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Está no ar o Explicador das manhãs 360, hoje com a antevisão ao debate das rádios, que começa daqui a 20 minutos. São convidados do Explicador de hoje os jornalistas Pedro Benevides e António Costa. A moderação deste Explicador é do Luís Soares. Bem-vindos, Pedro e António. Um bom ano para os dois neste que é a contagem decrescente para o debate das rádios, que começa daqui a cerca de 20 minutos e que vamos transmitir aqui em direto também na Rádio Observador. Pedro, começava por ti, tentar perceber quem é que chega melhor e pior a este debate à oito.

Bom dia e bom ano para todos os que nos estão a ouvir e para o António, para ti também, e para o João.

E para o João.

Depois desta declaração que ouvimos, que na verdade foi um artigo que foi escrito pelo presidente da Assembleia da República sobre a forma como os candidatos estão a portar nesta campanha, eu diria que há muito poucos que saem particularmente bem, sobretudo aqueles que estão na linha da frente. Nós já falámos disto aqui nalgumas edições, por exemplo, do Vencedor, é sobre como António José Seguro tem estado a beneficiar desta guerra de lama entre Gouveia e Melo e Marques Mendes. Isto para falar sobretudo dos candidatos que estão na linha da frente. Portanto, eu diria que quem parte com mais vantagem, do meu ponto de vista, para este debate, precisamente porque não tem entrado propriamente por esse caminho, é António José Seguro, e eu acho isto uma coisa surpreendente. Eu não diria que à beira de começarmos a campanha eleitoral que António José Seguro partisse com esta vantagem, porque ele não tem sido o candidato mais galvanizador desta pré-campanha. Acontece que, tal como dizia Aguiar Branco, o que os candidatos têm feito não é aquilo que mais abona a favor deles e a favor da classe política. E eu acho deprimente nós chegarmos a esta altura e estarmos a antecipar um debate, que é aquilo que eu imagino que vai acontecer, em que as trocas de acusações que têm acontecido entre uns e outros, em particular mais de alguns candidatos relativamente a outros, vá continuar. E eu acho que isto não é bom nem para a nossa democracia, nem para a classe política em geral, que já de si tem trabalhado às vezes para não se credibilizar junto à opinião pública. Mas ver candidatos presidenciais usarem este período, não para se venderem como o candidato ideal para ocupar aquele espaço, mas para apontar o dedo e dizer: "Este senhor provavelmente é criminoso." Porque no fundo é isso que nós temos visto desta campanha. E portanto eu diria que António José Seguro é quem tem capitalizado mais com este estado de coisas, que é um estado de coisas deprimente e infeliz. Eu diria que Marques Mendes, porque tem sido alvo de grande parte das insinuações, e sobretudo Gouveia e Melo, que começou como o poster das vacinas nesta corrida presidencial, ainda antes de se assumir como candidato, e chega a esta altura como o homem que mais distribui lama pelos seus adversários ou pelo seu adversário mais direto. Portanto, eu diria que melhor António José Seguro, pior, por razões diferentes, Marques Mendes e Gouveia e Melo.

António, concordas com esta análise do Pedro?

Sim, genericamente sim. Este é, devo dizer, um debate importante porque é um debate de antecâmara para a campanha. E obviamente marcado pelo que aconteceu nestes debates televisivos. Vamos lá ver. Eu creio que António José Seguro e também, acrescento aqui, João Cotrim Figueiredo, acabam por chegar aqui com um potencial de subida. Embora eu precise reconhecer, quem falou primeiro nos temas de transparência de Marques Mendes foi João Cotrim Figueiredo, mas ainda assim em modo muito diferente daquele que foi trazido para esta campanha presidencial, modo muito diferente de Henrique Gouveia e Melo. Ainda assim, eu creio que são dois candidatos com um potencial maior. Maior neste debate em concreto e veremos depois para a campanha. Por contraponto, Henrique Gouveia e Melo e a Marques Mendes, eu devo acrescentar aqui num parêntesis, sendo um debate a oito, há uma espécie de uma primeira divisão e uma segunda divisão. E sobretudo, o que é interessante, a segunda divisão está toda à esquerda. Eu olhando para este figurino entre esquerda e direita, diria que este debate vai servir, por um lado, para António José Seguro reforçar o voto útil e será para isso que servirá seguramente este debate do ponto de vista de António José Seguro, é garantir ou forçar ou potenciar essa capacidade de buscar votos à esquerda, nomeadamente a Catarina Martins, António Filipe. Eu acho que obviamente essa vai ser uma aposta. Do lado centro-direita, a dúvida será se Gouveia e Melo vai manter, como dizia o Pedro, ou não este registo de ataque. A verdade é que hoje mesmo saiu uma entrevista de Henrique Gouveia e Melo ao Sol. Enfim, nós sabemos os títulos foram feitos pelos jornalistas, é uma evidência, mas se os jornalistas que entrevistaram Gouveia e Melo Consideraram que aquele é o melhor título e a melhor informação que está naquela entrevista. Obviamente que se percebe que o Gouveia Melo vai manter o registro de ataque duro e direto, e provavelmente até mais duro e direto a Marques Mendes sobre os temas do seu passado profissional. Hoje, o título fala de umas escutas que teriam apanhado Marques Mendes a falar e alegadamente a pedir meter umas cunhas por alguém. Ora, isto não indicia, no dia de hoje, com esta manchete, que Henrique Gouveia Melo vá mudar o registro. Também é preciso dizer uma coisa. Vamos lá ver. Este debate, e vocês dois sabem obviamente mais disso do que eu, porque têm experiência de rádio, é um debate em que a substância acaba por ser mais importante do que a imagem, que numa televisão tem obviamente um peso muito significativo, muito relevante, mas também é verdade que exige maior assertividade, porque senão, ainda por cima ao oito, mensagens muito redondas e muito consensuais podem se perder. Se calhar não passarão. É preciso agarrar o ouvinte e aí Marques Mendes tem esse desafio dividido em dois. Por um lado, veremos como vai resistir ou como é que vai responder a Gouveia Melo e claramente naquele debate televisivo não estava preparado para aquilo e não soube responder. É uma evidência, já o disse no vencedor, creio que os dois perderam por razões diferentes naquele debate. Mas desta vez, para lá desse desafio, convém, como estavas agora mesmo a observar, que não se perca, isto é, para o próprio, um discurso, e António José Seguro aí também tem esse desafio, para um discurso de rádio, que seja um discurso de rádio que comece e acabe mensagens de uma forma clara e afirmativa para que os eleitores saibam ao que vão.

Pedro, no sentido disto que o António estava a dizer, nós não sabemos quais são exatamente os temas nem as perguntas deste debate, mas imaginando que este não vai ser um dos temas de perguntas, haverá algum destes candidatos, Marques Mendes ou Gouveia Melo, que poderá vir a puxar este tema para o debate.

Peço desculpa, deixei de os ouvir.

Não sei se estás a ouvir ainda, António. Eu penso que o António não nos está a ouvir, vamos tentar resolver já, mas Pedro, não sei se percebeste a minha pergunta, ou seja, no fundo tentar perceber se algum deles poderá vir a chamar este tema, por exemplo, Marques Mendes para se defender desta entrevista de que falava o António, se é um assunto que eles poderão vir a trazer para cima da mesa.

Eu tenho a certeza de que esse assunto virá à baila, até porque Marques Mendes ainda ontem reagiu rapidamente ainda à notícia, digamos, não estava disseminada porque ainda não se tinha visto de forma genérica a capa d'O Sol, e já Marques Mendes estava a desmentir aquela notícia, porque efetivamente aquele título que lá está é um título perfeitamente enganador. António, eu acho que tu estás a usar técnicas de candidatos presidenciais que é interromper constantemente as pessoas que estão a falar. Eu acho que isso não te fica bem, António. Não estou a ouvir o António.

Estás a ouvir-nos ou não, António? Bom, António.

Eu cá estarei para te dar o contraponto se entretanto voltares a interromper. Com todo o gosto, vamos a isso. O que eu dizia é que aquele título desta entrevista ao Sol é enganador no sentido em que ele refere-se a uma situação de 2016 que tinha a ver com uma empresa que trazia doentes líbios para serem tratados em Portugal e a sociedade de advogados de Marques Mendes estaria envolvida nisso e foi apanhado numa escuta a fazer piadas sobre: "Era bom que eles viessem mortos, é que não pode ser, é bom que não sei o quê." A escuta naturalmente é infeliz, mas naturalmente os intervenientes não deveriam saber que estavam a ser escutados na altura em que estavam a fazer aquelas piadas de mau gosto. De qualquer forma, não houve desde 2016 até agora nada nessa investigação que incriminasse Marques Mendes. Ele não foi sequer arguido, não foi nada, foi num processo que chegou a envolver o ex-ministro Miguel Macedo, foi um processo muito complexo. Quando Gouveia Melo traz para esta entrevista aquela declaração, o que ele está a dar a entender é que Marques Mendes estava interessado em trazer doentes líbios para Portugal para ele próprio ganhar dinheiro. Ou seja, é um título perfeitamente enganador, é novamente a atirar lama. Não vimos Gouveia e Melo a desmentir rapidamente essa entrevista, como ele fez, por exemplo, quando houve a notícia da Lusa sobre a interpretação que foi feita na Lusa de que ele seria candidato por causa de Marcelo Rebelo de Sousa. Não vimos até agora nenhuma reação nesse sentido, e teve tempo de o fazer, tanto que Marques Mendes reagiu e desmentiu esta notícia. E portanto, nem que seja do ponto de vista da defesa de Marques Mendes, eu tenho quase a certeza, posso estar enganado, mas tenho quase a certeza que esse assunto, mesmo que indiretamente, virá à baila nesta entrevista, porque isto tem sido a prática corrente de Gouveia Melo. Eu tenho muita curiosidade em perceber qual é que vai ser a eficácia eleitoral desta postura que ele tem adotado nesta fase, porque ele é um homem completamente diferente daquele que apareceu aos eleitores quando ainda nem sequer concorria. E, portanto, eu tenho mesmo curiosidade em ver que efeito é que isto terá nos eleitores, este homem que agora não é o salvador da pátria que coordenou todo o processo da vacinação, é um político que não tem qualquer problema em descer até ao nível da lama. Enfim, eu ia fazer aqui uma metáfora, mas é melhor não, mas eu tenho mesmo muita curiosidade em perceber qual é que é o efeito que isto terá. Agora, há uma questão que eu acho que também é interessante nós analisarmos: que tipo de coisas é que os candidatos, agora genericamente, irão dizer neste debate? Porque nós vimos aqui o período dos debates em duas fases. Uma fase em que todos eles pareciam candidatos a primeiro-ministro Em que falavam sobre soluções para o país, etc. E depois esta fase em que começaram a disputar quem é o menos criminoso deles todos, o que não é brilhante. Nem uma, nem outra são brilhantes, porque por um lado, estão a falar de funções que não serão as deles, por outro, estão a conspurcar a classe política e isso também não é bom para a democracia. Mas olhando, por exemplo, para a mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa, ele que citou Eça de Queiroz, aquilo que eu acho que fica daquela mensagem é que Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se àquele clube de Eça de Queiroz, que juntava outros escritores que eram os vencidos da vida. É uma mensagem profundamente desiludida com a incapacidade que ele próprio teve de mudar o que quer que seja, apesar de todos os discursos, apesar de todas as influências, apesar de todas as tentativas de consensos, apesar de tudo aquilo que nós vamos ouvindo os candidatos presidenciais sobre a importância do papel presidencial, aquilo que nós vemos, olhando para a última mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa, é que efetivamente o presidente em Portugal tem poderes muito limitados e pode ter um sonho para o país, nós ainda não percebemos qual é que é o sonho destes candidatos, mas podem até ter um sonho para o país. A questão é o que é que vão fazer com isso, tendo em conta que vão lidar com governos, esses sim, com poderes verdadeiros do ponto de vista da mudança estrutural do país, se quiserem assim usá-los. E, portanto, eu tenho muita curiosidade em perceber o que é que eles vão dizer para convencer, um: os eleitores a votar neles, dois: a explicar aos eleitores o que efetivamente eles podem fazer para mudar o atual estado de coisas.

O certo é que faltam cerca de seis minutos para começar o debate. Ainda falta chegar dois candidatos, André Ventura e António José Seguro. António Costa, Govena e Melo será quem está mais pressionado a ter uma boa prestação neste debate?

Sim, claramente, do ponto de vista da primeira divisão, como eu sublinhava há pouco, claramente Govena e Melo é o que chega a este debate em piores condições e obviamente nós sabemos, por uma gestão de expectativas, começou muito em cima, acabou por perder mais do que provavelmente se esperaria e seguramente ele próprio. Eu devo acrescentar, só para arrematar este tema da transparência, até ao ponto que sublinhava o Pedro, que arrisco dizer que será o próprio Luís Marques Mendes a querer clarificar logo na sua primeira intervenção e a marcar o tom para não prolongar a ideia que ficou do último debate com o Govena e Melo de que não sabe responder ou não tem a resposta consistente às acusações sobre o seu passado político. Há um dado também aqui que vamos ver. É curioso, nós estamos aqui a falar há 10 ou 12 minutos e ainda não falámos de André Ventura. Enfim, isto diz alguma coisa, talvez, da força, não quer dizer uma menor força, mas enfim, do menor domínio mediático de André Ventura nas últimas semanas, talvez, por força, mesmo com aquele episódio que ele tentou capitalizar com os catados, mas que também durou 24, 48 horas. Veremos, também vai ser interessante o posicionamento de André Ventura neste debate, porque, por exemplo, neste debate, ao contrário de outros, muito ruído não é mais clareza, nem mais informação, porque não passa necessariamente. E, portanto, muitas impressoes, a estratégia de debate para o um contra um, como numa televisão em que as pessoas estão a ver o debate, estão a acompanhar ao vivo, ouvir e a ver, é muito diferente. E André Ventura, facto do ponto de vista mediático, nas duas últimas semanas, por comparação, por exemplo, com Henrique Govena Melo ou Marques Mendes, ou até João Cotrim Figueiredo, tem estado menos presente, diria, percebe-se. E a dúvida é se vai continuar a olhar e a marcar a estratégia deste debate para segurar e para consolidar o seu eleitorado natural, se vai arriscar ir a outros eleitorados. Eu diria que, mesmo para terminar, eu acho que obviamente este debate vai, para cada um deles, marcar o tom do que vai ser a campanha nos próximos seis dias. É sobretudo para isso, certo, eles não vão falar, o Ismael Fernandes dizia há pouco, são duas horas de debate, mas tudo somado são oito com quatro jornalistas, não vão falar muito mais tempo do que falaram nos debates televisivos em meia hora. Portanto, para cada um deles, o que nós vamos perguntar, e essa é a pergunta que vai ser o testo argum para servir para a avaliação deste debate, é uma ideia de cada um deles. Se chegamos ao fim deste debate e algum deles, ou alguns, não marcarem a sua presença com uma ideia, duas ideias, uma já era bom para cada um deles, é porque terão falhado a oportunidade deste debate das rádios, que é obviamente muito importante.

Pedro, estamos a dois minutos e meio do início do debate muito rapidamente. Só para terminar, André Ventura estará aqui numa estratégia de ter um eleitorado mais ou menos certo e não estar muito preocupado em ir mais além, sendo que nesta altura já estão todos os candidatos presentes para o debate e portanto vai começar daqui a dois minutos.

Eu acho mesmo curioso a posição de André Ventura quando entramos aqui mesmo na campanha eleitoral. Ele que seria o candidato que mais águas iria agitar, que toda a gente diria que era o que estava mais apto a fazer este tipo de campanha suja que temos visto, tem estado estranhamente discreto. Ele começou agressivo e depois foi baixando o tom. Eu acho que isto tem a ver com várias razões. Uma delas é porque ele obviamente não quer ser a estrela desta campanha, porque ele não quer correr o risco de ser eleito presidente da República, naturalmente. Quer aproveitar a campanha eleitoral como tem sempre aproveitado para fazer campanha por ele próprio, pelo Chega, e para solidificar o seu eleitorado e eventualmente chegar a outros eleitorados, não necessariamente para estas eleições. E isto é uma razão. Segundo, eu acho que ele, eventualmente, isso foi-se vendo até pela forma relativamente cordial como tem tratado a Govena e Melo. Eu acho que ele eventualmente vê em Govena e Melo um possível ímã para algum do seu eleitorado numa eventual segunda volta, não sei. Também não sabemos se André Ventura não vai chegar à segunda volta, o que já de si seria uma vitória para ele e acho que era basicamente o máximo que ele queria almejar nesta campanha, até porque as sondagens não lhe dão grandes hipóteses contra nenhum dos candidatos com quem pode vir a correr à segunda volta. Agora, eu acho que é curioso de notar, e este debate vai ser clarificador nesse sentido, que é perceber exatamente qual é que é a posição, como é que André Ventura entra nesta campanha, se vai ser o André Ventura que nós conhecíamos, hiper agressivo, usando todas as técnicas, as altas e as baixas para fazer política, ou se vai ser mais cordial e isto significa qualquer coisa.

Pedro Benevides, António Costa, obrigado pela antevisão a este debate. Bom dia. Obrigado por esta antevisão ao debate que vai começar daqui a instantes. Debate em simultâneo na Rádio Observador, Antena Um, TSF e Rádio Renascença.