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No Explicador de hoje da Rádio Observador é nosso convidado Miguel Coelho. É economista, especialista em finanças e professor universitário. Muito bom dia, Miguel Coelho. Obrigado por se juntar a nós.
Muito bom dia, eu é que agradeço o convite.
Vamos falar neste Explicador deste que é um equilíbrio difícil entre as medidas sanitárias de controle da pandemia e também a própria economia nacional. Numa entrevista conduzida por Carla Jorge Carvalho, Judite França e Paulo Ferreira.
Miguel Coelho, bom dia. Publicou no início desta semana um artigo no Público, onde faz a comparação entre a abordagem portuguesa e a abordagem sueca, que é o país que é apresentado sempre como contraexemplo, até porque a Suécia teve regras de confinamento muito mais leves na primeira vaga e também teve mais mortes na primeira vaga. Será que as autoridades suecas conseguiram, na sua opinião, o melhor equilíbrio nesta conjugação entre pandemia e economia?
O artigo que eu escrevi no Público teve fundamentalmente como objetivo alertar os leitores para abordagens alternativas a este combate à crise e à pandemia. Portanto, esta ideia de que temos o modelo que é o modelo de excelência e Portugal visto como um extraordinário exemplo naquilo que é o equilíbrio entre o combate à pandemia e o combate à crise, parece-me que tem se um bocadinho deslocado daquilo que é a verdadeira realidade. E, portanto, o objetivo do artigo foi fundamentalmente isso. Obviamente que a Suécia teve numa primeira fase, aliás, os responsáveis suecos reconheceram que naquilo que foi o combate à pandemia, fundamentalmente nos lares de idosos, a primeira abordagem foi uma abordagem errada e eu acho que eles, em certa medida, também corrigiram as medidas e foram fundamentalmente mais progressivos e mais responsabilizantes daquilo que é a atitude individual. Ou seja, eles constataram num primeiro momento que era impossível manter medidas muito duras durante um período muito longo e, portanto, eles foram graduando e hoje têm medidas mais restritivas, seguramente, do que as que tinham no início da pandemia, mas evitaram certo cansaço da população.
Mas mesmo assim, os números de ontem mostram um novo recorde de contágios.
É verdade, mas se nós olharmos para os dados de hoje, Portugal tem 335 mil infectados. A Suécia tem 312 mil.
Mesmo número de população, mais ou menos.
A população é praticamente a mesma. É óbvio que eles têm 7300 mortos e Portugal tem 5300 mortos, mas esses mortos suecos, em excesso face ao caso português, resultam fundamentalmente da primeira fase da pandemia. Se olharmos para os dados desde o início do mês de novembro, Portugal teve entre 1 de novembro e 7 de dezembro, 2500 mortos, e a Suécia teve 1275 mortos. E há aqui um aspecto muito importante que tem sido negligenciado. Nós temos focado o combate do ponto de vista da saúde pública, eu não sou especialista em saúde pública e, portanto, falo apenas enquanto leitor e observador desta realidade. Nós tivemos um excesso de mortes em Portugal face àquilo que seria o resultado do Covid, de 12 mil mortes.
Está a falar também do excesso de mortes extra Covid.
Nós temos excesso de mortes explicados pela Covid de 12 mil mortos. A Suécia tem aproximadamente 6 mil mortes em excesso. Portanto, o que se revela aqui é que, no caso português, nós focamos todo o nosso combate na questão do Covid, negligenciando todos os outros doentes. Aliás, essa realidade tem sido sucessivamente omitida ao longo dos meses. Só hoje, nos últimos dois meses, é que se começa a falar dos efeitos colaterais de termos o Serviço Nacional de Saúde completamente alocado à questão do Covid. É óbvio que não há aqui doentes de primeira e doentes de segunda. Há uma questão de pandemia, obviamente que é uma questão que nos preocupa a todos. Eu não defendo teses negacionistas. A pandemia, o Covid, é um problema real. Agora, quando nós politizamos o combate no âmbito de um problema de saúde pública, eu julgo que vamos no mau caminho.
O que o Miguel Coelho está a dizer é que tem havido uma espécie de pensamento único em relação à abordagem à pandemia e que a Suécia será o país que o terá quebrado de alguma forma, é isso? Porque a estratégia portuguesa tem sido a estratégia de mais ou menos dos restantes países da União Europeia.
É óbvio que há aqui, depois, questões políticas e ninguém tem a coragem de desafiar aquilo que é o mainstream.
Olhando para o caso do Reino Unido, que começou também com uma estratégia de aposta em comportamentos individuais e acabou por fazer lockdowns mais duros do que os nossos
Vamos lá ver uma coisa. Obviamente que cada caso é um caso, mas nós começamos com uma atitude de confinamento total de toda a economia como sendo a solução para o problema da pandemia. Em março, estávamos todos contentes porque nos íamos confinar todos em casa, íamos fechar todas as atividades e ninguém teve a coragem de dizer que é preciso ter aqui alguma capacidade de gerir de uma forma mais diferenciada em função dos problemas concretos. Nós estávamos a confinar uma aldeia no Alentejo com 10 pessoas, da mesma maneira que estávamos a confinar um bairro suburbano da capital de Lisboa, onde as pessoas vivem em condições miseráveis. Nós estávamos a ter uma política única para problemas que tinham natureza diferente. Do ponto de vista económico, a mesma coisa. E nessa altura, ninguém foi contra o pensamento único.
Miguel Correia, mas será que o desconhecimento que ainda havia nessa altura sobre a forma de propagação do vírus e seu impacto não justificariam um pouco essas medidas mais radicais e mais cegas, de alguma maneira?
Eu aceito que num primeiro momento houvesse uma medida muito drástica como a que foi tomada. Agora, prolongar-se isso. Não foram 15 dias, não foram três semanas, foram dois meses num confinamento quase absoluto. E nós tínhamos a experiência de há 100 anos da gripe espanhola. E o que é que ouvimos aqui? Num primeiro momento, confinamento total, nada de máscaras. Depois, no verão, porque havia conveniência e percebeu-se que era insustentável do ponto de vista econômico, vieram dizer: "Afinal, podemos ir de férias, podemos ir pra praia, mantenham alguma distância, sejam responsáveis." De repente, em outubro, eram as máscaras. As máscaras eram a solução e vamos andar todos de máscara. Agora voltamos ao confinamento. E este rumo não é seguramente um rumo com base na ciência. Este rumo é um rumo de conveniência política. E não é só do governo português, é do governo inglês, do governo francês. Nos Estados Unidos, a mesma coisa, no Brasil, a mesma coisa. A política sobrepõe-se àquilo que é a evidência científica e algum bom senso.
Já agora, Miguel, que intenção é que atribui aos políticos, em Portugal e noutros países, que tomam essas decisões? Isto é, por que eles não seguem mais a ciência? Que interesse político, se quiser, é que está na origem dessas decisões?
Porque a ciência não muda diariamente. A ciência obriga a uma estratégia, a um pensamento longo prazo. A ciência não se altera porque o partido da oposição vem reclamar medidas diferentes. A ciência é algo de robusto e que tem os seus tempos, há o tempo da ciência e o tempo da política. Mas vamos lá ver uma coisa, há aqui também outros aspectos. Nós temos que fazer um equilíbrio entre aquilo que é a ciência do ponto de vista da saúde pública e aquilo que é a realidade econômica. Porque aquilo que está a acontecer, na realidade, é também um impacto severo na economia, de uma dimensão com efeitos do ponto de vista da situação concreta de cada um e com efeitos de longo prazo na saúde, por via econômica.
Vamos então abordar agora mais essa parte econômica, que aliás, é o seu expertise principal. Olhando pra questão das últimas medidas de confinamento e de recolher obrigatório, nomeadamente a questão que diz respeito, por exemplo, aos restaurantes. Estas medidas fazem-lhe sentido?
Houve um determinado momento, no início do verão, que foram dados sinais aos restaurantes: "Vocês adaptem-se, façam alterações na vossa estrutura de funcionamento, adquiram material, façam o que tiverem que fazer, transformem os vossos restaurantes num espaço seguro." E as autoridades vieram dizer: "Os portugueses podem estar descansados porque podem ir aos restaurantes, porque hoje em dia os restaurantes são espaços seguros." Seis meses depois, os restaurantes são espaços inseguros. Em que é que ficamos? Há aqui um problema que é de consistência naquilo que são as medidas. E nesse sentido, eu acho que tem que haver consistência nas medidas e essa consistência tem que se basear também em ciência. Não me parece que se um restaurante era seguro para abrir no verão, não será seguro, respeitando determinadas medidas, para abrir durante uma tarde de sábado. Obviamente que haverá, seguramente, alguns conselhos onde a situação exige medidas adicionais. Não é isso que está em causa. Mas parece-me que uma generalização, como está a ser feita hoje em dia, ainda que com alguma diferenciação, não seja o caminho correto.
E estamos a falar de uma economia muito dependente do turismo. Estas áreas precisavam de outro tipo de estratégia?
Exatamente. Esta pandemia vai originar três mudanças estruturais Todos nós ainda não temos consciência da dimensão das mesmas. Ainda não há uma consciência geral sobre a dimensão e são mudanças a três níveis. Em primeiro lugar, acelerou-se, obviamente, a transformação digital da economia e penalizou-se o quê? Os setores da indústria e serviços mais tradicionais. Ou seja, o mundo que vamos ter daqui a três, quatro, cinco anos vai ser completamente diferente daquele que tivemos há um ano. Portanto, desse ponto de vista, a economia pode sofrer efeitos severos. Depois, há aqui questões relacionadas com o ambiente e também houve uma mudança de paradigma, na medida em que todos estamos mais conscientes do ponto de vista cívico, no sentido de procurarmos preservar o ambiente. E esta pandemia veio também alterar isso. Mas há aqui uma terceira transformação estrutural que é de uma dimensão severa e que tem a ver com o efeito no funcionamento da economia e nas estruturas sociais e, em particular, no mercado de trabalho. Ou seja, esta nova realidade que surge a partir da pandemia, a aceleração digital, vai criar um mismatch brutal entre aquilo que são os empregos e as competências das pessoas.
Esse desencontro entre a oferta e procura, no fundo, significa, no caso português, o quê? Que vamos ter um desemprego estrutural mais elevado, é isso?
Vamos ter um desemprego estrutural mais elevado, porque aquilo que é a aposta da economia portuguesa está desajustada face àquilo que será a nova realidade. E portanto, nós vamos ter mais desemprego e, ao fim ao cabo, ausência de competências para cumprir aquilo que são os empregos que possam vir a ser criados. E, portanto, esse esforço, esta transição, nós no longo prazo, provavelmente teremos melhor emprego, mas do ponto de vista global, à escala mundial, admito isso, um emprego mais tecnológico, mas a transição entre o curto prazo e o longo prazo é que vai ser o grande drama. E portanto, vamos viver aqui um período longo, em que teremos mais desemprego e teremos aqui um problema que tem a ver com o desajustamento exatamente entre aquilo que são a competência das pessoas e as necessidades do mercado.
Essa transição vai ser dura então entre este curto prazo e o longo prazo. Miguel Coelho, mas olhando agora para este curto prazo e para aquilo que já aconteceu e que nós sabemos que aconteceu na economia nos últimos meses, há pouco nós fizemos no início desta conversa a comparação entre dois ou três indicadores entre Portugal e a Suécia em termos de pandemia, sanitários e em termos económicos. Como é que correu lá e como é que está a correr cá?
Nós tivemos uma quebra muito mais severa do Produto Interno Bruto do que a Suécia. Portanto, só para dar uma nota, no terceiro trimestre do ano, o PIB português caiu 5,7% em termos homólogos, na Suécia caiu 3,5%. Mas mais importante tem a ver com aquilo que se espera. Em 2021, Portugal recuperará 1,7% do PIB, enquanto a Suécia recuperará 3,3%. Sendo certo que para o final deste ano, Portugal cairá em termos de PIB 8,4% e a Suécia 3,2. O que significa que, na prática, a Suécia em 2021 estará aproximadamente na mesma situação que estava em 2019, enquanto Portugal estará com um PIB cerca de 6% abaixo daquele que era o de 2019. E portanto, este é um dado que revela bem a resiliência. É óbvio que do ponto de vista da estrutura produtiva, Portugal e a Suécia são países distintos. Já falámos há pouco da nossa dependência do turismo, mas com o turismo a recuperar, há aqui dois aspetos, e um aspeto muito importante. É que nós falamos em turismo e ao fim ao cabo, a restauração, a hotelaria portuguesa serve também o quê? Não só o turismo de lazer, mas aquilo que é o turismo de negócio. E portanto, nós vamos ter uma quebra brutal. As estimativas são severas, na ordem dos 75% à escala mundial, daquilo que é o turismo por negócio, ou melhor, as viagens de negócio. As viagens de negócio vão cair 75%, aproximadamente nos próximos anos. E essa é uma componente importante daquilo que são as nossas receitas por via da hotelaria e restauração.
Muito bem, Explicador de hoje com o nosso convidado Miguel Coelho. Muito obrigado pelos seus esclarecimentos neste Explicador de hoje.
Eu é que agradeço.
E boa sexta-feira, Miguel. Obrigado.
Sexta-feira e bom fim de semana. Obrigado.
Um abraço.
Obrigado.
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