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Arranca então agora um Fora do Baralho especial, depois de uma tarde agitada no Parlamento, que culminou como se esperava. A Assembleia da República chumbou a moção de confiança e assim o governo cai e fica em gestão. Durante o debate, o governo chegou mesmo a admitir retirar a moção de confiança, caso o inquérito ao primeiro-ministro durasse apenas 15 dias, mas o PS não aceitou, nem depois de várias propostas que o governo foi apresentando ao longo da pausa nos trabalhos da moção de confiança. Juntam-se a nós neste mini Fora do Baralho os ases Jorge Fernandes e Luís Aguiar-Conraria. Bem-vindos os dois a esta edição especial. Jorge Fernandes, qual foi o objetivo do governo ao lançar estes desafios ao PS? Tentar mostrar que tentou tudo até o fim e usar esse trunfo agora no momento eleitoral?
Olá, boa noite. Eu acho que o governo deu um espetáculo absolutamente degradante sob o ponto de vista formal, porque a democracia, e Alexandra Leitão frisou isso durante o debate, e bem, na minha opinião, a democracia são as regras e é a forma. Portanto, aqueles expedientes que o governo utilizou, quer durante o debate, quando, por exemplo, o Hugo Soares disse a dada altura que, no fundo, estando ali a debater-se no plenário e à vista de toda a gente, ele queria fazer uma interrupção ou queria fazer um pedido à mesa para interromper o debate para que houvesse possibilidade de negociação entre PS e PSD. Enfim, uma negociação que ninguém sabe exatamente em que termos, ou, por exemplo, a ideia de Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares. No fundo, fazer uma proposta e dizer que o governo estava disponível para retirar a moção de confiança, se o PS aceitasse uma comissão parlamentar de inquérito, nos moldes, em 15 dias. Isto é absolutamente inenarrável, na medida em que a pessoa, ou o instrumento, ou o organismo, que é o governo, ou o primeiro-ministro, neste caso, que vai ser fiscalizado, não tem que ditar as regras sobre como o fiscalizador, que é a Assembleia da República, vai atuar. Não pode acontecer isto, quer dizer, a Assembleia da República tem o direito exclusivo de definir quando e como é que faz uma comissão parlamentar de inquérito. Não é o governo, não é qualquer entidade que determina como é que uma comissão parlamentar de inquérito tem que acontecer. Mais, as comissões parlamentares de inquérito têm trâmites próprios, não são definidos ad hoc ou definidos em função de cada caso em particular. Naturalmente que são ajustados pequenos detalhes em função do objeto da comissão, mas não é feito: "Vamos fazer isto em 15 dias, vamos fazer isto num mês." Os termos não acontecem por acaso e, portanto, a democracia é a forma. E depois aquele último número de teatro do CDS, enfim, aquela inexistência política em que utilizou uma regra que eu confesso que nem sabia que existia, um direito potestativo, que naturalmente está no regimento, tem direito de utilizar, mas foi uma mera manobra dilatória para tentar, em desespero de causa, conseguir ainda ajudar o governo a conseguir montar este teatro. Porque eu acho que o governo fez este teatro, e podemos falar nisto agora na outra ronda a seguir, mas acho que também houve uma parte substancial, porque eu fiquei com a sensação hoje, não posso confirmar, que talvez Luís Montenegro pensasse que isto não ia chegar a este ponto e que antes do dia de hoje, haveria qualquer tipo de coligação informal com o PS para conseguir resolver o problema de outra maneira.
Luís Aguiar Conraria, boa tarde também, bem-vindo. PS e Aliança Democrática revelaram uma vontade genuína de evitar este desfecho ou aquilo a que se assistiu hoje foi mais a preparação da narrativa que vai imperar durante o período de campanha eleitoral?
Vontade genuína, não sei, não estou na cabeça das pessoas. Aí não consigo responder a isso. Agora, a interpretação que faço de tudo isto é basicamente a oposta da do Jorge. Quem se assustou com a falta de presença aqui da Sana Prauta e do João Marcos Almeida a pensar que não ia haver debate, pode ficar descansado, porque estamos mesmo em total desacordo. Há aqui uma questão: claro que o Jorge tem razão quando diz que quem decide as condições da comissão parlamentar de inquérito é o Parlamento. É óbvio, mas também é óbvio que quem decide se põe uma moção de confiança à votação ou não, é o governo. E portanto, o governo disse quais eram as condições que punha para a retirar de votação. E lembro que o PS apelou várias vezes ao governo para que retirasse essa moção de confiança. Portanto, da mesma forma que o PS tem o direito de exercer potestativamente a sua prerrogativa de convocar uma comissão parlamentar de inquérito, também o governo tem o mesmo direito procedimental de dizer: "Eu retiro a comissão de inquérito nestas condições." E acho que foi isso que assistimos. E também acho que o Jorge está a dar um bocadinho demasiada importância a esta coisa de quem é que escrutina e quem é que não escrutina. Isto é um jogo político, não é um tribunal em que esteja um juiz a decidir e a julgar, supostamente, de forma imparcial. Isto é um jogo político, e aqui é um jogo político com duas equipas, digamos assim. Depois, eu devo dizer que eu considero que o principal culpado das eleições é Luís Montenegro, por tudo o que aconteceu até ontem Eu estou a comentar apenas o debate de hoje. Portanto, não confundam a minha opinião sobre o debate de hoje com a minha opinião sobre a globalidade de tudo o que se passou até hoje. Hoje, para mim, aquilo que Pedro Nuno Santos, a imagem que conseguiu passar, foi que estava disposto a ceder em toda a linha, exceto numa, que era um prazo final para a Comissão Parlamentar de Inquérito. Repare-se, a proposta final é daqui a 80 dias, é fim de maio, para o fim da Comissão Parlamentar de Inquérito. O Pedro Nuno Santos, nas últimas declarações que fez, deixa claro que os 30 dias eram prorrogáveis. Essa acusação de Montenegro foi, na verdade, confirmada por Pedro Nuno Santos, que eram prorrogáveis, porque podem surgir novas coisas, podem surgir necessidades de esclarecimento. Ou seja, há aqui um jogo político, e o jogo político era manter a Comissão Parlamentar de Inquérito ad aeternum, e parece-me que é razoável que um governo não esteja disponível para isso. E acho que é essa a leitura ou é essa a narrativa que o PSD vai querer ou quis construir, independentemente de ser genuína ou não, e eu acho que passou ou que vai passar essa imagem.
Jorge, não sei se queres responder aqui ao Luís, mas também te queria perguntar: vamos para eleições, era aquilo que se esperava. Esta ida para eleições vai beneficiar quem?
Só relativamente ao dia de hoje, antes de falarmos da questão das eleições. Eu concordo com o Luís, no fundamental, isto não se trata de um tribunal no sentido em que ninguém esperava que a Comissão Parlamentar de Inquérito fizesse um trabalho isento. Uma comissão parlamentar de inquérito é um local político, onde se faz política, tanto num lado como do outro. E naturalmente que o Partido Socialista, e eu admito isso perfeitamente, que a Comissão Parlamentar de Inquérito para o Partido Socialista tinha não apenas a função de apurar a verdade, o que quer que a verdade seja, a verdade material dos factos, mas naturalmente fazer um julgamento político e pôr e crucificar o Luís Montenegro na praça pública utilizando aquele instrumento parlamentar. Dito isto, eu penso que a ideia de que o governo pode colocar um custo ou qualquer tipo de condicionamento à maneira como o Parlamento quer exercer os seus poderes, não pode acontecer. Porque há uma diferença funcional entre aquilo que é o Parlamento e aquilo que é o governo. O Parlamento, de facto, é o órgão de fiscalização e mais, é o órgão, como aliás hoje vimos, de onde emana politicamente a confiança do governo. O governo é uma emanação do Parlamento. Portanto, sob esse ponto de vista, o governo tem autonomia governativa e tem autonomia de funcionamento, mas não tem uma pura autonomia política, porque responde perante o Parlamento e, como hoje se viu, se o Parlamento quiser, retira-lhe a confiança política e leva à sua queda. Portanto, relativamente a isso. Mas eu também não estou em desacordo total com o Luís nesta ideia performativa da Comissão Parlamentar de Inquérito. E naturalmente, o PS fez aquilo que tinha que fazer. Relativamente às eleições, eu acho que o Montenegro sai profundamente chamuscado deste caso todo. Não estou a falar do dia de hoje, em particular. Acho que deste caso todo, posso estar enganado, mas passou para a opinião pública a ideia de que havia um primeiro-ministro que tinha alguns negócios que poderiam ser menos limpos, que poderiam eventualmente até ter algumas ilicitudes e mesmo que não tivessem ilicitudes do ponto de vista ético, eram altamente questionáveis, porque o primeiro-ministro e na prática a empresa, apesar de ter sido dele, da mulher e dos filhos, depois só da mulher e dos filhos, depois só dos filhos, apesar das várias interações da empresa, na prática a empresa era ele, até porque ele é que era a pessoa que, do ponto de vista técnico, era a pessoa habilitada a fazer aquilo. Aliás, achei ontem muito curioso uma coisa que ele disse e confirmou na entrevista à CNN, em que a dada altura a Sandra Felgueiras pergunta-lhe e diz: "Bem, aqui diz que o senhor tinha colaboradores pagos com um salário mínimo." Para mim, a questão de serem pagos com o salário mínimo não é relevante, mas aquilo deu-me um outro sinal, deu-me o sinal que de facto aqueles colaboradores à partida não devem ser colaboradores altamente qualificados, não devem ser, por exemplo, advogados. Aquilo é mais um sinal que a empresa, na verdade, é o primeiro-ministro e que aqueles colaboradores, a ideia de que ele, como ele quis passar, que ele tinha montado a empresa, criou uma estrutura muito profissional, de gente muito capaz e que depois, mesmo sem ele, aquilo funcionava. Tudo o que sabemos até hoje, e ontem aquele pequeno detalhe de serem colaboradores pagos com salário mínimo, diz-me que à partida serão pessoas com poucas qualificações ou que não serão capazes de providenciar o tipo e o nível de serviço que uma empresa como a Salverda, por exemplo, que é uma empresa grande, que é uma empresa com muita reputação no mercado em Portugal, e é uma empresa que pagando quase € 5.000 por mês, esperaria de uma equipa que trabalhasse numa empresa daquela natureza. E portanto, a sensação que eu tenho, e veremos agora o que vai acontecendo nos próximos dias, quando as sondagens começarem a sair, é que de facto o Montenegro vai para isto numa situação bastante complicada.
E a forma como ele geriu o debate hoje pode ter tido esse objetivo, ou seja, de tentar correr atrás do prejuízo e tentar limpar-se um pouco dessa imagem ao manifestar, de certa forma, interesse em dar explicações numa comissão parlamentar de inquérito, ainda que com as condições que ele próprio apresentou?
Isso é outra coisa que eu não consegui perceber até agora em todo este processo: como é que Montenegro mostrou um profundo amadorismo? E ele é alguém que anda na política há tantos anos, que já viu tanta coisa, que foi um homem forte de Passos Coelho durante a troika, durante momentos muito difíceis, por exemplo, na relação entre PSD e o CDS. E ele parece que não aprendeu nada, porque em vários momentos desta crise, ele teve a possibilidade de desarmadilhar a bomba, de poder colocar-se à frente da narrativa, por exemplo, naquele já célebre sábado em que ele podia ter chegado ali e encerrado a empresa simbolicamente, isso teria um peso importante, e escolheu não o fazer. Noutros momentos, ele escolheu, por exemplo, não prestar esclarecimentos aos jornalistas. Houve vários momentos em que o primeiro-ministro, de facto, não se colocou à frente da situação. E hoje fiquei mais uma vez com a sensação que ele não pensou que isto chegasse a complicar este lado e a dada altura, o PSD aparece. Eles estavam um bocadinho perdidos e sem saber exatamente o que fazer e começaram com aquelas manobras. Por isso é que eu há pouco disse, eu acho que há ali uma componente de teatro, mas também acho, e nunca saberemos verdadeiramente até alguém escrever as suas memórias políticas, que pode haver ali realmente alguma desorientação por parte do governo e por parte da bancada parlamentar do PSD.
Luís Aguiar Correria, foram prestados todos os esclarecimentos? Se não, o que é que tu, enquanto cidadão e eleitor deste país, gostavas de ver esclarecido por parte do primeiro-ministro?
Do ponto de vista substantivo, eu concordo com o Jorge até o dia de ontem. Hoje não. Hoje acho que Montenegro foi muito profissional e um excelente parlamentar e dominou as operações, permitam-me que fale assim. Agora, até ontem, não. E portanto, as minhas dúvidas são as mesmas de, penso eu, da maioria das pessoas e penso que também do Jorge, que é: eu não consigo compreender ainda o que é aquela empresa, que serviço é que aquela empresa prestava que justificavam aquelas avenças. E enquanto não perceber isso, e não perceber isso de forma satisfatória, claro, não é de forma suspeitosa, fico na dúvida sobre quais é que são os motivos para se terem mantido as avenças até agora. Houve uma que foi a da Salvo Verde que foi suspensa. Mas as outras, penso que não houve nenhum anúncio nesse sentido. E de facto, eu acho que isso está por esclarecer. Eu penso que o Rui Ramos escreveu num artigo que escreveu no Observador há dois ou três dias, explica bem o problema. Nós ficamos com a sensação que aquilo é uma empresa que consegue aqueles contratos à custa do passado político de Luís Montenegro e que depois Luís Montenegro volta para a política e esqueceu-se de encerrar a empresa. Eu realmente concordo com o Jorge, tudo teria ficado resolvido se mesmo in extremis, naquele famoso sábado, ele anunciasse que a empresa tinha encerrado. Agora, não tendo encerrado, não sei. Em relação ao dia de hoje, eu e o Jorge pensamos exatamente o oposto um do outro. Eu penso que ele foi para ali com uma estratégia e a estratégia era mostrar ao país que o Partido Socialista, de facto, não estava preocupado com esclarecimentos nenhuns, porque se estivesse preocupado com esclarecimentos, é evidente que uma comissão parlamentar de inquérito até o dia 31 de maio é mais do que suficiente, não há assim tantas coisas para esclarecer. Isto não é um caso assim tão complicado que exija grandes maratonas e que se prolonguem ao longo de vários meses. E Luís Montenegro abriu essa porta ao PS e o PS não quis atravessar essa porta. Eu acho que isso ficou claro e acho que estrategicamente hoje Luís Montenegro voltou a ser profissional.
Foi bem-sucedido em empurrar responsabilidades para o Partido Socialista para estes choques.
Agora, se é bem-sucedido ou não, nós temos de ser honestos. É que nem sequer será nas próximas sondagens. Nós vamos ter de esperar que as sondagens estabilizem. Neste momento, mesmo alguém que vá responder amanhã a uma sondagem, vai estar a responder com os nervos à flor da pele e sem ter ainda absorvido tudo e sem ter percebido, sem ter ouvido toda a gente. Eu e o Jorge podemos mudar de opinião amanhã. E portanto, vai ser preciso esperar algum tempo para perceber de facto quem é que sai por cima. Isso depois da campanha eleitoral já será mais à frente. Neste momento, perceber o efeito disto tudo, quem é que vai ser considerado pela opinião pública como o culpado, penso que teremos de esperar duas ou três semanas, será o que é necessário.
E isso vai ser importante, Jorge, perceber quem é que será o culpado ou que ficará com o ônus desta situação. Vai ser importante também perceber isso?
Claro, é fundamental. Na verdade, à partida, isso será a chave para o que acontecerá nas eleições, na medida em que, considerando que, em primeiro lugar, as eleições foram há tão pouco tempo, foi apenas o ano passado. Em segundo lugar, quer queiramos quer não, o governo de Luís Montenegro, sob o ponto de vista da performance económica, do bem-estar das pessoas, não estava a ter maus resultados. Eram resultados perfeitamente em linha com o passado mais recente de Portugal e com algum crescimento económico.
Aqui, Jorge, exceto na saúde, que é sempre uma coisa também bastante mediática, não é?
Pronto. Mas no resto estamos de acordo?
Não, eu acho que Montenegro estava a ter um governo perfeitamente em linha com aquilo que eram os resultados mais recentes da governação de António Costa. Inclusive, Montenegro conseguiu até, dentro do tempo que teve no governo, começar a corrigir alguns problemas estruturais que o PSD tinha, por exemplo, relativamente à sua relação com os reformados, com algumas carreiras especiais da função pública, por exemplo, nestas medidas que tomou relativamente aos jovens, que não devem ser desvalorizadas, apesar de tudo, e a possibilidade de algumas pessoas poderem comprar casa, apesar daquilo introduzir distorções no mercado, mas de facto, houve um conjunto de medidas que o governo tomou. Sob esse ponto de vista, estas eleições vão se centrar essencialmente nisso. Se ele mentiu, se não mentiu, quem é a culpa das eleições, porque a avaliação do governo à partida, sem ser extraordinária, não será particularmente má para Montenegro. Do ponto de vista ideológico, também em relação a Pedro Nuno Santos, o que é que Pedro Nuno Santos vai dizer? Que é contra os benefícios para os reformados, que é contra o aumento dos professores, que é contra determinado tipo de benefícios na habitação aos jovens? Sob esse ponto de vista, também não será grandemente diferenciador. Fundamentalmente, o que vai ser discutido é isso, essa é a chave para as eleições. E claro, eventualmente, para já está tudo ainda com a cabeça quente, estamos ainda a pensar nesta situação, mas quando se começar a aproximar o momento das eleições, reaparecerão certamente aquelas velhas perguntas estratégicas de: será que Montenegro fará uma coligação com o Chega? Porque eventualmente, eu admito que Montenegro neste momento se sinta eventualmente traído pelo Partido Socialista e se sinta menos comprometido com a necessidade de servir como barreira protetora ao Chega.
Pese embora o Chega também tenha contribuído para o chumbo desta moção de confiança.
Sim, mas Ventura fortou-se de lembrar estes dias e hoje inclusive, no fundo, disse a Montenegro: "Bem, mesmo que tivesse estes problemas todos, se tivesse feito uma coligação conosco", enfim, não há universos alternativos, mas "se tivesse feito uma coligação conosco, neste momento estaria protegido por uma maioria absoluta e portanto, seria intocável do ponto de vista político. Poder-se-ia ter que demitir, enfim, por pressão, mas seria uma decisão sua. Nunca se sujeitaria, por exemplo, a uma eventual falha de uma moção de confiança, tal como aconteceu hoje." Portanto, Ventura relembrou disso. E eu penso que a altura mais à frente na campanha eleitoral, surgirão estas questões inevitavelmente e surgirá ainda uma questão, que é uma questão central, que é se por acaso Montenegro for penalizado enquanto primeiro-ministro, e vamos supor que Pedro Nuno Santos fica à frente nas sondagens, mas a direita continua a ter maioria porque o Chega continua extremamente grande, com muito apoio popular, o que é que Montenegro fará nesse caso, se ficar nesse lugar?
Suponho que Luís Montenegro disse que só governaria se ganhasse.
Pois, está bem, mas eu acho que há um conjunto de pressupostos e de ideias de Montenegro que poderão ser alteradas precisamente pela maneira como ele próprio certamente se sentirá injustiçado neste momento.
Luís Garcia Conraria, quem é que poderá se beneficiar ou não destas eleições que estão aí a caminho?
Ninguém. Quem é que pode? Qualquer um pode. Na verdade, isto neste momento é tão imprevisível que acho que os cenários estão todos em aberto. É possível que o Chega reforce a sua votação, dada a confusão política, é normal. Se não tivessem sido as últimas semanas, se calhar fatais para o Chega, com a história das malas, com a história do abuso sexual de menores e por aí fora, o Chega com certeza que beneficiaria. Assim não é garantido.
Mas ainda assim, apesar desses casos, admite-se a possibilidade do Chega poder vir a reforçar a votação que teve nas últimas eleições?
Sim, eu admito, mas também admito o contrário. Portanto, na verdade, é uma opinião em que a resposta é mesmo não sei. Eu também consigo imaginar uma campanha eleitoral tão polarizada entre PS e PSD, quem é que vai ser o próximo primeiro-ministro, que de repente as pessoas do Chega, que votavam no Chega, votem em massa no Montenegro. Ou seja, eu estou mesmo a dizer que não sei, admito todos os cenários. Porque também há uma coisa que é evidente. O eleitorado típico do Chega não tem problemas nenhuns em votar em corruptos. E mesmo que o PS consiga passar a narrativa de que há ali um problema de corrupção com o Montenegro, não é isso por si só que afasta os votantes do Chega. Isso vê-se nas várias eleições, viu-se, por exemplo, na eleição do Trump. Aquele tipo de eleitorado não tem problemas nenhuns em votar em pessoas com problemas na justiça. Eu, de facto, não consigo prever o que vai acontecer. Agora, vamos ver. Penso que à esquerda haverá mais condições para o voto útil. O voto útil à esquerda acho que é muito provável. E nesse aspecto, o PS poderá ter a sua votação reforçada. Eu imagino isso para já porque acho que Pedro Nuno Santos passa a imagem de ser um político honesto, portanto não penso que o eleitorado tenha medo de que haja casos de corrupção ou mais dúvidas com Pedro Nuno Santos, e é visto dentro do PS como uma das pessoas mais à esquerda. Portanto, penso que é muito fácil para um eleitor típico do Bloco de Esquerda ou do Livre votar em Pedro Nuno Santos Essa talvez seja a única previsão que eu arrisque fazer: o reforço do PS à esquerda. Se vai conseguir reforçar ao centro ou o que vai acontecer ao AD, não sei.
Jorge Fernandes, aqui alguém durante a tarde elogiava aquilo que foi a postura de Rui Rocha, o presidente da Iniciativa Liberal, durante este debate da moção de censura. Usava esta expressão: "Rui Rocha foi o adulto na sala." Foi?
Eu acho que Rui Rocha correu aqui um grande risco político ao associar-se a Montenegro, especialmente ao associar-se hoje. Ele estava sempre numa situação muito complicada, porque se o eleitorado de centro-direita eventualmente percepcionar Montenegro e este caso como uma coisa menor, a Iniciativa Liberal pode ser penalizada, mas ao mesmo tempo também correu um risco muito grande ao associar-se de forma tão clara e apoiar expressamente o governo. E nós sabemos que há correntes dentro da Iniciativa Liberal, enquanto uns apoiam claramente uma coligação e uma aproximação ao PSD, outros estão muito mais céticos e acham que a Iniciativa Liberal deve trilhar um caminho sozinha e no fundo identificar-se profundamente como sendo diferente do PSD. Portanto, Rui Rocha, claro, do seu ponto de vista da forma, fez uma espécie de quadratura do círculo que para ele, no fundo, não era difícil, porque ele podia ao mesmo tempo exigir a Luís Montenegro esclarecimentos, mas também podia exigir ao mesmo tempo que ele fechasse a empresa. Ele apesar de tudo estava numa situação relativamente confortável sob esse ponto de vista. E para além disso, ele sabia que o seu voto não seria o voto decisivo, ao contrário de Pedro Nuno Santos, que tinha o voto pivô, digamos assim, seria o PS que definiria o resultado final desta votação, enquanto a IL sabia que com os seus oito deputados, apesar de tudo, fosse por onde fosse, não seriam eles a determinar à partida o futuro do governo. Voltando ao início, com esta associação tão clara ao PSD hoje, corre o risco de ficar um bocadinho associada ao destino de Montenegro. Se o eleitorado, apesar de tudo, percepcionar isto e tentar não penalizar Montenegro, a Iniciativa Liberal eventualmente até pode dizer: "Bem, nós somos aqui os parceiros do PSD, portanto nem é preciso fazerem o voto útil no PSD, podem votar em nós porque na prática, se houver necessidade de uma coligação pós-eleitoral, por exemplo, nós cá estaremos." Sob esse ponto de vista, é uma estratégia ganhadora. Pelo contrário, se eventualmente Montenegro for altamente penalizado, pode haver eleitores da Iniciativa Liberal que não terão ficado satisfeitos com esta colagem tão forte ao PSD e pode colocar Rui Rocha numa situação mais delicada.
Luís, num minuto, há alguma ideia também sobre isto?
Honestamente, acho que a generalidade do eleitorado nem deu conta da existência da Iniciativa Liberal. Acho que terem sido o adulto da sala, quer votando a favor, quer votando contra, honestamente acho que não tem sequer impacto. Essa é a minha reação. Nós que estamos aqui a seguir os debates e estamos a ver, e no meu caso até simpatizo com o Rui Rocha, que é aqui meu vizinho, damos muita importância a isto. Agora, eu penso que a generalidade do eleitorado nem se apercebe da existência da Iniciativa Liberal. Nisso, por muito que lhes custe, é quando o Chega lhes diz, ou quando alguém do Chega lhes diz: "Vocês não contam, estamos a falar de maiorias e aqui só há três partidos que interessam, que é a AD/PSD, o PS e o Chega." É verdade. Todos nós ficamos suspensos nisso. Aliás, quem é que deu conta que houve abstenções na moção de confiança? Nem se fala nisso. Mas houve abstenções na moção de confiança, não é? Foi o Livre.
Não, Luís, o Livre votou-
Quem é que se absteve? Houve uma abstenção.
Não, penso que não.
Tenho ideia que não houve abstenções.
Não houve abstenções.
Houve abstenções. Nós damos tão pouca importância aos pequenos partidos que nem damos conta. Tens razão, houve abstenções.
Naquela moção fora do baralho. Luís, já que o Rodrigo referendou.
Tens razão.
Vai haver muito para falar em outros Fora do Baralho, nomeadamente já na sexta-feira às 19h.
Podemos fazer já um às 21h.
Este vai ficar por aqui. Muito obrigado por terem se juntado a nós e até sexta-feira.
Boa noite. Obrigado.