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Nos rescaldos eleitorais já é um clássico, o Fora do Baralho não perde a oportunidade de se reunir para as jogadas políticas que importam. Presidente da República eleito, António José Seguro. Algumas cartas em cima da mesa, ilações que já podemos tirar, outras que podem ser trunfos na manga, porque em política nada é garantido e os últimos anos têm mostrado que de previsível esta arte tem cada vez menos. Contamos com três dos nossos quatro ases: o Jorge Fernandes, o Luís Aguiar-Conraria e a Susana Peralta. És a primeira, Susana, uma carta de ouros para o presidente eleito que, sem assumir ainda oficialmente funções, há um recorde que já ninguém lhe tira. Teve o maior número de votos de sempre em presidenciais, mais de 3.482.000, mais do que Mário Soares, que detinha esse marco. E o próprio António José Seguro confessa-se surpreendido com a dimensão da vitória.

Sim, é uma carta de ouros para o grande vencedor desta corrida presidencial, o vencedor improvável, o patinho feio, aquele em que ninguém acreditava e as pessoas do partido. Recordo Augusto Santos Silva, que dizia que ele não cumpria os mínimos, as pessoas à esquerda que duvidavam da sua capacidade de mobilizar a esquerda, todos os partidos à esquerda que apresentaram candidatos alternativos, porque achavam que António José Seguro seria incapaz de ir buscar esse voto de esquerda. E depois também a capacidade que ele teve na segunda volta, com a sua moderação e com a sua capacidade de diálogo, e também por ter o adversário que tinha, não vale a pena mentirmos. Mas seja como for, a vitória é dele, ele é que é o grande vencedor desta noite.

Mas foi mais do que uma vitória por exclusão de partes, no teu entender.

Quanto a mim, sim. A validação dos tais 3,5 milhões de votos é uma validação forte e uma grande legitimidade democrática de António José Seguro nesta corrida presidencial. Quanto à comparação com Mário Soares, é óbvio que ela é importante e é simbólica, e claro que é normal que António José Seguro esteja até emocionado com ela, mas também é importante não nos esquecermos que quando Mário Soares foi eleito, havia menos eleitores. Mas seja como for, isso não retira este feito de, apesar de tudo, ele chegar a Belém com esta legitimidade dos 3,5 milhões de eleitores e de, até para contrariar aquela narrativa, aquela retórica de André Ventura, de que é o representante do povo contra as elites, claramente não pode haver dois terços de elites neste país. Ou então nós tínhamos uma espécie de pirâmide de riqueza invertida. Eu não me importava de viver num país assim, mas de facto ele não é assim. Não é esse o caso. António José Seguro mobilizou o voto do povo de esquerda, de centro, de centro-direita, e é muito incrível perceber as intuições destas pessoas. Em comento é que ele, em junho, quase contra tudo e contra todos, resolveu avançar, como é que ele perseverou quando as sondagens no início de dezembro o davam praticamente fora da corrida e como é que de facto chega vitorioso à primeira volta e depois chega na segunda volta com esta grande legitimação. Eu acho que é mesmo uma carta de ouros merecida. Eu diria que há muito tempo que não há em Portugal um vencedor tão claro de umas eleições, tendo em conta todas as circunstâncias.

Posso só sustentar aqui uma coisinha?

Sim.

É evidente que o ser o Ventura conta e para este resultado, obviamente, contou imenso. Se fosse qualquer outro, teria uma votação mais baixa. Mas também vale aqui a pena referir que os resultados da primeira volta mostram que ele tinha capacidade de agregar a esquerda. Os outros candidatos de esquerda tiveram votações ridículas.

Certo. Eu concordo contigo.

Sim, é aqui a reforçar o ponto.

Aliás, deixe-me só dizer, há aqui um detalhe interessante que é o seguinte: António José Seguro, os votos que ele teve na primeira volta eram suficientes para derrotar o Ventura ontem.

Sim.

Ele teve mais 10 mil votos na primeira volta do que o Ventura teve ontem.

Mas dava-me um ataque cardíaco, Jorge.

Não, mas estou a falar, é uma coisa que interessa aqui.

Eu tinha um ataque cardíaco com um resultado desses. Mas pronto, sim, não interessa. Obrigado pela chega.

Sim, o Jorge que a trazer as contas, o nosso politólogo. Nós já vamos falar até na segunda parte sobre os desafios que tem o novo presidente e as pistas que deixou também do estilo de presidência que vai exercer. Mas para já, Jorge, uma carta de espadas para António Costa, os costistas e também para Pedro Passos Coelho. Começando pelo antigo líder do PS, que desafiou António José Seguro, chegou depois a primeiro-ministro também e agora é presidente do Conselho Europeu. A vingança é um prato que se serve frio?

Sim, o António José Seguro eu conheço pessoalmente já há bastante tempo. Certamente eu tenho por ele, acho que é uma pessoa justa, correta e reta, mas é evidente que qualquer ser humano, depois daquilo que lhe foi feito a ele no PS, e é evidente que ele não pode dizer isso publicamente, mas certamente terá pensado que a vingança é uma coisa que se serve frio, é um sentimento humano e não seria humano se isso não acontecesse. Mas eu queria falar de António Costa e de Pedro Passos Coelho, porque acho que ontem à noite, do ponto de vista político, mais lato, digamos assim, finalmente se encerrou o ciclo político que começou em 2011, que foi um ciclo político marcado por Passos Coelho, primeiro, e depois não só por Passos Coelho enquanto primeiro-ministro, mas pelo passismo enquanto uma certa corrente sebastianista da direita. Quando Passos Coelho foi embora em 2015, ficou sempre um travo de boca a uma parte da direita, porque acharam sempre que Passos Coelho era a pessoa que poderia de alguma maneira ganhar a direita. E depois quando o Chega apareceu, pensaram sempre que Passos Coelho seria a pessoa que poderia vir e no fundo acabar com Ventura ou muito perto disso, e seria a pessoa que poderia agregar a grande casa da direita. E ao mesmo tempo que esse movimento ocorreu à direita, aconteceu também um certo domínio do costismo dentro do Partido Socialista E sabemos, eu acho que é mais ou menos ponto assente em Lisboa e nos corredores, que António Costa, mesmo a partir de Bruxelas, continua muito atento à vida política do PS e continuou durante muito tempo a tentar, de alguma maneira, com os seus vários peões, controlar ou influenciar a vida política do PS. E ontem isso acabou definitivamente. O costismo morreu, acabou o costismo enquanto corrente política. Portanto, passamos para a página seguinte. António José Seguro está em Belém, José Luís Carneiro é quem está na liderança do PS. Veremos o que acontece aí, mas penso que os costistas estão definitivamente arrumados, pelo menos enquanto corrente política.

E decretas já também a morte do passismo?

E do passismo igualmente, o motivo pelo qual eu acho que Passos Coelho está completamente arrumado é o seguinte: se ele sonhasse fazer agora um regresso, ele regressaria para coligar-se, porque a lógica de Passos Coelho e de quem sonha com o passismo, é a lógica de que Passos Coelho seria o líder que viria para acabar com as linhas vermelhas, normalizar o Chega e diminuir o tamanho do Chega, porque incorporaria o Chega no regime. Mas se Passos Coelho viesse e ia se coligar com a pessoa a quem publicamente pessoas como Paulo Portas, Aníbal Cavaco Silva, Ramalho Eanes, praticamente toda a direita civilizada, por usar essa expressão, decretaram que André Ventura não serve, que não é uma pessoa própria para ocupar um lugar público. Portanto, neste momento, Passos Coelho regressaria e quereria fazer uma coligação com alguém cujas figuras gradas do campo político histórico de Passos Coelho disseram que ele não era uma pessoa à altura de ocupar qualquer cargo em Portugal. Portanto, eu acho que nestas circunstâncias, Passos Coelho está sem a mínima margem de manobra e o passismo e o costismo acabaram ontem à noite. E felizmente para o país, porque está na altura da direita finalmente virar a página do passismo e está na altura da esquerda e do centro-esquerda virar a página do costismo.

Olhando para as ilações que podemos tirar destas eleições quanto ao eleitorado de direita, Luís Aguiar-Conraria, tens uma carta de copas precisamente para esta parte do eleitorado. Queres fazer uma espécie de homenagem ao soldado desconhecido, é isso?

Neste caso, ao votante anônimo, ao eleitor anônimo, mas sim, era um bocado essa a ideia. Aliás, vem aqui na sequência até do que o Jorge estava a falar. Eu lembro-me de na altura da campanha, ou antes da campanha para a primeira volta, quando os partidos de esquerda tinham uma enorme relutância em apoiar António José Seguro, quer dizer, aqueles mais à esquerda não apoiaram mesmo, mas mesmo o apoio do PS era aquele que se via. Portanto, só mesmo nas últimas duas semanas é que mostraram algum entusiasmo. Eu na altura comentei num artigo de jornal que esperava que os eleitores de esquerda tivessem bem mais bom senso do que os seus dirigentes ou do que os seus representantes. Pronto, e isso veio se revelar assim, e tanto assim foi que Seguro teve um excelente resultado na primeira volta. E depois, na altura, tive a mesma sensação na segunda volta. Quer dizer, é verdade que depois ao longo do tempo apareceu toda a gente a apoiar António José Seguro e só mesmo oficialmente é que nem o PSD nem a IL apoiaram. E também diria que das pessoas relevantes, a única pessoa relevante que não manifestou apoio a ninguém foi realmente Passos Coelho. Mas, de facto, houve uma altura em que eu tinha a sensação que era: espero que o eleitorado de direita, espero que os eleitores de direita, essa grande massa anônima que são as pessoas que votam e da qual tanta gente afirma sua porta-voz, como é o caso de André Ventura, que tivessem o bom senso de ir votar e que percebessem o que estava em causa nas eleições. E a verdade é que o fizeram. E mostraram até que algumas das preocupações que algumas pessoas tinham, aliás, como eu e o Jorge aqui manifestamos quando discutimos a hipótese de adiar as eleições, e vimos que, de facto, esta grande massa anônima, estes soldados desconhecidos, perceberam a importância desta eleição e foram votar. E daí as minhas copas para eles todos, e para eles e elas.

André Ventura não consta. Sim.

Eu queria responder ao Jorge também, se for possível. Eu percebo o que o Jorge diz sobre o costismo, sobre o passismo acho que não. Parece-me que ele está a fazer aqui uma interpretação errada, porque vais lá ver, não era o Passos que podia acabar com o Ventura, a questão é que o Passos podia absorver o eleitorado de Ventura, ao mesmo tempo que mantinha o de PSD. E nada deste resultado do António José Seguro pôs isso em causa. Portanto, acho que qualquer declaração sobre o fim de Passos Coelho é prematura. E em relação ao Costa, quer dizer, ó Jorge, se nós há três anos falássemos Do António José Seguro como possível presidente, rir-mo-nos-íamos e nem sequer admitiríamos isso como hipótese. Portanto, declarar essas coisas como: "Morreu, nunca mais volta", são aquelas declarações tremendistas para as quais não temos, de facto, informação que nos permita concluir alguma coisa.

André Ventura não conseguiu unificar a direita, conseguiu ter mais votos do que Luís Montenegro teve quando foi eleito primeiro-ministro em 2024, mas não superou a AD em número de votos nas legislativas subsequentes em 2025. Tem mesmo assim o embalo que precisa para ser o próximo primeiro-ministro? Foi reclamando isso ontem à noite, durante a noite eleitoral.

Estás a falar para mim?

Sim.

Eu admito que sim, que ele pode ter um resultado que lhe permita ser primeiro-ministro. Agora, ou ele consegue vencer a rejeição que tem à direita, ou então será um primeiro-ministro por pouco tempo, porque ser primeiro-ministro com 30% dos votos ou 31% dos votos, com o PS e o PSD e todo o resto do Parlamento contra eles e com o resto do eleitorado contra ele, será um governo muito instável. Portanto, se quer ser um governante com alguma capacidade de fazer coisas ou de governar, tem de conseguir melhor do que aquilo que conseguiu até este momento. Vai ter de construir pontes, que para já não parece ter conseguido construir. Aqui, se calhar, a tábua de salvação será o Passos Coelho, e assim passo ao Jorge, que assim já me pode responder.

Sim, Jorge.

Sobre isto do Passos Coelho, eu queria ainda dizer outra coisa, e eu acho que pode estar, isto é uma mera suposição, estamos no campeonato mesmo do comentário político do mais puro e duro. Eu acho que podemos estar a chegar a um momento em que houve um momento que Ventura não se importaria de ser o parceiro júnior ou o número dois de Passos Coelho. Mas será que Ventura, neste momento, pensa que ainda precisa de Passos Coelho? Porque Ventura, o desafio que ele tem pela frente é um desafio de moderação, normalização, no fundo, de recentrar o seu partido para aquilo que o Luís estava a dizer bem, quer dizer, baixar as taxas de rejeição que tem, especialmente no meio da classe média. E isso não é feito com Passos Coelho, quer dizer, isso é um caminho político que ele tem que fazer com as elites do partido dele. Portanto, eu neste momento tenho dúvidas, eu acho que o equilíbrio de forças entre PSD e Chega, e convém lembrar relativamente aos resultados eleitorais, neste momento, ainda faltam votar 20 concelhos, temos ainda alguns sítios por votar.

Sim. Não são 20 municípios, Jorge. Faltam 20 freguesias.

Vinte freguesias, desculpa, exato. Faltam 20 freguesias. O que eu queria dizer era que Passos, que Ventura ontem ficou, neste momento, está a sensivelmente 60 mil votos do resultado que levou Montenegro ao poder em 2024. Portanto, para mim já não é líquido que Ventura queira, tenha como ambição ser o júnior de Passos Coelho. Eu acho que ele pode já ter como ambição, e se for inteligente, e eu acho que ele é um homem inteligente, tem como ambição a normalização para eventualmente ele chegar lá sozinho a curto, médio prazo.

Vamos ainda voltar a falar de André Ventura e dessas ambições na segunda parte deste Fora do Baralho. Continuamos Fora do Baralho neste rescaldo eleitoral. António José Seguro já foi a Belém, na qualidade de presidente eleito, foi convocado pelo chefe de Estado em fim de mandato. A 9 de março vai ser oficialmente o novo inquilino e sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Nesta primeira audiência de passagem de testemunho, não houve declarações, durou mais de três horas. A noite eleitoral terminou com cada peça do xadrez político a marcar posição.

Abre-se novo ciclo de três anos sem eleições nacionais. Não há desculpas. Jamais serei um contrapoder, mas serei um presidente exigente com as soluções e com os resultados.

Toda a cooperação, de forma construtiva, de forma positiva, cada um ao nível da responsabilidade que a Constituição atribui.

É justo dizer que os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país, que pode demorar mais mês ou pode demorar menos mês.

O PS sempre disponível para servir o país e construir os consensos políticos de que o novo eleito presidente da República tanto defendeu.

Aqui estão as vozes de António José Seguro, de Luís Montenegro, de André Ventura e de José Luís Carneiro, cada à sua maneira, a marcar compasso. Susana Peralta, que tipo de relação é que antevês entre Belém e São Bento, a julgar até pelas palavras de Montenegro, que marcou logo território ao ser dos primeiros a reagir aos resultados eleitorais, a parafrasear por duas vezes que governo e presidente têm poderes diferentes, e também escutámos isto aqui há pouco.

Eu achei que realmente Montenegro ontem esteve particularmente mal em não saber se colocar no seu lugar. Como é evidente Seria normal e natural uma comunicação institucional do primeiro-ministro ao país, mas ele devia ter sido muito mais sóbrio. Era cumprimentar, saudar a participação eleitoral, falar da tragédia, dos problemas da tempestade, cumprimentar o perdedor e oferecer a sua colaboração institucional ao presidente eleito e pronto, boa noite, vou pra casa. Estamos a falar do primeiro-ministro que apoiou, que colocou todo o seu governo no terreno a fazer campanha atrás de um dos candidatos, dos grandes perdedores, se não o grande perdedor da primeira volta, que foi Luís Marques Mendes. Uma pessoa que se comprometeu tanto na primeira volta, na segunda volta resolveu declarar-se neutro entre os dois candidatos que estavam, Ventura e Seguro. Além disso, ele está numa posição, já que falamos muitas vezes disso no Fora do Baralho, do ponto de vista estratégico, do ponto de vista da solidez da posição política do seu governo, ele é extremamente frágil, ele não tem um acordo parlamentar nem à direita nem à esquerda. Comporta-se com aquela arrogância de chegar com pacotes legislativos pré-cozinhados só dentro da AD, e depois está à espera que os partidos da oposição aprovem. Já se percebeu que isto lhe vai correr mal. E ontem falou durante 10 minutos a voltar a afirmar a importância do seu programa de governo, a dizer que estava cá durante três anos e meio pra governar e que era o governo de Portugal, e no fundo quase a sequestrar o presidente eleito e a sequestrar a Assembleia da República. Parece que ele inverte um bocadinho a lógica da coisa. Aliás, eu devo dizer que não é só ele, porque ao longo do dia de ontem e de hoje, eu ouvi vários debates de comentário e até com alguns responsáveis políticos a perguntar ao Chega e ao PS se iam ou não aprovar o orçamento. Não é assim. Têm é de perguntar ao Luís Montenegro. E o Luís Montenegro ontem também podia ter aproveitado, quanto a mim ele não devia ter discursado 10 minutos, mas já que tinha tanto tempo pra falar. Aqui a questão é: o que o Luís Montenegro está disposto a fazer para se chegar junto da oposição, seja o PS, seja o Chega e a Iniciativa Liberal, a Iniciativa Liberal sozinha não chega, seja à direita, seja à esquerda, para conseguir construir consensos, para construir um orçamento, já que estão tão preocupados com o orçamento, que depois venha a ter respaldo parlamentar e para conseguir construir pacotes legislativos que reúnam uma maioria de deputados pra serem aprovados, porque o Parlamento representa a diversidade e o pluralismo das opiniões políticas das pessoas que votaram naqueles deputados. Luís Montenegro não tem nenhum direito divino pra fazer aprovar os seus pacotes legislativos. Foi um momento tão patético que dá a mesma ideia, dava vontade de lhe dizer: "Olha, acorda, o que não percebeste do que está a acontecer?" Acho que foi mesmo um momento particularmente mau de Luís Montenegro.

E é por isso que lanças um três de espadas para o primeiro-ministro.

Sim, três ou até quase um dois. Só não lhe dou dois porque apesar de tudo, o homem é primeiro-ministro e merece aqui alguns créditos.

Jorge, na sequência disto que a Susana acabou de dizer, Luís Montenegro está a tentar virar o bico ao prego, numa altura em que estará ou não, pergunto-te, mais pressionado do que nunca neste novo ciclo político?

Luís Montenegro está, sem dúvida nenhuma, mais pressionado do que nunca. Vamos lá ver. Eu acho que o que o Luís Montenegro ontem fez, a Susana usou uma expressão boa, ele sabe que Seguro, e aliás, o próprio Seguro ontem disse isso, ele disse que por ele não haverá dissoluções da Assembleia da República e, portanto, no fundo, ele está a tentar pôr um fait accompli. Ele está a tentar pôr o Chega e o PS, o partido PS, perante um fato consumado. Portanto, ele diz: "Eu não quero eleições, o senhor Presidente da República, o novo Presidente da República, não quer eleições, portanto, vocês têm que comer e calar aquilo que eu apresento." Basicamente, isto foi, de boa forma grosseira, o subtexto da mensagem de Luís Montenegro. Ele não percebeu, nós já dissemos aqui no Fora do Baralho n vezes, que ele tem uma maioria, por citar o outro, pouchinha, mesmo muito pouchinha. Agora, isto é o que ele quer. E eu acho, estou convencido, posso estar enganado, mas acho que Seguro não vai unilateralmente tomar nenhuma ação para mandar abaixo o governo. Eventualmente, se a situação o exigir, poderá ser obrigado a isso, mas penso que não irá unilateralmente fazer isso neste momento. Agora, eu acho que as eleições de ontem mostraram duas coisas, emanam dois sinais importantes para os partidos que no fundo irão ter que aprovar, necessariamente um deles terá que aprovar os orçamentos de Montenegro. Para o Chega mostra uma coisa evidente, eu sei que muitas pessoas estão a tentar diminuir isto, mas eu continuo convencido de que o André Ventura teve uma vitória e ele vendeu mal, eu acho que ele se enganou no modo como montou a narrativa entre a primeira e a segunda volta. Entusiasmou-se.

Geriu mal as expectativas.

Geriu mal as expectativas, não tenho grandes dúvidas sobre isso. Ele geriu mal as expectativas, porque ele na primeira volta ficou em primeiro lugar, mas ele sabia que na segunda volta, inevitavelmente, iria perder. Quer dizer, não havia nenhum cenário em que ele ganhasse. Portanto, a vitória de António José Seguro foi muito folgada. Mesmo que não fosse tão folgada, Ventura perderia. Os números são o que são e contra isso não se pode fazer nada. Mas geriu mal a coisa, porque André Ventura ontem, o headline poderia ser: "A extrema-direita ou a direita radical em Portugal tem o melhor resultado de sempre do ponto de vista de votos absolutos". E é verdade. André Ventura ontem levou o Chega, em sete anos, ao melhor resultado eleitoral de sempre. Este é um fato. E o que isto sinaliza ao partido? Que o Chega necessita de eleições como pão pra boca. Cada eleição tem sido sempre a subir. Portanto, os incentivos para o Chega, pode não ser já, mas nos próximos meses, um ano, um ano e meio, tentar ir pra eleições é fortíssimo. Por outro lado, o Partido Socialista ontem, eles podem negar isto, mas inevitavelmente, depois daquilo que aconteceu nas últimas eleições, a sensação que José Luís Carneiro terá neste momento é que se calhar, o medo que há dentro da atual elite do Partido Socialista de ir às urnas, se calhar, pensam eles, não é assim tão fundada, é menos fundada do que aquilo que eles tinham pensado. Porque vejam, António José Seguro até teve este grande resultado. Resultado esse que o Partido Socialista não precisa remotamente pra poder chegar ao governo novamente. Antes das eleições presidenciais, era claríssimo que o PS não queria eleições tão cedo. E eu acho que esse cálculo mudou. E ao mesmo tempo, o Chega confirmou novamente que é bom haver eleições constantemente, porque este ciclo dos últimos poucos anos em que houve muitas eleições, o Chega foi sempre a crescer. Esta é a conclusão que deve ser tirada de ontem à noite. Sob esse ponto de vista, eu não sei como é que Luís Montenegro vai conseguir gerir isto, especialmente com a arrogância que ele tem e como ele acha que tem uma maioria absoluta, alguém o convenceu disso, não sei muito bem quem. Eu não sei como é que ele vai conseguir sobreviver politicamente e tenho muitas dúvidas que aquilo que ele diz, que temos três anos e agora é que é, agora é que vai haver reformas, é impensável. Eu não estou a ver o Montenegro, se quer com a capacidade e com o manpower do governo. Se tirarmos as presidenciais de lado, a ministra da Administração Interna, isto foi risível, simplesmente, a gestão que a senhora fez desta questão da crise, no NMEL, com os militares. Não há manpower no governo pra levar isto a algum lado. Luís Montenegro precisava ter um grande governo, quer política, quer tecnicamente, pra conseguir sobreviver neste ambiente atual.

Pode vir aí uma remodelação para resolver.

Muito provavelmente. Não sei se ele consegue. Não sei se ele tem uma elite suficientemente forte em redor dele, que o leva que consiga de alguma maneira, que esteja disposta a entrar nesse governo, que essa é outra questão.

Essa é outra questão e cá estaremos também para analisar se vier a haver alguma remodelação. Mas olhando pra esta questão da estabilidade, que foi uma palavra ontem dita por Luís Montenegro, os tais três anos e meio de estabilidade, também por José Luís Carneiro e pelo presidente eleito António José Seguro, que disse que não será por ele que a legislatura será interrompida. Luís, pode ser difícil garantir esta estabilidade, até por estes cálculos que podem ter mudado nos partidos, como estava aqui a referir o Jorge.

Deixa-me ir um pouco mais atrás.

Sim.

O Chega está sempre a subir, até deixar de subir. É como o peru que está vivo, o dia de hoje é igual ao de ontem, até o dia 23 ou 24 de dezembro.

Mas acha que já chegou ao teto que ele podia chegar?

Não sei. E acho que esta segunda volta é muito pouco indicativa disso. Porque é quase uma certeza matemática que ele ia ter mais votos do que a primeira. Eu não consigo dar grande relevância ele ter mais votos na segunda volta do que na primeira. Era muito esquisito se não tivesse. A partida tem os votos da primeira e depois mais alguns.

E de que forma que isto depois se transpõe pra eleições legislativas?

Isso ainda é outro patamar mais complicado. Aqui a questão é saber se os 400 mil votos que ele foi buscar na segunda volta são muito pouco ou o mínimo que era razoável esperar. E eu diria que é mais do que o mínimo razoável, mas também não é grande coisa. Acho que eu estaria à espera de mais. Eu estou sempre aqui a chamar a atenção do Jorge pra essas coisas. O Jorge, na noite eleitoral, prevê que ele quase se aproxime de 50%. A semana passada estava a prever 40%, e agora diz que 32 ou 33 já é uma coisa muito boa.

Os 50 eu não disse que se aproximam.

É difícil. Não, falaste que ele se aproximava dos 50.

Não foi isso que eu disse. Num contexto de abstenção massiva, foi o que eu disse.

Na noite eleitoral, quando nós estivemos os dois a discutir na noite eleitoral, não, nem sequer pus esta hipótese da abstenção massiva, porque na altura não tinha havido nenhuma depressão. Estávamos só a falar da possibilidade de ele conseguir transformar isto numa luta esquerda-direita. Mas isso não interessa, porque rapidamente depois com os apoios todos que apareceram à direita, se percebeu que isso não ia acontecer. E também eu previ 40% e estava bastante errado, como se veio a verificar. Mas isso para dizer que essas leituras nas segundas voltas são difíceis. Não sei se isso se traduz numas legislativas. De facto, nós estamos a comparar eleições diferentes. Uma coisa é uma eleição binária, e se houvesse umas legislativas em que apenas houvesse dois partidos, o Chega e outro, se calhar o Chega e o Partido Socialista, então se calhar fazia sentido esta comparação. Agora, isso não acontece, nas eleições legislativas estão lá todos os partidos, portanto nesse sentido é muito mais razoável a comparação com a primeira volta das eleições presidenciais do que com esta segunda. Sim, eu acho que é perfeitamente possível que ele seja o partido mais votado e tudo bem. E eu percebo até aquele argumento psicológico, quer dizer, gente que conseguiu passar o cabo das tormentas e votar na direita radical. Bem, é verdade, mas também deve haver muita gente que pela primeira vez na vida votou num candidato socialista. Portanto, aplicando o mesmo raciocínio, se agora o PS conseguir apanhar a onda, também ganha a maioria absoluta nas próximas eleições. Acho que é sempre difícil isto. E com isto perdi-me com a tua pergunta, mas não sei se a minha resposta ia tocar alguma coisa. Já sei, sobre a estabilidade. Não há estabilidade nenhuma, mas vá lá, o António José Seguro é presidente da República. O presidente da República faz muito pouco. É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa foi um factor de instabilidade.

Sim, foi um recordista de dissoluções.

Sim, mas algumas delas não foram culpa dele. Mas ele é um fator de instabilidade quando se está a negociar um orçamento e ele anuncia que vai mandar a assembleia abaixo se o orçamento não for aprovado. E claro que aí foi um fator de instabilidade, porque ao fazer isso deu ao PS o que o PS queria, que era a desculpa para mandar a assembleia abaixo e ir a votos. Ou seja, ele alterou os termos da negociação, dando um poder negocial maior ao Partido Socialista. Portanto, é evidente que António José Seguro não vai fazer isso. Tem mais bom senso. Mas também é evidente que se a determinada altura se entra num impasse e nenhum orçamento é aprovado, ele tem de fazer alguma coisa, quer dizer, não é ele ser um fator de instabilidade ou não, ele tem de trabalhar com os ingredientes que lhe dão. Se agora o André Ventura começar, é um bocado a ideia do Nuno Goropa, já que ele aqui não está, vou eu falar pelo Nuno Goropa. Se o Chega começar a inventar CPIs que ponham em causa, que sejam particularmente agressivas com o primeiro-ministro, ele pode ficar na situação de ter de se demitir ou de não estar para aturar isto. E aí que remédio tem António José Seguro senão convocar eleições, não é?

CPIs, as Comissões Parlamentares de Inquérito. Susana?

Sim, eu queria dizer que eu ouvi, acho que foi na entrevista de António José Seguro ao Daniel Oliveira, que o Daniel estava a confrontar. “Então e se for assim, dissolve, não dissolve?” Enfim, a tentar perceber um bocadinho de fundo como é que ia ser António José Seguro presidente, que é o trabalho normal de quem entrevista, mas António José Seguro numa altura disse algo do género, estou a citar de cor: “Eu não vou ser um algoritmo em Belém”, que vai exatamente ao encontro do que o Luís acabou de dizer. Ou seja, o problema de Marcelo não foi dissolver, embora ele objetivamente tenha dissolvido muito mais que os outros todos. Vê-se que ele gosta de brincar às eleições. Mas o maior problema não é dissolver, é anunciar tim-tim por tim-tim as condições para dissolver, porque isso põe os partidos numa posição de andarem a puxar cordelinhos. Quem acha que tem ganhos políticos de ir a eleições, vai puxar os cordelinhos até aquilo cair, vai desmanchar o teatro de marionetas. Portanto, o que é importante, António José Seguro nunca disse que não dissolveria o Parlamento. O que ele disse foi que ia sempre tentar promover a estabilidade, chamar os partidos, que ia reunir todas as quintas-feiras com o primeiro-ministro e que ia procurar sempre exercer o seu poder de influência para evitar que isso acontecesse, mas claro que haverá circunstâncias em que ele poderá eventualmente dissolver. O que é ainda bem é que ele não está a dizer quais são, e isso é uma grande vantagem. Só por isso já valerá a pena, a partir daqui a um mês termos António José Seguro em Belém.

Também querias dizer alguma coisa sobre André Ventura e sobre se ainda tem possibilidade de aumentar a votação ou não.

Pronto, eu percebo que realmente uma segunda volta é muito especial, são apenas dois candidatos e tal. Aquilo que o André Ventura disse ontem, que ele tinha mais, que ele tinha 33% e que o Luís Monteiro tinha tido apenas 31, se não estou em erro. Enfim, ele tinha mais percentualmente, quer dizer, é uma comparação completamente absurda. Não só em número de votos, André Ventura teve menos votos agora, teve 1.700.000 e a AD tinha tido 1.900.000 nas legislativas de maio, como a AD estava a concorrer com, não sei, 10, 12 partidos e ele agora estava a concorrer contra um, apenas um opositor, que era António José Seguro. Portanto, nós não vamos aqui entrar neste tipo de jogos, de entorses à la André Ventura. Isto dito, há um aspeto desta segunda volta que é, de algum modo, a melhor forma de aferir efetivamente quantas pessoas é que estão dispostas a confiar o seu voto a André Ventura. De facto, é um círculo nacional único, uninominal, portanto, todos os votos contaram para o mesmo pote, por assim dizer. É o mais parecido com uma eleição de um delegado de turma e de facto, as pessoas estavam a votar diretamente em André Ventura para um cargo também ele unipessoal. Claro, depois podemos pensar, há pessoas que se calhar querem André Ventura no poder executivo, não o querem em Belém. Há esse efeito, mas de facto eu acho que, de algum modo, a melhor medida que nós temos do valor político de André Ventura pode ter sido esta segunda volta. E mesmo que ele venha a ter, numas eventuais eleições legislativas que o Chega dispute e que o Chega seja o partido mais votado, porque de facto ele faltaria 200 mil votos da AD, isto com uma grande fragmentação parlamentar, não é impossível que ele consiga isso. No entanto, apesar de também ter havido mais pessoas a votar nas legislativas, foram mais meio milhão, mas pronto, não vou estar aqui com muitas contas, que isto é complexo. No entanto, a verdade é que também aquilo que ficou claro ontem é que a generalidade das pessoas não quer André Ventura e, portanto, não é muito claro depois o que é que ele vai fazer. Quer dizer, ele não vai conseguir ninguém para governar e, portanto, como disse o Luís, aquilo nunca vai correr muito bem. E eu acho que ficou claro agora que um partido da direita que se alie a André Ventura vai ter uma deserção não só de elites como de eleitores.

Nós vamos continuar a digerir os resultados eleitorais e também os sinais que os líderes políticos nos vão dando sobre os tempos que aí vêm, se serão mais ou menos estáveis. Na sexta-feira há o programa habitual com a Jogada da Semana e os quatro ases da análise política. E no domingo é a Susana Peralta precisamente que responde às perguntas dos ouvintes. Envie as suas questões para foradobaralho@observador.pt, 910024185. Eu sou a Vanessa Cruz, até sexta, depois das 19h, na Rádio Observador.