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Este é o Explicador da Rádio Observador. Esta segunda-feira fazemos o balanço da Jornada Mundial da Juventude com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas. Este Explicador é moderado pelos jornalistas Carla Jorge Carvalho e Miguel Santos Carrapatoso. Bom dia, Carlos Moedas, bem-vindo à Rádio Observador. O senhor está a ser apontado como um dos responsáveis, senão mesmo o responsável pelo sucesso da Jornada Mundial da Juventude. Fica-lhe bem esse título, sente-se confortável com ele?

Eu penso que aqui são os lisboetas e aquilo que eu represento são os lisboetas que tiveram um comportamento absolutamente excepcional. E eu senti isso na rua. Tive o bispo do Burkina Faso em minha casa e ele contava-me as histórias na rua, quando as pessoas o ajudavam, quando pedia informação. E portanto, os lisboetas são os vitoriosos, de certa forma, e os portugueses, e Lisboa aqui como a capital do país. E depois há muitas outras vitórias, as vitórias de uma Câmara Municipal e dos seus trabalhadores e das suas trabalhadoras, que eu acho que temos que enaltecer, no momento em que as pessoas olham muitas vezes com desconfiança para os funcionários públicos, que olham com desconfiança para aquilo que é público. Há aqui um orgulho absolutamente extraordinário de todos aqueles que são os trabalhadores e trabalhadoras da Câmara. E depois, de todos aqueles que à sua volta, falo aqui das forças de segurança a nível nacional, da PSP. Há um momento que eu não me esquecerei. Eu estava atrás do palco e estavam a entrar forças de segurança. Muitos agentes da PSP, eram realmente muito numerosos, e todas as pessoas que estavam ali, os voluntários atrás do palco, começamos todos a bater palmas. E realmente são momentos muito tocantes, no momento em que estávamos ali a bater palmas à PSP, à Polícia Municipal, aos bombeiros, e eles estavam a entrar atrás do palco. E portanto, há momentos que eu vi por detrás de tudo o que aconteceu, que me enchem de esperança e que acho que talvez a maior mensagem de tudo isto é que estas jornadas, para além de tudo, encheram-nos de esperança. E essa esperança que Lisboa foi a capital do mundo, como dizia o Papa, é o momento que muda Lisboa. Ou seja, Lisboa cresceu, os lisboetas crescemos. A posição de Lisboa no mundo ficou agora, sim, mais marcada ainda por este evento. E este evento foi tão diferente.

Mas para isso foi preciso organização e também articulação. Falou da PSP, mas foi necessariamente recorrer à organização entre várias entidades. O que funcionou bem desta vez, que muitas vezes parece que não funciona no país?

Eu penso que foi a questão de estar toda a gente à volta da mesa. As pessoas normalmente trabalham nas suas caixinhas, nas suas instituições e mesmo dentro das instituições, trabalham nos seus departamentos e não falam uns com os outros. E aqui o que eu penso que fizemos, tanto a nível político, entre todas as instituições, o Estado, a Câmara e as outras autarquias. Ouça, eu trabalhei tão bem com o meu colega Ricardo Leão, quer dizer, tivemos um trabalho conjunto, verdadeiramente, que nos deixa também uma marca de amizade entre autarcas, com o Carlos Carreiras, com o Isaltino Morais, com todos eles. E tudo isso foi a capacidade de, por uma vez, esquecermos primeiro partidos políticos, depois, qual era a câmara, que era esta ou que era aquela. Esquecer um bocadinho tudo isso e trabalhar em conjunto. E para isso houve aqui muitos artesãos. Houve o vice-presidente da Câmara, o Filipe Anacoreta Correia, com o David Lopes, com todos aqueles que estavam na câmara e que se abriram a funcionar desta forma com todas as outras instituições. E portanto, acho que trabalhamos realmente muito bem. E os lisboetas estão cheios de alegria. Eu ontem cheguei a casa, esqueci-me das chaves e fiquei sentado à porta de casa. E há uma senhora que para o carro e sai do carro e diz: "Obrigado, Lisboa, obrigado, obrigado por tudo o que fizeram, obrigado". Ou seja, alguém que hoje se cruze com um trabalhador da higiene urbana, com uma pessoa que esteja a varrer na rua e lhe diga obrigado, é algo que vai encher essa pessoa de valorização profissional. E, portanto, nós tivemos aqui um momento que agora não podemos deixar morrer.

Precisamente.

E isso é muito importante.

E era uma das perguntas que tínhamos pra si. Depois desta semana em que, como dizia, algumas áreas mais sensíveis, a questão da recolha de lixo, os transportes, a própria segurança, embora aí de forma diferente, tudo isto ter corrido tão bem, que garantias é que os lisboetas têm de que passada a euforia a Jornada Mundial da Juventude, os mesmos problemas crônicos da cidade de Lisboa não voltarão?

Bom, em primeiro lugar, houve aqui um reforço que se falou muito, mas que foi único em Lisboa. Por exemplo, os bombeiros, há sete anos que quase que não se investia em material. Nós levamos para os bombeiros cinco milhões em material. Aliás, eu ontem vi alguém que dizia que tínhamos aquela máquina que pulveriza a água. Aquela máquina não é pra refrescar as pessoas, ela é pra apagar incêndios. Foi utilizada agora pra isto porque era uma boa maneira de utilizar a máquina que comprámos, aquele robot, mas vai ser utilizado pra muitas outras coisas. E, portanto, repare, nós melhorámos as condições de trabalho Nos bombeiros, na Polícia Municipal, na higiene urbana. E todas essas condições que aproveitámos este evento vão ficar nos serviços da Câmara. Isso é importantíssimo pra valorização das pessoas, pro seu trabalho. E quando eu vi pessoas, por exemplo, alguns dos nossos polícias municipais com a chave da nova moto ou com a chave do novo carro, essa alegria, que muitas vezes na função pública não se tem, porque não se tem material, porque o carro é velho, porque o material é velho. Nós tivemos aqui uma oportunidade muito grande de realmente deixar pra cidade essa marca dentro dos serviços da Câmara, dentro daqueles que trabalham na Câmara Municipal. E tudo isso tem um valor que é intangível. Podemos até aqui dizer quantos milhões foram. Interessa pouco. O que interessa aqui foi o que estas pessoas todas ganharam em termos de autoconfiança.

Mas é preciso fazer contas também no final.

Obviamente, as contas serão perfeitamente transparentes. Aliás, eu fui o primeiro a dizer que só queria ir até 35 milhões. Fui o primeiro a telefonar ao Tribunal de Contas a dizer que eles deveriam escrutinar tudo, que eles o fariam, mas que eu estava completo aberto, porque quando eles quisessem começar a escrutinar, era começar. E depois, como costumo dizer, dei o peito às balas, também darei o peito às balas a alguma falha que tenha havido. Obviamente que houve situações em que quando nós olhamos, houve problemas todos os dias. Se me perguntarem como é que correu, correu muito bem. Houve problemas todos os dias. Eu não sei se vocês se lembram, eu estava na vigília e de repente dizem-me que há um fogo em Monsanto. E eu telefono pro comandante dos bombeiros, e o comandante dos bombeiros diz: "É verdade, há um carro que está a incendiar, nós vamos mandar unidades pra lá". Nós conseguimos fazer, com os melhores bombeiros do mundo, sinceramente, estarmos na vigília e ao mesmo tempo a apagar um fogo em Monsanto. Ainda ontem houve outro pequeno fogo em Monsanto. Imagino o que é as pessoas já cansadas de todo este evento, todos estes bombeiros, imagino o que é ainda estarem a fazer tudo isto. É um orgulho enorme.

Por isso mesmo, quando fala de que muito disto vai ficar pra cidade, houve uma excepcionalidade também esta semana, nomeadamente num esforço de horários de todos os funcionários da Câmara, de todos os agentes que estiveram no local. Isto não é replicável para o resto dos dias.

Obviamente, isto é um evento único nas nossas vidas. Eu penso que nada disto é replicável, mas é uma maneira de mudarmos, de certa forma, a cidade, de mudarmos, de certa forma também, a maneira como fazemos política, como olhamos pra política, e olhar aqui pra este exemplo que nos foi dado de um mundo positivo. Eu acho que a religião aqui, a religião católica, deram realmente uma grande lição. E essa lição é esta positividade que esta juventude, que um milhão e meio de pessoas trouxeram essa energia positiva. E essa energia positiva, pra crentes ou não crentes, teve um impacto enorme. E talvez estejamos a viver nas nossas sociedades momentos tão negativos e não nos damos conta que esse negativo contagia o negativo, que contagia a fricção, que contagia e cria o populismo e o extremismo. E esta lição de positividade, de energia positiva que nos traz a Igreja Católica é importantíssima pro mundo e realmente funciona. O Papa dizia, num dos seus grandes discursos, que a alegria é missionária. Esta noção de contagiar através do positivo, através do querer fazer bem. Os peregrinos, alguém dizia isto, eu já não sei quem foi, mas achei interessante: os peregrinos não se queixam, os peregrinos fazem. Os peregrinos ajudaram as pessoas da higiene urbana a limpar. Os peregrinos quando tinham um problema, ou resolviam, ajudavam o outro. Quando alguém caía, toda gente mandava uma garrafa d'água. Sinceramente, eu tenho 53 anos, nunca vivemos, eu acho que nunca vivemos. Ontem esta senhora que parou ali em frente a mim dizia: "E agora?" E realmente vamos sentir aqui um momento. Primeiro, eu acho que precisamos, porque a Câmara agora precisa continuar a trabalhar no dia a dia, precisamos de manter a cidade, isso foi um esforço brutal. Mas, por outro lado, vamos ter aqui um momento em que agora temos que pensar o que é que queremos como sociedade, o que é que queremos fazer pro futuro, o que é que queremos continuar com atividades nestes jovens, que são realmente aqueles que podem mudar a cidade e podem mudar o mundo. Eu criei o Conselho de Cidadãos um bocadinho nesta ideia, trazer as pessoas que nunca tiveram na política, para construir e fazer cidade. E gostava muito que estes jovens também viessem ajudar neste Conselho de Cidadãos a continuar a fazer cidade. E nós fizemos aqui cidade. Mas fizemos cidade em que sentido? Fizemos 34 hectares de cidade. O Parque Tejo são 34 hectares de cidade verde.

E já sabe que função terá o Parque Tejo?

Olha, eu sei várias coisas. Sei que o Parque Tejo não vai ser imobiliário. Não vou ali fazer nada de imobiliário. O Parque Tejo é pra ser verde, é pra ser sustentável. Tenho muito interesse da parte de promotores de espetáculos, portanto, vamos ver o que é que vamos fazer. Obviamente, vou aproveitar também pra isso, mas isso é pontual, os espetáculos não são todos os dias.

Mas está a pensar no Rock in Rio, por exemplo?

Não estou a pensar em nenhum especial, mas sei que há interesse de todos, porque todos os que lá passaram e viram, tivemos algum contato e disseram: "Isto é maravilhoso".

Não é quente demais? Não chegou à conclusão que ia muito desconfortável no verão estar ali?

Não, quer dizer, as mudanças climáticas e os calores que estamos a viver vão criar cada vez mais desconforto, e isso é algo que o Papa também falou muito nestas jornadas. Mas não há outro terreno como aquele Faço aqui agora um bocadinho de publicidade. Aquilo que temos ali é uma junção entre a água, a terra, a ponte que está ali atrás, com aquela pala extraordinária do palco que vai ficar, que é um movimento orgânico. No fundo, ela não é totalmente geométrica. Temos ali umas condições únicas para qualquer tipo de espetáculo ou qualquer tipo de atividade nesse sentido. Mas mais do que isso, o que eu quero, e já disse aos chefes da Câmara, o que obviamente agora vai criar algum nervosismo, nós temos, assim que aquilo estiver limpo, aquilo está verde, está construído, aquilo tem que ser aberto para as pessoas passearem e andarem por ali.

Isso será quando?

O mais depressa possível. Eu ainda não tive tempo de chegar à Câmara. Portanto, assim que chegar eles vão ter esse aviso.

É só chegar a estrutura e as cadeiras, quer dizer que este verão já se pode passear no parque?

Eu gostaria muito de tentar. Aliás, antes disso tudo, já aquilo estava quase feito. Houve um dia que fizemos várias portas abertas e pessoas que entravam ali, vizinhos, que nem sabiam muito bem o que é que se estava ali a passar, mas diziam: "Que bom!". Então sentavam-se por ali, andavam. Vamos ter uma frente ribeirinha absolutamente extraordinária. Nós vamos ter 60 km de frente ribeirinha, a ponte pedonal, ligando ao meu colega Ricardo Leão, lá de Loures, vai criar um passeio pedonal incrível. Portanto, tudo isso é tão bonito e é tão imediato.

Mas como é que se pode tornar sustentável?

Olhe, ele é sustentável ecologicamente, porque toda a rega é feita através das águas usadas da estação de Baiolas. Portanto, nós nem estamos a gastar água potável na rega daquele parque e isso é muito importante. E é sustentável no sentido que é mais um pulmão verde para a cidade. E hoje as cidades, para além daquilo que fazemos no dia a dia, no urbanismo, em que vamos criando situações, mais árvores, mais verde, nós precisamos de grandes pulmões. Nós temos Monsanto e agora temos ali outro pulmão, que vai ser um pulmão verde incrível. Eu gostava que as pessoas participassem também, com a minha ideia participativa, do que é que podemos, dentro do verde e dentro daquilo que é um parque, tem que ser simples, o que é que podemos ter ali como outros projetos que vão valorizando dentro do verde, dentro das árvores, dentro daquilo que é o projeto. E eu penso que esse é também um dos pedidos do próprio Papa Francisco, porque quando eu lhe referi o que queríamos fazer ali, quando eu lhe referi as águas usadas, tudo isso para ele foi importante. E ele ontem falava da organização, mas disseram-me naquele dia que eu o encontrei, que não houve outras jornadas em que estivessem as pessoas sentadas no verde. As pessoas estavam sentadas na poeira, estavam sentadas no chão, sem nenhuma frescura. E, portanto, foi um momento único. Eu fico tão orgulhoso de o Papa dizer ontem no avião, e eu próprio fiquei espantado, porque uma pessoa como o Papa tem que ter muito cuidado com tudo o que diz. E dizer que estas foram as jornadas melhores, com a melhor organização, é absolutamente extraordinário. Eu tinha já ouvido de vários vaticanistas, de jornalistas, especialistas no Vaticano, que todos me estavam a dizer: "Parabéns, esta é a melhor organização que já vimos". Mas uma coisa é ouvir através dos jornalistas que estão ali ao pé e que sentem e que eles próprios consideravam isso. Mas depois o Papa ontem dizer isto, e sabendo que ele tem que ter muito cuidado com o que diz, porque ao dizer que aqui foi melhor, os outros podem interpretar que noutros sítios é pior, como é que vai para o ano dizer quando for para a Coreia, se já disse que aqui era o melhor. Mas foi consensual, toda a gente achou que estávamos aqui realmente na melhor organização. E portanto, é isso que eu hoje queria aqui deixar. Os agradecimentos são muitos e portanto todos aqueles que nos estão a ouvir, que se sintam agradecidos. Tem sido difícil agradecer a tantos. Ontem tivemos os voluntários em Oeiras e fiquei também muito comovido, porque estes voluntários foram absolutamente extraordinários. Tivemos os embaixadores lisboetas que andaram pela cidade a ajudar as pessoas.

Mas ainda falando sobre o futuro da cidade e o que pode ficar desta jornada, falou-se muito a questão do Bairro da Serafina. Que planos e que calendário tem para a reabilitação do Bairro da Serafina?

Olhe, nós temos hoje em Lisboa, o maior investimento que alguma vez foi feito em habitação na cidade. Com a ajuda da Europa, temos 800 milhões de euros para habitação. Esses 800 milhões de euros vão ser distribuídos pelos vários bairros municipais, em construção, em reconstrução e em reabilitação. E portanto, neste momento estamos a fazer esse trabalho, mas nunca foi feito em Lisboa, nem é comparável. Aliás, houve grandes discussões na altura em que a vereadora Filipa Roseta foi olhar para os números e viu que entre 2010 e 2020 pouco tinha sido construído, poucas casas eram, eram 17 casas por ano. Nós aqui já vamos nas 1200. A construção e a reconstrução que vamos fazer, e aqui, obviamente, eu queria passar a mensagem. O Papa foi ao Bairro da Serafina, mas o Papa está preocupado com todos os bairros municipais. E, portanto, naquele momento Todos se devem sentir representados, porque nós temos 66 mil pessoas em Lisboa que vivem em bairros municipais. E, portanto, aqui não há uma questão de o Bairro da Serafina e os outros. Todos vão ser compensados por um investimento que, graças à Europa, e repito, é bom agradecer à Europa. Aliás, o primeiro discurso do Papa fala sobre a Europa e o papel da Europa. Conseguimos 500 milhões da Europa e na totalidade são 800 milhões até 2026, e todos esses calendários vão ser apresentados e vão ser feitos.

E, portanto, até 2026, não vai haver pessoas em Lisboa sem água, sem luz e sem saneamento.

Sabe, Carla, dizer isso, repare as situações. Nós temos 2 mil pessoas que vivem em condições indignas, com casas totalmente indignas. E temos os números. Nunca ninguém o disse. Cá está, eu dou o peito às balas. Aceito que em Lisboa, agora vou ter que ter tempo para mudar. E eu prefiro, em vez de fazer promessas, fazer como fiz na Jornada Mundial da Juventude, é apresentar resultados. E, portanto, eu estar aqui a dizer que até 2026 não vai haver. Uma cidade como Lisboa, é uma cidade que atrai constantemente pessoas também que vêm de fora. Portanto, há sempre situações difíceis, pessoas em situação de sem-abrigo, que nós ainda este ano investimos sete milhões para essas pessoas. Já temos quase 400 unidades de casas para essas pessoas poderem não estar na rua, mas são situações sempre muito complexas. Mas nunca lhe posso dizer, numa cidade que é capital do país, que vai ter uma situação em que não existem nenhuns problemas. Isso seria mentir às pessoas. Haverá sempre problemas. Agora, que estou a fazer mais do que alguma vez foi feito, isso posso lhe garantir. Agora que em 2026, 27, as cidades são o que são, e sobretudo uma capital. E nós vimos isso durante a pandemia. As pessoas em situação de sem-abrigo aumentaram em Lisboa, exatamente porque muitos também se dirigem a Lisboa. Mas Lisboa é isso, é essa cidade aberta, que vimos também durante esta Jornada Mundial da Juventude, em que, como eu costumo dizer, quem chega a Lisboa é lisboeta e, portanto, é tratado como lisboeta, venha de onde vier. E acho que é essa também a lição que recebemos aqui do Papa Francisco.

Olhando para o antes Jornada Mundial da Juventude, uma semana antes, o Carlos Moedas fazia umas contas por alto, falava do grande retorno econômico que este evento podia ter e previa que cada jovem, cada peregrino que cá visitasse a cidade, iria gastar cerca de 40 a 50 € por dia. Esses cálculos ficam um bocadinho revistos em baixa. Ficamos com a percepção de que não se gastou muito dinheiro, que estes jovens não gastaram muito dinheiro.

Eu não tive essa percepção.

Houve muitos comerciantes a dizer que não houve consumo.

O que eu vi foram lojas cheias com pessoas à porta. Ontem, uma das pessoas que ficou lá em minha casa, que é brasileira, veio até aqui aos restauradores, ao famoso restaurante Pinóquio, e havia fila cá fora. E eu fui recebendo também a informação das pessoas que estavam de fora e que me diziam. Havia fila à porta das pastelarias, havia fila à porta dos restaurantes, não seriam obviamente os restaurantes de cinco estrelas, nem os hotéis de cinco estrelas, obviamente, mas não era esse o intuito. Aqui estávamos a falar numa Jornada Mundial da Juventude. Essas contas serão feitas no fim. E eu disse e repito, quando nós olhamos para toda esta juventude durante tantos dias em Lisboa, e eu tive a experiência, porque alguns passaram lá por casa, eles realmente gastavam durante o dia para comer, para beber, para comprar recordações para os pais, para os irmãos. Tudo isso teve um impacto na cidade. Agora, teremos os números, mas eu acho que o impacto foi tão maior que os números. Ou seja, a questão de se vão ser 200, 300 ou 400 milhões, aquilo que a cidade recebeu e que as pessoas sentem é tão maior do que isso, que essa discussão, que deve acontecer, que devemos ter consultores que façam essas contas, devemos ter pessoas que nos ajudem a ver exatamente, até porque eu quero que se faça. Mas para além disso, isto é tudo muito maior do que isso. É intangível. A imagem, aquela imagem de Lisboa, e eu fiz o exercício de olhar para Madri, para Cracóvia e para outros. Aquela imagem daquele milhão e meio de pessoas ao lado do Tejo, com a ponte, aquela nossa ponte magnífica, Ponte Vasco da Gama atrás, é uma imagem que percorreu o mundo. New York Times e todos os jornais internacionais, ontem no Le Monde. Isso não tem preço. Ou seja, se nós quiséssemos, se Lisboa quisesse, vamos então agora falar aqui economicamente. Eu agora queria comprar uma campanha publicitária para pôr imagens do Parque Eduardo VII, que é tão bonito, ou do Parque Tejo, nos mídia internacionais. Não imagine quanto é que isso custaria. Portanto, há também aqui uma parte que Lisboa esteve em todos os cantos do mundo. Todos viram, porque a imagem foi tão forte, tanto a do Parque Eduardo VII como a do Parque Tejo, que eu penso que só esse valor, eu não conheço nada sobre publicidade e os preços da publicidade, mas imagine os milhões que isso poderia custar.

Os mais céticos dirão que é uma forma da Câmara e de outras autoridades encontrarem ou minimizarem uma espécie de expectativas defraudadas em relação a esses valores que foram inicialmente anunciados. Falava-se de muitas centenas de milhões de euros de retorno e há quem diga que esse valor não vai ser atingido e, portanto, já temos não só a Câmara, mas, por exemplo, o primeiro-ministro a dizer que a Jornada Mundial da Juventude tem um valor imaterial. Não foi exatamente isso que se dizia inicialmente.

Miguel, não. Eu peço desculpa, eu não quero. Eu estou a dizer é que nós vivemos esta experiência, portanto, há um valor intangível, mas haverá um valor tangível Neste momento, alguém que diga o que o Miguel está a dizer, não sabe. E eu também não sei, porque ainda não temos as contas feitas, mas também me parece muito precipitado alguém dizer: "Isto vai ser muito menos do que..." Não, vamos ver, as contas vão ser feitas.

Tem uma ideia de quando é que as contas podem estar prontas?

Vamos ter que ter dados, isto tem que ser bem feito. Quais são os dados, as vendas dos restaurantes.

As taxas de ocupação nos hotéis, as expectativas desceram, andariam na ordem dos 86%. O alojamento local também não estava particularmente entusiasmado com os números para esta semana. Quando é que podemos ter esta contabilidade?

Eu acho que houve aí diferentes situações. Ou seja, as médias são sempre enganadoras. Uma coisa é dizer que os hotéis cinco estrelas não tinham pessoas, e não tinham, porque estas pessoas não vão para hotéis cinco estrelas, mas os hotéis até quatro estrelas tinham taxas de ocupação.

E eu ouvi que muitos fugiram de Lisboa. Falamos muito disso.

Também encontrei muitos turistas que estavam cá e não tinham consciência que estavam a vir na semana.

Foram apanhados de surpresa.

Foram apanhados no meio da onda. Portanto, tudo isso vai ser feito. Carla, Miguel, eu acho que vocês conhecem-me. Eu não estou a tentar minimizar nada, aquilo que for o retorno será o retorno. Aquilo que eu estou a dizer é que para além desse retorno, há outro retorno, que é intangível e é muito bom e é absolutamente espetacular, e que mesmo eu, que estava, e que vocês sabem, que já o disseram aqui, que nunca vacilei em nada, que fui e meti a cabeça a fundo e acelerador, e muitos quando me queriam dizer: "O palco, o altar, vamos pra frente", e nunca vacilei, mesmo eu não esperava tanto. Eu na noite anterior a isto começar e quando foi a primeira missa com o Dom Manuel Clemente, eu pensei para mim: "Bom, isto é uma missa, não é ainda com o Papa, é com o Dom Manuel Clemente", e queria deixar aqui também um grande abraço, porque o Dom Manuel Clemente é o pai de tudo isto e foi ele que teve um papel fundamental. Eu pensei que ia estar pouca gente. Não era o Papa. Se fosse da Indonésia ou se fosse de outro país, viesse e devia uma missa com o cardeal do país. Não, naquele primeiro dia já estavam 500 mil pessoas. Eu próprio fiquei de boca aberta. Eu nem queria imaginar quando eu na missa do Papa me diziam que nos Restauradores, até quase aos Restauradores, depois tínhamos o Terreiro do Paço, tudo estava cheio. Eu disse: "Não, mas isto tem uma dimensão que eu próprio não imaginava que chegasse a isto". Portanto, acho que todos sentimos isso. E a resposta não é estar a desvalorizar a parte económica, é que todos ficamos, de certa forma, isto tudo nos ultrapassou em termos do que isto trouxe à cidade, da quantidade de pessoas, da maneira como as pessoas se comportaram e da maneira, sobretudo, como todos trabalhamos e conseguimos fazer. Reparem, qual foi o maior incidente? Eu antes de vir pra aqui tentava e nem sequer tenho isso. Tenho estado em contacto com o senhor ministro da Administração Interna, a quem também agradeço, tem sido um trabalho excecional o que fizemos. Os maiores incidentes: desidratações, problemas. Quer dizer, um milhão e meio de pessoas, é absolutamente extraordinário.

Precisamente. E mesmo antes de terminarmos, tem tido um início de mandato, até pela oposição que tem enfrentado na Câmara, difícil, politicamente falando. A Jornada Mundial da Juventude está a ser unanimemente considerada um sucesso. Esse sucesso obriga-o ou deixa-o mais perto de uma eventual recandidatura?

Eu, neste momento, estou, sou e cada vez gosto mais e cada vez estou mais apaixonado por ser presidente da Câmara de Lisboa. Não é que gosto, adoro ser presidente da Câmara de Lisboa, adoro aquilo que é resolver o problema às pessoas no imediato, tratar com as pessoas na rua. E portanto, é isso que eu quero ser. Quero ser presidente da Câmara de Lisboa agora e quero fazer o mandato. E não quero ser o tipo de político que a meio do mandato ou no princípio do mandato já está a pensar o que é que vai fazer no futuro, se vai recandidatar. Portanto, sobre isso, não é a altura, não estamos na altura, não vou falar nada sobre isso, mas posso dizer é que gosto muito de ser presidente da Câmara de Lisboa e os lisboetas podem contar comigo como um homem de fazer. E talvez esta prova, foi uma prova para mim, de começar do zero. Obviamente que as coisas estavam decididas, não fui eu que decidi a jornada, isto é antes de eu cá estar. Mas quando eu cheguei era uma folha em branco, quer dizer, o Parque Tejo estava vazio, não tinha nada, era como se fosse uma lixeira, não havia nada, nada estava lançado. E, portanto, houve uma prova que é: a Câmara consegue ou não, Carlos Moedas consegue ou não, em um ano e meio, pôr isto de pé. E isso foi um esforço físico para todas as equipes, foi um esforço de organização enorme a todos os níveis, de escolher as boas pessoas para os sítios certos. E aí, realmente, tive sorte, mas é também uma das minhas características, escolher as pessoas para os sítios certos, de conseguir que essas pessoas, lideradas pelo vice-presidente da Câmara, com o David Lopes, com toda a unidade de missão, conseguissem chegar a este ponto. E isso é um trabalho com um desafio pessoal que, mais uma vez, mostra aquilo que eu gosto de ter na vida, que é resultados, fazer coisas, falar menos e fazer mais.

Mas concede que é pouco comum alguém que está no primeiro mandato, alguém que gosta tanto da função que exerce, ter tantas reservas em anunciar uma recandidatura ou admitir essa hipótese perfeitamente possível?

De certa forma, seria as pessoas na política estarem a pensar no futuro. Eu estou a pensar no presente, não vou divagar sobre o que é o futuro. O meu futuro, amanhã, depois de amanhã, é fazer bem. E pra fazer bem, tenho que ter a minha mente focalizada em fazer bem. Se eu estou já a pensar em recandidaturas, nisto, naquilo, não faço bem. Creio que acontece à maior parte dos outros.

Quando é que é a altura de pensar em recandidaturas?

Carla, eu acabei de finalizar a Jornada Mundial da Juventude e vocês estão aqui a apertar comigo. Eu acho isso muito injusto. Peço desculpas, podem apertar à vontade. Não vão ouvir da minha boca anúncios nenhuns em relação ao futuro da minha vida.

Mas um presidente de câmara pode acumular com o cargo, por exemplo, a liderança de um partido?

Ouça, eu tenho um partido, ou seja, tenho uma coligação. A liderança da minha coligação Novos Tempos é minha, é Lisboa. Tenho um partido e tenho um líder desse partido, que é o Luís Montenegro, que está a fazer um grande trabalho e que tem toda a minha ajuda e toda a minha colaboração todos os dias, nesse sentido da minha vida partidária. Não tenho é muito tempo pra o ajudar, e ele sabe, mas sabe que conta comigo para continuar o caminho que está a fazer, que é um caminho de liderança, é um caminho bom, é um caminho em que se está a mostrar a diferença, portanto, é continuar.

Carlos Moedas, uma última questão. Hoje o primeiro-ministro, enfim, uma nota do gabinete do primeiro-ministro hoje disse-nos que vai haver um almoço de agradecimento hoje, às 12h30, ao cardeal patriarca de Lisboa e ao presidente da Fundação da JMJ. Devia ter sido convidado pra esse almoço?

Eu acho muito bem esse almoço e fico muito contente. Estive ontem com o senhor primeiro-ministro, que também agradeci tudo aquilo que fizemos.

E ele também lhe deu os parabéns, não foi?

E ele também me deu os parabéns e estivemos a falar, aliás, quando fomos levar o Papa ao aeroporto. E acho que foi um trabalho extraordinário que conseguimos fazer entre todos. Obviamente que houve fricções, houve momentos difíceis. Há sempre nestas situações. Nós estávamos a fazer o maior evento de sempre da história, em que a Câmara Municipal era crucial, em que Lisboa era o centro disto tudo, em que era Lisboa que estava a pôr a grande fatia do investimento. E, portanto, quando nós pomos muito investimento e que somos nós a figura central, há discussões, há irritações de vez em quando, mas o senhor primeiro-ministro agradeceu e eu tenho a certeza que terei a oportunidade de estar com ele. Ele hoje está, obviamente, a agradecer àquelas que são as entidades religiosas, e muito bem. E eu penso que é merecido e portanto, penso que terei outras oportunidades, mas hoje é o momento pra ele agradecer ao Dom Manuel Clemente, ao Dom América Aguiar, que foram homens extraordinários. O Dom Manuel Clemente, que sem ele isso não tinha acontecido, e o Dom América Aguiar, que foi um construtor de pontes, foi um homem sempre disponível. Um homem como eu, também emagreceu alguns quilos, que eu ontem vi que ele estava mais magro e eu também. Portanto, vamos ter que também ir almoçar todos juntos, mas temos tempos para os almoços. Eu acho que agora o que eu precisava mesmo, mais do que um almoço, era ir de férias.

Já não deve demorar muito, segundos diz. Espero que sim, Carlos Moedas. Muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador. Um bom dia.