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Começa agora mais um Explicador das manhãs 360, com Jorge Sobrado, o novo vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto.

Jorge Sobrado foi eleito como independente pelas listas do PS, mas aceitou o convite de Pedro Duarte, da coligação vencedora das eleições autárquicas no Porto, para assumir o pelouro da Cultura. Bom dia, Jorge Sobrado. Bem-vindo a este Explicador. O que o fez aceitar este pelouro, este convite de Pedro Duarte?

Bom dia aos ouvintes da Rádio Observador. Bom dia, Bruno. A motivação que me fez aceitar o convite do presidente Pedro Duarte foi a motivação que me levou a aceitar também o convite para que, como independente, me apresentasse também a eleições, que foi servir o Porto. E em particular, interpretar, protagonizar, personificar um novo ciclo de políticas culturais no Porto. E, portanto, eu estou no exato sítio onde estava quando, no verão deste ano, aceitei participar do ato eleitoral. E esse sítio é de servir o Porto como independente numa política de cultura. Se o convite do doutor Pedro Duarte fosse para o pelouro da mobilidade ou do urbanismo, eu seguramente não teria aceito. Não era essa a minha motivação.

Jorge Sobrado, então quer dizer que se o convite que recebeu de Manuel Pizarro tivesse sido primeiro de Pedro Duarte, também teria aceitado na altura?

A história não se escreve na condicional, não se escreve com "ses". Na verdade, eu tive a liberdade, que agradeço ao doutor Manuel Pizarro, de elaborar um programa com base na minha visão e na minha experiência sobre o Porto, um programa muito ambicioso para a cultura. Felizmente, esse programa é profundamente compatível também com aquele que foi o programa vencedor. E, portanto, eu não consigo escrever a história às recuas, voltando para trás. Também não escondo, e o doutor Pedro Duarte seguramente não me levará a mal que diga que, antes mesmo da campanha eleitoral, trocámos impressões também sobre a cultura do Porto com o doutor Pedro Duarte. Mas a história não se escreve assim e, portanto, a minha motivação, todavia, é a mesma. Ou seja, para quem me vê a virar uma casaca, eu julgo ter de dizer que a minha casaca é a mesma, diz Porto, cultura, independente. E, portanto, eu estou no exato sítio em que estava.

Mas também dizia PS, Jorge Sobrado, porque concorreu integrado nas listas do PS. Isso cria uma expectativa.

Há um preço a pagar quando se convidam independentes. Seguramente. A margem de liberdade do independente é o facto de não estar cativo de uma solidariedade partidária como um militante. Ao mesmo tempo, em contrapartida, o militante participa das decisões da vida do partido, coisa que está de algum modo vedada ao independente. Como independente, eu devo dizer e repetir: eu estou apenas cativo da minha consciência. Não estou refém de ninguém e não podia virar costas. Não podia virar costas aos múltiplos apelos, aos muitos apelos que recebi por parte de dirigentes de instituições culturais, de artistas, de responsáveis de estruturas artísticas da cidade do Porto, para que o pelouro da cultura saísse reforçado com um vereador, com um intérprete, com alguém que personificasse esse papel. E, portanto, nós temos hierarquias de valores, se quiserem, na nossa vida. E na minha hierarquia de valores, a liberdade, por um lado, aquilo que dita a minha consciência e a cidade, estão acima de outros valores que são também importantes, mas que ocupam um lugar menor, nomeadamente a solidariedade eleitoral.

E deixou isso claro a Manuel Pizarro quando foi convidado para concorrer pelas listas do Partido Socialista?

Carla, eu devo dizer que não há letras pequeninas para ler neste contrato, nem uma tinta invisível para ler neste contrato. O cenário que foi colocado quando houve um acordo para a minha participação foi o de vencer com um programa que fosse ambicioso, transformador, relevante na cultura. E, portanto, o dia seguinte, o day after das eleições, num cenário de derrota, nunca foi conversado. E eu entendo que no modelo autárquico que temos, os mandatos são mandatos para o órgão executivo. Nós elegemos ministros sem pasta para as câmaras municipais. E depois cabe ao presidente distribuir as pastas pelos seus ministros, pelos ministros que compõem o órgão executivo. É o contrário do que acontece com o governo central. No caso de um governo municipal, todas as forças políticas têm ministros sem pastas. E depois o presidente distribui de acordo com diálogos que desenvolve. E reparem, isto não é caso único. Em 2013, o Porto, uma força perdedora do Porto, neste caso o Partido Socialista, também assumiu pastas no governo municipal.

O próprio Manuel Pizarro.

Exatamente. E, portanto, não é caso inédito. Mesmo o mandato anterior também assim sucedeu. Se isso permitiu robustecer pelouros, é a cidade que beneficia disso. E eu entendo que há um interesse superior nesta minha decisão, que é o de servir o Porto e o de servir a cultura do Porto. O Porto fica mais bem defendido no que diz respeito à cultura, no que diz respeito à política cultural, com um vereador. E eu, de facto, não poderia virar costas num contexto em que o presidente eleito Me havia garantido as condições para executar o programa que eu tinha colocado a debate eleitoral.

Então pode-se dizer que-

Eu não venho com outras ideias. Eu venho com as ideias que propus e disponibilizei ao Partido Socialista, a quem continuo a agradecer a confiança que me entregou neste combate eleitoral, que foi aliás um belíssimo combate eleitoral, embora deva dizer que com algum capital de queixa do fato da cultura ter ficado arredada dos debates eleitorais.

Mas pode-se dizer então que o Jorge Sobrado partiu para estas eleições com o seu plano, um plano pessoal para o setor da cultura e que o PS serviu basicamente como barriga de aluguer para esse plano, que seria implementado de qualquer maneira.

Não, essa imagem é caricatural e é excessiva. Nenhum programa é um programa exclusivamente pessoal. Este programa foi desenvolvido na base de múltiplas auscultações. Eu ouvi mais de 100 agentes e atores culturais do Porto, em quatro sessões à porta fechada e em três fóruns. Aliás, foram quase 200 pessoas que foram ouvidas num processo que eu pude liderar, mas nenhum programa é estritamente autoral. É um programa coletivo, é um programa que emana da própria cidade e também o programa que a Câmara Municipal do Porto, não apenas eu, mas também todo o executivo municipal, irá interpretar e executar na área da cultura, continuará a ser um programa aberto. É um programa que dialoga muito bem com o programa vencedor. Os princípios do programa vencedor absorvem, integram de uma forma, eu diria, quase perfeita aquilo que foram as propostas programáticas do programa que eu pude elaborar, mas é sempre um programa aberto ao diálogo com outros partidos, mas também ao diálogo com a cidade. Não há nenhum programa político que esteja sempre absolutamente fechado, como não há nenhum programa político que seja estritamente autoral.

Ainda vamos falar dos seus planos para a cultura no Porto, mas queria perguntar se esta sua decisão, por exemplo, não receia que um dos efeitos seja que os partidos, nestas situações, se fechem mais aos independentes.

Quem não gosta de independentes tem um bom remédio, Bruno, que é de não convidá-los. Não se pode em campanha eleitoral levantar a bandeira dos independentes, dando conta que existe um pensamento, uma renovação, um pensamento livre, uma renovação e uma cidadania mais livre e depois das eleições querer, digamos assim, tomar conta dos mandatos numa lógica dirigista ou diretória. Isso não é possível ou não é sequer muito coerente. Há um preço a pagar também em convidar independentes, como há também um preço a pagar dos independentes, que é a da solidariedade eleitoral. Acontece que a campanha eleitoral e o ato eleitoral acabou. Existem outros valores, há uma hierarquia de valores. Nem todos os valores pesam da mesma forma. E o interesse do Porto, neste caso do Porto Cultural, e foi o tema da cultura ou a causa da cultura que motivou esta decisão, não foram cálculos. Eu não fui motivado por um cálculo da maioria eleitoral na Câmara. A minha motivação continua a ser exatamente a mesma. Agora, há de fato uma hierarquia de valores e o Porto e a cultura pesam mais, neste caso, do que qualquer outro vínculo, nomeadamente vínculo de uma candidatura eleitoral.

E nesse sentido, e como sabe, Pedro Duarte passou a campanha eleitoral a dizer que ia seguir o princípio do Rui Moreira e ia assegurar para ele próprio o pelouro da cultura. Não acha que por um lado, isto pode menorizar o cargo e, por outro lado, não acha que pode estar a ser utilizado por parte de Pedro Duarte para ter uma estabilidade governativa e deixe-me recorrer a outra metáfora, e ser uma espécie de um queijo limiano outra vez?

Recuso liminarmente a metáfora. Eu continuarei a ser livre e independente e o doutor Pedro Duarte também pensará pela sua própria cabeça. Eu devo dizer que conheço suficientemente bem o doutor Pedro Duarte para dizer que usou de franqueza comigo e franqueza também no diálogo que estabeleceu com as estruturas artísticas e culturais da cidade. O doutor Pedro Duarte ontem, em declarações que eu pude ouvir e ler, deu conta à cidade e ao país que foi auscultando, antes e depois das eleições, muitos agentes culturais da cidade e que foi sensível aos apelos para o fato de haver uma personificação da política da cultura. Isso quer dizer uma dedicação em exclusivo, uma dedicação plena, que é muito difícil na agenda de um presidente de câmara que tem, de alguma forma, na sua agenda, na sua secretária, temas políticos que se vão, digamos assim, sobrepondo também àquilo que é uma agenda mais setorial. E, portanto, o doutor Pedro Duarte foi sensível, tal como ouvimos ontem, a esse apelo para robustecer o pelouro da cultura. E é para isso justamente que cá estou. Portanto, eu acredito nessa franqueza e quando Iniciámos esta conversa há dias, não foram lógicas de cálculo de maioria, até porque eu devo dizer que talvez o Dr. Pedro Duarte estivesse melhor servido com outra pessoa, porque o Dr. Pedro Duarte sabe que eu tenho mau feitio. E portanto, como sou uma pessoa de mau feitio, serei uma pessoa exigente. E a cultura, o setor da cultura também quererá que eu seja um ator exigente dentro da Câmara. Portanto, não fui seguramente para tornar a vida fácil ao executivo, na medida em que, querendo ser convergente, querendo ser construtivo, trabalhar em equipe, e essa é a minha atitude, com certeza, não deixarei de bater o pé quando os interesses da cultura. E portanto, sendo conhecido e proverbial até o meu mau feitio, eu diria que o Dr. Pedro Duarte teria outras opções para formar a sua maioria. Se esse fosse, de facto, o ponto de partida da conversa.

O que é certo é que está a ser criticado por algumas pessoas nas redes sociais, já o chamaram de traidor, imagino que já tenha lido isso. Como é que vai responder a isto se as pessoas continuarem a entender que o senhor, de algum sentido, virou a casaca, mesmo não gostando da expressão?

A minha casaca é a mesma, é o Porto, é cultura como ator independente. Foi assim que me apresentei exatamente nessa posição no verão passado. Trair seria trair a cidade e trair a cultura da cidade. Havendo a possibilidade, havendo a abertura, a disponibilidade para servir o Porto do lado de dentro, eu considero que é legítimo combater por uma ideia de cidade do lado de fora, mas também é igualmente legítimo, designadamente no modelo de governação dos municípios, em que somos eleitos como ministros sem pasta, poder ajudar a construir essa ideia do lado de dentro. E eu filio-me nesse perfil e filio-me nesse interesse, ajudar a construir uma ideia de cidade, uma ideia de cidade cultural do lado de dentro. E portanto, seria trair o Porto, seria trair a minha motivação, seria trair o meu compromisso, se eu recusasse cumprir o programa pelo qual fui eleito. Reparem, eu não estou a entrar na Câmara com outro programa diferente daquele programa que eu elaborei e com o qual me comprometi com os portuenses. E a minha legitimidade como vereador eleito é exatamente igual a qualquer outro vereador. Eu fui eleito com os meus votos e, portanto, trair, sim, seria trair o Porto, seria trair os meus compromissos, seria trair o meu programa, seria trair a minha motivação se eu tivesse fechado a porta a ajudar a construir cidade. E eu irei ajudar a construir cidade no pelouro da cultura e em solidariedade com a equipa que acompanha o dr. Pedro Duarte e também com todos os vereadores e as forças políticas em diálogo com elas.

E era isso que queríamos saber agora, Jorge Sobrado, estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Que planos tem para a cidade? Durante a campanha, Pedro Duarte disse que fazia um balanço positivo do que tinha sido a política cultural na cidade nos últimos anos. Partilha dessa ideia? A ideia é mais manter uma política de continuidade ao nível da cultura do que introduzir grandes mudanças?

O ciclo de políticas do dr. Rui Moreira marca, de facto, um antes e um depois na vida cultural da cidade. Nada é comparável ao Porto que nós conhecíamos antes do exercício do dr. Rui Moreira e da sua equipa. E portanto, eu reconheço-me em muito do legado que nos é deixado pelo executivo e pelo ciclo político anterior. A cidade é hoje uma cidade culturalmente vibrante. Houve o resgate de um conjunto de casas. O Rivoli é disso um bom exemplo, mas também o Cinema Batalha. Agora, um trabalho dá sempre origem a mil vezes mais trabalho. E a cultura é, digamos assim, uma realidade reticulada e capilar. É preciso tomar a cidade como um todo, uma geografia como um todo, e pulverizar a cultura na cidade. E, portanto, talvez a primeira nota fosse a de uma descentralização cultural com um Porto cultural mais independente. Ou seja, depois de ter havido um forte investimento municipal numa programação e numa ação de criação cultural de iniciativa municipal, é agora o tempo de devolver essa iniciativa, devolver esse espaço ao tecido artístico e cultural independente. Foi necessário fazer desta maneira para corrigir as assimetrias e um certo vazio, uma certa dormência, uma certa ausência cultural do Porto. Mas hoje estamos em boas condições para ter um Porto mais independente no que diz respeito à cultura. E, portanto, um bom desafio será o de descentralizar a oferta cultural, torná-la também mais democrática, mais próxima. Isso quer dizer tomar a geografia do Porto como um todo, mas também responsabilizar e dar a oportunidade da programação cultural da cidade ao tecido independente. Isso quer dizer, por exemplo, reestruturar instrumentos de financiamento, quer dizer dotar a cidade de espaços de criação e de apresentação que sejam entregues, cuja gestão seja entregue ao tecido independente, e quer dizer também abrir as casas municipais a políticas de acolhimento e de coprodução. Essa é uma prioridade. A outra é dada à palavra.

Muito rapidamente, Jorge Sobrado.

E vou terminar. Dada à palavra e ao livro. Não é apenas pelo facto do Porto ser uma grande cidade literária, talvez a maior cidade literária do país, todo o seu patrimônio literário. É também porque consideramos que o Porto é uma cidade de palavra, é uma cidade de palavras, é uma cidade de poetas e de palavrões. E, portanto, nós queremos construir uma cidade que lê. E a cidade que lê é uma cidade com pensamento crítico, é uma cidade que se abre ao mundo.

Vamos perceber então, Jorge Sobrado, como será esta vereação da cultura com um vereador com mau feitio. Muito obrigada por ter estado neste Explicador. Um bom dia.

Obrigado.