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Começa agora o novo explicador da Rádio Observador. Esta manhã falamos sobre o mau tempo desta madrugada e os constrangimentos que desde cedo está a provocar na região da Grande Lisboa. Para isso, convidámos para estarem conosco o presidente do IPMA, Miguel Miranda, e António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Este explicador é conduzido pelo Paulo Ferreira.
Muito bom dia, bem-vindos ambos a este explicador. Miguel Miranda, presidente do IPMA, começando por si, para pedir um ponto de situação atual. Quais são as perspetivas, sobretudo na Grande Lisboa, para as próximas horas, em termos meteorológicos?
Em termos meteorológicos, nós estamos a prever que vai haver agora um período de alguma acalmia durante algumas horas, mas que vai seguir um período de agravamento. Não somos capazes de localizar exatamente qual vai ser a sua dimensão, mas é mais uma vez um sistema convectivo de grande dimensão, mas cujo impacto no continente está por determinar se vai ser na zona da Grande Lisboa, se a sul ou se a norte. Portanto, as hipóteses estão todas em aberto. Claro que, em termos de valores acumulados, os principais impactos são sempre em Lisboa, mas distribuem-se também ao longo de uma direção que é razoavelmente a direção do Tejo. É preciso ter em atenção que em Mora, por exemplo, também houve valores de precipitação muito elevados e em Portalegre também. Portanto, não estamos falando de uma situação em que apenas Lisboa está a ser atingida, estamos numa situação em que o centro do país, ou seja, o Alto Alentejo e toda a bacia do Tejo, estão a ser alvo de precipitação intensa e prolongada.
E Miguel Miranda, quando diz que a situação se vai agravar, mas não consegue situar o momento em que isso vai acontecer, estamos a falar de uma duração temporal que é no início da tarde, mais para a noite?
Início da tarde.
Portanto, nas próximas horas prevê-se o agravamento.
E é por isso que os apelos dos autarcas, no sentido de reduzir a mobilidade na cidade de Lisboa, aliás, não é bem na cidade de Lisboa, reduzir a mobilidade em toda a área da Grande Lisboa, são de enorme importância, porque é preciso absolutamente que sejam recuperadas ou restabelecidas todas as situações normais, de forma que, a haver nova precipitação, o impacto seja inferior.
E pode prever-se também então, com mais precipitação nas próximas horas, durante a tarde, que mesmo a situação no terreno se possa agravar em relação àquilo que temos neste momento e que os trabalhos de recuperação possam ser adiados?
Eles não podem ser adiados. Desculpe-me dizer isto, desculpem-me quem está no terreno, eu dizer isto, mas na verdade, eles têm que ser feitos o mais rapidamente possível. Nós temos que repor a capacidade de escoamento das águas pluviais, o mais possível nos pontos em que elas se acumularam. É preciso dizer-se que o nível de acumulação foi inferior ao dia 7, mas o número de pontos em que se verifica a acumulação foi muito superior. Portanto, as forças têm que se distribuir por muito mais localidades, mas em todas elas é preciso recuperar o mais depressa possível. Eu já percebi que o comandante Nunes estava a conversar convosco, portanto, ele tem uma visão do terreno muito mais abrangente que a minha. Nós estamos a ver isto aqui do lado da meteorologia. O que nós avaliamos é que temos uma situação que historicamente, claro, tem antecedentes mais gravosos, lá que tem, mas que apesar de tudo, é uma situação de gravidade acentuada, devido, em particular, à grande duração do fenómeno.
Muito bem, e é precisamente com António Nunes que falamos agora. António Nunes, bom dia, bem-vindo mais uma vez a este explicador. Como é que estamos no terreno, em termos de dispositivo, neste caso de bombeiros? Reação das últimas horas e aquilo que têm pela frente para as próximas horas.
Cumprimento os senhores ouvintes e em particular o meu amigo Miranda, colega de painel, para dizer o seguinte: naturalmente que estas situações são situações muito complexas de gestão, porque a intervenção dos bombeiros, e que todos nós temos que reconhecer que mais uma vez eles estiveram na primeira linha da frente, é uma intervenção com resultados doentes. Isto é, a primeira preocupação que se tem é não haver vítimas, e isto é o mais importante nestas situações, e passa a haver uma situação muito complexa, porque mesmo que haja necessidade, por exemplo, de escoamentos de águas, se nós não tivermos níveis diferenciados entre aquilo que se está a passar nas zonas da área metropolitana e as zonas de escoamento, que neste caso é o Tejo, naturalmente que a dificuldade mantém-se durante algum tempo. Portanto, não é expectável que enquanto não parar a chuva, que felizmente já abrandou, e houver uma descida da maré, nós vamos ter dificuldades em fazer escoamentos de água. Portanto, o número de ocorrências vai ser muito elevado e tem que se avaliar se as ocorrências têm risco, em primeiro lugar, para vidas, e essas são as primeiras intervenções que têm que ser feitas, e a mobilização é geral. Temos uma segunda fase, a questão dos bens, e nestas situações de catástrofe natural são aquelas que normalmente, quando atingem determinadas situações, têm prejuízos muito elevados, mas que não é possível resolver no momento, até porque o número de solicitações é muito elevado. Aqui nós estamos hoje perante uma situação, tipicamente uma operação de proteção civil de larga escala, em que os bombeiros são um agente de proteção civil, não são o único, em que os cortes de estradas A utilização de maquinaria quando se justifique, a mobilização de privados, a mobilização das várias entidades são fundamentais para, em articulação, podermos salvar as pessoas, se houver necessidade disso. Felizmente, penso que não há, pelo menos nenhum caso até agora registado. Também é preciso agora dar tempo de escoamento e utilizar todo este potencial que os bombeiros têm para podermos fazer os escoamentos necessários. Não é possível mobilizar muito mais bombeiros à volta de Lisboa, porque os avisos que têm sido feitos abrangem praticamente quase todo o território nacional e, portanto, aqui o que há que fazer é uma boa gestão de meios, que compete à Proteção Civil.
Daquilo que temos no terreno. Miguel Miranda, nós ouvimos há pouco o presidente da Câmara de Lisboa, aqui na Rádio Observador, Carlos Moedas, disse que o episódio de quarta-feira passada, a probabilidade é de 100 em 100 anos e aquilo que estamos a viver agora é, de facto, um evento meteorológico muito raro e muito pouco frequente. Olhando para os registos do IPMA, de facto, estamos perante acontecimentos assim tão raros em termos de precipitação?
Nós gostamos de fazer sempre o balanço, como sabe, no fim destes acontecimentos e não a meio, porque às vezes a meio são precipitados. Eu diria que se compararmos com a história das inundações em Lisboa desde os anos 60, que são aquelas que eu pessoalmente acompanhei, que nós temos situações anteriores que me parecem mais gravosas que esta, em particular 67, que teve uma dimensão muitíssimo superior, mas temos também 2008, que também teve um impacto muito grande. Portanto, ainda é difícil dizer se estamos a falar de um acontecimento secular ou não. O que é relevante é que nós estamos no limiar do aviso vermelho. Nós normalmente atribuímos aviso vermelho quando nós estamos em situações de record, situações muitíssimo raras. Repare que nós emitimos aviso vermelho apenas em períodos casualmente curtos. Isto para dizer o quê? Que apesar de isto ser um acontecimento gravoso, de grande intensidade, existe capacidade na atmosfera de criar acontecimentos de maior impacto que este. Isso tem que ficar claro na nossa cabeça. Nós não podemos pensar que nada mais se vai repetir desta dimensão e que a partir de agora tudo vão ser, durante décadas, acontecimentos de menor intensidade. Nada nos leva a concluir isso. Isto nem sequer tem a ver com mudança climática, tem a ver apenas com a estatística dos fenómenos meteorológicos extremos, que escapam, por vezes, à nossa capacidade de previsão meteorológica, que são, neste momento, já agora, uma das prioridades da Comissão Europeia naquilo que se chama, desculpem a expressão em inglês, o Destination Earth, que é uma espécie de criação de um gêmeo digital da atmosfera, em que se pretende exatamente ter sistemas dedicados a estes acontecimentos extremos. Mas eles existem, eles estão cá, são utilizados na Europa toda e em Portugal também.
Miguel Miranda, já sabemos que durante as próximas horas, esta tarde, poderá haver ou deverá haver um novo agravamento da chuva, da precipitação. E para os próximos dias, qual é, neste momento, a visibilidade, tão longa quanto possível, que o IPMA tem?
Eu diria o seguinte: quando fazemos a previsão, por exemplo, dos próximos 10 dias, nós temos precipitação, pelo menos até à terça-feira da próxima semana.
Portanto, mais uma semana.
Mais uma semana. E do ponto de vista, penso que têm consciência que o oceano é um sistema em si mais lento que a atmosfera, é um sistema que viaja mais lentamente. E quando vê a situação no Atlântico Norte, vê que nós temos uma sequência de depressões ao longo de todo o Atlântico, que são fáceis de ver, porque elas correspondem sempre a elevações do mar, a elevações da ondulação, e que se estão a suceder umas às outras. Portanto, não existe neste momento nenhuma situação sinóptica que nos leva a concluir que esta situação vai desaparecer. Isso exigiria uma situação diferente, que não se está ainda a verificar.
E a intensidade destes próximos dias também é difícil de prever ou já se consegue prever?
É difícil de prever, mas devo lhe dizer que as depressões que se aproximam são também, elas, depressões cavadas e, portanto, que têm em si capacidade de gerar precipitações significativas. Claro que se elas se desviarem ligeiramente para norte, como aliás é habitual, a precipitação fica no norte da Europa e não provavelmente aqui nas nossas latitudes. Mas o que estamos a verificar é que o tal comboio de tempestades está criado e não dá, para já, nenhum sinal claro de desaparecer.
António Nunes, pelos vistos, como acabamos de ouvir, os próximos dias continuam a ser muito exigentes. O dispositivo que está no terreno, será a articulação com as várias entidades da Proteção Civil, está a ser suficiente ou era importante haver uma reorganização de meios, tendo em conta esta perspetiva nos próximos dias?
Eu diria que do ponto de vista dos bombeiros, os bombeiros vão ter todos os seus meios utilizados, quer materiais, quer recursos humanos, para ajudar a controlar a situação. Não se pode colocar de parte que não haja ativações de planos supramunicipais e o envolvimento de meios de apoio, designadamente de meios militares, porque, de facto, o problema aqui não é a capacidade de resposta dos bombeiros, é a capacidade de resposta que o sistema de proteção civil, mesmo utilizando privados e os próprios meios das câmaras municipais, tem para resolver todas as situações Porque nós vamos começar a ter desalojados, vamos começar a ter que retirar pessoas de zonas onde está o mapeamento feito como zonas críticas com alta vulnerabilidade e, portanto, há todo um processo que vai além dos bombeiros. Por isso eu disse que isto é uma operação tipicamente de proteção civil, de gestão de meios, de uma boa coordenação de meios, em que os bombeiros são fundamentais numa primeira linha para o salvamento de vidas e para a retirada de pessoas, mas que é preciso depois encontrar um conjunto de mecanismos que possam, nos casos menos graves, conseguir resolver, por exemplo, o escoamento de águas ou mesmo a utilização de vias alternativas que têm que ser orientadas, porque vai ter que haver um esforço suplementar das forças de segurança, senão não conseguimos ter a mobilidade necessária nem para o socorro, nem para que as pessoas façam a sua vida mínima, que naturalmente têm que fazer.
António Nunes, e a quem compete essa coordenação toda, inclusivamente, a decisão de colocar ou não apoios militares também da estrutura militar nesta operação, é a Autoridade Nacional de Proteção Civil?
Exatamente, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, e naturalmente que existindo quer os municípios, quer também uma estrutura distrital de proteção civil, eu julgo que está no momento de nós ponderarmos a ativação destes instrumentos, que devo dizer que muitas das vezes se tem alguma dificuldade política de assumir que estes instrumentos são fundamentais para uma boa gestão. Porque, por vezes, cria-se um mito de que ativando determinado tipo de instrumentos, que se cria uma sensação de desconforto nas populações. Ora, esses instrumentos são fundamentais, estão previstos na lei e, portanto, todos nós esperamos que haja a possibilidade de os colocar em funcionamento o logo possível e que se façam as convocações necessárias para os órgãos próprios de gestão de emergência sejam colocados em funcionamento, como a Comissão Municipal de Proteção Civil, como a Comissão Nacional de Proteção Civil e as Comissões Distritais, se houver necessidade disso.
Miguel Miranda, mesmo para fechar este explicador, imagino que o contacto com a Autoridade Nacional de Proteção Civil seja permanente da parte do IPMA, não é?
Permanente. Durante a noite, penso que nunca parou. Não só com o Comando Nacional de Proteção Civil, como também com as autoridades municipais de proteção civil, que mantêm sempre connosco um contacto muito próximo.
Portanto, aquele diagnóstico que fez há pouco para os próximos dias, obviamente que é do conhecimento de todas essas autoridades que deverão estar no terreno.
É do conhecimento de todas as autoridades, com tudo o que tem de certo e tudo aquilo que tem de incerto. Agora, neste momento, a única hipótese que nós temos é termos uma atitude precacionária e, portanto, preparar-nos para o pior e esperar o melhor.
Muito bem, Miguel Miranda, António Nunes, obrigado a ambos pela presença neste explicador. Obrigado.
Obrigado.
Obrigado.