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Começa agora um Explicador Extra. Estamos a olhar para os estragos do mau tempo depois da tempestade da semana passada e de mais uma noite de muita chuva e também vento. Para isso convidamos para estar conosco André Sousa, o presidente da Câmara Municipal da Batalha. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
André Sousa, bom dia. Obrigado pela disponibilidade para estar conosco. Começávamos só por fazer um ponto de situação na Batalha, como está o fornecimento de eletricidade, de água e de comunicações?
Olá, muito bom dia. Obrigado também por este convite. A nível de fornecimento de água, nós temos o sistema todo montado na íntegra. Não quer dizer que não tenhamos falhas em algumas localidades, muitas delas ainda abastecidas por geradores, nos pontos críticos de fornecimento e abastecimento de águas, mas, regra geral, o sistema está a funcionar. A eletricidade é efetivamente o mais crítico. Uma das freguesias do nosso concelho ainda continua inicialmente sem eletricidade. E no centro da vila, a freguesia mais populosa, também parte da população ainda está sem eletricidade. Eu diria que 40% a 50% de todas as casas ainda continuam sem eletricidade, que é efetivamente o ponto mais crítico que temos a assistir.
Em alguns serviços mais críticos, esta questão da eletricidade está a ser resolvida com recurso a geradores ou também faltam esses equipamentos?
Não. Efetivamente, nós a nível de geradores temos bastantes. Obviamente, não os podemos ligar à corrente elétrica sem que a linha esteja integralmente montada, porque não dá para fazer. Estamos a colocar geradores nas localidades que não têm eletricidade, nas associações locais, para que as pessoas tenham um sítio onde possam lavar a louça, a roupa, possam carregar os telemóveis, possam ter algum contacto também com os vizinhos. Tem sido essa a nossa estratégia. Também já abrimos as escolas, do apoio escolar do primeiro ao sexto ano, não na componente letiva, mas para que os pais possam ter uma solução, deixar os filhos e ir trabalhar. Do primeiro ao sexto ano.
E ao nível das comunicações, nos primeiros dias houve grandes dificuldades, houve populações isoladas, pessoas que não conseguiam ter acesso às redes de comunicações. Como é que a situação se encontra neste momento?
Não foram só as populações. As populações não tiveram comunicações nenhumas, nós também não tivemos. Tive que me deslocar a um concelho para conseguir falar com as entidades governamentais, porque efetivamente não tinha qualquer forma de comunicar. Elas já voltaram, ainda continuam algo instáveis em algumas localidades, mas de forma geral, já estão a funcionar neste momento. Também já temos aqui uma antena móvel da SIRESP, que também está a dar esse apoio para que as nossas forças de segurança, proteção civil e bombeiros também consigam fazer o seu trabalho.
Neste momento, não há povoações que estejam isoladas. Também houve muitas estradas intransitáveis nos primeiros dias, logo após a tempestade. Neste momento, isso já não acontece.
Neste momento, não acontece, não temos qualquer tipo de aldeia isolada. Logo, a nossa maior prioridade foi limpar os caminhos florestais, linhas principais de acesso. Não quer dizer que não haja duas ou três estradas que ainda estejam impedidas com as centenas ou milhares de árvores que caíram no nosso concelho. Efetivamente, os estragos foram muito grandes, mas não temos qualquer tipo de aldeia isolada.
E desalojados, André Sousa. Há desalojados neste momento no concelho da Batalha?
Tivemos três no primeiro dia, que encontraram logo solução familiar. O que está a acontecer é que nós, os nossos voluntários e a equipa da Câmara Municipal estamos a ir ao terreno todos os dias, ver as situações mais críticas e já identificámos casas que não têm condições para habitação por causa dos estragos que tiveram e estamos a começar a desalojar essas pessoas e a encontrar alternativas, sobretudo pessoas idosas. Efetivamente, as casas já não tinham muitas condições e agora não têm condições nenhumas. Diria que há 10 a 12 pessoas desalojadas neste momento.
Qual é, neste momento, a sua maior preocupação e aquilo que encontra, dentro de tudo isso que requer cuidados, obras e atenção, que requer mais cuidado da parte do município?
Nesta fase, o que nós pretendemos é começar a reconstruir o nosso concelho. Estivemos numa parte de reação, agora estamos numa fase de planeamento. E no planeamento precisamos efetivamente de recursos para começar a construir as nossas casas, começar a construir as nossas empresas que tiveram danos e prejuízos de milhões, começar a construir as nossas associações, muitas delas tiveram os seus pavilhões completamente destruídos, para começar a ter alguma normalidade. Mas só conseguimos essa normalidade se efetivamente conseguirmos restabelecer a eletricidade, que é essencial. As pessoas neste momento estão desesperadas. Já vamos no sexto dia sem qualquer tipo de eletricidade e as pessoas começam efetivamente a entrar em desespero. Efetivamente, com toda a razão.
E tem alguma previsão, neste momento, da Erredes ou da Ren, em relação à reposição integral da eletricidade?
Temos trabalhado muito em conjunto com eles, as nossas equipas, em conjunto também com o Exército, temos fuzileiros no nosso concelho. Estamos a limpar tudo o que é caminhos florestais para que o trabalho da Erredes seja facilitado na reposição da rede. Vou hoje ter uma reunião com o secretário de Estado da Energia e também com o diretor da Erredes. Vamos tentar saber o ponto de situação, mas neste momento não tenho qualquer previsibilidade.
E André Sousa, já há uma ideia dos prejuízos para as empresas, do número de empresas afetadas pela tempestade e o que isso poderá significar? Refiro-me, claro, ao concelho da Batalha.
Eu não consigo quantificar ainda, nem as empresas conseguem quantificar. Ainda não tivemos essa capacidade de fazer esse apuramento. Mas posso dizer uma coisa: eu acho que o governo esteve muito bem em lançar este pacote de medidas de apoio, mas eu acho que todos temos que perceber uma coisa. Este evento que aconteceu na nossa região de Leiria, sobretudo, foi um evento extraordinário. São poucos os exemplos na Europa de eventos semelhantes E de um nível de destruição semelhante ao que aconteceu na nossa região. E por isso, eventos extraordinários precisam de apoios e medidas extraordinárias. E por isso eu diria que a nível do apoio às empresas, as linhas de financiamento já lançadas pelo governo, acho que são um excelente ponto de partida, mas acho que as empresas precisam de apoios a fundo perdido, porque a questão do endividamento vai aumentar o endividamento e ainda vai dificultar mais a vida.
Portanto, a abertura de linhas de crédito de apoio a estas empresas não é suficiente, no seu entender?
Eu acredito que é um bom ponto de partida. Eu acredito que temos que evoluir para, efetivamente, apoios a fundo perdido para as nossas empresas, porque ainda vamos dificultar mais a vida das nossas sociedades funcionais nesta questão do endividamento. Obviamente que as linhas que estão previstas já é um bom ponto de partida, vem financiamento. Obviamente que estas também serão bonificadas, mas acredito que temos que caminhar para os apoios a fundo perdido, até porque acho que temos uma vantagem, não só nos apoios para as empresas, mas também do apoio para as próprias autarquias, que vamos ter e estamos a ter custos significativamente elevados, que se trata dos fundos europeus. Temos aqui uma enorme oportunidade do Portugal 2030, onde temos também fraca execução do programa, e ao conseguir utilizar essas verbas do Portugal 2030 para a reconstrução da região, estamos também a ajudar a execução e a ajudar a não ter que devolver esses fundos à União Europeia. Podemos ter aqui uma boa relação de win-win.
E André Sousa, independentemente dos apoios, nota que há capacidade instalada na construção para acorrer agora a estas necessidades de empresas e de habitações?
Diria que sim. A nossa região, o Conselho da Batalha, em pormenor, tem dezenas e centenas de empresas de construção com capacidade e com vontade de ajudar. Aliás, elas já estão a ajudar-nos no terreno, na própria limpeza das ruas. Se for hoje aos armazéns a esta hora, na Câmara Municipal da Batalha, já estão as empresas do Conselho a chegar para conseguir ajudar na limpeza. E não falo só de empresas do Conselho da Batalha, empresas de Braga, que nos estão a ajudar na reconstrução do nosso Conselho. Por isso eu acredito que a região e o próprio país está preparado para nos ajudar na reconstrução desta região. Acho que não vai ser por fraca capacidade do setor empresarial que não vamos ter condições para reconstruir esta nossa região.
Um dos pontos negativos apontados também logo desde o início foi o falhanço dos sistemas de comunicação de emergência, do SIRESP. Como é que as coisas aconteceram na Batalha? Houve falhas graves no sistema de comunicações?
Não, é questão de haver falhas graves. Efetivamente, o sistema falhou. A antena do replicador de sinal ficou embaixo. Eu contactei logo no primeiro dia o secretário de Estado da Proteção Civil, que estou totalmente de abertura, e depois conseguimos efetivamente que ele conseguisse montar aqui uma antena móvel, no primeiro dia junto do quartel dos bombeiros, julgo que ela agora foi transferida para um ponto mais alto. Ela está em funcionamento, ainda com alguns pontos críticos, mas está em funcionamento, mas efetivamente no primeiro dia funcionou até por volta das 11h00, mas a partir daí deixou de funcionar.
André Sousa, não sabemos se o pior já terá passado, provavelmente sim. Agora que há mais tempo para pensar e para respirar um pouco, olhando agora para a última semana, como é que olha para a nossa capacidade, a nossa enquanto país, enquanto Conselho da Batalha também, articulação com os outros níveis dos poderes públicos, a nossa capacidade para reagir a estes eventos que, dizem os especialistas, vão ser cada vez mais frequentes.
Eu acho que nós temos uma capacidade enquanto povo português, todos sabemos disso, de desenrasca. E nós efetivamente temos essa capacidade de desenrasca no terreno e desde a primeira hora, todas as forças, Proteção Civil, bombeiros, Câmara Municipal da Batalha, empresas, conseguiram falar entre si e começar a fazer cada um o seu trabalho. Acho que isso correu efetivamente muito bem. Agora temos que ter a capacidade de planeamento. A capacidade de reação já passou. Temos que ter a capacidade de planeamento. Isso é o que nós precisamos de fazer agora, até para preparar os próximos eventos futuros que, muito provavelmente, e como os meteorologistas assim o dizem, vão acontecer com cada vez mais frequência.
Mas essa capacidade de planeamento passa por uma coordenação a nível nacional ou mais autonomia a nível local?
Eu acho que temos de dar a nós, região, essa capacidade, porque nós estamos no terreno, nós conhecemos os problemas, e nós é que vamos ter a capacidade de reação no momento e de planear eventos futuros, tendo em conta o que aconteceu no passado. Nós temos a certeza, e todos os autarcas da nossa região, temos a certeza o que nós aprendemos com este evento. E por isso, nós tivemos a capacidade, e se as estruturas a nível nacional, eu não falo aqui, obviamente, em regionalização, longe disso, mas se as estruturas locais, comunidades intermunicipais, municípios tiverem mais meios para agir, mais meios para decidir, eu acredito que seja esse o caminho para combater este tipo de situações, que serão sendo situações localizadas em determinado tipo de território. Desta vez foi a região de Leiria, depois pode ser a região de Lisboa, depois pode ser a região do Porto. Têm de ser as regiões, as próprias regiões a conseguir dar essa resposta, que é o que acontece na prática, com o apoio do Estado central. Temos que ter essa autonomia.
Os municípios já são agentes da Proteção Civil.
Claro.
E os presidentes da Câmara têm especiais responsabilidades nisso. Acha então que deve ser diminuído o braço nacional para reforçar o braço municipal?
Eu diria que sim. Não estou a dizer que o governo agiu mal, acho que o governo agiu muito bem, aumentou o estado de calamidade, mas efetivamente há uma distância muito grande entre o Estado central, como bem sabemos, desde o 25 de Abril, até a proximidade local. Ou seja, a distância é grande entre as localidades e a capital. E por isso eu acredito que eventos locais, respostas locais com suporte nacional, mas precisamos efetivamente mais.
André Sousa, presidente da Câmara Municipal da Batalha, muito obrigado pela sua participação neste Explicador. Um bom dia e bom trabalho.
Bom dia, obrigado.
Muito obrigado, bom trabalho.