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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário e especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia. Bem-vindo.
Bom dia.
Começamos pela reunião entre Trump e Zelensky. O presidente ucraniano diz contar com os Estados Unidos para pôr fim à guerra ainda antes do inverno. Já Trump evitou comprometer-se com o encontro a três, ou seja, com Putin também. Francisco, falar no fim da guerra antes do inverno é um otimismo realista ou Zelensky está a ser forçado a acelerar negociações perante o risco de perder a ajuda norte-americana?
Isto é Zelensky simplesmente a dizer aquilo que acha que Trump quer ouvir, que está muito disposto à paz e que Putin é que de facto não quer. Ele, aliás, voltou a oferecer a possibilidade de um cessar-fogo parcial, vem dizer: "Muito bem, os americanos não querem que nós ataquemos refinarias, porque isso significa uma pressão sobre o preço do petróleo e os americanos vão ter eleições daqui a algumas semanas. Estamos dispostos a fazer isso, desde que exista reciprocidade e, portanto, desde que Putin se comprometa também a não atacar a Ucrânia, designadamente as infraestruturas elétricas ucranianas". No fundo, passando a bola para Trump para convencer Putin a acabar com a guerra ou pelo menos a suspendê-la. Portanto, é isso que Zelensky está a dizer.
Esta hesitação do presidente norte-americano no encontro a três mostra que o Kremlin não está minimamente interessado em negociar agora ou faz parte do estilo imprevisível da diplomacia de Washington?
Já não é muito imprevisível, porque tem-se repetido sucessivamente este tipo de encenações por parte dos americanos. Temos agora nova legislação aprovada pelo Congresso, que tem o nome do Lindsey Graham, que entretanto morreu, e que permite ao presidente Trump forçar a mão da Rússia, sancionando-a. Só que Trump, aparentemente, não tem nenhuma vontade de fazer isso. Pelo contrário, está sempre muito aberto a novas negociatas com Putin. Isto acaba por ser uma história que se vai repetindo sucessivamente e que só será quebrada se existir algum desenvolvimento vindo de Moscovo. Estávamos à espera das eleições e todas as indicações vão no sentido, e Zelensky já veio dizer que está à espera de um grande ataque russo, que isto venha a ser um inverno particularmente violento na guerra na Ucrânia.
Entretanto, Donald Trump diz que Washington está a negociar um acordo massivo para comprar fertilizantes à Bielorrússia. Diz que o fertilizante do regime pró-russo de Lukashenko vai custar menos do que o do Canadá. Francisco, trocar o fertilizante de um aliado do regime de Lukashenko em nome do preço da gasolina e dos custos agrícolas mostra que Washington está disposto a atropelar os princípios da NATO para proteger a sua própria economia. Como é que vê esta aproximação de Washington a Minsk?
Isto é a diplomacia transacional de Trump, como está de relações muito tensas com o Canadá. E está porque os canadianos ripostaram à guerra económica que lhes foi lançada por Washington. Procura então encontrar aqui alternativas e imagine se vai arranjar uma alternativa no Estado satélite da Rússia, que é a Bielorrússia, também grande produtor de potássio. Agora, não sei se isto será um grande negócio, porque evidentemente, temos aqui má moeda, boa moeda há bocado. Tem o país vizinho, que é um grande produtor, vai comprar do outro lado do mundo. Só os custos de transporte provavelmente já não justificarão esta transação. Mas isto justifica-se por razões políticas e com a circunstância de Trump querer, no fundo, mostrar aos canadianos que não depende deles para nada e vai encontrar aqui soluções, ainda que sejam em países supostamente inimigos.
Francisco, temos também de falar sobre o acordo de segurança entre Estados Unidos, Gronelândia e Dinamarca. O governo da Gronelândia está a usar esta pressão militar dos Estados Unidos para conquistar mais independência face à Dinamarca ou arrisca-se a trocar a dependência financeira de Copenhague por uma tutela militar de Washington?
Este acordo eu acho que é um acordo extraordinário e que mostra muito daquilo que é a presidência Trump.
Então.
O que é que Trump nos disse no início do ano? Eu acho que é uma coisa que as pessoas percebem. Há bocado estávamos a falar do custo das casas e muita gente tem casas arrendadas. Ora, o que é que Trump disse no início do ano? Disse o seguinte: "É muito importante a segurança do Ártico, mas nós só vamos investir na segurança do Ártico, na Gronelândia, se a Gronelândia nos pertencer". Certo? Foi isso que ele disse. Como qualquer pessoa que tem uma casa arrendada, não vai investir no imóvel, se souber que daqui a uns anos vai ficar sem o imóvel. Portanto, o Trump disse isto. Por razões psicológicas e também práticas, até porque nós estamos a dizer aos europeus, há muitos anos, que têm que pagar pela sua defesa, não estejam à espera que os Estados Unidos façam isso por vocês. Ora, o que foi assinado ontem?
Até falou no uso de força militar, não é?
Até falou do uso de força militar. A Gronelândia seria americana a bem ou a mal. O que foi acordado ontem? Foi acordado que os Estados Unidos vão construir mais duas bases militares, bases essas que serão construídas por groenlandeses e que, em contrapartida, vão receber o quê? A propriedade da Gronelândia? Não. O arrendamento da Gronelândia? Também não. Vão receber o quê? Um direito de veto sobre investimento chinês que não existe e que os groenlandeses também não estão interessados. O contribuinte americano vai pagar para proteger território dinamarquês ou que pertencerá a um futuro Estado da Gronelândia. Aliás, a Gronelândia compromete-se a entrar na NATO e é isso que no fundo ficou acordado ontem. Os Estados Unidos acabam por se comprometer a investir mais dinheiro na proteção da Gronelândia, que não lhes pertence. Foi exatamente isto que acordaram ontem e isto foi um ótimo acordo histórico para a Dinamarca, que não vai precisar de gastar os seus recursos na proteção de uma ilha daquela dimensão e poderá canalizá-los designadamente para a Ucrânia, no contexto desta guerra com a Rússia. Isto é um acordo que, francamente, era tudo aquilo que a Dinamarca queria e que poderia ter sido negociado logo em janeiro. Agora, como é que isto se compatibiliza com a política americana, designadamente a relação com a Europa, é uma excelente pergunta, mas Donald Trump vendeu isto como se isto fosse uma grande vitória, quando na verdade, não parece que seja uma grande vitória para a NATO.
Mas ele precisa dessas pequenas grandes vitórias na cabeça dele, quanto mais não seja para as intercalares e para consumo interno.
Bom, mas se isto vai implicar maior despesa para os Estados Unidos e não há nenhuma contrapartida. Os americanos não têm, ao abrigo deste acordo, nenhum acesso preferencial às terras raras da Gronelândia. Nada. Se os dinamarqueses quiserem ceder todos os seus recursos à Alemanha, à França ou ao Canadá, podem fazê-lo. Não há qualquer especificidade no que diz respeito aos recursos económicos da Gronelândia. Há aqui um grande acordo de defesa, mas isso era aquilo de que os gronelandeses necessitam no futuro, porque eles não têm capacidade de defender essa ilha e a Dinamarca possivelmente também teria muita dificuldade em fazê-lo.
Em garantir.
Digo mais, o primeiro-ministro de Montenegro está neste momento em Nova Iorque. Talvez seja de ir bater à porta dos americanos e perguntar-lhes: "Não querem fazer isto nos Açores?" Porque um dos problemas que nós tivemos nos Açores resultou, nos anos 90, da base militar nas Lajes ter ficado praticamente sem militares americanos, e isso teve consequências económicas também graves para a Terceira. Se os americanos quiserem reforçar a presença militar nas Lajes, se quiserem abrir uma nova base em Santa Maria para nos ajudar a proteger os Açores e nós não termos que gastar tantos recursos na nossa defesa, por favor, venham. Até porque nós não vos vamos dar nenhum acesso preferencial aos nossos recursos naturais e até estamos dispostos a aceitar um veto ao investimento chinês em Portugal, se isso for necessário, que foi exatamente aquilo que fizeram os dinamarqueses e os gronelandeses. Mais uma master class de diplomacia negocial de Donald Trump, o melhor negociador da história, mas o resultado final, lamento, tenho a dizer, não parece particularmente favorável para os dinamarqueses, neste caso concreto, que ficam ainda por cima com a soberania sobre a Gronelândia, e o povo gronelandês tem aqui apenas uma obrigação, que eles aceitam, que é no futuro, quando se tornarem independentes, pedirem a adesão à NATO. NATO essa que o Donald Trump considera que é completamente inútil e até gostaria, possivelmente, de sair da própria NATO. Ouvi algumas pessoas dizerem ontem que isto torna a Gronelândia um protetorado americano, não sei em que planeta, tendo em consideração que estas obrigações resultam de um tratado que, aliás, já existia. Os Estados Unidos já tinham acesso à Gronelândia por via de um tratado de 1951 e reforçam apenas essa presença militar. Mas isso era algo que os próprios gronelandeses necessitam, justamente porque há ali muita pressão, vai haver muita pressão no Ártico por parte de Estados hostis, como a Rússia, como a China, e o futuro da defesa do Atlântico é a NATO. E Portugal sempre defendeu isso, isto para nós é muito importante. Nós somos um país atlântico que está muito dependente do reforço da aliança transatlântica. E é exatamente isto que este acordo faz, o maior empenhamento norte-americano na defesa do Atlântico. Se querem defender a Gronelândia, ótimo. Se quiserem defender melhor os Açores, também acho ótimo.
São bem-vindos.
São muito bem-vindos. E claro, isto é importante porque é um acordo com duração indefinida, vai vincular não apenas esta administração, mas também as administrações futuras. Como é que isto se coaduna com aquela política nativista "América primeiro?", é que eu gostava de saber, mas Donald Trump extraordinariamente vendeu isto como uma grande vitória.
Francisco, estamos a chegar ao fim do nosso tempo, mas falou aí da China. Xi Jinping chega hoje aos Estados Unidos, vai reunir-se com Trump. O que é que podemos esperar deste encontro?
Bom, isto já são várias cimeiras entre Trump e Xi Jinping. Esperamos talvez desenvolvimentos no que diz respeito à relação económica entre os dois Estados e eventualmente maiores esclarecimentos na posição chinesa no que diz respeito à guerra no Irão e também à guerra na Ucrânia. Tentar perceber que tipo de pressão é que a China pode fazer, tanto sobre Putin como sobre o regime teocrático de Teerão, para eventualmente se avançar num processo negocial. Os chineses têm tido uma posição de esperar para ver e acima de tudo, nunca incomodar o inimigo quando ele está a cometer um grande erro, que é aquilo que os americanos estão a fazer no Médio Oriente e, portanto, aparentemente quererão ficar na expectativa e não ter aqui uma posição muito clara, interferindo em guerras que eles dizem que não lhes dizem respeito.
Francisco Esperança Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.
Bom dia.