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Começa agora o Explicador das manhãs 360. Nos próximos minutos analisamos o debate de ontem entre António Filipe e Jorge Pinto e para isso são nossos convidados Vasco Cardoso, apoiante de António Filipe, e Paulo Moacho, apoiante de Jorge Pinto. A moderação é da Carla Jorge Carvalho e do Paulo Ferreira. Muito bom dia, muito bem-vindos os dois. Paulo Moacho, comecemos por si e olhando para o debate de ontem, na sua opinião ficaram mais evidentes as proximidades ou as divergências entre os candidatos?
Muito bom dia, cumprimentos a todos. Acho que ambas as coisas ficaram mais claras. É claro que há coisas que aproximam os dois candidatos, sendo dois candidatos que vêm da área da esquerda, e também há questões que os separam, principalmente naquilo que diz respeito à dimensão internacional e à dimensão europeia. E como também é normal num debate, os candidatos tentam explorar mais as divergências. Não é à toa que em todos os debates a questão da Ucrânia tem surgido quando António Filipe está presente, porque é uma questão que marca a diferença relativamente aos restantes candidatos, ainda que com nuances. E neste debate também ficou clara a posição de ambas as candidaturas sobre a União Europeia, por exemplo, em que o candidato António Filipe tem uma posição muito mais eurocética relativamente à construção europeia e o candidato Jorge Pinto uma posição mais europeísta.
Vasco Cardoso, bom dia, bem-vindo também. É de facto na questão da Ucrânia e do olhar sobre a União Europeia que António Filipe se distingue dos restantes candidatos presidenciais.
Muito bom dia. Eu creio que não é por acaso que o tema da Ucrânia tem estado presente em todos os debates com António Filipe. Em geral, a estratégia que tem sido seguida tem sido um pouco esta, é lançar a palavra Ucrânia e depois no final do debate fazer o comentário e dizer que o António Filipe não conseguiu, ao contrário de todos os outros candidatos, justificar que é preciso continuar esta escalada de guerra, de confrontação, de enviar armas para a Ucrânia, que é um pouco aquilo que praticamente todos os candidatos dizem. Eu diria que desde o Jorge Pinto até o Rodrigo Figueiredo ou mesmo o Ventura, o discurso não varia muito. E o fato é que estamos com quase quatro anos de conflito mais intenso e as perspectivas de se encontrar uma solução, que é urgente, porque aqueles povos precisam da paz, a Europa precisa de paz e de uma solução de segurança coletiva continua muito distante. Mas enfim, foi um debate com elementos de convergência, o que seria natural, mas também com diferenças. A candidatura de António Filipe pode-se dizer que é uma candidatura com clareza, com coragem, mesmo em relação às questões da União Europeia, em que não assume uma ideia propriamente de um certo idealismo quando depois somos confrontados com questões concretas que a União Europeia suscita à vida do nosso país e à vida do nosso povo. Ainda esta semana tivemos o BCE a defender contenção salarial, todas as políticas relativamente àquilo que agora pretendem fazer em relação à Segurança Social, às reformas, às pensões, às poupanças das populações. E naturalmente, não lidamos com a União Europeia de uma forma seguidista, eurodependente, mas sim de uma forma crítica, na medida em que há aspetos pelos quais o nosso país se deve bater mais para ter as condições do ponto de vista do seu desenvolvimento, que muitas vezes não têm sido possíveis de concretizar precisamente por essas imposições da União Europeia. A candidatura de António Filipe quer ter uma voz própria, quer que Portugal tenha uma voz própria no contexto internacional e não ser uma espécie de figurante que no concerto das nações, seja no contexto da União Europeia, da NATO ou da ONU, eu creio que a candidatura de António Filipe marca também essa diferença. Seguramente não é uma candidatura da esquerda, daquela que a direita gosta.
Apesar dessa diferença de olhar, sobretudo para a União Europeia, Paulo Moacho, acha que uma convergência à esquerda ainda é possível ou será neste momento impossível? Isto porque as sondagens vão surgindo e vão dizendo que há um cenário possível, que é de nenhum candidato de esquerda passar à segunda volta.
A convergência à esquerda vai sendo cada vez mais difícil, não é? Porque o tempo dos próprios partidos poderem falar e dos próprios candidatos poderem falar vai passando. E aí o Jorge Pinto, na verdade, ainda que a posição possa ser complicada de explicar, esperou até à última da hora. É verdade que, como António Filipe explicou ontem, a partir do momento em que António José Seguro se apresentou, era muito claro para todos de que seria o candidato apoiado pelo Partido Socialista. Mas os restantes partidos de esquerda também não têm que estar necessariamente condicionados pelo que o candidato apoiado pelo PS faz. Poderiam ter conversado entre si, poderiam ter tentado encontrar uma solução consensual entre os restantes partidos da esquerda, mas isso nunca foi tentado.
Nunca foi sequer tentado, mas por que que não foi?
Nunca foi sequer tentado. Porque não houve essa vontade. Houve logo uma vontade dos partidos apresentarem candidaturas próprias. António Filipe apresentou-se logo nessa altura, Catarina Martins pouco depois apresentou-se também. Portanto, enfim, aí não há muito a fazer a partir do momento em que estes candidatos também surgem para marcar o seu terreno Partidário. Poderia ter havido conversa à esquerda.
Mas ainda é possível, Paulo Mocho, daqui até janeiro?
Daqui até janeiro já implica que essa discussão seja feita apenas com os candidatos que estão no terreno. E o único candidato que tem a possibilidade de passar à segunda volta, confiando nas sondagens, seria António José Seguro, que, como toda a gente já percebeu, é um candidato muito difícil para a restante esquerda, porque não se assume sequer de esquerda. Teve uma relação muito conturbada com a esquerda durante os anos da troika. A folha de serviços que tem para o país não é propriamente a melhor nessa área e é um candidato que teria que se estar a revelar nestes-
E fazer uma grande viragem no seu discurso. Vasco Cardoso, concorda com esta análise? É quase perdida a possibilidade de ter um candidato de esquerda na segunda volta das eleições, se tivermos em consideração aquilo que as sondagens nos vão mostrando efetivamente.
Eu diria que há muita gente a desejar isso. E a dar como perdida estas eleições, como se quase dispensássemos as pessoas de refletirem, de olharem para aquilo que é a sua situação na vida e de terem uma opção nestas eleições. As eleições presidenciais em Portugal disputam-se a duas voltas e há quem queira saltar etapas, quase que saltar até a própria vontade da população. Há uma primeira volta marcada para dia 18 de janeiro e a candidatura de António Filipe, como aliás ele disse ontem, não ficou à espera do comboio, na paragem do autocarro. Avançou. É uma candidatura com pergaminhos do ponto de vista daquilo que defende para o país, uma candidatura comprometida com os direitos dos trabalhadores, no momento muito difícil em que está em curso um pacote laboral que visa liquidar muitos direitos. É uma candidatura fora do consenso neoliberal, que não se rende às privatizações, à destruição dos serviços públicos, à liberalização, a esta corrida para zero nos impostos, que no fundamental retira recursos ao Estado para os transferir para os grupos económicos e financeiros. É uma candidatura que é herdeira da luta contra o fascismo, que tem um percurso muito comprometido com os valores de Abril e é uma candidatura que aí está para disputar voto a voto, a pleno, à consciência de cada um. A afirmação da esquerda também se faz com confiança e com determinação, e não propriamente com hesitações e a fazer cenários, ainda por cima em torno de uma candidatura como a do António José Seguro, já aqui referida, que nem sequer de esquerda se consegue assumir. O António Filipe não ficou à espera, avançou. Apresentou as suas credenciais.
E Vasco Cardoso vai certamente até ao fim.
E naturalmente, lutará na primeira volta, depois vamos ver o que é que acontece, pela conquista do apoio do maior número de portugueses. E isso tem um valor. Não é uma candidatura com hesitações, nem com problemas de consciência relativamente ao seu valor próprio. Ela afirma-se por aquilo que o país precisa e que a candidatura está em condições de oferecer.
Muito bem, Vasco Cardoso, Paulo Mocho, obrigado a ambos pela presença neste Explicador. Bom dia e boa semana.
Bom dia, boa semana.
Bom dia.