Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa em que destacamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Hoje conto com a análise de João Albuquerque, é especialista em Relações Internacionais. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador, obrigado por ter aceitado este nosso convite. João Albuquerque, vamos começar com a situação no Médio Oriente que envolve também os Estados Unidos, que alertaram os aliados para se prepararem para uma eventual retaliação do Irão, isto caso a ação militar norte-americana seja retomada após as eleições intercalares que estão para breve. João Albuquerque, isto é sinal de que esse ataque já estará mesmo a ser preparado por parte dos Estados Unidos?

Olá, boa noite, José Rafael e boa noite aos ouvintes da Rádio Observador. Não será muito difícil antecipar a ideia de que os Estados Unidos podem mesmo atacar o Irão a curto prazo, eventualmente até depois das eleições. Aquilo que eu tenho mais dúvidas é depois do fator de retaliação que os Estados Unidos agora parecem alertar e a possibilidade do Irão se virar para a Europa ou para o continente europeu como forma de retaliação sobre um eventual ataque americano. Isto porque a Europa tem tido uma postura bastante ponderada neste conflito, teve uma postura de não interferência na maior parte daquilo que foi o posicionamento da maior parte dos seus Estados, sem oferecerem sequer grande respaldo às ações militares americanas. E, portanto, eu acho que essa hipótese de que a retaliação do Irão se vire para a Europa ou tenha um impacto mais direto junto dos parceiros europeus é pouco provável. Agora, sem dúvida de que um Donald Trump numa situação eventualmente ferido por via dos resultados das eleições americanas e sem alguma definição do que é que poderá vir a fazer politicamente nos tempos que se seguem, perante uma guerra que se tenderá a prolongar no tempo, pode eventualmente colocar em cima da mesa um ataque mais letal, mais violento às infraestruturas iranianas e com isso, de certa maneira, despoletar novamente uma reação por parte do Irão.

E há aqui já essa preocupação para o que pode fazer Teerão como uma retaliação.

Sim, eu acho que essa retaliação será sempre na base daquilo que o Irão entendeu como ser a sua arma mais estratégica, as duas neste caso, que é por um lado o estrangulamento econômico, que tem infelizmente, como todos temos sentido no nosso cotidiano, resultado muito bem e, portanto, este estrangulamento que levou ao aumento do preço dos produtos petrolíferos tem resultado muito bem em favor do Irão. E a segunda é através da retaliação junto dos aliados americanos na região, através de ataques a estruturas militares americanas ou de países aliados dos Estados Unidos na região, e com isso, de certa maneira, criando um efeito dissuasor e continuando a demonstrar que o Irão tem capacidade de prolongar o conflito no tempo, contrariamente àquilo que eventualmente os Estados Unidos podem ter pensado seria as suas capacidades militares e até a sua capacidade de resistência perante uma ofensiva militar que do ponto de vista do armamento, da força, da capacidade de mobilização é muito superior da parte dos Estados Unidos.

Entretanto, ainda sobre esta questão, a Rússia apresentou-se hoje como um possível mediador das negociações entre o Irão e os Estados Unidos. É uma hipótese a ter em conta, João Albuquerque, e o fato dos Estados Unidos e a Rússia terem fechado um acordo no que diz respeito aos combustíveis joga a favor aqui do Kremlin e de Vladimir Putin?

Eu acho que é quase impossível não haver um sorriso de escárnio em relação a essa possibilidade e até mesmo àquilo que nós percepcionamos como sendo esta proximidade entre os Estados Unidos e a Rússia. Eu acho que em qualquer outro cenário que não o de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos da América, a possibilidade de haver um entendimento, uma proximidade e até uma mediação de qualquer uma das partes em relação ao conflito em que o outro está envolvido, seja neste caso concreto a Rússia a mediar o conflito entre o Irão e os Estados Unidos, seja os Estados Unidos a mediarem um conflito entre a Rússia e a Ucrânia, pareceriam sempre hipóteses de um cenário quase de ficção científica ou de uma realidade paralela àquela que nós habitualmente estávamos habituados a viver. E, portanto, eu acho que isto é uma proposta que roça de certa maneira o ridículo, no sentido em que ela não tem muitas pernas pra andar. A Rússia está ela própria envolvida num conflito para o qual não consegue ter uma saída evidente e óbvia. E, por outro lado, eu acho que do ponto de vista da própria percepção política internacional, os Estados Unidos cairiam num embaraço muito significativo se permitissem que fosse Vladimir Putin ou alguém ligado ao seu núcleo mais duro a mediar um conflito e a arranjar uma solução de saída para os Estados Unidos. Eu acho que isso do ponto de vista político seria desastroso para o presidente americano e para aquilo que era a percepção quer internacional, quer até interna de alguns dos seus aliados atuais.

Vamos também falar aqui um pouco sobre as eleições de Israel, um cenário bastante particular que está a acontecer após as eleições legislativas. Entretanto, de hoje surge também a informação de que o Qatar rejeita qualquer tipo de acusação de interferência nas eleições. O Irão também está envolvido nesta polêmica com uma posição diferente. Que leitura, João Albuquerque, podemos fazer desta situação?

Sim, essa negação categórica da parte do Qatar de interferência nas eleições é muito importante e obviamente resulta da incerteza vivida neste momento em Israel por conta dos resultados. Os resultados ainda não estão totalmente apurados, mas aquilo que parece indicar é que, de facto, a confirmação de que os dois blocos, quer o de Netanyahu, quer o da oposição da Yesh Atid, estão muito próximos em termos de número de lugares que poderão obter e o desempate ou eventualmente aquele que poderia ser o bloco que permitiria a qualquer um dos lados formar uma maioria e governar, seja por via direta de apoio, seja eventualmente por via de uma abstenção ou do não bloqueio da formação do governo de um dos lados, seriam os partidos palestinianos, os partidos árabes em Israel. E isso coloca obviamente muitas dificuldades a qualquer um dos blocos. Mesmo o bloco da Yesh Atid, que tem alguns partidos de centro, centro-esquerda, é difícil fazer essa leitura ideológica tão tradicional como aquela que nós vemos na Europa, que estariam mais dispostos a incluir esse bloco árabe palestiniano nas suas coligações, nem todos os partidos desse bloco da Yesh Atid partilham dessa mesma visão e, portanto, não é claro que isso fosse possível mesmo que houvesse abertura de algumas das partes. Do lado do Netanyahu isso é ainda mais improvável, para não dizer mesmo impossível, uma vez que do bloco de Netanyahu fazem parte partidos com sentimentos e com visões em relação à própria sociedade israelita e do ponto de vista das relações internacionais e externas de Israel, com uma visão muito antagonista em relação aos parceiros da região e com uma visão em Gaza que é bastante conhecida, começando pelo ministro da Defesa e as expressões que foi exprimindo ao longo do tempo relativamente a Gaza, à introdução da pena de morte, etc., que tornam quase impossível essa aliança. Portanto, é um cenário muito difícil e que eu acho que, neste caso, beneficiará Netanyahu. Netanyahu tentará prolongar e protelar ao máximo a possibilidade de formação de um novo governo, porque isso lhe permitirá arrastar-se no tempo enquanto primeiro-ministro em exercício e se a situação de instabilidade se prolongar, eventualmente tentará beneficiar desta situação de caos para reforçar a sua posição eleitoral nas eleições que terão que ser obrigatoriamente convocadas de acordo com a legislação israelita e tentar nesse outro momento obter a maioria que desta vez não conseguiu garantir.

Daqui a pouco vamos falar também sobre uma situação que envolve o Canadá e a União Europeia, mas antes disso, João Albuquerque, gostaria também de ter o seu ponto de vista sobre o facto de Pete Hegseth demitir um tenente-general norte-americano por alegadamente ter divulgado informação classificada sobre as guerras do Irão e da Ucrânia à comunicação social. O que é que isto nos diz sobre a segurança nos Estados Unidos?

É mais um sinal. Não é tanto o sinal definitivo, mas é mais um sinal daquilo que tem sido, no meu entender, uma gestão absolutamente desastrosa por parte de Pete Hegseth. Pete Hegseth é um secretário da Guerra, era secretário de Defesa, mas o secretário da Guerra após a renomeação do seu próprio ministério, muito fragilizado, que não é do ponto de vista estratégico nem do ponto de vista tático alguém a quem se reconheçam credenciais e um passado de ligação aos serviços de informação americanos ou até ao próprio conhecimento da máquina militar americana e é, no meu entender também, um dos grandes responsáveis pela impreparação ou pela incapacidade de leitura que os Estados Unidos demonstraram no início do conflito com o Irão. Nós sabemos muito bem que Benjamin Netanyahu andava há muitos anos a tentar arrastar os Estados Unidos para uma guerra, para um conflito aberto com o Irão, nunca tinha conseguido e conseguiu nesta administração, no meu entender também porque há uma fragilidade neste ministério, neste ministério da Defesa, ministério da Guerra, que deriva do facto de Pete Hegseth não ser uma figura com força suficiente para liderar aquilo que é uma grande máquina, uma grande indústria militar americana, como todos sabemos. E, portanto, esta revelação agora de mais uma fuga, ainda por cima com consequências bastante sérias, não nos podemos esquecer que Pete Hegseth já tinha estado envolvido naquele escândalo relativamente à partilha de uma operação militar por WhatsApp ou por uma rede de mensagens social, é mais um sinal de que, de facto, há neste momento uma grande impreparação por parte da cúpula e da liderança militar americana que eu acho que nos deve preocupar a todos, porque os Estados Unidos estão obviamente envolvidos em conflitos de uma forma direta ou indireta e, portanto, ter este nível de impreparação é, de certa maneira, algo preocupante e assustador.

João Albuquerque, vamos também falar de Ursula von der Leyen, que hoje defendeu a associação do Canadá à União Europeia, mas para já sem falar em adesão do país aos 27. Este é um cenário possível? Faz sentido esta entrada soft do Canadá na União Europeia sem se falar aqui em adesão?

Eu diria que von der Leyen está aqui a pisar gelo muito fino. Traduzirei aqui diretamente a expressão do inglês, mas está a pisar gelo muito fino no sentido em que as conclusões que saíram da reunião dos embaixadores europeus não foi de apoiar consensualmente a ideia de estabelecer este princípio de associação de que von der Leyen fala e ao mesmo tempo porque foi a própria presidente da Comissão Europeia que primeiro falou desse eventual estatuto quando proferiu o discurso do Estado da União, aparentemente, segundo as notícias que depois vieram à tona logo nos dias que se seguiram, sem ter consultado os Estados-membros, sem ter consultado as capitais e sem ter delas obtido uma validação clara de que poderia haver possibilidade de a União Europeia avançar para este princípio de associação com o Canadá. Ao mesmo tempo, e acho que isto é inegável e que não nos pode também desviar daquilo que é talvez o essencial, há a necessidade da União Europeia de reforçar as suas alianças e as suas parcerias estratégicas com o Canadá, quer do ponto de vista energético, quer do ponto de vista da cooperação em termos de valores, em termos de defesa de uma ordem internacional que neste momento parece ter poucos aliados, para os quais parece ter poucos aliados neste momento a nível mundial, e tentar aproveitar aqui esta janela de oportunidade enquanto decorrem as eleições intercalares americanas, enquanto os Estados Unidos estão concentrados num esforço militar muito significativo, a União Europeia tentar aproveitar esta janela de oportunidade que também é fornecida por esta divisão americana e pelo facto de os Estados Unidos, impensavelmente ou de certa maneira quase inacreditavelmente, terem demonstrado grande hostilidade em relação ao seu vizinho mais estável e mais fiável. E, portanto, obviamente, o Canadá tem muito interesse também nesta proximidade com a União Europeia, seja ela de que figura vier a assumir no futuro.

E é com esta ideia que chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra. Contámos com a análise do especialista em Relações Internacionais João Albuquerque, a quem agradeço a disponibilidade. O Gabinete de Guerra regressa amanhã à Rádio Observador. Este e todos os programas ficam disponíveis em podcast.