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E só agora ligou o seu rádio. Seja bem-vindo no explicador das manhãs 360. É hoje nosso convidado, o virologista da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e também diretor do Instituto de Investigação do Medicamento, João Manuel Brás Gonçalves. Bom dia e muito obrigada por se juntar a nós na Rádio Observador.
Bom dia. Um prazer. Obrigado pelo convite.
O gosto é nosso. Hoje, dia 2 de setembro, assinalam-se seis meses desde que foi identificado o primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Muito mudou desde então. Mais de 58 mil pessoas ficaram infectadas, 1824 morreram. João Manuel Brás Gonçalves, passados seis meses, que análise faz do modo como Portugal lidou com a pandemia?
Eu penso que Portugal lidou de uma forma exemplar. Apesar de termos ainda alguns restos de infecção e alguma subida mais recente, eu penso que nós fomos dos países que melhor lidamos com esta situação. Eu penso que a rapidez com que nós atuamos foi fundamental para conseguirmos, pelo menos, não ter uma exacerbação de dados como em outros países.
E além da rapidez, também a estratégia seguida. Parece que foi tudo há muito tempo, mas não foi assim há tanto tempo, falava-se na altura do alisar a curva, isto é, tentar ir distribuindo os infectados que inevitavelmente iam aparecendo ao longo do tempo para não sobrecarregar o SNS. Foi esse basicamente o essencial da estratégia?
Eu acho que sim. Os prognósticos depois do jogo-
São sempre mais fáceis, claro.
Mais fáceis. Na altura, a decisão foi sempre difícil, porque estávamos perante uma pandemia que não tínhamos ainda tido este tipo de experiência. Sabíamos de outras pandemias, sabíamos que era necessário, como se dizia, achatar a curva, mas achatar a curva tinha um problema. Eu penso que as pessoas também perceberam um bocadinho isso, que foi: quanto mais achatamos a curva, mais ela se vai distribuir no tempo. E, portanto, todas estas infecções que ainda temos, é um resultado de uma curva que foi se achatando e era impossível ela ser eliminada na totalidade. Portanto, eu acho que a estratégia foi boa. Se calhar, não foi dada toda a informação necessária na altura, mas foi o melhor que se fez.
Mas desconheciam-se ainda também muitos fatores na altura. Mas ao longo destes seis meses surgiram alguns avanços neste combate à pandemia, como por exemplo, no tratamento da doença. Muito se aprendeu a lidar com a doença nos hospitais, principalmente nessa fase mais crítica. Estes avanços já permitem garantir que os hospitais não voltem a entrar em rutura. Não é que em Portugal tenham propriamente entrado nessa rutura, mas em muitos países entraram. Os avanços que fomos tendo nos últimos meses podem evitar que esse cenário se repita?
Eu penso que sim. Vamos entrar agora aqui em outubro, novembro, uma época que é clássica para o início das gripes. Vai haver, certamente, muita gente que vai ter gripe e que vai pensar que está infectada com Covid. Vamos ter aqui um afunilamento, se calhar, das pessoas a querer ir ao hospital e perceber se é um Covid, se é uma gripe. Eu penso que haverá o risco de haver algum congestionamento nos hospitais do ponto de vista do diagnóstico, não do ponto de vista do tratamento. Eu penso que nós nos últimos seis meses avançamos de uma forma tremenda do ponto de vista clínico e do ponto de vista virológico, imunológico e mesmo epidemiológico. E portanto, nós criamos aqui um conhecimento não só da forma de conter todas estas disseminações do vírus, mas fundamentalmente de como é que conseguimos identificar as vias de transmissão. E isso foi uma coisa que, ao princípio, não tínhamos esse conhecimento. Era muito interessante ver as discussões que se tinha em todo lado, como é que este vírus se transmitia. E portanto, não tínhamos esse conhecimento. E uma coisa que evoluímos muito nestes seis meses, e as pessoas podem ficar cientes e descansadas acerca disso, é que realmente, do ponto de vista epidemiológico, sabemos como é que ele se vai disseminar e sabemos as vias de transmissão. E isso vai ser mais fácil de conter estas novas infecções.
E aproveitando o conhecimento que temos agora, passados estes seis meses, se tivesse que escolher dois ou três pontos que poderiam ser melhorados para os próximos seis ou para os próximos 12 meses, o que apontaria?
Eu acho que há aqui um ponto que foi essencial. Eu acho que ganhamos imenso nisso. As pessoas podem ter esta noção que quanto mais testes nós fazemos, mais número temos de infectados. Isso do ponto de vista de números, fica sempre mal na fotografia, mas do ponto de vista epidemiológico, acho que esse é um ponto fundamental. E eu acho que aí ganhamos muito face aos outros países. Eu acho que as pessoas esquecem muito, e a história tem que ser repetida, que nós fomos dos primeiros países a fazer mais testes. E com isso nós conseguimos identificar rapidamente quais são as vias de transmissão. As pessoas esqueceram isso, esqueceram que Portugal foi o segundo país da Europa com mais testes feitos. E eu acho que isso tem que se manter. Se eu escolhesse aqui um ponto ou alguma essência de todas estas formas de atuar Contra esta pandemia, eu diria que os testes e a forma como nós massivamente começamos a fazer os testes, não só do ponto de vista privado, nos hospitais, mas eu gostaria de aqui recordar o esforço que foi feito pelas universidades. E eu sou professor de uma universidade e director de um instituto que, no fundo, entrou nesta guerra de fazer testes massivamente, de forma a podermos controlar esta disseminação. Eu escolheria esse ponto como o ponto essencial que foi realizado e que se deve manter durante este inverno.
Portanto, pra continuar. João Manuel Bragança de Salves, e em termos de tratamento da doença, não temos vacina ainda, nem sabemos quando é que a vamos ter, mas o que se evoluiu nestes seis meses, das pessoas que chegam aos hospitais e que têm que ficar por lá para receber tratamento?
Há pouco perguntou-me quais eram os pontos principais. Eu acho que aqui a questão dos testes foi bastante importante, mas há aqui algo extraordinário que as pessoas não sabem bem, mas clinicamente e cientificamente evoluímos em seis meses como nunca evoluímos noutro tipo de doença. Pode-se dizer os prós e os contras de tudo isto, mas o que nós evoluímos em termos de saber tratar estas doenças, do ponto de vista clínico, foi tremendo. Ou seja, testou-se mais combinações terapêuticas em seis meses do que, se calhar, em qualquer outra doença em vários anos. E com isto, qual foi o ponto que chegamos? Neste momento, nós temos vários protocolos terapêuticos que mostram que são capazes de diminuir, numa percentagem muito baixa, as mortes nos hospitais. Eu acho que temos aqui, identificamos claramente várias estratégias, ouvimos falar de vários medicamentos, mas clinicamente, hoje, é muito mais lógica a terapêutica do que era há seis meses.
E, portanto, é possível reduzir essa mortalidade. Falava já há pouco dessa preparação do inverno que se aproxima. As autoridades de saúde estão a fazer isso mesmo, a preparar esses meses de outono e de inverno. Quais devem ser as principais preocupações?
A minha preocupação, neste momento, são duas preocupações. Uma se calhar mais abrangente, que são as infecções, provavelmente múltiplas ou infecções de gripe que podem ser confundidas com Covid-19 e que vai levar, claramente, as pessoas a quererem ir aos centros de saúde, fazer testes, ir aos hospitais. E há aqui o risco de um congestionamento a esse nível. E eu acho que era muito importante que houvesse aqui uma política de rastreio de testes, tal e como foi feito anteriormente.
Mas testes mais rápidos, talvez.
Mais rápidos, exatamente. Eu acho que nós tivemos essa capacidade de massivamente fazer esses testes. Os testes mais rápidos já começam a existir, mas mesmo os que nós fazíamos são importantes. Eu acho que uma boa preparação para este inverno seria manter o mesmo grau de atenção que tivemos anteriormente. Depois, há a questão que as pessoas estão muito preocupadas hoje em dia, que são as reinfecções, pessoas que provavelmente já tiveram a Covid-19 e que poderão voltar a ter. Eu penso que os relatos que têm vindo a público podem ser alarmantes, mas eu gostaria de reafirmar que não são tão alarmantes assim. Quando nós ouvimos falar no mundo inteiro em 24 milhões de infecções e só temos cinco ou seis casos confirmados de reinfecções, eu acho que esse aspecto vai acontecer. As pessoas devem ficar atentas, devem manter o seu grau de distanciamento, de proteção, mas essa não deve ser a maior preocupação. A maior preocupação deve ser exatamente evitar o congestionamento dos sistemas de saúde com esta confusão que pode haver entre a gripe e a Covid-19.
E se a isso acrescentarmos uma possibilidade de segunda vaga, como já está a acontecer em Espanha. Qual é o cenário que nos pode esperar se tivermos uma segunda vaga em Portugal?
Mais uma vez, eu acho que a roda está inventada, acho que não vale a pena inventarmos muito mais, que é fundamentalmente toda esta proteção e toda esta forma que todos nós já colocamos na nossa vida de nos protegermos, em primeiro lugar. Segundo, a questão dos testes. Para mim é fundamental e eu tenho alguma preocupação e gostaria de deixar aqui alguma preocupação. Eu não vejo, neste momento, falar-se em novamente voltarmos a testar muito. E, portanto, eu tenho essa preocupação que politicamente não se ouve falar nessas questões. Eu acho que deveríamos manter a receita que tivemos anteriormente, que era testar até conseguirmos encontrar todos esses focos de infecção e isolarmos esses focos. Eu acho que isso era manter aquilo que tínhamos feito. Tivemos um trabalho excelente a esse nível e devemos manter.
E acha, por aquilo que sabe que se está a passar no terreno, que estamos a aligeirar um pouco essa estratégia inicial, então, de testar muito?
Olhe, eu aqui na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, fizemos quase 20 mil testes em três meses, quando foi o pico da pandemia. Vinte mil testes. Nem de longe estamos a fazer a mesma coisa agora. Significa que não estamos a ser solicitados.
Estão a fazer quantos neste momento?
Neste momento, quando nós estávamos a fazer, se calhar, 8 mil, 9 mil por mês, agora estamos a fazer 600 ou 700.
Por mês?
Por mês.
10% daquilo que fizeram já.
Exatamente. Eu não vou dizer que isto seja sintomático, mas já é um alarme que talvez estejamos a aligeirar um pouco. É apenas um centro, mas se multiplicarmos isto por 20 ou 30 centros ao longo do país, se calhar vão ter todos a mesma imagem.
A solicitação partia-vos de onde?
Partia-nos dos lares, partia-nos das comissões intermunicipais, das autarquias. Os próprios hospitais continuam a pedir-nos, mas toda esta parte social deixou de pedir. Fundamentalmente os lares e fundamentalmente as autarquias tiveram esse interesse muito grande em maio e junho, mas depois aligeiraram um pouco. E isso preocupa-me um bocadinho.
Olhando ainda para o inverno e para essa possibilidade de conciliar dois vírus e duas doenças, a gripe comum e a Covid-19 em simultâneo nesse inverno, tendo em conta o número recorde de vacinas contra a gripe que são esperadas para Portugal. Tendo em conta também o elevado número de medidas de segurança sanitária, é expectável que este ano, olhando para a gripe comum, que essa doença seja menos severa?
O que nós pretendemos com a vacina, e eu penso que a estratégia de termos massivamente uma vacinação contra a gripe no inverno, é exatamente que os sintomas da gripe não se confundam com os sintomas do Covid-19. Ou seja, esta questão da vacina leva-nos a uma preocupação maior de antecipar qualquer foco de infecção do Covid, de modo a que não tenhamos esses problemas. Agora, do ponto de vista mais prático, eu penso que as vacinas da gripe não vão aligeirar o Covid-19. Aliás, vão é tentar separar o que é o Covid-19 das infecções da gripe, mas não vai ser uma panaceia para o Covid-19.
Pode evitar confusão de sintomas, não é?
Exatamente. Eu acho que a estratégia é essa e não o próprio a tentativa de utilizar a vacina da gripe para o Covid-19.
João Manuel Brás Gonçalves, estamos mesmo a chegar ao fim do nosso tempo, mas só uma questão. Há pouco já falámos da segunda vaga em Espanha. Acha que em Portugal é inevitável mesmo, e devemos estar preparados para isso, para uma segunda vaga? Isto é, para regressar a números de contágios, eventualmente de óbitos semelhantes àqueles que tivemos no pico da pandemia cá?
Eu, sinceramente, e voltava novamente a esta mensagem que eu tentei transmitir.
A testagem.
Exato. Se nós mantivermos a mesma receita que tivemos anteriormente, eu acho que não vamos chegar a esse ponto, porque já conseguimos isolar e saber bem as vias de transmissão. Mas politicamente nós sabemos que estas coisas variam. E, portanto, a minha mensagem final é: se mantivermos tudo aquilo que fizemos bem e otimizarmos, não vamos chegar a esses números, certamente.
O médico virologista da Faculdade de Farmácia e diretor do Instituto de Investigação do Medicamento, João Manuel Brás Gonçalves, no Explicador de hoje. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigado.
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