo que foi a atuação. Mas do ponto de vista institucional, nós não assistimos cá fora, quem diz cá fora, quem não é do governo ou quem não é da presidência, não consegue perceber se há muita tensão ou não
No relacionamento de São Bento com Belém, no que diz respeito à aprovação e sobretudo à promulgação daquilo que o Governo aprova e a Assembleia da República, por vezes há negociações, sempre foi assim, mas quem está por fora não sabe, não age no momento. Agora, aquilo que é a transparência pública da actuação do presidente, é que o presidente dá uma ideia que é justo, tem sido leal e tem cumprido a sua tarefa.
Rui Gomes da Silva, não se espera ou não se deseja que o presidente seja um fator de estabilidade, de moderação, ou o país pedia um agitador de águas como André Ventura?
As mesmas pessoas que se vangloriaram de ter votado em Marcelo Rebelo de Sousa e que andavam a elogiar o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa por razões políticas, são rigorosamente as mesmas pessoas que vêm sublinhar a pacatez, a simplicidade, o recato do presidente António José Seguro. Mas por uma razão muito simples, porque estão sempre de bem consigo e estão sempre de bem com aquilo que acontece, desde que isso não os afete nos seus interesses, nas suas convicções, nos seus comportamentos, etc. Repare uma coisa, eu acho que as pessoas lá em casa querem saber o que António José Seguro fez e não andar nessa conversa de ser mais isto ou mais aquilo, se o relatório, porque de facto é assim. Eu compreendo que quem esteja a apoiar o Governo veja no discurso de António José Seguro uma não crítica, mas é evidente que isso não aconteceu. António José Seguro tem como objetivo, e eu não estou a acusar António José Seguro, tenho respeito pelo pessoal. Qual é o primeiro objetivo de qualquer presidente da República desde o 25 de abril no primeiro mandato? Ser reeleito no segundo. E portanto, António José Seguro vai fazer aquilo mesmo que fez Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco e Marcelo no primeiro mandato. Serem o máximo denominador comum, ou mínimo denominador comum, neste caso, para permitir a reeleição. E a partir daí, no segundo mandato, fará o que entender. E as pessoas à direita vão se surpreendendo com as coisas, vão dizendo bem e vão elogiando o mandato do presidente. Mas repare uma coisa, sejamos coerentes, nem é possível, em consciência, andar a elogiar o tempo todo aquilo que foi Marcelo Rebelo de Sousa e agora vir com esta conversa, como o Duarte, com todo respeito, já nos conhecemos há muitos anos, a dizer que acha extraordinário o recato, a sensibilidade do presidente da República.
Eu não disse isso.
Não, disse. Disse que estava a elogiar, que foi uma coisa extraordinária, que não é um agitador.
Duarte, eu penso que o Duarte Marques estava a dizer o contrário. Duarte Marques.
Claro. Eu não estou a dizer coisa decidida sobre o mandato de Marcelo, eu estou a falar do António José Seguro. Não posso misturar as duas coisas.
Vamos ouvir Duarte Marques agora, senão é impossível. Meus senhores, estamos por telefone, é impossível compreender o que estão a dizer se falarem um por cima do outro. Vamos ouvir agora Duarte Marques, por favor.
Fique livre de dizer o que quiser da opinião dele. Não pode é dizer uma coisa que eu não disse. Eu não estou a dizer que é extraordinário, eu não usei essa palavra. Estou a dizer que António José Seguro tenta claramente marcar uma diferença para Marcelo, e é evidente. Os nossos presidentes da República, a mudança, por exemplo, de Sampaio para Cavaco, de Cavaco para Marcelo, foram sempre personalidades muito diferentes umas das outras na ação. Por um lado, porque são pessoas diferentes e por outro, porque a própria população também espera, em momentos diferentes, coisas diferentes. A seguir a um presidente muito agitado como Marcelo, goste-se ou não goste, o povo estava um bocado já cansado daquela forma de estar. Então, António José Seguro tenta ser, aquilo que é também a mais a personalidade dele, mais moderado, mais guardado, a falar menos vezes, a dar menos opinião na praça pública.
Mas Duarte Marques é demasiado recatado?
Não tem nada que ser demasiado.
Estou a perguntar se é demasiado recatado.
Não, é o estilo do Presidente da República. Estamos agora numa fase mundial de futebol e há uma frase engraçada do nosso treinador que dizia que o filho do José Mourinho Conceição, o outro treinador.
O Francisco.
O Francisco, que era um espalha-brasas. E numa equipa é preciso um espalha-brasas, porque às vezes é preciso um tipo que segura a bola e o Presidente da República tem o seu estilo, cada um tem o seu, e se quer era um presidente mais agitado, tivemos um presidente que era mais tranquilo. Não digo que não funcione bem, acho é que repetidamente os mesmos estilos prejudicam. Nesta fase em concreto que o país está a atravessar, se calhar o recato de António José Seguro é mais útil ao país do que se fosse mais agitado ou se quisesse fazer da presidência um trinchante de combate a um governo que não tem uma maioria. E porque o português vota num presidente da República? Vota em alguém que seja um garante da estabilidade, não um agitador. Se nós temos um governo, e o português privilegia a estabilidade, temos um governo que não tem uma maioria, longe disso, então quer um presidente que promova mais estabilidade. Neste caso, concretamente António José Seguro, sabe o mandato que tem, por isso é que teve a vitória que teve.
Rui Gomes da Silva, a prazo e olhando para o que poderão ser estes cinco anos de mandato de António José Seguro, acha que o eleitorado português possa virar a agulha daqui a cinco anos e querer alguém que seja mais interventivo?
Estamos num mundo completamente diferente daquilo que foi nos últimos anos. Com realidades diferentes. Estamos num mundo com agitação internacional, estamos num mundo em que a própria Europa vai ter que se reinventar, em que a NATO vai ter que repensar. Não é um problema dos Estados Unidos, nem do presidente dos Estados Unidos, não é um problema conjuntural, vai ser um problema essencialmente estrutural. Vamos ter muitas eleições legislativas na Europa nesses próximos anos e, portanto, com tudo aquilo que, se os ciclos forem verdadeiros, com todas as mudanças e as alterações. Sempre podemos ter, nesse espaço de quatro anos, por muito que o presidente da República não queira, poderemos ter duas ou três eleições legislativas, ao contrário daquilo que vamos andando a dizer. E, portanto, acho que é prematuro estar a dizer o que é que os portugueses querem. António José Seguro disse o que tinha, de facto. Naquilo que puder, naquilo que não inviabilizar a sua reeleição, não vai fugir da sua matriz de esquerda. E, portanto, as pessoas que tinham uma matriz como presidente da República, que apoiaram, por exemplo, como o Osvaldo apoiou o doutor Marques Mendes, ou que apoiaram o Almirante, ou que até apoiaram o Cotrim de Figueiredo e que depois correram na segunda volta a apoiar e a apelar ao voto em António José Seguro, por razões conjunturais, por razões que tenham, porque privilegiam interesses em vez de princípios, porque privilegiam vinganças e ódios em vez de valores, porque privilegiam outras coisas desse estilo, terão que viver com um presidente da República que não tem nada a ver com os espaços políticos onde vêm.
E vão arrepender-se?
Não sei se vão arrepender. Há tanta gente que votou em tantos presidentes da República que se arrependeu. Portanto, não sei se é que vão se arrepender. O que eu acho é que as pessoas têm que perceber que isso é um presidente à esquerda. E o veto das bandeiras, com tudo aquilo que foi, invocando ou dizendo que a lei era genérica, invocando também o veto, na própria fundamentação do veto. O veto invocando também questões genéricas e valores e princípios genéricos, até princípios abstratos, para defender esse veto, é um sinal daquilo que temos. Agora, os portugueses votaram, como vocês disseram na introdução da peça, deram o maior número de votos ao presidente António José Seguro. Pronto, agora é uma realidade, não é uma ideia. Agora, é evidente, não venham dourar a pílula dizendo que aqueles relatórios sobre as tempestades, sobre as Cristinas, etc., foram relatórios que ainda vamos acabar por ouvir, que foram relatórios elogiosos para o governo e relatórios que estava tudo na lei, que havia tudo essas coisas. Por amor de Deus, como diria aquela canção: "Podemos pintar o céu de azul", mas já alguém teve essa ideia antes. Portanto, não vale a pena estar a reinventar a roda.
O elevador da Glória das Rádio Macau.
Exatamente. Que é uma grande música. Exatamente, mas já alguém teve a ideia igual. Ricardo, eu acho... E agora, não me venham é obrigar a morder o anzol.
Sim, Duarte. Duarte Marques.
Em primeiro lugar, acho que o Rui não percebeu nada da conversa do relatório. O objetivo da conversa do relatório era revelar que houve, ao contrário do que parece ser habitual e a regra, houve leviandade e falta de comprometimento numa decisão ou numa posição do Presidente da República. Relativamente ao resto, dizia só o seguinte, já não vou fazer futurologia, porque ainda é muito cedo, mas houve muita gente que apoiou Cotrim de Figueiredo, Marques Mendes, etc., e Almirante. Votou Seguro, não foi por uma questão ideológica.
Não.
Não, foi uma questão de luta dentro do mesmo espaço, não foi?
Não. O Rui falou várias vezes de interesse, etc. Não, foi uma questão de decência, foi uma questão de higiene política, foi uma questão de bom senso. As pessoas que votaram em Seguro, que não são de esquerda, votaram por uma questão de decência, de higiene política.
Em relação à decência, eu vou te dizer que oito, 10, 15%, não abona muito a favor da decência.
Não, mas é. Votaram em Seguro.
A diferença é três vezes mais para quem teve decência. Não venha agora com isso.
Por uma questão de decência e de higiene política e de bom senso. Ok? Um abraço.
O PSD votou o decreto sobre as bandeiras em edifícios públicos ao lado do Chega. Não é um problema, Duarte Marques, estar ao lado de Ventura e não do Presidente da República?
Não faço ideia, não sigo hoje em dia as votações da Assembleia. O PSD tem que ter o bom senso de estar ao lado do Ventura quando as ideias dele são boas e estar ao lado do PS quando as ideias dele são boas, mas sobretudo ter a capacidade de ter o próprio PSD a apresentar propostas e soluções e liderar a agenda política e de reformas. Portanto, se muitas vezes tem que fazer acordos com o Bloco de Esquerda ou com o PCP, ou com o Chega, ou com o Partido Socialista, ou com a IL, ele há de fazer quando eles tiverem razão. A vida que nós temos hoje em dia na política é cada vez menos ideológica e deve estar mais preocupada com as pessoas e menos preocupada com aquilo que os outros dizem. Se o governo se concentrar, e penso nele, em reformar o país, em encontrar no Chega um parceiro para algumas reformas importantes, que vão muito além da história das bandeiras, há coisas muito mais importantes, se calar, para acordar com o Chega, isso sim, é um caminho que deve fazer. Seja com o Chega, seja com o Partido Socialista, são os maiores partidos na oposição e com os quais terá que se entender pontualmente. Agora, isso só faz sentido, só é possível, se houver bom senso de ambas as partes.
Duarte.
Estou falando aqui da eleição presidencial.
Duarte Marques e Rui Gomes da Silva, é sempre bom poder recebê-los aqui na Rádio Observador para estes debates vivos. E já agora, deixe-me fazer uma correção. A canção é o Anzol e não o Elevador da Glória.
O Anzol. Também parecia.
Exatamente. E arrasou.
Eu não estava aqui. É por isso que eu disse que já mordi o anzol.
Exato. Foi aí que fez o clique. Muito obrigado, Rui Gomes da Silva e Duarte Marques, por terem estado neste Explicador, em que avaliamos os primeiros 100 dias de António José Seguro em Belém.