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"Fora do Baralho" na Rádio Observador, que reúne os ases do comentário: a Susana Peralta, o Luís Aguiar Conraria e o Jorge Fernandes. Hoje não contamos com o Nuno Garoupa, que anda lá por fora a lutar pela vida. A jogada da semana, na segunda parte, será sobre a prestação social única, que resulta de um acordo alcançado entre PSD e PS no Parlamento. Já lá vamos. Eu sou o Ricardo Conceição e este é o "Fora do Baralho" e arrancamos, como sempre, com os naipes. Susana Peralta, tu queres falar sobre a ideia de criar um fundo soberano de que ainda não conhecemos pormenores. Que naipe escolhes, Susana?
Ouros, obviamente.
Ouros.
Nós temos um fundo soberano, somos um país rico, encontrámos petróleo. Eu tenho uma teoria que foi o petróleo ali por baixo daquela gasolineira de Braga, que é cliente da CP não viva, o que queria dizer que finalmente estávamos a colher alguns frutos de termos um primeiro-ministro empreendedor. Eu, por acaso, hesitei entre dois temas do Congresso do PSD, porque a ferramenta de inteligência artificial para tirar fotografias com o Sá Carneiro, com o Pinto Balsemão e com o próprio Montenegro, que obviamente está mais ou menos à altura em termos de importância histórica.
Eu pensei que esse era o naipe honorífico e ia deixar para o final da primeira parte, mas tudo bem.
Porque no fundo isso também é uma espécie de fundo soberano, não é?
Está tudo ligado a isso, Susana.
Está tudo ligado. Quanto a mim está tudo ligado, porque o PSD vai beber na inspiração destes vultos dourados sobre os quais repousa esta herança política deste grande partido. E então, hesitei, efetivamente, mas depois acabei por ir para o fundo soberano, embora, como eu digo, eu não excluo que por baixo daquelas imagens de inteligência artificial haja um pote de ouro ou por baixo da gasolineira de Braga. Este fundo soberano é uma coisa sem pés nem cabeça. Eu devo dizer que é uma ideia, lá está, de cada vez como ela não vem muito bem estruturada, nós não sabemos se é exatamente a mesma ou se é uma adaptação, mas de facto Fernando Medina, quando era ministro das Finanças, já tinha também tido a ideia de ter um fundo. Qual é o problema disso? O problema disso é que os fundos soberanos existem quando um país gera excesso de liquidez, gera dinheiro, tem um fluxo de dinheiro, e é uma maneira de investir esse dinheiro numa carteira de investimentos, que normalmente procura-se que seja diversificada e que aquilo de facto traga um retorno ao país. Muitas vezes é também usada, obviamente, como manobra de charme político. Basta ver os fundos soberanos das petromonarquias a investir em clubes de futebol europeus. Mas seja como for, de facto pressupõe que haja alguma maneira de ir buscar dinheiro. Ora, como nem as estátuas dos fundadores do PSD, nem, presumo eu, o subsolo da gasolineira cliente da CP não viva, tenha jorrado daí uma fonte de recursos naturais que nos permita ter esse fluxo de capital, a única maneira de nós constituirmos este fundo soberano é sempre ir à dívida. Ou nos endividamos para investir, ou ao não usarmos a nossa receita fiscal para abatermos na nossa dívida, também estamos a ir à dívida, ou seja, estamos a fazer com que ela não diminua tão depressa, portanto, no fundo, estamos a ter uma dívida maior, estamos sempre a ir à dívida. Ora, para nós irmos à dívida, mesmo que nós quiséssemos investir este fundo soberano na tal carteira diversificada que permitisse um certo retorno e uma diversificação do risco, muito provavelmente a melhor maneira de nós diversificarmos ou minimizarmos o nosso risco é sempre pagarmos a dívida, porque isso nos permite estarmos na posição que estamos hoje em dia, que é uma posição, apesar de tudo, mais confortável, em que podemos ir aos mercados sem termos taxas de juro explosivas. E por outro lado, ainda por cima, se for para nós irmos à dívida, que eu repito, de todo modo é ir à dívida, seja porque pedimos emprestado, seja porque não a abatemos, seja para investir nos setores ditos estratégicos, isso é tudo é que não faz sentido nenhum. E depois, isso é o que nós já fazemos de uma certa maneira, porque que eu saiba, o Estado já tem uma carteira de investimentos num conjunto de setores ditos estratégicos, incluindo um banco, sendo que eu acho muito bem que haja um banco público em Portugal, só para deixar aqui a minha posição bastante clara. E pronto, portanto, realmente, eu acho que isso está ao nível da ferramenta de inteligência artificial, no sentido em que Luís Montenegro queria tirar da cartola uns objetos mais ou menos emotivo-parolos para fazer com que nós esquecêssemos a verdadeira barraca daquele congresso, que era: ele achava que ia chegar ao Congresso triunfante com a reforma laboral aprovada.
Este tiriri quer dizer que a Susana Peralta caiu. Vamos avançar na distribuição de naipes. Agora só explicar esta ferramenta de inteligência artificial de que a Susana Peralta falava. No Congresso do PSD permitia aos congressistas tirar uma fotografia com o Luís Montenegro, também com Francisco Sá Carneiro e com Francisco Pinto Balsemão. Permitia tirar uma fotografia virtual. Agora vou ao Luís Aguiar Conraria, que nos quer falar sobre o Instituto Nacional de Estatística, que divulgou esta semana números sobre os residentes em Portugal, números também sobre a imigração. Afinal, somos 11 milhões e meio, nunca fomos tanto. E que naipe escolhes tu, Luís? Não, também não temos o Luís Aguiar-Conraria. Já vamos regressar a ele. Vou avançar para o Jorge Fernandes, que tem um naipe para o LIVRE. Tens ouros para Rui Tavares, Jorge Fernandes?
Sim. Olá, Ricardo. Olá a todos. Tenho ouros para o Rui Tavares. Eu acho que esta decisão que o Rui Tavares anunciou hoje, presumo que já fosse algo que estava a ser discutido dentro do partido, mas que foi hoje anunciado que Rui Tavares deixaria a liderança do LIVRE, penso que é positivo para o partido. Não por Rui Tavares ser um mau líder, pelo contrário, eu acho que se Rui Tavares se mantivesse muito tempo, e Rui Tavares, convém relembrar, já é líder desde o início do partido, em 2014, 2015, na altura em que aquilo ainda era Tempo de Avançar, LIVRE, havia ali uns movimentos que se estavam ainda a coligar e para institucionalizar o partido. Rui Tavares já foi líder tempo mais do que suficiente e de resto, durante muito tempo, muita gente dizia que o LIVRE era um partido Rui Tavares unipessoal. E para evitar riscos maiores, digamos assim, e para evitar que a sua figura se cole ainda mais ao partido e que deixe emergir segundas, não são segundas linhas, mas são pessoas para além dele que possam assumir claramente a liderança do partido, eu acho que é positivo que ele se afaste. Ele foi um bom líder. Rui Tavares e o LIVRE merecem, na minha opinião, claro, eu sei que esta opinião pode não ser partilhada por muita gente, mas prestaram um bom serviço à esquerda portuguesa, porque a esquerda portuguesa foi sempre refém, do PCP, por um lado, em primeiro lugar e durante muito tempo, um partido stalinista, no fundamental, e depois mais tarde, do Bloco de Esquerda, que vestiu o trotskismo requentado de umas linhas modernasses com o doutor Louçã, que no fundamental é um produto do pré que o doutor Louçã, daquela geração. Não é remotamente o europeísta ou o líder europeu com a cabeça desempoeirada de esquerda moderna, portanto, a modernidade ali é uma coisa meramente de fachada socialista, como dizia outro. Rui Tavares, de facto, construiu, Rui Tavares e as pessoas em volta dele, mas construíram uma esquerda à esquerda do PS, moderna e europeísta, pró-capitalista, na verdade, quer dizer, a favor de um capitalismo regulado, social-democrata. E eu acho que faz falta a Portugal.
Mas Jorge, achas mesmo que o Rui Tavares vai retirar? Ele vai ficar com o número três do partido, vai ficar com o pelouro da estratégia e da comunicação.
Se eu tivesse que apostar, isto é uma mera aposta pessoal, eu acho que Rui Tavares está a preparar o caminho para daqui a três anos ser o candidato do partido ao Parlamento Europeu. Ele nunca escondeu, e é público e notório, não é sequer informação privilegiada. Ele sempre mostrou em público o pau quando ele se sente como peixe na água, que aquilo que ele verdadeiramente gosta é do Parlamento Europeu, da construção europeia. Ele foi eurodeputado há muitos anos atrás do Bloco de Esquerda e depois independente. É uma pessoa que tem intervenção pública, nomeadamente, sempre escreveu muito e sempre se interessou muito por temas europeus. Se eu tivesse que apostar, eu acho que ele neste momento, o objetivo que ele tem é cimentar a liderança do partido, para o partido entrar numa lógica de estar a todo vapor sem ele e tornar-se completamente independente dele, para daqui a três anos, quando forem as eleições europeias, ele apresentar-se com toda a tranquilidade como candidato, sem correr o risco de alguma maneira de deixar órfão o partido, ou deixar que o partido tenha um risco de implosão na ausência da liderança. Será importante, aliás, que Rui Tavares não faça aquilo que Francisco Louçã fez estes anos todos. Toda a gente sabe, é público e notório, que muitas das decisões-chave do Bloco e todas as decisões-chave do Bloco, desde que Francisco Louçã deixou a liderança, passaram sempre pelo crivo de Louçã. Convém recordar, naquele célebre sábado em que António Costa recebeu uma pessoa do Bloco de Esquerda em casa para urdir a Geringonça, no sábado de reflexão de 2015, quem ele recebeu foi precisamente Francisco Louçã, não foi Catarina Martins. E Francisco Louçã sempre lançou uma sombra muito grande em cima de muitas pessoas do partido, o que causou grande desconforto em grande parte da militância. Convém que Rui Tavares aprenda com esse erro e que realmente deixe que uma liderança nova floresça, se institucionalize para ele então poder sonhar e cumprir aquilo que ele gosta de fazer. Toda a gente ganha naquilo.
Ficam os teus ouros para Rui Tavares. O Luís Aguiar-Conraria tem o naipe para o INE, para os números divulgados esta semana. Qual é o naipe que escolhes, Luís?
Ora, eu escolho paus. Eu fiquei um bocadinho na dúvida, porque há uma mudança metodológica e a nova metodologia é melhor, e sendo melhor, permite estabelecer com mais exatidão o número de residentes que temos em Portugal. E à partida, melhorias nos procedimentos merecem copas ou ouros. Mas a verdade é que isto tem implicações e acho que o INE não teve devidamente em conta essas implicações. Vamos começar aqui pelo que é o óbvio, sendo que o que muitas vezes é óbvio é insuficiente A primeira coisa é que se aumentamos a população, há um impacto direto em tudo o que são contas per capita. Se temos uma pizza e temos 10 pessoas em casa, se de repente chega mais uma para jantar, temos a mesma pizza, mas agora a dividir por mais pessoas, ou seja, temos menos pizza para cada um, em média. E isto permitiu um discurso tremendista de vários opinion makers e até de jornais. E aqui permitam-me salientar que acho que o jornal "Eco", do António Costa, nosso colega no Observador, fez umas contas de merceeiro que estão erradas e que de certa forma, com estas fake news, acabou por influenciar bastante isto, ao concluir que o PIB per capita português ia cair de 81% da média europeia para 76%. Fez um título com isso, e fez com que, a seguir, se procurarmos rapidamente no Google, vemos que há uma série de artigos a falar em choques colossais, a dizer que Portugal perdeu três lugares no ranking europeu do PIB per capita, que vivemos uma fraude, que se fala da grande fraude da convergência portuguesa. Tudo isso são títulos que apareceram na imprensa. Só que a verdade é que isto não é assim. E não é assim por quê? Porque o PIB, que é o valor de tudo o que é produzido em Portugal num determinado ano, na verdade, ninguém sabe qual é. Como é que se mede isso? É uma coisa difícil. E como é impossível verdadeiramente medir aquilo que é produzido num país num determinado ano ou o valor do que é produzido, o que se faz são estimativas. E nessas estimativas, uma das coisas que se tem em consideração é o número de trabalhadores. Ora, se nós sabemos que afinal havia mais cerca de 630 mil residentes em Portugal, sendo que a maioria deles eram trabalhadores, porque aqui na população imigrante a maioria são pessoas que vêm para trabalhar, então isso implica que também vamos ter de rever a estimativa de tudo o que nós produzimos e portanto vamos concluir que o PIB afinal foi maior. É como se aquela décima pessoa que entrou em casa para comer a pizza fosse um cozinheiro e fosse ajudar a fazer uma pizza maior. E neste caso, já não sabemos verdadeiramente se a quantidade de pizza por pessoa aumenta ou diminui. E portanto, eu acho que o INE tinha que ter gerido melhor a comunicação. O INE não aparece no vácuo. Já há um ano que se fala nisso, já havia muita gente à espera destes números e portanto, era importante que quando o INE publicasse esta revisão, que a tivesse feito logo, rever tudo, ou seja, ter já os novos PIBs e os novos PIBs per capitas calculados, ou então que informasse de forma bastante explícita que ainda é cedo para tirar conclusões. E na verdade, isso ficou remetido para uma nota metodológica lá no fim do seu comunicado e que muita gente não viu. E pronto, eu já agora não quero ser demagógico, porque lendo as notas do INE percebe-se que o que se vai alterar é uma pequena parte da estimativa do PIB e, portanto, à partida, o PIB vai subir, sim, mas não para compensar o aumento da população.
Luís, ainda tens aqui 30 segundos. Luís, ainda tens aqui 30 segundos para o teu naipe honorífico para Cabo Verde. 30 segundos.
Só para festejar Cabo Verde, eu acho que toda a comunidade lusófona, e aqui lusófona estou a dizer gente que fala português, ficou muito mais feliz com os empates de Cabo Verde e estamos todos aqui a torcer. Portanto, um grande abraço para Cabo Verde e um grande coração, portanto grandes copas para eles.
E há jogo esta madrugada de Cabo Verde com a Arábia Saudita. Quem nos estiver a ouvir na repetição de sábado já saberá o resultado desse jogo, que nós aqui à sexta-feira ainda não sabemos. E fica também o desafio aos ouvintes para partilharem pensamentos ou perguntas para o episódio extra de domingo. Basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Esta semana, a resposta cabe ao Jorge Fernandes. Já voltamos para a segunda parte e a jogada da semana. Segunda parte do Fora do Baralho, na Rádio Observador, com Luís Aguiar Conraria, Jorge Fernandes e a Susana Peralta. Esta semana não contamos com o Nuno Garoupa, eu sou o Ricardo Conceição e na semana passada tivemos o chumbo da reforma laboral pelo Chega, o que fez pairar uma nuvem negra por cima do governo. E eis que esta semana o sol voltou a brilhar com o acordo alcançado entre PSD e PS para aprovar a PSU, a Prestação Social Única. Achas, Susana Peralta, que na casa do governo se ouviram passarinhos e o sol brilhou esta semana?
Quer dizer, eu acho que a reforma laboral foi uma barraca e foi uma surpresa para Luís Montenegro, que como eu já disse na primeira parte, deixou pendurado, porque verdadeiramente ele estava à espera de chegar com esse trunfo ao congresso e correu mal. E, por outro lado, a prestação social única não só era de algum modo uma criação do PS, não nos moldes em que a AD quis legislar, mas a ideia da fusão de prestações sociais, etc. Como era também um requisito para não perdermos dinheiro europeu, havia uma pressão extra que também eu julgo que o PS quis estar do lado da responsabilidade desse ponto de vista, eu acho também importante. E acho que aquele choque de sexta-feira da semana passada, quando a reforma laboral cai daquela maneira, com estrondo no Parlamento, com aquela surpresa toda, levou a AD a aceitar os pedidos de namoro do José Luís Carneiro, que foram reiterados já há muitos meses, as cartas que ele mandava, etc. Depois, vamos lá ver se isto é para manter ou não. Ou seja, eu acho que o que a AD terá percebido neste momento é que o Chega-
Estamos com alguns cortes na ligação com a Susana Peralta. Vamos ver se conseguimos recuperar Susana.
Só se está o Chega.
Não, avançamos para o Jorge Fernandes. Jorge, depois do chumbo da reforma laboral e agora com este acordo, que leitura é que podemos fazer sobre a capacidade real do governo para governar com alguma estabilidade, já com os olhos postos na discussão da proposta do orçamento de Estado?
Eu acho que há aqui uma dimensão de curto prazo e de longo prazo. Acho que no curto prazo, Luís Montenegro tentou com esta mudança estratégica dar uma lição ao Chega e dizer que quando o Chega não quer, o PS existe e é possível pôr o governo negociar com o PS. E isto foi sempre muito claro, desde o início da sua governação, do seu primeiro mandato, Luís Montenegro sempre apostou nesta dualidade entre estar entre o Chega e o PS. Sempre foi muito claro, apesar de, pelo menos na minha cabeça, nos últimos meses, no último ano, se quisermos, à exceção do orçamento de Estado, Luís Montenegro estava crescentemente a aproximar-se do Chega, do ponto de vista puramente quantitativo. Estamos a falar de muitas propostas simbólicas que estavam realmente a aproximar-se do Chega. E no curto prazo, de facto, Luís Montenegro resolve o problema do PSD. No fundo, posso estar enganado, mas eu acho que isto é Luís Montenegro a dizer: "Bem, eu vou negociar com o PS e acho que este sinal tão inequívoco numa matéria inclusive que é caro ao Chega, é um sinal que vai privilegiar o PS nos próximos tempos." E penso, aliás, que no orçamento de Estado, Luís Montenegro apostará, pelo menos numa primeira fase, em negociar com o PS, porque o PS, apesar de tudo, independentemente das posições políticas que tenha, é um parceiro fiável. E portanto, se o PS disser: "Vamos aprovar o orçamento", Luís Montenegro certamente saberá, com uma certeza bastante razoável, que não terá surpresas na Assembleia da República. E o orçamento é uma coisa altamente complexa, que demora tempo a negociar, etc. E tem múltiplas sessões de votação. Não pode estar à mercê dos humores da André Ventura, que num determinado dia até pode ter aprovado o orçamento na generalidade e depois vai para a votação final global e por algum motivo, porque acordou mal disposto naquele dia, decide votar contra e temos um problema monumental. Dito isto, eu acho que a longo prazo, tudo o que aconteceu nestas semanas é uma grande benesse para André Ventura. Eu não sei se André Ventura calculou isto da maneira que eu leio, mas se o fez, é realmente um jogador político de um gabarito muito maior que Luís Montenegro. E a minha leitura disto é que André Ventura está a apostar precisamente nesta ideia do PSD encostar-se ao PS e deixar o flanco direito mais livre para o Chega crescer. Há muita gente à direita que acha que esta indefinição estratégica do PSD não deveria acontecer e que o PSD deveria inequivocamente fazer do Chega o seu parceiro privilegiado. Isso é uma fatia do eleitorado que não é despiciendo. Agora, eu penso que Ventura percebeu isto e percebeu que encostar o PSD ao PS e forçar o PSD a encostar-se ao PS, mesmo que não haja um anúncio formal que isto aconteceu, vai lhe dar muito mais espaço para ele fazer aquele discurso, que é o discurso que ele gosta e no discurso que ele consegue florescer. Diz, Ricardo.
Ia chamar a Susana, que entretanto já regressou e também estava a concluir a primeira reflexão dela sobre isto.
Vamos deixar a Susana, então. Susana.
Desculpa. Mas eu também acho que já tinha mais ou menos concluído. Eu acho que aqui a questão é que a AD percebeu, não sei se percebeu, mas em todo o caso percebeu agora no curto prazo, vamos lá ver. Eu tenho pouca confiança na argúcia e na constância política de Luís Montenegro, mas acredito que pelo menos por enquanto, tenham percebido que de facto o Chega está disposto a dar a mão à AD naquelas coisas mesmo muito simbólicas: a nacionalidade, a imigração, a identidade de género, coisas que o Chega considera que são verdadeiramente identitárias do seu projeto político, seja ele qual for para o país. Agora aqui a política muitas vezes As reformas têm sempre por um lado ganha-se, por outro lado perde-se. Eu era bastante contra esta reforma laboral, mas é evidente que ela tinha alguns ganhos e tinha ganhos certamente para alguns setores da sociedade. E claramente o Chega não está disposto para esse jogo e portanto eu acho que foi um momento de verdade para a AD. Agora quanto tempo é que isto vai durar? Não sei.
Sim. Luís, achas que o governo consegue respirar um pouco de alívio com este acordo alcançado entre PSD e PS para aprovar a PSU?
Acho que sim, seriam duas derrotas pesadas num período muito curto, ou seja, a não aprovação destas duas medidas, o código laboral e agora a prestação social única e em ambas as situações tendo privilegiado o Chega. Portanto tendo privilegiado o parceiro que, reparem, isto não é inócuo. O Montenegro foi eleito da primeira vez, a segunda não tanto, mas foi eleito a primeira vez com o discurso do não é não. Isto corresponde a uma violação direta e clara da sua primeira promessa eleitoral. Eu admito que para a segunda eleição ele já tinha um discurso ligeiramente diferente. Mas isto é uma escolha estratégica que estava se a revelar muito perigosa e digamos que a natureza do Chega se estava a revelar. Eu devo dizer que isto de ser bom ou mau para André Ventura, como estava ali o Jorge a dizer, depende da leitura que os portugueses fizerem disto. Se os portugueses vendo André Ventura a comportar-se desta forma e vendo o Chega a comportar-se desta forma, se derem mais votos ao Chega e se com isto derem gás ao Chega ao ponto de daqui a uns tempos vir a ser primeiro-ministro, então nós portugueses temos o que merecemos, ponto final. Vamos ter isto depois como primeiro-ministro. Está bem, boa sorte então para recuperarmos os nossos atrasos e para resolvermos os nossos problemas. Aqui o Jorge fala muito nisto como se só os políticos é que contassem. Se o André Ventura está nas suas sete quintas porque está no terreno em Costa e por aí fora, mas na verdade isso só é se os portugueses gostarem disto. E neste momento acho que o Chega foi bastante transparente. Respondendo à tua pergunta, acho que sim, que isto traz alguma estabilidade ao governo, acho que isto lhe dá condições para começar a preparar o próximo orçamento e já agora, espero eu, começar a negociar uma Constituição e perderem as ideias que estavam a ter de fazer uma Constituição negociada à direita, onde já se percebeu claramente que tinha havido um acordo tácito pelo menos com o Chega em relação aos momentos da aprovação e aquele golpe de secretaria que o Aguiar Branco está a fazer ao adiar o prazo de entrega das propostas de revisão, aliás, o Jorge falou nisso penso que a semana passada. Tudo isso que se estava a desenhar de uma governação à direita, espero que sim, mude para a governação ao centro. Acho que o país beneficia com isso. Se os portugueses a seguir acharem que o Chega merece ter 30 ou 40% dos votos, teremos o que merecemos.
Jorge.
Eu concordo com o Luís parcialmente, mas há uma parte de mim que discorda. Em primeiro lugar, se fosse por causa disto que os portugueses no fundo criticassem André Ventura depois dos N episódios que existiram, eu estou a pensar, por exemplo, aquela vinda indescritível do Lula a Portugal em que eles foram, no essencial, uns arruaceiros. N episódios parlamentares.
Apesar de tudo, Jorge, há um momento em que se está a escolher não um tipo a quem nós entregamos o nosso descontentamento, mas alguém que vai ser nosso primeiro-ministro.
Não, eu concordo contigo.
E estamos a entrar neste momento.
Não, eu concordo contigo.
E se no momento em que entramos neste momento, o André Ventura já convenceu cerca de 25% dos portugueses, mais coisa, menos coisa. Se com estas cenas que está a fazer agora convencer os 10% que faltam para chegar a primeiro-ministro, temos o que merecemos.
O que o Luís estava a falar é um ponto importante. Uma das consequências do fato do sistema partidário agora estar tripartido, se quisermos, é que a fasquia percentual e a quantidade de votos que é preciso para chegar a primeiro-ministro diminuiu consideravelmente. Quando a coisa era ali uma decisão entre PS e PSD, era sempre necessário chegar aos 30 e muitos, 40, 40 e poucos por cento, dependendo até um bocadinho do partido e da distribuição geográfica dos votos, para conseguir, de fato, chegar a primeiro-ministro. Neste momento Ventura não precisa de ter nem sequer 35%. Desde que Ventura consiga ter 31, 32%, que assumindo que há uma desmobilização nos votos absolutos entre PS e PSD, isso pode ser suficiente para o fazer chegar a primeiro-ministro. Eu acho extremamente importante, e há uma diferença claramente entre expressar descontentamento e dizer ativamente queremos André Ventura como primeiro-ministro. Eu também acho que André Ventura, pelo menos, não sei como é que haveria uma mudança radical, na qual eu não acredito, acho que o André Ventura não tem perfil, não tem estatura política, não tem nenhumas condições para ser primeiro-ministro de Portugal. Eu admito perfeitamente que ele venha a ser, mas como já vimos em muitos países, há pessoas que sem a mínima estrutura, até mental muitas vezes, que são eleitas pra cargos importantíssimos. Veja-se o homem que está a ocupar a Casa Branca neste momento. Agora, dito isto, eu acho que de fato André Ventura vai pagar um custo reputacional, mas eu acho que esse custo existe num pequeno segmento do eleitorado, mas acho que os benefícios apesar de tudo ainda vão superar os custos, porque de fato Para ele colar o PSD ao PS é mais importante do que este custo reputacional que tem, indiscutivelmente, de ser visto basicamente como alguém que não é confiável.
E Susana, em relação ao PS, com as sondagens a dar boas intenções de voto no PS, deve, no entanto, resistir à tentação de provocar uma crise política? Nós esta semana escrevemos aqui no Observador, a Rita Tavares, que o PS agora está mais apostado numa tática de deixar o governo cair de maduro e evitar uma crise política. Pode ser a opção mais sensata para os socialistas?
É preciso ver que meios é que o PS tem para provocar uma crise política. Porque há a moção de censura, mas não estou a ver nenhuma razão no horizonte para entrar por esse caminho e, sobretudo, o PS sozinho não consegue fazer aprovar uma moção de censura. E depois há esta questão orçamental, mas não há nenhuma razão para o chumbo do orçamento levar a convocação de eleições. E uma das razões pelas quais eu votei no presidente Seguro foi também porque ele deixou bastante claro que ele não considerava que houvesse esse automatismo, para não andarmos aqui a brincar às eleições de dois em dois anos, que foi o legado de Marcelo Rebelo de Sousa, que também acabou por levar a este crescimento rápido do Chega. Não é a única razão, mas é uma das razões, porque de dois em dois anos André Ventura conseguiu multiplicar o seu grupo parlamentar. Portanto, eu acho que por um lado o PS tem possibilidades limitadas para provocar efetivamente uma crise política. Depois, em segundo lugar, parece-me que o cenário ainda é de bastante incerteza. O PS, se provocar uma crise política, isso depois também ajuda a virar um bocadinho o bico ao prego. Ia contar uma história de ir para esse irresponsáveis, que aliás foi o peditório para o qual Luís Montenegro já deu nas eleições de há um ano, em que ele próprio provocou a crise política por ter achado que era boa ideia ser primeiro-ministro mantendo uma atividade privada. Depois vai com aquela história da moção de confiança e depois conseguiu, de facto, criar uma narrativa em que toda a gente era irresponsável, menos ele. Claro que entretanto há desgaste, esta coisa da lei laboral eu acho que é um grande golpe neste governo. Há todas estas coisas simbólicas que foi fazendo com o Chega, que eu espero e quero acreditar que tenham um custo político. Acho que o cenário é diferente, mas eu acho que o partido que provoca a crise política ou tem muito bons argumentos para tal ou pode sofrer uma penalização no eleitorado. Sinceramente, não vejo isso a sentir no horizonte.
Luís, o Partido Socialista vai resistir à tentação de provocar uma crise política? Vai viabilizar o orçamento?
Não sei. Previsões são terríveis de fazer. Eu não sei, mas eu espero que resistam a essa tentação, até porque eu não acho que o Partido Socialista já esteja preparado para ser governo e acho que devem fazer uma cura de oposição um bocadinho mais longa e devem dar alguma oportunidade ao PSD de continuar a aplicar o seu programa. A parte da previsão eu não sei, não te consigo responder. Do ponto de vista normativo, eu gostava que sim, que deixassem e que se fossem preparando com mais calma para as próximas eleições, preparar um governo sombra, se calhar, uma pessoa se conhecer melhor as suas posições e não simplesmente irem para o governo. Porque a situação política é aquela que o Jorge descreveu, onde neste momento qualquer pessoa com 30% se arrisca a ser primeiro-ministro.
Jorge, para encerrarmos o "Fora do Baralho" desta semana, o PS vai resistir à tentação?
Pois, mas a primeira pergunta que sei fazer é: qual PS? Vou citar aqui uma velha personagem da política portuguesa, Marco António Costa, esse velho senhor do PSD do PSD Porto, quando a dada altura, há muitos anos atrás, disse a Passos Coelho que: "Pedro, ou temos eleições no país, ou tens eleições no partido." Fim de citação. E portanto, aquilo que eu acho, e um dos perigos que este momento político encerra, é que haja uma grande pressão dentro do Partido Socialista, até porque José Luís Carneiro conhece perfeitamente a história do senhor que ocupa agora a cadeira em Belém, e é uma história conhecida, que foi um líder de momento de transição e que há uma parte substancial, mais ligada às elites lisboetas, etc., do Partido Socialista, que vê José Luís Carneiro como alguém incapaz e que não é propriamente material para ser primeiro-ministro. E portanto, José Luís Carneiro poderá ser altamente pressionado internamente para ou há eleições no país, ou há eleições no partido. Portanto, poderá haver aqui uma pressão à qual não consegue resistir.
Obrigado, Jorge. E fica também aqui o desafio aos ouvintes para nos enviarem as mensagens e perguntas para o "Fora do Baralho Extra" do próximo domingo, que vai para o ar aos domingos de manhã. O endereço de e-mail é o foradobaralho@observador.pt e no domingo será o Jorge Fernandes a responder às perguntas dos ouvintes. Eu sou o Ricardo Conceição e para a semana há mais "Fora do Baralho".