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Começa agora mais um explicador das manhãs 360, hoje sobre a depressão Cláudia e os efeitos que está a provocar em Portugal continental. É nosso convidado, Mário Marques, climatologista. Bom dia, Mário Marques. Bem-vindo, obrigada por estar conosco neste explicador. Antes de tudo, ajude-nos a explicar que fenômeno é este que está a acontecer neste momento, tem algum caráter de anormalidade?
Olá, bom dia. Não, de todo. Nós estamos no outono e, portanto, o outono é propício para este tipo de situações, isto é, onde existe a junção ou a confluência de duas massas de ar distintas, uma mais quente que estava situadas na península Ibérica, temos temperaturas de 21, 22 graus, e outra, obviamente, vinda do Atlântico Noroeste, com uma depressão muito cavada, que é normal ocorrer e era bem normal ocorrer nesta altura do ano, e que se ao juntar, portanto, propicia um cavamento dessa mesma depressão e juntamente com duas superfícies frontais frias, uma no dia 12 e outra durante a madrugada e a manhã de hoje, atravessaram o território nacional provocando chuva, por vezes forte, aguaceiros e agora na sua parte traseira, trovoada. Isto porque existe uma maior acreção em termos de movimento de partículas no interior das formações e também correntes descendentes e ascendentes que atingem uma maior velocidade e fazem com que exista também trovoada e as formações cresçam mais. E é aquilo que vamos assistir agora no pós-frontal, nos dias seguintes. Teremos, claro, um desagravamento progressivo, mas teremos um pós-frontal, aguaceiros que localmente podem ser fortes e propícios. Também temos aqueles processos conectados com esse tipo de formações de desenvolvimento vertical, os cumulonimbos, que são as rajadas frontais, quando existe a aproximação ou início da passagem dessas formações, e também trovoadas. Claro, que temos aqui uma situação que depois essa depressão irá agora afetar mais a parte sul, portanto, a costa vicentina e o Algarve, durante todo o dia, com ventos fortes. O Algarve penso que será o distrito de Portugal com mais propensão para ter ventos fortes e também precipitação, mas, sobretudo, os ventos fortes e rajadas podem ser superiores a 100 km/h em alguns pontos, sobretudo nos pontos mais altos. E claro, esta evolução agora irá fazer-se sentir até ao próximo fim de semana, altura em que o núcleo da depressão estará praticamente muito junto à costa e então aí poderá produzir as últimas precipitações intensas, sobretudo na madrugada de sábado e manhã de sábado, nomeadamente também nas regiões do centro e sul, embora irá afetar todo o território.
Ou seja, o fato de estarmos aqui quatro dias com estas condições mais duras, mais intensas, é perfeitamente normal para o éguador.
Sim, é o normal da depressão nesta altura do ano. Agora, o porquê desses quatro dias e não ser uma passagem sucessiva de pressões. Isto é, passa a depressão, somos afetados um dia, um dia de transição com céu e boas abertas e depois outra depressão. O porquê. Isto porque não conseguiu fluir ou evoluir no seu percurso sazonal. O que é o percurso sazonal? Percurso sazonal é aquele percurso oeste-leste, desde o Atlântico, consoante a corrente de jato, para a Europa. A Europa está sobre uma alta pressão, portanto, uma área de alta pressão que bloqueou esse percurso. E então essa depressão teve praticamente estacionária no Atlântico Norte e depois, como não conseguiu progredir para o interior do continente europeu, para leste, começou a mergulhar e, portanto, começou a afetar o território e irá continuamente mergulhar nos próximos dias até que perderá a intensidade e depois poderemos ter o anticiclone das Açores na próxima semana a impor-se de uma forma mais significativa, mas com o frio. O frio irá fazer-se sentir, finalmente, já é altura, também. E teremos esse lucro. Mas esta situação é sobre a mesma depressão. Portanto, a mesma depressão irá continuar pelo menos até sábado, inclusive domingo, nos seus restos, e depois poderá começar a fluir para leste e afetar o Golfo da Biscaia, mas aí já irá juntamente com a corrente de jato e poderá fazer com que a Europa, na próxima semana, tenha os primeiros dias de inverno. Não serão de outono, mas provavelmente um outono antigo, como era na década de 80, mas com neves, com frio acentuado na parte dos países da Europa, sobretudo na central e de leste.
Mário Marques, mas esta evolução desta depressão era previsível e o agravamento que se verificou nesta madrugada, sobretudo nas regiões de Lisboa e Setúbal, isso era previsível de alguma forma?
Sim, era previsível. Aliás, contribuo e colaboro com várias entidades, públicas e privadas. Sim, foram alertados, que seria durante as 15h e 18h, o pico desta precipitação, porque era uma linha praticamente longitudinal ao território, sul para norte, e evoluía numa situação paralela a quase todo o território, uma forma longitudinal, e iria afetar praticamente todo o território e depois irá progredir lentamente para leste. Claro que quando são situações de caráter convectivo e mais de desenvolvimento vertical, é muito mais difícil fazer essa previsão. Será nas próximas horas. Agora temos uma aberta, portanto, teremos um período de bons estados de tempo, isto é, boas abertas, pelo menos até ao final da manhã, no litoral oeste, o Algarve, não, o Algarve será afetado e a costa vicentina. Mas depois teremos o núcleo da depressão, chamada oclusão. O que é a oclusão? Oclusão é quando o ar frio apanha o ar quente e ficam os dois, obviamente, a cozinhar aquelas formações convectivas, a desenvolver aquelas formações convectivas de grande desenvolvimento vertical, e depois irão produzir as trovoadas, também de granizo ou de saraiva, dependendo da granularidade, e também toda aquela situação de ar frio associado Que a partir da tarde de hoje e até domingo irá fazer-se sentir. As temperaturas poderão descer até os 16 graus em Lisboa, as máximas, e as mínimas, sobretudo, também poderão descer para um algarismo na maior parte das regiões do interior e teremos, inclusive, a possibilidade de termos fenmenos conectados com o vento à medida que formos passar a sofrer essa influência dessa oclusão, desse núcleo mais próximo do continente nos próximos dias, mas em especial na madrugada de sábado, noite de sexta, e de manhã de sábado.
Eu perguntava-lhe em relação a esta questão da previsibilidade, da evolução da depressão, porque tivemos o alerta na região de Setúbal a passar de laranja para vermelho nas últimas horas e já quando o estado do tempo se tinha agravado bastante, e aliás, um alerta vermelho que vai até às 9h. Isto, sendo situação previsível, este agravamento também do alerta, não pode condicionar a resposta das autoridades e até a forma como as pessoas se comportam, por exemplo, nas deslocações para o trabalho, se houver um alerta tardio.
Condiciona sempre, porque depois em vez de ser uma prevenção, é uma reação. Claro que a passagem desses avisos de uma forma rápida, em cima da hora, digamos assim, e para um agravamento, não é um contributo da melhor forma para a chamada prevenção e mesmo para servir as próprias autoridades, de forma que elas tenham a capacidade e os meios necessários para o fazerem. E isso, infelizmente, acontece com alguma frequência nas várias regiões do país. Contudo, é melhor tomar uma decisão do que nenhuma decisão, seja ela errada ou boa. Mas o que temos que ter é alguma consciência em termos de sensibilizar as autoridades e os nossos institutos, que tem que existir uma experiência de observação e uma contínua observação, quer das imagens de satélite, quer da atmosfera aloft, e não só depender de modelos, porque é o que está a acontecer, não só em Portugal, mas como na maior parte dos países do mundo, mas sobretudo na Europa, cada vez estão a ficar mais modelo-dependentes. O que isso quer dizer? Consoante a previsão numérica diz, consoante eles irão fazer as suas previsões. Em especial, não se deve ligar muito aos modelos, é uma chamada de clarificação.
Uma validação. Pode ser uma validação, mas está-se a perder mais essa capacidade de observação de dados.
Correto. A experiência de observação adquirida, compreender um pouquinho a atmosfera, o comportamento da atmosfera, e neste momento nós já temos muita informação da atmosfera em altitude. Temos o vapor d'água, temos as humidades, o topo das nuvens, o tipo de formações, etc. E podemos conjugar todos esses fatores e também outros índices, a vorticidade, a relatividade, os ventos a 850 hPa, que é desde 1500 metros a 5000 a 9000. Temos que ver toda essa interação para depois determinar se de fato vai ser severo ou não. E essa experiência, esse conhecimento, tem que ser passado. E foi-me passado, felizmente, conheci o meu salvador e velho mestre Antimo de Azevedo, ao qual nos correspondíamos durante muito tempo e aprendemos mutuamente. Mas essa experiência, esse conhecimento, tem que ser passado. Se não for passado, perde-se como em todas as ciências e em todas as profissões. E claro que agora está-se a colocar um pouco o dedo na ferida com a inteligência artificial. A maior parte dos modelos, o americano, o GFS, o ECM europeu, o GEM canadiano, o que quer que seja, estão a utilizar a inteligência artificial há uns anos pra cá, mas na previsão a curto prazo, ela não está a resultar muito bem. Nem a longo prazo, obviamente, porque, por exemplo, na minha previsão da Planclima, que fizemos pro mês de novembro, prevíamos uma primeira quinzena úmida, mais chuvosa, mais outono, e depois a segunda aliviaria e entraria uma fase mais estacionária, com núcleos de altas pressões, e depois a mudar pro fim. Parece que para lá se caminha, mas isso é através da análise de teleconexões. Portanto, não fui ver, nem vamos ver os outros centros europeus. "Ah, uma anomalia positiva da temperatura, negativa da precipitação, ou vai chover mais ou vai chover menos". Não é isso que tem que se fazer. E os modelos cada vez estão a aprender, machine learning com redes neurais, etc. E superprocessadores, isso tudo. Mas existe aqui um conhecimento que tem que se ter em conta, porque esses centros estavam a prever um novembro extremamente seco. E estão a prever também dezembro extremamente seco e janeiro extremamente seco e fevereiro, por aí afora, extremamente seco. O que eu não compreendo, porque não podemos só validar através de modelos computacionais. E esta experiência de observação, de diagnóstico, de análise e de correlação, tem que ser feita, sobretudo nas previsões a médio e longo prazo, em termos de determinar padrões atmosféricos. E é isso que se está a perder em termos mundiais. Não é só aqui em Portugal, em termos mundiais, esse conhecimento está se a perder. Vamos lembrar um pouquinho esta ciência com a saúde. Antigamente, quando não havia tantos meios de disposição de diagnóstico para fazer exames, o médico fazia um diagnóstico com o doente, que era perguntar, o doente respondia, o doente praticamente era metade da doença conforme respondia, e tinha uma capacidade de diagnóstico. Claro que isso está se a perder, porque agora fomos a uma consulta, mesmo de especialidade, se o médico, obviamente, nos colocar só exames e não falar conosco muito, esta informação perde-se, porque nós não transmitimos muito a informação para poder correlacionar. E isto passa-se um pouco com a meteorologia em termos mundiais.
Mário Marques, isto leva-nos também à discussão. Nós queremos prever este tipo de fenómenos para nos protegermos. E o que vemos, o que está a acontecer hoje, por exemplo, é que há, neste momento, cerca de 16 mil pessoas ainda sem eletricidade nas zonas de Lisboa, Santarém e Setúbal. Há semáforos que não estão a funcionar. Não estamos sequer a utilizar estes dados para conseguir vivermos em maior segurança. O que é que está a falhar aqui?
O que está a falhar não é só em termos de previsão meteorológica, é também em termos de preparação e sensibilização das nossas autoridades e de quem nos governa a nível local. Porque infelizmente, tenho que ser um pouco honesto e direto com esta situação, é que Portugal, nos últimos anos, só tem gasto dinheiro em obras públicas e outras questões, sem pensar nos cidadãos. E quando pensamos nos cidadãos, é preparar as cidades, criar resiliência. Fala-se em ordenamento e planeamento do território, mas nunca se coloca nada em prática. E então os incêndios são uma vergonha completa, porque já se fala nisso há mais de 40 anos. E em termos das cidades, que foram mais impermeabilizadas nos últimos 30 anos, existe um subdimensionamento de toda a drenagem e escoamento subterrâneo, desde a separação de águas pluviais e de águas residuais nos principais centros urbanos. Mas em termos de dimensão de tubos de escoamento, é praticamente a mesma, e as cidades cresceram. E cresceram em locais onde eram, por vezes, leitos de cheia. Nós entubamos as ribeiras, escondemos as ribeiras, construímos em cima de ribeiras, e os outros países, já há mais de 30 anos, estão a fazer o oposto. Estão a libertar ribeiras, estão a criar áreas de segurança onde existia construção. Não deixaram construir quando edificados numa determinada altura, que já não era sustentável ser habitado, destruíram e não voltaram a construir. Só que quando um país cresce com dois fatores ao longo dos anos, construção, e depois agora o turismo, mais construção, e a indústria transformadora, a indústria que produzia, deixou de fazer sentido, claro que nós só temos dois caminhos: construir e não pensar na resiliência e na prevenção. E com isso, têm que ser tomadas medidas de planeamento sério, multidecadal, portanto, para mais de uma década, a longo prazo, coisa que Portugal nunca fez, independentemente do partido. É uma vergonha que nós não aproveitemos os dinheiros da União Europeia para criar resiliência, melhores condições de vida para a população portuguesa e, sobretudo, preparar-nos, porque, infelizmente, esse dinheiro vai acabar em 2030.
Mas essa preparação a uma década ou mais deve prever já uma maior frequência e gravidade destes fenómenos. Há pouco falávamos da questão de ser normal nesta época, de ter este tipo de situações, mas a verdade é que temos assistido, não só em Portugal, a uma maior frequência deste tipo de fenómenos.
Eu acho que não é maior frequência, nós estamos cada vez mais expostos. Repare, nas Filipinas, aquelas áreas todas que foram afetadas pelo tufão, há 25 anos não existiam casas, não existia população, existiam florestas, existiam áreas de drenagem, as chamadas terras úmidas junto a ribeiros. E também verificamos que existe uma desflorestação, uma lapidação praticamente total dos nossos recursos arbóreos, todas as florestas praticamente do mundo, para se colocarem culturas intensivas. E isso faz com que não exista capacidade de, ao longo dos tempos, os solos se organizarem e produzirem solos capazes de absorver quantidades de precipitação. Além disso, nós estamos a impermeabilizar e estamos nos a expor mais, estamos a habitar cada vez mais, estamos cada vez a colocar-nos mais em perigo. E claro que também existe, neste momento, a capacidade de registar qualquer fenómeno e numa questão de cinco minutos, o da Austrália conhece-se aqui na Europa. Também há isto. Agora, o que está a acontecer, as alterações climáticas estão aí e não vale a pena negar, é que existe um padrão climático que está a afetar praticamente todo o globo. E esse padrão climático é: cada vez está a chover menos, quando digo isso, é o número de dias de precipitação, e as tempestades, por vezes, quando se formam, existe muita energia, está cada vez a existir mais energia no planeta, porque há mais vapor de água, os oceanos estão mais quentes, a superfície terrestre está muito mais quente, porque as árvores e as áreas verdes servem de contenção e de termostato a nível atmosférico do nosso sistema global, que somos um sistema fechado, e isso faz com que exista mais energia e mais potencial para que estes eventos, que eram normais, e que são normais de ocorrerem, possam intensificar no futuro. E isso poderá acontecer muito mais rápido do que aquilo que pensamos, não só em termos de tempestades, como em situações de seca e períodos cada vez mais antagónicos. Quando falo com os mais idosos, ainda há pouco, o tempo era certinho, como se sabe, acabava numa altura certa. Agora não.
Havia estações.
Correto, havia estações. E praticamente agora em Portugal, nós estamos a ter duas estações nos últimos anos, uma forma de dizer. Começa a chover em outubro ou novembro e depois temos falta de chuva. Nos últimos 25 anos, só tivemos três invernos chuvosos, considerados chuvosos, portanto, acima do normal. Outonos e invernos. O inverno, nos últimos anos, no número de dias com neve, nas nossas serras e em todo o mundo, praticamente está a diminuir. Há aqui várias percepções. Nós temos é que nos capacitar que temos que planear a longo prazo. Claro que essas obras não são visíveis. Mas temos que aproveitar a água das chuvas, as cidades podiam aproveitar a água das chuvas criando pequenos depósitos, servindo a gravidade e a orografia das cidades para usarem essa água para limpar, para regar jardins e também para servirem de válvulas de escape quando existisse uma maior precipitação e desviar nas áreas mais críticas essas precipitações. Isso é uma das hipóteses. Plantar mais árvores e ter áreas mais verdes para poder servirem de escoamento dentro das cidades. As cidades cada vez estão a ficar sem parques, sem áreas verdes, e isso é crítico dentro de outras questões.
E às vezes esta reflexão só se faz mesmo nos dias em que chove. Mário Marques, muito obrigada por ter estado conosco, ajudando-nos a refletir e explicar o que está a acontecer hoje. Um bom dia.
A você, igualmente. Bom dia.