Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Fatoumata Dialllo conquistou esta quarta-feira a medalha de bronze nos 400 metros barreira, nos Europeus de Atletismo, em Birmingham, no Reino Unido. A atleta portuguesa entrou para a pista com uma frase na cabeça: "Matar ou morrer". Bem-vinda, Fatoumata Dialllo, aqui à Rádio Observador. Como é que descreve o momento em que percebeu que tinha conquistado a medalha?
Como é que eu descrevo o momento que eu recebi a medalha? Eu descrevo esse momento que finalmente realizou-se, que a medalha está no pescoço, que eu consegui. O sonho tornou-se realidade.
Era um dos objetivos para estes Europeus?
Claro, sim, era mesmo 100% um dos objetivos. Não queria meter limite nos meus sonhos. Não queria meter nenhum limite. Sonhar o mais alto possível e ir o mais longe possível.
A Fatoumata conseguiu esta medalha numa modalidade que é particularmente difícil, exigente, 400 metros barreira em apenas 53,55 segundos, que é também novo recorde nacional. Como é que se chega a este nível? Como é que foi a preparação para chegar aqui?
Como já tinha repetido várias vezes, acho que a conversa é a mesma. Como eu disse, foi muito sacrifício, muito trabalho, suor, ácido lático, mas sobretudo muita dedicação.
O sacrifício, consegue dar-nos exemplos do que teve de abdicar, do que teve que deixar para treinar, para se empenhar?
Tive que me mudar longe de toda a gente da minha família, longe da Europa, para tentar alcançar esse objetivo. Desde dezembro, mudei-me para os Estados Unidos para treinar com o novo treinador. Ou seja, deixei a minha família, os meus amigos, ir mais para os Estados Unidos, estava sozinha lá. Você sabe, quando está sozinha, tem muitos pensamentos negativos, maus pensamentos, bons pensamentos positivos, muita concentração. Porque lá nos Estados Unidos é treino, casa, treino, fisio, casa. Acabas por ficar fechada com o mundo, não tens mais esta oportunidade de estar com a família ou estar com os amigos. Ou seja, mudei-me longe de toda a gente para poder conquistar e representar Portugal o mais longe possível e mostrar aos portugueses que tudo é possível, que se os outros conseguem, nós também conseguimos.
Isso realmente deve ser muito difícil. A Fatoumata tem 26 anos, começou no Clube Oriental de Pechão, em Olhão, nasceu na Guiné Conacri e na sua vida teve de ultrapassar muitas barreiras para conseguir chegar até aqui, não foi?
Sim, eu até dizer isso diria mais fácil, mas as pessoas que me conhecem mesmo, realmente, que me mandam mensagem de onde vim e onde estou agora, fazem-me lembrar esses momentos muito difíceis que tive no passado, que já estive quase a desistir, mas nunca deixei de acreditar em mim. Os meus amigos também estiveram lá, nunca deixaram de acreditar em mim. E não vou mentir que o meu passado não é nada cor-de-rosa.
No fundo, cresceu nos primeiros anos sem os seus pais, que já estavam em Portugal. E a Fatoumata ainda estava na Guiné Conacri, é isso?
Sim, desde os meus cinco até aos meus 12 anos, eu cresci sem os meus pais. E depois mudei-me para Portugal quando eu tinha 12 anos e aí é que comecei a fazer o atletismo. Mas também quero dizer que não me arrependo de nada deste passado que eu tive, porque graças a isso fiquei madura, saber o que eu quero realmente na vida, que ajudou muito. Não vamos dizer que é um obstáculo, vamos dizer que aprendemos a crescer como mulher.
Falava há pouco da solidão que sentiu nos Estados Unidos neste pré-treino. Como é que foi a vinda para Portugal ainda em criança, com 12 anos? Era muito jovem. Como é que foi essa chegada a Portugal?
A minha chegada em Portugal, não falava nenhum português, tinha que me adaptar, colégio, ver pessoas completamente diferentes do que eu costumava ver lá na África. Mas eu sou uma pessoa que não tem medo de mudança, adoro. Desde que eu esteja feliz, que me leve para longe, eu não tenho medo de mudanças.
Não resisto a fazer-lhe a pergunta. Nós aqui falamos na Rádio Observador muito de política. Como é que a Fatoumata olha também para esta discussão em curso sobre a imigração, a política de imigração, o discurso às vezes muito extremado. Como é que olha para tudo isto?
Sinceramente, não vou mentir, não conheço nada de política, não vejo coisas de política, sinceramente. Peço desculpa, não sei responder esta pergunta.
Então vamos pensar já nos Jogos Olímpicos de Los Angeles?
Sim, vamos pensar. Já pensei nisso. Já estou ansiosa para o ano que vem. O meu treinador está ansioso, estou ansiosa para começar a preparação para o ano. E quem sabe, sonhar uma medalha nos Jogos. Não vamos ter limites, tudo é possível.
Claro.
Vamos lá, queremos isso. Trabalhamos por isso, sofremos por isso. E vamos. Eu quero, posso, consigo.
E foi em Los Angeles que Carlos Lopes ganhou a primeira medalha de ouro para Portugal nos Jogos Olímpicos. Pode servir de inspiração.
É uma inspiração. Por que não mais uma? Vamos. Tenho certeza que esta nova geração, esta nova equipa que está a sair destes campeonatos, acho que podem sonhar com a gente, que nós vamos conseguir. Queremos muito e muita gente vai surpreender. Somos um país pequenino no desporto, no atletismo em Portugal, mas acho que estamos a conseguir. Toda a gente está a sair muito bem.
E já agora, só aqui uma curiosidade, tem andado com a medalha ao peito ou está guardada?
Já andei com ela ontem, já guardei. Agora tenho que me concentrar com a estafeta, que temos a estafeta amanhã com a equipa. Mas ela está guardada no coração e na memória.
Muito obrigado, Fatoumata Dialllo, que esta quarta-feira conquistou a medalha de bronze nos Europeus de Atletismo. Muito obrigado e boa sorte agora para a estafeta.
Obrigada a você pelo vosso tempo. Obrigada. Vamos dar tudo. Estejam atentos também.
Muito obrigado.