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Fora do Baralho, na Rádio Observador, que reúne os ases do comentário: Susana Peralta, Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes e Nuno Garoupa. A jogada da semana será na segunda parte, será sobre Pedro Passos Coelho, que conversou com Ventura e atirou críticas muito duras, no entender de muitos comentadores, diretas ao governo. É pelo menos esta a leitura que está a ser feita pela maioria. Eu sou o Ricardo Conceição, estou aqui no Fora do Baralho em substituição da Vanessa Cruz. E avançamos para os naipes. O Luís Aguiar-Conraria quer dar copas ao PS. Luís, é um abraço solidário numa semana complicada?

É uma semana complicada realmente para o PS, mas para nós comentadores políticos é uma bela semana. E as minhas copas são isso, são agradecimento. O Fora do Baralho já tem alguns anos e eu lembro-me de há uns anos estarmos preocupados. Já não sei qual é que foi a conjuntura política em que de repente estávamos convictos: "Isto durante um ou dois anos não vai acontecer nada. Como é que nós vamos arranjar assuntos para comentar semanalmente?" Lembras-te, Jorge? Até acho que foste tu que lançaste essa dúvida.

Estava a acabar o ciclo eleitoral e, no fundo, depois de uma coisa tão intensa, parecia que íamos entrar aqui numa tona marinha.

Numa letargia. Mas depois o PS vem sempre em socorro dos comentadores políticos e garante que há assuntos semana após semana. E portanto, as minhas copas são essa forma de agradecimento. Agora, falando mais sério. O PS, mais uma vez, neste caso não o PS, mas vários socialistas, mais uma vez fazem questão de nos entreter, desta vez nos últimos dias com a tese da cabala.

Estamos a falar da Operação Emergente.

Da Operação Emergente, sim, peço perdão. E a tese da cabala é obviamente um disparate. Não se consegue mobilizar estes meios todos, envolver juízes, envolver procuradores, envolver buscas, porque nalgumas sondagens, que ninguém liga muito, porque nesta altura do campeonato as sondagens não interessam para nada, o PS está à frente. Isso é tão disparatado que deu para nos rirmos. Pelo menos eu acho que José Luís Carneiro esteve bem aqui ao imediatamente chamar uma conferência de imprensa, apesar de não ter muito para dizer, e o anúncio de que o PS se vai tornar assistente deste processo, ou seja, o PS quer ter a certeza de que as pessoas são condenadas, pelo menos é essa a imagem que quer passar, e isso já revela uma ligeira mudança de atitude em relação a outras situações semelhantes no passado. E, portanto, acho que isso merece algum elogio, mesmo que seja, obviamente, por cálculo eleitoralista.

E o Nuno Garoupa quer dar ouros ou copas às notícias sobre o aeroporto e a reação do governo? Nós tivemos dois ministros no aeroporto de Lisboa a garantir que é desta que tudo entra nos eixos.

É, no fundo, também um pouco no seguimento do Luís. É também pelo entretenimento, porque a questão do aeroporto já não é nova. Aliás, já excede este próprio governo. Já no tempo do governo, no final de António Costa, estávamos com esta questão do caos no aeroporto. Esta semana este caos no aeroporto veio ao de cima porque, por um lado, houve o azar de haver uma repórter, uma jornalista algo consagrada da CNN Internacional, que apanhou por tabela um destes dias no aeroporto de Lisboa de caos absoluto e, portanto, fez uma reportagem sobre isso, o que deu uma enorme visibilidade ao problema a nível internacional. Por outro lado, a Euronews tinha também há cerca de dois dias uma peça onde comparava o impacto das novas normas de entrada na União Europeia do passaporte eletrónico e dizia que o aeroporto de Lisboa era o pior da Europa. Enfim, não dizia por estas palavras, tinha algumas desculpas, mas fundamentalmente comparando com outros aeroportros até do sul da Europa, essencialmente dizia que o aeroporto de Lisboa é o pior da Europa. A reação inicial do governo foi obviamente aquela que se esperava, que é culpar a União Europeia, e é uma reação que até se percebe do ponto de vista tático. As pessoas que estão a sofrer esta situação de caos no aeroporto, em 90, 95% não votam em Portugal, portanto, não são eleitores da AD, nem eleitores potenciais da AD. Portanto, por que a AD havia de perder tempo com este assunto? E foi só um pouco a reação. Cá as moedas teve uma reação um pouco diferente, que seria suspender o controle de passaportes eletrónicos ao fim de semana, que tem alguma duvidosa legalidade, porque isto não se pode fazer sem autorização da União Europeia, mas é possível que a União Europeia até viesse a autorizar isto dada a situação de caos. Mas é evidente que o governo percebeu que isto tem consequências no turismo. Isto tem consequências muito más no turismo, o país vive do turismo e portanto isto é uma situação muitíssimo importante e os ministros saíram para vir dizer que é agora que o assunto vai ser tratado. Não tenho grande esperança, como utilizador frequente do aeroporto da Portela, não tenho grande esperança que isto venha a ser remediado agora, mas enfim, ficam estas copas de entretenimento e de alguma esperança, talvez, que as coisas venham a acalmar noutras alturas.

Também podemos perguntar: mas foram precisos tantos meses para finalmente arranjar uma solução?

Repara que o grande mistério que o governo não explica é que Portugal, como parte da União Europeia, foi notificado em tempo e horas de que esse sistema ia entrar em vigor na altura que entrou. E houve outros países que fizeram investimentos e preparação. Portugal não fez. Não fez e até tem esta coisa genial, que é andarem os ministros na televisão e mais, o presidente da ANA é comentador político nas televisões. Portanto, nós temos toda esta panóplia de gente que anda nas televisõesFoi mais que notificado que isto ia acontecer, até pior, e simplesmente não houve preparação e, portanto, é o desenrasca. Infelizmente, o desenrasca não tem corrido bem, com consequências para o turismo, que é uma ná da economia portuguesa e daí a gravidade da situação.

Já Susana Peralta. Que naipe tens para as novidades na Segurança Social? Que, no fundo, isto ainda vai para o Parlamento, mas quem pode e está na idade, sendo beneficiário da nova prestação social única, vai ser chamado a trabalhar.

O que eu tenho é obviamente paus para o Governo, não pela prestação social única, que aliás é uma exigência da União Europeia e que faz sentido, porque nós temos um sistema de prestações sociais que não é apenas em Portugal, é comum em vários países, em que colocamos as pessoas de baixos rendimentos a viver numa espécie de inferno administrativo e burocrático, em que nunca percebem muito bem com o que é que contam, que tipo de prestações é que têm, pois cada uma tem um critério. E depois isso também tem efeitos potenciais nas decisões das pessoas de aceitarem o emprego, porque nunca sabem daquela enorme complexidade da prestação a que têm direito, o que perdem, etc.

Estamos aqui com algumas falhas de rede que me estão a impedir de ouvir a Susana Peralta. Vamos tentar resolver. Já voltamos à Susana Peralta, vamos ao Jorge Fernandes, porque o Jorge regressa a Espanha e tens ouros ou diamantes para o PSOE, Jorge?

Tudo ao mesmo tempo, Ricardo. Olá! Não é só em Portugal que existem cabalas contra os socialistas. Esta semana, a cabala que está a existir contra o PS português é uma brincadeira ao lado da grande, enormíssima cabala que está a ser urdida em Espanha, que inclui, por exemplo, encontrar joias, relógios de ouro e diamantes num cofre escondido lá no escritório pessoal de Zapatero, que ficava curiosamente num prédio pertencente ao partido. Ele já veio esclarecer, relembrando, de resto, o seu grande amigo José Sócrates, que tudo aquilo veio de uma herança da mulher, de algum parente perdido no tempo. E depois houve também esta semana, noutra matéria, outro raid para a sede do PSOE, no qual a polícia executou mandados de busca sobre um caso que terá envolvido pagamentos feitos a polícias, magistrados, etc. Que no fundo eram pagos para, de alguma maneira, ou fazerem desaparecer informações comprometedoras para o partido, ou pelo menos dar informação privilegiada ao partido para que o partido pudesse, de alguma maneira, reagir de forma mais célere e mais eficaz aos problemas judiciais. E esta semana foi coroada ainda por três parceiros-chave de Sánchez, o PNV, os Vascos, a Coligação Canária e os Juntos da Catalunha dizerem que a festa acabou e que é tempo de eleições. No entanto, Sánchez, e aí eu vou conceder que o PS em Portugal, apesar de tudo, não chegou ainda ao ponto de Sánchez, porque quer no caso de José Sócrates, quer no caso de António Costa, quando foram confrontados, no caso de Sócrates foi a bancarrota, no caso de Costa foi o caso das buscas em São Bento, Costa, por exemplo, fez a coisa digna e soube retirar rapidamente ilações políticas e demitiu-se. Ao contrário de Sánchez, que está agarrado ao poder com unhas e dentes. Muita gente diz que é para evitar que ele próprio, no dia a seguir a sair da Moncloa, tenha problemas judiciais e ele lá saberá o que lhe irá acontecer. Mas enfim, portanto, é para dizer que as cabalas existem contra os socialistas, estão vivas e acho que a cabala em Espanha vai continuar, porque isto tem potencial.

Voltamos então à Susana Peralta. Susana, não ouvimos praticamente nada do que nos querias dizer, mas percebemos que querias dar paus ao Governo.

Paus ao Governo, essa parte ouviste, ainda bem, obrigada. Dizia eu que a ideia da prestação única não é um problema e aliás, é uma exigência da União Europeia no contexto do PRR, mas é uma maneira de simplificar a vida às pessoas de baixos rendimentos, porque de facto a multiplicação de apoios de diferente natureza faz com que as pessoas vivam numa espécie de inferno burocrático, que lhes ocupa imenso tempo, que eles podem até nem perceber cabalmente, nenhuma pessoa perceberia, e que além disso, depois também os põe a fazer cálculos potenciais no momento de encontrar o emprego, "Vou perder aquela prestação, não perco aquela." E tudo isso é, de facto, de evitar. E portanto, a prestação única é em si uma boa notícia. É preciso ver em que montante é que ela se fixa. Ou seja, é importante que a prestação social única não sirva também para baixar os apoios que são dados às pessoas, que já são parcos e insuficientes. Agora, onde é que está o problema? É que de facto, esta reforma recupera uma lógica corretiva da pobreza, que é uma lógica, aliás, que tem as suas origens intelectuais nas casas de trabalho da Inglaterra vitoriana, a verdade é essa. Porque repara, já há uma obrigação de formação, que é aceitável, desde que seja feita de maneira empoderadora e que seja em conjunto com as pessoas e que tenha em conta o seu efetivo quadro de vida. Já há uma obrigação de trabalho, portanto aceitar e realizar trabalho e emprego conveniente, demonstrar que procura trabalho pelos próprios meios, o que também faz algum sentido para pessoas que estão em idade ativa, porque nós sabemos que estas pessoas que caem na pobreza muitas vezes se desligam por motivos vários do mercado de trabalho ou têm relações demasiado incertas com o mercado de trabalho, e muitas delas, já agora, são pobres e trabalham. E portanto, aí o critério está preenchido por definição. Mais uma vez, é preciso ver como é que estes critérios são implementados. Eles podem ser empoderadores, libertadores e de facto ajudarem as pessoas a recuperar algumas das competências que perdem por estar na pobreza e por estar desligadas do mercado de trabalho. Ou podem ser extremamente estigmatizantes. Mas além disso, em cima disto, há uma atividade de solidariedade e esta atividade de solidariedade é, eu estou a ler do PowerPoint do Governo, aceitar e realizar atividades de solidariedade social definidas pela entidade gestora, portanto podem ser as câmaras, podem ser as entidades que dão a prestação, definidas pela entidade gestora para entidades públicas de economia social ou da área da proteção civil. Isto é o quê? Um programa de trabalhos forçados para pessoas que estão na pobreza? E depois também há sempre aqui uma falta de noção completa das condições no terreno, que é o quê? Nós vamos pôr as pessoas a trabalhar onde? Em creches, em lares com populações vulneráveis, vamos pô-las a limpar a floresta? Quer dizer, é que isto é uma falta de noção relativamente às pessoas pobres, as pessoas que recebem estas transferências, que não estão deste modo a contribuir para construir, melhorar as suas competências.

O Governo entende que dessa forma até pode estimular a procura de trabalho.

A procura de trabalho como assim?

Por parte destes beneficiários.

Mas repare, eu repito: já há uma condição de aceitar o emprego, etc. Já há essa condição, que é preciso ver como é que é montada e há uma componente de formação que é importante, outra vez, é preciso ver como é que é montada, porque muitas vezes estes programas de formação não acrescentam absolutamente nada às competências, mas enfim, a intenção é boa. A intenção da atividade de solidariedade, eu estou a ler do PowerPoint do governo, tenho aqui três vertentes: trabalho, formação, atividade de solidariedade. A atividade de solidariedade é uma lógica puramente punitiva e corretiva, é dizer a estas pessoas: "Já que estão a receber e que no fundo não servem para grande coisa, venham cá contribuir para a sociedade de algum modo." Elas não vão contribuir para a sociedade, provavelmente vão até criar entropia nestas entidades públicas da economia social ou da proteção civil. E isto é uma coisa estigmatizadora, é uma lógica punitiva, é uma lógica moralizadora da pobreza e completamente ultrapassada e que não serve para absolutamente nada a não ser para dar boa consciência a quem acha que no fundo está a fazer o bem por estas pessoas, quando elas o que precisam é de dinheiro e paz.

Luís Aguiar Conraria, penso que quer assistir.

Quero só dizer uma frase: acho isto indigno.

E fica dita a frase do Luís Aguiar Conraria. Já vamos regressar a este Fora do Baralho. Fica também o desafio aos ouvintes para partilharem pensamentos ou perguntas para o episódio extra de domingo, em que um dos membros do painel responde aos comentários que nos chegam dos nossos ouvintes. É muito fácil, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Este fim de semana, a resposta cabe ao Nuno Garoupa. Na segunda parte do Fora do Baralho, vamos à jogada da semana sobre Passos Coelho e a liderança à direita. Segunda parte do Fora do Baralho, com Luís Aguiar Conraria, Jorge Fernandes, Susana Peralta e Nuno Garoupa. Eu sou Ricardo Conceição e esta semana tivemos declarações tonitruantes de Pedro Passos Coelho, com palavras duras, daquelas que magoam. Luís Aguiar Conraria, o destinatário era mesmo o governo?

É a única interpretação razoável e Passos Coelho teve a oportunidade de desfazer qualquer potencial equívoco hoje, quando foi interrogado sobre isso e fez-se de sonso a dizer que não queria entrar em labirintos e, portanto, na minha opinião, validou essa interpretação. Portanto, da parte que me toca no resto do debate, vou tratar esse assunto como um facto. Ele estava-se a dirigir a Montenegro e chamou Montenegro de prostituto sem caráter, o que é uma linguagem absolutamente destemperada, perfeitamente descabida, ainda mais para um ex-primeiro-ministro. Até o Chega me conseguiu chocar outro dia quando um deputado se pôs a chamar parvo a outro deputado do PS em debate. Este nível de insulto de Passos Coelho é uma coisa que até para os padrões do Chega é excessivo e é lamentável. E é lamentável porque da próxima vez que o Chega usar uma linguagem completamente destemperada, vão poder dizer: "Vejam que o ex-primeiro-ministro ainda usou uma linguagem pior."

Nuno Garoupa, achas também que o destinatário era o governo? Já ouvimos outras opiniões que lendo ou ouvindo Pedro Passos Coelho na declaração que fez, dizem que no fundo isto é um chapéu que encaixa em todos os populistas e em vários partidos e em vários protagonistas.

Penso que essa leitura é uma leitura que tenta de alguma forma amenizar, mas não tem muito sentido, porque André Ventura estava na sala e exatamente o que o ex-primeiro-ministro estava a falar entre a cópia e o original. Portanto, se a cópia também é um prostituto sem caráter, então o que será o original? Um prostituto sem caráter, portanto, não faz sentido. A frase não faz sentido não sendo atribuída a outra pessoa que André Ventura. E a outra pessoa que é André Ventura será o primeiro-ministro e eventualmente alguns outros líderes da direita. Mas repare, eu penso que o grande problema que está aqui a acontecer é que isto é tudo uma coisa assim surrealista, porque repare, neste momento, nós temos dois partidos passistas, superpassistas, que é a IL e o Chega, não é o PSD. O PSD agora é o partido não passista, que aliás tem várias pessoas a dizer em público que Pedro Passos Coelho é um ressabiado, que era aquilo que a esquerda dizia de Pedro Passos Coelho no tempo da Geringonça. Portanto, aqui inverteram-se os papéis. E depois tudo isto é estranhíssimo, porque nós temos o primeiro-ministro não só vai ter, obviamente, uma vitória norte-coreana este fim de semana, como a falar em maiorias absolutas. Ele, que não está à frente das sondagens há três meses. Também se tem dito: agora há uma sondagem positiva para o PS. Não, a AD não está à frente em nenhuma sondagem desde março. O que aconteceu agora é que essa vantagem do PS subiu do intervalo de confiança pra 10%, portanto, fora do intervalo de confiança. Portanto, isto é surrealista. O primeiro-ministro fala em maiorias absolutas e tem votações norte-coreanas no PSD, com o CDS a dizer que apoia e que adora Luís Montenegro. Por outro lado, temos Cotrim de Figueiredo que anunciou uma grande renovação do espaço da IL com uma associação, um movimento em torno de Cotrim de Figueiredo há quatro meses, do qual nunca mais se ouviu falar. E, portanto, a IL está num standby, uma hibernaçãoPorque provavelmente não sabe o que vai acontecer. E depois temos Passos Coelho a ser, no fundo, o líder da oposição a Luís Montenegro. Isto é uma direita que, neste momento, é realmente imensamente confuso tentar perceber o que Passos Coelho pretende, o que Luís Montenegro pretende e o que outras personalidades da direita pretendem. Deixa-me só acrescentar: em cima disso, ainda tivemos notícias no "Público" e no "Expresso", não vi no "Observador", mas pelo menos no "Público" e no "Expresso", de pessoas a dizer que vem aí um quinto partido da direita, que seria o partido da direita que votou ontem no José Seguro. Se esse partido vier, não sei que votos é que tem a AD, porque quem votou ontem no José Seguro foi o eleitorado da AD, mas houve várias pessoas a falar desse novo partido. Portanto, eu acho que tudo isto é uma grande confusão que sinceramente não consigo perceber.

Vou recorrer à Susana Peralta.

Eu não estou disponível para fundar nenhum partido de direita.

Mas és uma médium de renome. Afinal, o que quer Pedro Passos Coelho, Susana?

Eu acho que ele quer que nós estejamos aqui a falar dele e pelo menos aí é bem-sucedido. Eu tenho muita dificuldade em perceber. Para além da história do prostituto, já agora lavro aqui o meu habitual protesto relativamente à utilização desta linguagem, os trabalhadores do sexo e as trabalhadoras do sexo são pessoas que ganham a vida honestamente. E de facto é muito desagradável ver um ex-primeiro-ministro a usar o epíteto prostituto para supostamente insultar o atual primeiro-ministro. Para além do que o Luís já disse, ele quer que a gente fale dele, quer dizer, o que ele quer? O que quer Pedro Passos Coelho? Ele quer ir a eleições? Se ele quer ir a eleições, não sei muito bem que poder é que ele tem para causar eleições, mas se ele quer ir a eleições, eu recordo-lhe que o primeiro-ministro atual também quer ir a eleições para ter uma maioria absoluta. Portanto, vai ser difícil que ele consiga correr com Luís Montenegro, parece, num cenário de haver eleições, que também não se vislumbra num futuro próximo. Ele quer tomar de assalto o PSD? Então por que ele não se candidatou agora ao congresso, às diretas, sei lá o que vai haver agora no próximo mês? Não se percebe também muito bem. Quer ir a jogo, vá a jogo. Andou a dizer mal do Ventura, da história das pensões, quando o Ventura quis baixar a idade legal de reforma e agora, afinal, continua a ser a pessoa que realmente quer fazer esta grande união da direita e aparece naquela cena completamente grotesca, completamente encenada, mas de uma maneira super artificial, daquela conversa que as pessoas estão impacientes. Eu tenho muita dificuldade em perceber o que é que ele quer. Ele quer, obviamente, morder as canelas a Montenegro e fazer com que Montenegro se sinta atingido. Mas depois disso, qual é a segunda derivada? Qual é o objetivo desses ataques? Não percebo muito bem qual é o objetivo, sinceramente.

Jorge.

Eu acho que a pessoa que melhor caracterizou esta intervenção de Passos Coelho foi o presidente da Câmara do Porto, que também é comentador. Nenhum político que se preza ou aspirante a político que se preza em Portugal é comentador. Nós aqui, acho eu, pelo menos, ninguém quer ser político. Somos só mesmo comentadores. Depois também fazemos uma perninha na universidade, mas enfim, aqui somos mesmo comentadores.

Por isso é que vocês são fora do baralho.

Por isso é que somos fora do baralho, precisamente. Pedro Duarte disse aquilo que é absolutamente evidente. O que alimenta Passos Coelho é um enorme azedume. E o problema é que em 2015 aconteceu o que aconteceu, e portanto é público e notório, e Pedro Passos Coelho, desde 2015, acha que tem uma espécie de direito divino, digamos, quase espírito de ser uma espécie de guru espiritual da direita portuguesa, direito esse que de resto foi alimentado durante anos por largas fatias da opinião publicada em Portugal, que viam em Passos Coelho uma espécie de Dom Sebastião para a direita portuguesa e porque Pedro Passos Coelho achou que, no fundo, de 2011 a 2015, não tinha tido a oportunidade de implementar aquilo que ele acha ser o seu programa político. No fundo, ele governou condicionado por um programa externo que tinha sido chamado pelo Partido Socialista, etc. E que depois os portugueses não só o recompensaram dando-lhe a vitória nas eleições, como depois houve aquela facada nas costas da geringonça, que é uma interpretação perfeitamente legítima. Agora, Passos Coelho, é evidente o que aconteceu e é humano se percebermos, ele nunca conseguiu recuperar completamente a ideia de que foi afastado da política daquela maneira, naquele contexto, especialmente depois daqueles anos que passaram e que foram de facto anos muito difíceis e nos quais Pedro Passos Coelho teve uma atuação em momentos positiva, em momentos negativa, mas enfim, foi certamente dos momentos mais difíceis da vida política portuguesa desde o 25 de abril. E portanto, Passos Coelho, desde essa altura, em momentos com menor ou maior intensidade, tem estado sempre assim a rondar e agora crescentemente. E eu acho que ele está cada vez mais, não só a aparecer mais vezes, mas a cada intervenção que passa está se a tornar mais azedo, mais mal-educado. Esta intervenção foi de uma má criação absolutamente grotesca, é inenarrável. Alguém que pretende ter inclusive esta ideia de estadista que Passos Coelho e alguns dos seus apaniguados que andam por aí, pelos jornais, pelas televisões, que pintam dele como um estadista, etc. É indigno utilizar este tipo de linguagem, embora eu acho que o Montenegro é um primeiro-ministro absolutamente medíocre e não vai fazer nada por Portugal. Agora, eu acho que Passos Coelho está se a aproximar de um momento, muito rapidamente, em que tem duas hipóteses: ou escala a incontinência verbal a um ponto tal que perde qualquer réstia de credibilidade que ainda tenhaOu então ganha coragem.

Mas ele já nem tem nada para escalar. Em vez de ser prostituto, usar o vernáculo. Já não dá para escalar.

Há uns autarcas e há uns loucos. Mas eu vou mesmo acabar. Ou então, vou utilizar a expressão em inglês, que é para não ser muito feio, grows a pair, e candidata-se contra o Montenegro. Se ele acha que o Montenegro é incompetente, se ele acha que ele é o homem que pode federar a direita, se ele acha que ele é o único que pode controlar, apesar de tudo, o Chega, que André Ventura virá ao beija-mão, que nunca acontecerá, é uma fantasia absoluta. Passos Coelho, tem uma coisa a fazer. Se acha que o país precisa assim tanto dele, candidate-se. E depois veremos aquilo que ele é capaz de fazer. Vou te dizer, não tenho grandes dúvidas que internamente, dentro do partido, ele até talvez conseguisse ganhar o partido. Não sei, porque Montenegro tem a máquina ali atada e bem atada, para citar um antigo ditador aqui do país vizinho. Mas no país, a imagem de Passos Coelho está completamente desacreditada.

Estará, Nuno Garoupa? Nesta altura, tudo isso parece um bocadinho impossível, mas estará assim tão desacreditada?

Vamos lá ver. O Pedro Passos Coelho sempre teve uma base de apoio. Não vale a pena falarmos de uma imagem no sentido suprapartidário, porque a esquerda nunca gostou de Pedro Passos Coelho e não gosta de Pedro Passos Coelho. Ele não está a falar para a esquerda, nem para os eleitores de esquerda. Ele fala para aquilo que é o eleitorado natural da direita e esse eleitorado era um eleitorado que era dois milhões de votos e neste momento aproxima-se dos três milhões de votos, uma vez que a AD, o Chega e o IL somam 60% e não os 40 ou 45% que somaram no tempo de Passos Coelho. Agora, a grande questão aqui é um pouco o que o Jorge diz. A certa altura, ou ele assume que há um combate político com Luís Montenegro, e portanto chega-se à frente, e não sei se é indo a eleições internas do PSD, como dizia a Susana, ou se é formar uma coligação entre ele, Chega, IL e toda a gente que ama Passos Coelho contra Luís Montenegro, ou então tem que se calar, porque o que não faz lógica é continuar a escalar, não sei se no vernáculo, não sei se na periodicidade das suas intervenções, quando nós estamos no segundo ano da legislatura e temos ainda bastante tempo nesta legislatura pela frente. Portanto, eu não sei muito bem no que é que isto pode acabar. Parece é que não pode acabar bem. E duvido que acabe bem para Pedro Passos Coelho. Veremos se acaba bem para Luís Montenegro.

Mas por que é que se deve calar, Nuno?

Porque evidentemente, a certa altura, ele não pode continuar a fazer-se de comentador a este nível de vernáculo. Eu não estou a dizer que ele se deve calar no sentido de ter a posição de estadista que ele quer ter, mas então tenha essa posição de estadista. Vou dar um exemplo. Ele prometeu, quando saiu de líder do PSD em 2018, que iria escrever o tal livro que ia explicar a muita gente, incluindo a mim, que estou interessado em que me expliquem, o que é que aconteceu durante a troica. Ora, passaram oito anos. Onde é que está o livro? Onde é que está essa prestação de contas? Nós já temos os livros de Cavaco, já temos os livros daquele, do outro. Portas não escreve, Passos Coelho não escreve. Portanto, essas versões do que aconteceu ou deixou de acontecer estão por se fazer. Pois aí tem um papel importante. Ora, assuma esse papel. Se quer ser guardião da direita, tem um papel importante, assuma-se como guardião da direita, que inclui AD, Chega e IL. Agora, neste momento, este papel, não vejo em que é que isto une a direita, pelo contrário, e não vejo como é que isto pode desembocar num diálogo minimamente produtivo com Luís Montenegro.

E Susana, como é que viste aquela conversa de circunstância com André Ventura? Aquele momento permite tirar alguma conclusão política?

Que Passos Coelho é péssimo em encenar encontros fortuitos. Eu recordo aqui aquele momento épico em que o presidente Marcelo salvou duas jovens numa praia, julgo que era uma praia algarvia, em que por acaso, e realmente toda a gente acredita que era por acaso, estavam lá umas câmaras de televisão e aparece o nosso ex-presidente Marcelo, mas que será para sempre presidente Marcelo, nos seus banhos diários e acaba então a ajudar as duas jovens a sair da água onde estavam ligeiramente atrapalhadas. Obviamente que aquilo foi encenado, mas com muito mais profissionalismo. Aqui era uma coisa de dar vergonha alheia. Pedro Passos Coelho está completamente tenso e pouco natural a falar. O próprio Ventura, que é um tipo que tem realmente o dom da oratória, e é uma pessoa que tem sempre um jogo de cintura enorme para falar e para parecer que está extremamente à vontade. Ali também estava completamente artificial. Aquilo foi uma coisa completamente confrangedora. E depois houve aquele debate entre as pessoas como é que é estar impacientes ou não era... Havia ali uma questão semântica muito importante entre os dois adjetivos utilizados. Eu achei aquilo mesmo patético.

Mas Luís...

Impacientes ou insatisfeitas, acho eu.

Era isso, entre impacientes e insatisfeitas. Eu, pessoalmente, estou mais impaciente que ele desapareça, que ele desampare a loja, do que propriamente insatisfeita, porque apesar de tudo, vou me divertindo.

Luís Aguiar Correria, mas Ventura ali parece que estava à espera de um ralhete que acabou por não acontecer ou não tiveste essa sensação?

Da parte que me toca, eu aqui avalio mais o Passos Coelho do que Ventura. Ventura também estava ali pouco à vontade, notava-se isso. Agora, se aquilo foi encenação ou nãoEu alinho um pouco com a Susana Peralta, e acho que foi encenação, e nesse caso ele estaria à espera da conversa que foi. Mas o que me chama a atenção naquela conversa foi o que Passos Coelho não disse. Numa conversa daquelas, fortuita, o normal era ele ter dito: "Então como é que tu agora saíste com aquela das pensões, de baixar a idade da reforma e queres aumentar as pensões? Não achas que é necessário seres mais responsável nas suas propostas para ganhares credibilidade?" Essa seria uma conversa que me pareceria normal. De estar a dizer que as pessoas estão impacientes à espera que a idade da reforma baixe, aquilo pareceu-me tudo bastante ridículo. Posso só fazer aqui uma nota em relação às aspirações de Passos Coelho? Eu queria há bocado ter dito isso. Eu acho que Passos Coelho perdeu o seu momento, ele não teve o golpe de asa quando o Ricardo Rio saiu da liderança do PSD.

Rui Rio.

Desculpe, o Ricardo Rio é o ex-presidente da Câmara.

Agora estava a pensar em Braga.

Peço desculpa. Quando Rui Rio saiu, ele não teve o golpe de asa de perceber que aquele era o momento dele. Ele teria ganho claramente o PSD com uma perna às costas e dada a enorme maioria que a direita tem neste momento, provavelmente ele teria ganho com maioria absoluta, porque teria conseguido confederar os votos do PSD e do Chega. É difícil imaginar esta coisa de ter quase dois terços dos deputados à direita e se o líder da direita tivesse sido Passos Coelho, de ele não ter pelo menos a maioria absoluta. Agora, eu acho que o azumu dele se calhar vem daí. Já não vem de 2015, vem de se olhar a si próprio e perceber que lhe faltou o golpe de asa de ter a iniciativa de chegar à frente na altura certa. Agora é tarde, penso que agora não tem hipóteses.

Jorge, concordas com isto? É tarde? É que há muitas pessoas que continuam a ver em Pedro Passos Coelho, não só a salvação do país, como da direita.

Deixa-me só dizer-te uma coisa antes de passar ao Jorge. Se isso acontecer, isso é salvação da esquerda. Jorge.

Isso é verdade. Há uma rábula que a Joana Marques faz, que faz muito bem, em que ela outra está a gozar, já não sei exatamente com quem é, mas ela faz uma pergunta retórica: "Mas quem é essa toda a gente?" Quando alguém diz: "Pois, toda a gente, qualquer coisa." Mas quem são essas pessoas, na verdade? Eu tenho muitas dificuldades neste momento em perceber quem ou o que é que Passos Coelho representa. Inclusive é muita gente que foram históricos passistas ou pessoas que estiveram relativamente próximas de Passos Coelho e que são pessoas da área do PSD, do CDS, etc., alguns deles com atividade partidária ativa, estou a pensar, por exemplo, Diogo Feio, que foi uma pessoa do CDS, uma deputada, etc., e alguém que certamente até próximo de Passos Coelho dado momento, enfim, veio fazer críticas públicas. Pedro Duarte a mesma coisa. Portanto, crescentemente, o Passos Coelho não percebe que há uma coisa contra a qual ele não pode lutar, que é a passagem do tempo, que é inexorável, e a dada altura, este ciclo político foi dominado, por muito que o Passos Coelho ache isso injusto ou ache que Montenegro não tem competência, enfim, seja qual for as coisas, o que o Luís estava a dizer é verdade, ele perdeu o momento. E em política o momento é tudo, que o diga o atual presidente da República, que há um ano e meio ninguém diria que seria presidente da República, mas António José Seguro soube ler a situação política, teve sorte, também, indiscutivelmente, mérito. Mas em política o timing é tudo e quem sabe jogar e fazer política e conseguir ler o que se passa e ter coragem e apresentar-se no momento certo, é meio caminho andado. E Passos Coelho, na minha opinião, perdeu completamente o andamento. A única possibilidade que eu vejo de alguma vez Passos Coelho ter ainda uma palavra a dizer neste campeonato da direita, seria aquela que o Nuno levantou, que seria mesmo ele rebentar com tudo, isto é, sair do PSD, dizer: "Eu vou fundar um partido e no fundo deixar o PSD com o núcleo dos montenegristas e depois ele fazer uma grande coligação que seria então o Chega, ele, pessoas que estão próximas de Passos Coelho, que existem, apesar de tudo. Mas eu sinceramente vejo isso extremamente difícil.

Estamos mesmo a terminar, mas Susana, pegando em tudo o que aqui foi dito também, a experiência já nos mostrou que uma coisa é a opinião pública e a opinião publicada, os comentadores que apontam todos num sentido e depois há o sentimento da pessoa comum que nem sempre bate certo com os comentários. E aqui, no caso de Pedro Passos Coelho, isso poderá acontecer, em tua opinião ou não?

Eu não faço ideia, porque como Pedro Passos Coelho está fora da política há 15 anos, a não ser quando vem dar bicadinhas, não há nenhuma espécie de sondagem, nem sequer sabemos se ele mesmo dentro do próprio partido, tem alguma espécie de apoio consequente. E já agora, se ele fizer aquilo que o Jorge estava a dizer, que era fundar um novo partido, atenção, que isso não resolve o problema que o Nuno aqui trouxe, porque as várias notícias que têm vindo a público, estou a pensar, por exemplo, num texto do Francisco Mendes da Silva no Público a apelar ao tal novo partido de direita, era precisamente das pessoas que não se queriam juntar ao Chega. E portanto íamos ter afinal mais um partido. Eu tenho muita dificuldade em achar que o Passos Coelho é uma pessoa tão... Ele em 2015, é certo que ele ficou à frente, coligado com o CDS, atenção, à frente, mas porém, ele não teve a maioria dos deputados. E eu julgo que ele ainda representa um momento, para o bem e para o mal, eu não vou agora aqui discutir se ele tem ou não tem culpas nisso, acho que ele tem algumas, mas isso interessa pouco. Acho que ele até tem bastantes, mas isso interessa pouco. De um período do qual as pessoas não se querem lembrar, que não foi um grande período para a economia, para a sociedade portuguesa. Portanto, eu tenho alguma dificuldade em imaginar que ele venha agora salvar-nos do quê, quando a nossa economia até está a correr razoavelmente bem.

Um abraço a todos. Fica por aqui o "Fora do Baralho", mas domingo regressamos com o episódio extra para responder às perguntas dos ouvintes. O endereço de e-mail é foradobaralho@observador.pt e no domingo será o Nuno Garoupa a responder às perguntas dos ouvintes. Eu sou o Ricardo Conceição. Para a semana, há nova edição do "Fora do Baralho".