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Fora do Baralho, edição extra para responder às perguntas dos ouvintes. Hoje temos duas questões, uma delas é relativa à forma como a imprensa relata os assuntos de forma diferente, consoante sejam de esquerda ou de direita, na perspectiva de um dos ouvintes. A outra questão é sobre o fim do visto prévio. Vamos começar por aqui, hoje contigo, Nuno Garoupa, até porque tens falado muito sobre esta questão do visto prévio ao longo dos programas. O Joaquim Rodrigues diz: "Se é a isso, o fim do visto prévio, que chamam reformas estruturais, então podem limpar as mãos à parede com as reformas que querem fazer." Isto a propósito da medida que foi aprovada em Conselho de Ministros, o governo acaba com o visto prévio do Tribunal de Contas para contratos públicos inferiores a € 10 milhões. Este ouvinte diz que o que se pede a todos os que estão na política com seriedade é que em vez de andarem com jogos florais, a encher a boca com reformas, digam em concreto uns aos outros que reformas querem fazer, por que querem fazer, que estrangulamentos querem promover, que objetivos querem atingir, como é que querem fazer essas reformas e com quem. É um ouvinte que está a criticar a forma como as reformas são comunicadas e pergunto-te se a comunicação em relação a esta reforma foi a correta e se esta reforma, se é uma reforma, deve ir avante mesmo.
Repara, acho que aqui há duas questões, uma questão semântica, que é o uso da palavra reforma, depois em concreto, o que aconteceu aqui no visto prévio. Deixa-me dizer, em relação à questão semântica, eu acho que o ouvinte tem alguma razão, porque o problema é que os sucessivos governos abusam da palavra reforma para descrever aquilo que são medidas que estão no programa do governo. As reformas, em princípio, seria alguma coisa que muda a estrutura da economia ou da sociedade, ou da cultura, ou do Estado. O que acontece é que os governos, até mais à direita que à esquerda, porque a esquerda, em geral, o Partido Socialista não usa tanto essa linguagem da reforma, mas o PSD, pelo menos desde os governos de Cavaco, mas certamente Durão Barroso, apresenta-se como o partido reformista. O problema é que chamam reformas a coisas que são medidas pontuais, como seja, altera-se o IVA, reforma. Desce a taxa do IRC, reforma. Conta-se para a reforma dos professores, os meses, não sei o quê, reforma. Isso não são reformas, isso são medidas de políticas públicas, que são boas ou más, não vamos entrar nessa questão, mas não são reformas. Aí acho que há alguma razão, um enorme abuso da palavra reforma. Neste caso, infelizmente, acho que também não é fácil, porque isto começou por ser apresentado como o fim do visto prévio. É assim que isto foi apresentado. Isso seria uma reforma, na minha opinião, porque seria uma alteração estrutural daquilo que é a forma de ação do Estado português. Agora, o que está aprovado e anunciado é uma coisa que não é o fim do controle prévio ou o fim do visto prévio, é a alteração do montante mínimo em que se aplica o visto prévio. Isso é uma medida pontual, não é uma reforma. E portanto, a questão é que nós passamos de uma versão maximalista quando isto foi apresentado, que aliás comentamos no programa, que era o fim do controle prévio do Tribunal de Contas, uma enorme reforma, e agora temos uma versão minimalista. Eu devo dizer, das críticas que fiz no programa, acho que a versão minimalista é mais prudente, mas de facto tenho que concordar com o ouvinte. Não é uma reforma estrutural, é uma medida de gestão, é uma medida de políticas públicas.
Antes de irmos à próxima questão, já agora, o Chega avisou que é contra esta medida porque convida à corrupção. Que perspectiva tens sobre isto?
Mas lembra-te que quando o Ventura chamou isto o bar aberto à corrupção, foi a expressão que usou, referia-se à visão maximalista. Agora, com esta visão minimalista, não sabemos qual vai ser a posição do Chega, porque realmente não há, de facto, um bar aberto à corrupção. Há aqui uma ligeira alteração do montante que vai afetar a contratação pública de alguma forma, mas não é a tal alteração total à qual quer o Chega, quer o PS também estava bastante cético.
Sendo que, por acaso, estava aqui a pesquisar e André Ventura acabou por se pronunciar ao final do dia de quinta-feira. Diz que o Chega é contra a medida do governo, que torna exceção ao visto prévio do Tribunal de Contas, já depois do anúncio do Conselho de Ministros.
Claro, mas aqui a questão é que nós não conhecemos ainda o documento final. Quer dizer, porque aqui a questão é o que é que vai acontecer, por exemplo, porque o ministro também insistiu que seria reforçado o controle posterior no próprio Tribunal de Contas. Claro, nós não sabemos o que isso quer dizer. E portanto, eu acho que neste momento, enfim, e tendo em conta a evolução que o Chega já fez noutras matérias, como a legislação laboral, que também era contra, mas afinal está disposto a negociar, eu seria prudente em tirar conclusões neste momento.
Vamos passar então para o próximo ouvinte. José Fortuna escreveu um e-mail para foradobaralho@observador.pt, sobre essa questão que também já temos falado aqui, sobre como a imprensa relata os assuntos de forma aparentemente diferente quando eles são de esquerda ou de direita. E o ouvinte fala do tema da violência e da forma como foi tratado o atentado na Marcha pela Vida. Na última edição dos ouvintes, também falei disso aqui com o Jorge Fernandes. E até refere aqui o "E o Vencedor é?", o programa da Rádio Observador, em que alguém dizia que no último relatório sobre o tema na Europa, a porcentagem de atos de violência praticados é incomparavelmente superior por grupos de extrema-esquerda. E também olha aqui, por exemplo, para a abordagem à política externa. Nada se fala dos escândalos políticos do PSOE em Espanha, que ainda por cima é um país vizinho de Itália. O governo liderado por Meloni, na altura das eleições, era notícia como descendente de fascistas. Hoje em dia, Itália não virou ditadura, diz este ouvinte, foi contra a intervenção americana no Médio Oriente e, pasme-se, até ultrapassou ou está a ultrapassar França na economia. Depois também dá aqui o exemplo de Milei na Argentina, que as reformas e a recuperação económica neste país também passam ao lado. E a pergunta é se será apenas uma sensação ou um mito.
Neste momento, nós temos que continuar a dizer que é a sensação, porque não há estudos sobre isso. Infelizmente, apesar de haver imensas escolas de comunicação social e imensas teses de mestrado e doutoramento, ninguém se dedica a estudar estas coisas em Portugal. Agora, aqui há duas outras coisas. Podemos dizer factos e depois porque eu acho que essas questões não necessariamente são uma conspiração da esquerda contra a direita. Há dois factos óbvios neste momento, na minha opinião, é que a imprensa e o jornalismo em geral, como o comentariado, está à esquerda do eleitor mediano em Portugal. Mas isso é óbvio, porque o país mudou em 2024 e basta olhar para a demografia eleitoral em termos de estratos económicos, etc., para perceber que o eleitor mediano está hoje bastante à direita, entre a AD, na AD com o Chega à sua direita, e obviamente não é isso que se passa nas elites em geral em Portugal e muito menos na comunicação social. Portanto, de facto, neste momento, isso é objetivo. Outra questão que me parece também que é objetivo, que hoje a comunicação social em Portugal tem muito mais linhas editoriais à direita do que tinha há 20 anos e portanto, também desse ponto de vista, houve uma alteração clara na comunicação social. Agora, eu acho que há aqui questões que têm que ser postas em cima da mesa. Primeiro, é o problema de recursos e alocação de recursos, que há pouco, na discussão sobre a Lusa, quem defendia a Lusa dizia que quase 60% das notícias em Portugal são feitas com base em comunicados da Lusa. Isso significa que tem uma consequência, é que não há, de facto, linhas editoriais muito claras, porque se houvessem, haveria um pluralismo e não haveria notícias da Lusa. Portanto, ao utilizar-se as notícias da Lusa, está-se de alguma forma a reduzir a variância de perspetivas sobre os temas necessariamente. E não é por conspiração, é uma mera utilização de um recurso comum. Depois, nas notícias internacionais tens o mesmo problema há muito tempo, que evidentemente, os jornais em geral não têm redações internacionais, não têm 10, 20, 30 pessoas a trabalhar em matérias internacionais, socorrem-se a si mesmos das mesmas fontes e que são as fontes habituais. Por exemplo, em Espanha, obviamente, que é o "El País" e o "El Mundo". No Reino Unido é o "Guardian" para matérias políticas e depois o "Economist" e "Financial Times" para matérias económicas.
E depois temos as agências internacionais.
Claro. E portanto, tudo isso cria uma certa convergência de pontos de vista, que muitas vezes nem sequer é o jornalista que impõe o seu ponto de vista. Ele simplesmente está a seguir as suas fontes. E se as fontes são as mesma nas várias redações, acaba tudo por ter um ponto de vista que não é muito diferente. De qualquer maneira, eu acho que este problema hoje em dia é muito menos grave do que era há 20 anos, porque qualquer pessoa que está interessada no que seja, tem acesso através de informação fora da comunicação social portuguesa e das redes sociais a muitas dessas matérias. Portanto, não me parece que isto seja hoje uma grande questão que preocupe as pessoas. Agora, a outra questão, que essa sim, também não acho que é uma conspiração, que é normal, que é: conforme o país se desloca para a direita, é evidente que o espaço mediático dos comentadores está, em média, mais à esquerda do que está o espaço eleitoral. Mas os comentadores têm um problema, é que é uma indústria como qualquer outra. Para se substituir comentadores, quer dizer que há gente que tem que sair e gente tem que entrar. Quem tem que sair, não quer sair, é normal. E portanto, o espaço de comentariado vai levar muito tempo a ajustar-se às várias realidades do país, pela simples razão de que é uma indústria como qualquer outra. Portanto, o que eu quero dizer é: não é uma conspiração, não há uma central que está a manobrar estas questões. Eu acho que são problemas de mercado. E como eu sou mais liberal do que muitas pessoas em Portugal e acredito no mercado, acho que isto é uma questão de mercado, mais nada. Portanto, existe algum desfasamento entre aquilo que é a comunicação social e aquilo que é a realidade sociológica eleitoral do país neste momento, mas não acho que isso tenha a ver com uma conspiração. Acho que isso resulta das forças do mercado, nomeadamente na questão de recursos disponíveis e na questão do comentariado, onde obviamente as pessoas que estão hoje a fazer comentário não querem abandonar o comentário para entrar outras pessoas que representam outras forças políticas e portanto, acho que isso é normal.
Já agora, deixa-me acrescentar também aqui, tendo em conta que a pergunta do ouvinte é sobre imprensa e focaste aí não só a questão da cobertura noticiosa, mas também a questão dos comentadores, naquilo que me toca em particular, porque edito noticiários na tarde política da Rádio Observador, muitas vezes o que acontece também é que há a questão do valor notícia, da proximidade dos assuntos também em relação a Portugal, por exemplo, só para dar um exemplo aos nossos ouvintes, esta última semana ficou muito marcada pela guerra no Médio Oriente. A guerra na Ucrânia também perdeu e tem perdido algum espaço nas notícias que são dadas em Portugal, embora ainda haja naturalmente espaço para isso. Mas, por exemplo, as reformas de Milei, que estava aqui a dar conta este ouvinte, o que se passa na Argentina tem perdido um pouco de espaço aqui, porque nós nos noticiários, na rádio, por exemplo, temos um tempo definido e, portanto, temos que fazer escolhas e editar noticiários também é isso mesmo. Daí que muitas vezes se prenda também com o tempo que temos, pelo menos na rádio, para dar notícias. Fica também essa nota. Obrigada, Nuno Garoupa, por teres respondido esta semana às perguntas dos ouvintes. E até sexta-feira.