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A nossa convidada é Isabel Luzeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, para falarmos das implicações neurológicas da Covid-19. É uma entrevista que vai ser conduzida pela Judite França e pelo Paulo Ferreira.

Muito bom dia, Isabel Luzeiro. Mais uma vez, obrigada por estar conosco. Deixe-me começar por lhe perguntar exatamente esta questão das implicações neurológicas da Covid-19, sobretudo, quando falamos de sintomas. Quais são os principais sintomas que podem estar associados à Covid-19?

Bom dia, obrigada pela questão. Apesar da Covid-19 ser uma doença que compromete predominantemente o sistema respiratório, na verdade, como já disse, há muitos relatos relativamente ao comprometimento do sistema nervoso central, periférico e até do músculo pela Covid-19. Esses sintomas ou sinais podem ser ligeiros, moderados e graves. Se falarmos dos ligeiros e numa fase inicial ou quase assintomática da doença, como já é conhecido pela população, temos as dores de cabeça, que existem cerca de um quarto das pessoas, as mialgias típicas do que nós chamamos a gripe, por ataque direto, provavelmente, do vírus e elevação de uma enzima que existe no músculo. Depois temos a perda do paladar e do cheiro. Essa perda do paladar e do cheiro parece-nos ser devida a uma invasão já direta. Portanto, através do nariz, se caminharmos ao longo do nariz, encontramos uma parte que liga diretamente ao cérebro e que não é protegida ou revestida. Chama-se a lâmina cribosa do etmoide, que é um osso. E aí, diretamente, o vírus pode atingir o bulbo olfativo e deixamos de ter cheiro. No caso do paladar é um pouquinho diferente, é as papilas gustativas, a mucosa, é uma coisa mais transitória, duas semanas no máximo, enquanto a alteração do cheiro pode ir até dois, três meses.

Aliás, esses dois sintomas são dos mais referenciados, talvez, e dos mais evidentes, que levam muita gente a fazer o teste e a suspeitar que pode estar infectada.

Exatamente, porque é assim, enquanto na gripe que nós conhecemos, vulgar, também podemos ter isso, mas ao mesmo tempo temos o nariz entupido, portanto, outros sintomas. Aqui, esses outros sintomas não existem. Como toda a gente pode ver, não há a constipação normal que existe com os outros vírus, em que a pessoa anda sempre com lenço, anda sempre a pingar do nariz. Isso não existe aqui, existe isoladamente estes sintomas. Depois, como eu disse, a mialgia, que é as dores musculares, por vezes até perda de consciência, embora mais raramente, tonturas e dores de cabeça. Isto numa fase ligeira. Depois podemos pensar na doença já numa fase em que é preciso internamento ou que é preciso ir para os cuidados intensivos. Nessa fase, as manifestações são outras. Pode haver também cefaleias, hiposmia e anossmia, mas começa a haver dificuldade respiratória. Essa dificuldade respiratória leva a que a oxigenação cerebral não se faça convenientemente. Há uma infeção a nível geral do organismo, sistémico, que pode provocar a nível cerebral, o que nós chamamos a encefalopatia. Essa encefalopatia pode ser devida à falta de aporte de oxigênio, que é das primeiras causas. Noutro caso, pode ser devida a uma agressão direta do vírus no cérebro ou quando gera a inflamação, o corpo reage e reage de tal maneira, parece que há uma reação exacerbada no Covid-19. Há como que um tsunami de resposta e essa tempestade pode provocar, ela própria, lesões cerebrais.

Isabel Luzeiro, e esse quadro que parece mais grave, que está a descrever, acontece na generalidade das pessoas que têm que ir para unidades de cuidados intensivos e ter auxílio de respiração, ou é um quadro muito mais restrito mesmo em relação a esse universo de pessoas?

Não é um quadro restrito. Ele acontece em 65% dos doentes que são internados e que necessitam de apoio ventilatório.

Mas Isabel Luzeiro, deixe-me só perceber aqui uma questão: isto pode deixar sequelas a longo prazo ou estamos a falar de uma coisa que acontece durante aquele período de internamento e uns dias depois?

Pode deixar sequelas. Se for uma coisa muito transitória, o doente poderá recuperar. Quanto mais se prolongar a encefalopatia, maior é o risco de não recuperar. Como há uma lentificação do cérebro que perdura, podem aparecer crises epilépticas, se houver uma agressão direta ao cérebro e o doente poderá não recuperar. Isto só se vê porque os pacientes, neste momento, precisam ser acompanhados por mais tempo pra observar essas sequelas crônicas. Fala-se até numa agressão a umas certas proteínas que existem no cérebro e que estão relacionadas Com as doenças neurodegenerativas, o Alzheimer e o Parkinson. Quando foi a primeira infecção da gripe em 2003, o SARS também foi o primeiro, não foi este, mas foi há 20 anos, pela influenza, uma infecção. E o que se verificou? Que passados uns anos havia muito mais doentes com doença de Parkinson. E portanto, o COVID-19 parece ser o vírus que mais atinge o cérebro e que mais complicações está a dar a nível do cérebro. Nós queremos saber, não sabemos, mas podemos presumir que eventualmente haverá também essa repercussão.

Portanto, estamos a falar de doenças que estão também associadas, de alguma forma, à demência.

Exatamente. Não só a demência de Alzheimer, é uma das neurodegenerativas, mas também outra doença neurodegenerativa que não cursa, pelo menos inicialmente, com Alzheimer, que é a doença de Parkinson.

Há doentes ou segmentos da população que podem apresentar um maior risco em termos neurológicos?

Sim, portanto, todos os doentes que já têm antes fatores de risco. Por exemplo, um doente tem o fator de risco para doença vascular, é Parkinson, é diabético. A doença vascular é muito frequente também nestes doentes com COVID. A frequência aumenta não só porque há a tal inflamação, como nós dizemos, uma vasculite, portanto uma infecção da parte interna dos vasos, já que tem recetores para o vírus, como também forma placas nos grandes vasos, que podem estenosar o vaso ou podem funcionar como um êmbolo que vai para outras zonas do cérebro e vai entupir. Por outro lado, o fato de a pessoa estar em insuficiência respiratória pode gerar também arritmias cardíacas e fibrilação auricular, o que vai também desencadear êmbolos para o cérebro. O fato de existirem outras doenças pré-existentes vai agravar o que nós chamamos de prognóstico, o futuro desse doente.

Claro. Isabel Luzeiro, e em termos etários, por exemplo, sabemos que o risco vai aumentando com a idade, o risco de contrair e o impacto da própria doença COVID. A nível neurológico também há aqui um risco agravado à medida que vamos avançando na idade?

Sim, o risco aumentado tem também a ver, por um lado, com essas agressões que já existem antes, a diabetes, hipertensão, as arritmias, etc. Por outro lado, com a fragilidade que uma pessoa mais idosa já tem, em termos de resposta ao vírus. No entanto, há algumas particularidades que se referem, por exemplo, aos mais jovens. Há uma doença que nós chamamos de encefalomielite aguda disseminada, que é uma doença rara em que há destruição da mielina cerebral e que até há pouco tempo era muito rara e agora praticamente triplicou, associada à COVID. Por outro lado, mesmo os doentes jovens que estão internados nos intensivos vão desenvolver o que nós chamamos a neuropatia dos cuidados intensivos, ou seja, ficam com uma atrofia marcadíssima dos músculos, nomeadamente das pernas, e com falta de sensibilidade, e vão ter que fazer reabilitação e recuperação durante muito tempo para conseguirem recuperar o seu estado anterior. Ainda não falámos disto, após a infecção, e pode ser logo imediatamente ou semanas depois, pode haver o que nós chamamos o síndrome de Guillain-Barré. Portanto, toda a gente já ouviu, é uma paralisia ascendente, começa nas pernas, vai ascendendo, pode atingir também o diafragma e até os pares cranianos, os olhos, a face, e cá a paralisia facial. Isto, normalmente, no passado, há realmente uma infecção viral, é um caso que se for detetado é reversível, mas que é bastante grave também.

Nós ouvimos relatos, por vezes também de pessoas que têm que reaprender a caminhar, por exemplo, a andar. Tem a ver com isso?

Exatamente. Tem a ver com isto. Os doentes que estão nos cuidados intensivos fazem essa destruição maciça, quer a nível muscular, quer a nível do sistema nervoso periférico. E portanto, depois tem que recuperar isso tudo muito lentamente. A informação nervosa vai começar a processar-se lentamente. A parte muscular vai ganhando músculo e tônus também muito lentamente e, portanto, o doente tem que fazer uma completa aprendizagem. Vemos doentes que até estão em cadeira de rodas e que lentamente vão fazendo essa aprendizagem e começando de novo a andar e a ter sensibilidade e a ter força.

Há também relatos de casos de amnésia, isso é possível?

É possível. Durante a infecção, pode haver, como já dissemos, a tal encefalopatia, pode haver até estados confusionais. E o doente passa um período em que quando recupera, não tem a mínima noção do que se passou anteriormente.

Mas isso é uma memória de curto prazo, não é?

Isso é memória de curto prazo, exatamente. Assim como pode acontecer haver outros distúrbios psiquiátricos, nomeadamente reações de pânico, depressões e ansiedade graves, quadros psicóticos. Estão descritos muitos casos após infecção por covid.

Agora, só para última pergunta, porque estamos a terminar o nosso tempo. Não é preciso estar infectado com covid para ter alguns desses sintomas que falou agora mesmo na última resposta: o estresse, a ansiedade, a depressão.

É óbvio que não. Basta essa mudança toda de vida. A precaução em relação à manifestação dos afetos, à comunicação, à proximidade, para todos nós, nomeadamente nós que também somos pessoas, profissionais de saúde, podermos sentir esses sintomas de ansiedade e depressão, porque os portugueses, os ibéricos, são socialmente muito afetivos e gostam de fazer demonstrações dessa afetividade. O fato de ficarmos presos em casa, não nos podermos relacionar uns com os outros e estarmos isolados muitas das vezes, gera muito problema psiquiátrico, que tal como a parte física, tem que ser também acompanhada por terapeutas.

Temos de ser todos fortes e procurar ajuda quando assim for necessário. Isabel Luzeiro, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia, agradeço pelos seus esclarecimentos no Direto ao Assunto de hoje.

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