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E agora recebemos Nuno Morais Sarmento, presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, antigo ministro do PSD. Recentemente tornou público que vai apoiar a candidatura de Luís Marques Mendes à Presidência da República, facto que surpreendeu até o próprio candidato, Judite de França.

Bem-vindo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Declarou o apoio a Luís Marques Mendes. Por que razão é, na sua opinião, o melhor candidato ao lugar de presidente da República?

Boa tarde. Relativamente às eleições presidenciais, eu entendo e entendi sempre que, tratando-se de candidaturas individuais, de personalidades que apresentam por si, sem qualquer outro apoio nesse momento, a sua candidatura, deveria avaliar também cada uma das candidaturas individuais apresentadas. Foi o que fiz sempre e que também para estas eleições, resolvido que está o processo autárquico, me pareceu ser o momento de proceder a uma escolha. Considero que eram possíveis os candidatos de uma área política alargada para além daquela com que normalmente me identifico, e onde incluo António José Seguro, Luís Marques Mendes e o almirante Gouveia e Melo como candidatos possíveis para considerar o meu apoio.

E chegou a ponderar votar nesses candidatos?

Não, eu olhei as candidaturas individuais, os candidatos individuais, e fiz uma opção. Portanto, três que considero que seriam possíveis pela área política em que se situam, estes três que referi, e procedi depois a uma análise individual de cada um, concluindo que António José Seguro, com todo o mérito, não me apresenta, contudo, alternativa significativa àquela que é personificada por Luís Marques Mendes. Talvez até pelo contrário, o sinal distintivo seja, de alguma forma, um sinal negativo, ou seja, a ausência de António José Seguro durante muitos anos do debate e da participação política direta torna relativamente desconhecida aquela que é a sua posição atual sobre variadíssimos temas.

António José Seguro quase que apresenta isso como um trunfo. Entende que é mais um problema do que um trunfo, essa ausência de 10 anos.

Pois, eu sei e já lá vou. Deixe-me terminar, porque isso verifica-se tanto com António José Seguro como com o almirante Gouveia e Melo. Dizia eu, António José Seguro, portanto, sendo uma candidatura próxima da candidatura de Luís Marques Mendes e de uma área política, de forma ampla, idêntica, não me oferece razões para distinguir a sua candidatura daquela que é apresentada por Luís Marques Mendes e a sua proposta daquelas que são as ideias e as propostas de Luís Marques Mendes. Relativamente ao almirante Gouveia e Melo, que repito, no caso de ser eleito presidente da República, não me altera o sono. Acho que o país estará seguramente bem entregue também, mas relativamente ao almirante Gouveia e Melo e sobre quem tinha curiosidade e expectativas, constatei que depois de uma fase inicial em que se apresentou e concedeu as primeiras entrevistas revelando um discurso equilibrado, um discurso de quem conhece a realidade portuguesa, um discurso de quem tem mais mundo do que aquele que poderíamos pensar ser o mundo de um militar, e que aparece com uma atitude também distinta daquela que muitas vezes-

Porém, onde é que encontrou os poréns?

Os poréns são que depois desse primeiro momento positivo, aquilo que tenho vindo a constatar reforçadamente é uma série de ziguezagues políticos, apresentando-se hoje como importante elemento do centro do espectro político para, três dias antes, ter procurado na sua intervenção acenar claramente a um eleitorado mais de direita. Portanto, sem razão alguma que o explique, tenho visto fazer um percurso sinuoso que o desidentifica. Se não me permite dizer, o almirante Gouveia e Melo tem um caminho claro, ideias claras e um projeto claro também.

Vou aproveitar esse caminho que percorreu, esse raciocínio que fez, para lhe perguntar se esse raciocínio será feito também por milhares ou milhões de eleitores. Até que ponto é que ter tantos candidatos, agora já temos tantos no centro-direita como no centro-esquerda praticamente, mas ter tantos candidatos pode prejudicar a candidatura de Luís Marques Mendes?

Eu acho que evidentemente sim, mas deixe-me terminar só com uma última nota, que é comum, que concluí ser comum a António Guterres, ao Amigante Gouveia e Melo, e não só, mais alguns dos outros candidatos que não considerei na análise que fiz, mas que apresentaram e estão na corrida para a Presidência da República. Comum o quê? Uma certa ideia, uma certa afirmação por todos de que não são elementos do sistema, de que vêm de fora, de que têm, por isso, menos ligação à política partidária e à política ativa. E eu, francamente, à medida que vi somado um após outro esta posição, de que todos são aparentemente de fora do sistema e, portanto, se desresponsabilizam e, de alguma maneira, se afastam desse mesmo sistema a que dizem não pertencer, o único candidato que eu vejo dizer que, pelo contrário, não tem qualquer problema em afirmar que é um candidato do sistema, querendo isto dizer, é um candidato da vida política dos últimos 50 anos, que participou na vida política, na vida partidária, que o reconhece, que não o nega e que, aliás, afirma que é precisamente em nome do percurso feito pelo país durante esses 50 anos que ele agora se candidata. E isso faz mais sentido do que esta repetida posição de quase nojo com que todos se apresentam relativamente ao quadro político que vivemos em Portugal.

Então deixe-me aproveitar este minuto que nos resta para lhe perguntar o que pensa sobre esta polêmica e sobre os cartazes que André Ventura colocou na rua, que têm provocado grande alarido.

Eu acho que André Ventura começa a ter o problema de não encontrar maneira de todos os dias fazer estardalhaço e todos os dias ser notado e ser o alvo da atenção dos media. E, portanto, há momentos em que ele recorre a umas iniciativas mais disparatadas. Não é o primeiro cartaz que me parece completamente desajustado. Já o mesmo dizia do cartaz que procurava incluir Luís Montenegro num conjunto de atores da sociedade civil portuguesa, de Ricardo Salgado, até, José Sócrates. E francamente achei que ali tinha passado todos os limites da decência política.

Mas acha que o Ministério Público devia intervir neste caso ou não?

Não. Sabe, eu acho que quanto mais se falar dele e atenção se der, mais contente ele fica, porque o objetivo dele não é nunca o de construir o que quer que seja. Não lhe conhecemos propostas, não lhe conhecemos projeto, o que conhecemos é esta posição de descascar pessegueiro sempre que pode e a propósito de tudo e mais alguma coisa, levando a situações em que, por provavelmente não ter conduto político para esse dia ou para esse momento, sair com iniciativas destas, quanto mais atenção e confiança se lhe der, pior. E, portanto, não, o Ministério Público não deve avançar. Eu acho que os portugueses vão fazendo um juízo ponderado à medida que estas iniciativas sucedem sobre aquela que é a real posição e intenção política de André Ventura.

Dr. Nuno Morais Sarmento, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui na tarde em direto do Observador e fica já o convite feito para um dia destes voltar e conversarmos mais um pouco sobre a atualidade política. Obrigado.

Obrigado, Leo.