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E este embalo da rentrée, a semana de trapalhadas entre governo e Presidência da República que dão, pois claro, jogada da semana na segunda parte do Fora do Baralho. Do plano de emergência ao referendo à imigração, passando pela forma como foi conduzido o processo para anunciar a nova Comissária Europeia. A ver vamos se temos cartas suficientes hoje, os quatro ases já estão aqui apostos: Susana Peralta, Luís Aguiar Conraria, João Marques d'Almeida e Jorge Fernandes. Nesta primeira parte, a primeira palavra ou a primeira carta, Jorge, é tua. Espadas para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e para o Hospital de Santa Maria, por, na tua perspectiva, quererem condicionar a liberdade de expressão.

Sim, olá Vanessa, olá a todos, boa tarde. Vou fazer aqui uma pequena entrada. Durante muitos anos, havia a ideia na história que os regimes autoritários de alguma maneira oprimiam os povos sedentos de liberdade. E na verdade, nas últimas décadas ficamos a saber, graças a muito trabalho acadêmico, que a esmagadora maioria destes regimes, na verdade, depende do apoio popular para conseguir manter-se. O que eu quero dizer com isto é que um regime como o português, de Salazar, de Caetano, que tinha a PIDE, etc., na verdade, tinha um vasto apoio em grandes camadas da população. Isto vem a propósito do pouco amor que os portugueses têm pela liberdade e que aparentemente nem 50 anos de democracia parece conseguir mudar isto. Esta semana tivemos estes dois exemplos, entre o caricato e a tristeza. Por um lado, a ERC fez a deliberação sobre a queixa que foi apresentada porque José Rodrigues dos Santos fez uma entrevista à Marta Temido, para a qual ela estava notoriamente mal preparada, pouco confortável com o tema. Não apenas nessa entrevista, mas Marta Temido, foi uma preocupação que foi reconhecida por pessoas do PS, que especialmente no início da campanha, estavam com receio que a candidata, de alguma maneira, não estivesse preparada sobre temas europeus, sobre algumas medidas que tinha que defender, por evidente impreparação, que vai agora ganhar, naturalmente, quando estiver em Bruxelas. E por outro lado, tivemos o Hospital de Santa Maria, a sua administração, a dar instruções aos seus serviços jurídicos para, isto é absolutamente risível, quase, acionar mecanismos judiciais a quem fizer denúncias anônimas nas redes sociais sobre o mau funcionamento do hospital. Portanto, no fundo, um cidadão que vá pro Facebook ou pro Twitter ou o que seja, e diga: "bem, o Hospital Santa Maria, tudo atrasado, médicos maus", ou faça uma queixa de qualquer natureza sobre o hospital, arrisca-se, ou arriscava-se, porque entretanto eles vieram dar o dito por não dito, a ser alvo de um processo judicial. Eu nem sei por onde começar. Isto é triste, simplesmente, este pouco amor à liberdade. Isto nem deveria acontecer. Isto é simplesmente a ERC a ser a ERC. Esta decisão sobre o José Rodrigues dos Santos é um clássico absoluto, já em várias deliberações ao longo da última década, década e meia, a ERC fez coisas análogas. Esta do Hospital de Santa Maria realmente é muito caricato, porque em todos os países do mundo, eu diria que é um clássico dos cidadãos se queixarem dos serviços públicos. Às vezes com razão, às vezes com menos razão. Mas a ideia de que alguém, um serviço público, vai tentar processar ou condicionar o que os cidadãos dizem sobre o seu funcionamento, ameaçando potenciais processos judiciais, isto não lembra o Careca, como se costuma dizer.

Estão mais do que justificadas as tuas espadas, Jorge Fernandes. Agora a próxima carta é de ouros. Luís, para as reações dos partidos da oposição à escolha de Maria Luísa Albuquerque para próxima Comissária Europeia, foi a comissária indicada por Portugal. Isto porque o fantasma da troika anda aí ou a oposição quer que ande.

Aqui os ouros é no sentido de que muitas vezes o silêncio seria de ouro, que não foi o caso. Deixe-me aqui dizer, há várias críticas que foram feitas, algumas das quais eu considero razoavelmente legítimas, como por exemplo, o dizerem que ela foi trabalhar pra Arrow, a Arrow é uma empresa que trabalha com recuperação de dívidas, depois de ter estado a trabalhar como ministra de Finanças em Portugal quando tínhamos um problema de dívida. Eu percebo isso, é uma crítica de conflito de interesses, que me parece que é uma crítica correta, mas quer dizer, também acho que temos que ser honestos. Aplicado em Portugal é hipócrita, porque em Portugal, conflito de interesses, quase que por definição, não existe. Mantendo só exemplos daquele governo, quer dizer, Vítor Gaspar, depois de ter estado aqui a aplicar um programa da troika, foi trabalhar pro FMI. É perfeitamente legítimo perguntar se ele estava ali a defender os interesses de Portugal ou se estava ali como agente do FMI. Miguel Poiares Maduro, de quem se falou tanto como potencial comissário, e até aqui o Jorge o defendeu, é uma pessoa que neste momento é comentadora na RTP, sendo que ele tinha a tutela da RTP. Portanto, em Portugal, conflitos de interesse não existem e isto à esquerda é igual. Atualmente, o maior potencial candidato à Presidência da República é Mário Centeno, que foi do Banco de Portugal pro Ministério das Finanças, do Ministério das Finanças para governador do Banco de Portugal. Portanto, aplicar esta acusação à Maria Luísa Albuquerque parece um bocadinho hipócrita, em Portugal pelo menos. Mas apesar de tudo, ainda é admissível. Mas quando é acusada de ser o rosto da troika, quer dizer, isto é o absurdo O rosto da troika é quem chamou a troika. Isso foi José Sócrates, que é o rosto, e quem o apoiou, naturalmente, quem governou com ele. Não se pode confundir um médico que tem de aplicar quimioterapia a um doente e que, portanto, tem toda uma panóplia de efeitos secundários que causa no doente, mas que está a tentar resolver uma doença, com o agente causador da doença. Maria Luís Albuquerque, quando muito, é o rosto da pessoa que não abandonou o carro quando tudo parecia difícil, aliás, que foi o caso de Vítor Gaspar, e na verdade, ela é o rosto da saída limpa. Acho que muitos de nós nos esquecemos que na altura estávamos com muito medo de uma potencial saída cautelar e a verdade é que a saída foi limpa. Só para terminar, eu acho que os portugueses já mostraram nestes últimos oito anos que estão nas tintas para o espantalho José Sócrates e que já ninguém consegue acenar o espantalho José Sócrates para desqualificar alguém. E acho que também se começam a estar nas tintas para esta coisa de se falar do rosto da austeridade e do corte de pensões e essas coisas, como se as pessoas tivessem feito isso porque queriam e não por necessidade, independentemente de cometerem erros aqui ou ali, de haver políticas que foram exageradas ou para um lado ou para o outro. Não sei muito bem o que dizer. Acho que os partidos tinham de dizer alguma coisa e que têm uma necessidade congênita de falar mal.

Mas neste caso, o silêncio teria sido de ouro, daí esta tua carta de ouros, sendo que é uma carta assistida pelo João Marques de Almeida e pelo Jorge Fernandes. Agora, uma carta de copas, Susana Peralta, e a tua, para como parece ser fácil assaltar um organismo do Estado, neste caso, a Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Sim, pelo carinho com que os edifícios públicos acolhem os estranhos, porque de facto os edifícios públicos são propriedade de todos nós. Pertencem ao povo e o povo penetra nos ditos edifícios de madrugada. Isso tem vários aspetos caricatos. Um dos primeiros aspetos caricatos é ser o Ministério da Administração Interna, que é precisamente aquele que tem a tutela das forças de segurança e, portanto, não deixa de ter a sua piada que os assaltantes consigam entrar precisamente no edifício do Ministério da Administração Interna. Depois, aparentemente, terão entrado por uma janela do sexto andar. Perguntamos: "Então e como é que se sobe a uma janela do sexto andar?" Porque havia um andaime no prédio do lado. Agora, qualquer pessoa que viva no centro da cidade, enfim, eu tenho essa sorte, esse privilégio.

Há andaimes por todo lado.

Quando há obras no prédio do lado, os prédios são tão coladinhos, toda a gente sabe que tem que ter cuidado. É uma coisa que é do conhecimento comum das pessoas que residem nestas partes da cidade, em que temos uma relação, por assim dizer, calorosa com os prédios vizinhos. Que a Secretaria-Geral da Administração Interna, o Ministério da Administração Interna, não o saiba, não deixa de ter a sua piada. Depois, a janela não tinha alarme, uma pessoa também se pode perguntar como é que um andar onde estão gabinetes importantes do Ministério da Administração Interna, onde há computadores, que pelo menos há o risco de terem informação sensível, não tenha um alarme. O sistema de videovigilância estava avariado. Isto parece realmente um sketch. O que mais é que podia ter corrido mal e, de facto, correu mal? E eu termino só aqui com uma ideia, que é: fala-se tanto de segurança informática e de como é que nós vamos proteger os nossos dados que estão em servidores do Estado e, desde logo, certamente muitos deles nos servidores do Ministério da Administração Interna. Eu não sei se já repararam por lá que isso também envolve roubar os computadores fisicamente. E que talvez não fosse má ideia começarmos por aí. Gostava então de deixar esta ideia para a Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna.

Que certamente há de ouvir este Fora do Baralho, esperemos que sim. João Marques de Almeida, a próxima carta, e a que sobra também, de paus para Pedro Nuno Santos pela posição que tem tido em relação ao orçamento do Estado, acusou o governo de falta de sentido de Estado, precisamente.

Olá, Vanessa, olá a todos. Neste caso é mesmo para o que ele anunciou na reentrada do PS, aquilo não é a Universidade de Verão, não me lembro já como é que se chama.

Academia Socialista, em Tomar.

Academia Socialista, fantástico. De ter dito que só aprova o orçamento havendo negociações com o governo. Eu acho que Pedro Nuno Santos está se a meter num sarilho e era muito fácil evitar este sarilho. Eu nem sequer sou do PS, mas acho que se eu aconselhasse Pedro Nuno Santos, aconselhava a tentar evitar o máximo sarilhos à volta do orçamento, porque normalmente no primeiro orçamento de um novo governo, haver sarilhos corre normalmente pior à oposição do que a quem está no governo. E Pedro Nuno Santos, eu compreendo que ele dentro dele tenha imensa vontade de chubar o orçamento. Compreendo perfeitamente, mas um político, quando é líder, tem que ser mais frio, tem que ser mais objetivo, tem que ter mais cabeça e menos estados de alma. Eu acho que Pedro Nuno Santos tem alma a mais e cabeça a menos, às vezes. E Pedro Nuno Santos diria uma coisa muito simples: nós não vamos negociar este orçamento, mas vamos abster em nome da normalidade democrática. É o primeiro orçamento de um novo governo e a nossa posição é que esse governo está em funções, é o respeito pelas eleições e em Portugal ninguém quer novas eleições. Portanto, o orçamento não é nosso. Nós seguramente vamos discordar de muitas coisas desse orçamento e faremos oposição, mas vamos abster em nome da normalidade democrática, do processo democrático. Era muito simples.

Mas já que falas em estados de alma, e muito rapidamente, João, o Chega anunciou na última hora, esta sexta-feira, que abandona as negociações do orçamento e é uma decisão irrevogável, sendo que já conhecemos outros irrevogáveis anteriores que acabaram por não ser bem assim. E esta postura de André Ventura?

O Chega já tinha percebido que se tinha posto fora das negociações em relação ao orçamento quando veio com a ideia do referendo à imigração, que agora clarificaram as perguntas que queriam fazer. Seriam duas perguntas nesse referendo. Já tínhamos percebido que aquele referendo era uma desculpa para o Chega se colocar fora da negociação do orçamento. E ao fazê-lo, o Chega quis obrigar o PS a ser ele o único a negociar o orçamento com o governo, dando assim ao Chega o papel de líder da oposição, porque é o único que não está a negociar com o governo. E acho que Pedro Nuno Santos acabou por cair nesta armadilha e escusava ter caído. Podia ter uma posição defendida com mais responsável que a do Chega, dizendo: "Nós vamos abster, em nome do que eu disse da normalidade democrática. Não é o nosso orçamento. Seguramente vamos discordar de muitas coisas do orçamento, mas não faz sentido nenhum estar a causar eleições antecipadas nesta altura, porque os portugueses não querem eleições. Portanto, em nome do processo democrático, vamos simplesmente abster."

Pausa no final desta primeira parte, mas Luís, ainda tens uma palavra aqui a propósito do acidente com o helicóptero esta sexta-feira no Rio Douro.

É verdade, essa é a triste notícia do dia. O helicóptero despenhou-se agora ao fim da manhã. Estão confirmados, tanto quanto eu percebo das últimas notícias, quatro mortos, mas o mais provável é haver cinco militares da GNR que tinham estado em combate aos incêndios. Portanto, aqui é só dar uma palavra às famílias, aos amigos, caso nos estejam a ouvir, e dizer que a equipe do "Fora de Baralho" lhes manda um sentido abraço.

E fica esse abraço no final desta primeira parte. Fazemos uma curta pausa, vem já a jogada da semana. Comunicação política na jogada da semana do "Fora do Baralho", ou as falhas na comunicação política, tanto do governo de Luís Montenegro como do presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Saúde, imigração, nova comissária europeia, jogamos em três frentes. O governo concluiu apenas dentro do prazo 30% das medidas urgentes que estavam previstas no plano de emergência para a saúde e depois da publicação desta notícia d'O Observador, deu mais cinco medidas como concluídas, mas não é bem assim. O processo em algumas delas até já pode estar em curso, mas não está completo. Susana Peralta, começando por ti esta segunda parte, o executivo de Luís Montenegro elegeu a transparência como uma bandeira. Esta forma de comunicar é compatível com esse compromisso?

Nós estamos a falar de 15 medidas urgentes, portanto, primeiro havia só cinco e depois de repente já havia mais cinco. Isso é um grau de imprevisibilidade de implementação de medidas, mostra que não há transparência nenhuma, mas eu acho que esta falta de transparência não é uma intencionalidade de o governo ser opaco. É uma incapacidade de desenhar políticas públicas com pés e cabeça. E sobretudo, quando nós pensamos em políticas públicas, normalmente há três tipos de medidas que nos interessam. Uma é a medida do que nós chamamos os inputs, ou seja, quanto é que se vai gastar. Por exemplo, vamos dizer, numa das medidas que estava anunciada, que era pagar mais caro para incentivar os médicos a realizarem partos. Quanto é que o governo vai gastar no total? Isso é um input, nesta medida. Depois há uma medida que nós chamamos de output, que tem a ver com o número de médicos que aderem ou o número de partos que são realizados. E depois há ainda outras medidas que são ainda mais difíceis e que certamente nós estávamos à espera de as ter disponíveis neste espaço de tempo, que são aquilo que nós chamamos as medidas de outcome, que no fundo é a qualidade dos cuidados. Com base nisso, conseguimos ou não conseguimos diminuir os partos de risco, diminuir os problemas de saúde ligados aos partos, diminuir o tempo de espera ou o tempo de viagem das mulheres que vão parir, etc. E de facto, nós aquilo que vemos é uma amálgama nestas medidas, porque repara que há umas que são, por exemplo, a contratação dos médicos de família, onde já podia ser uma medida mais quantificada, pelo menos quantos médicos é que irias contratar, mas que a própria Associação dos Médicos de Família diz que não aconteceu, mas seja como for, que é desse ponto de vista. Depois tens medidas que nem sequer estão neste enquadramento do input, output, outcome. Por exemplo, criação do output, uma medida qualquer que tinha a ver com o SNS 24, com uma linha telefónica, que no fundo é uma mera implementação do novo procedimento. Portanto, com esta mistura conceptual, e como eu repito, eu acho que o governo não faz isto de propósito, isso não é uma vontade de ser opaco e de não comunicar ou de esconder alguma coisa. Acho que não, acho que é mesmo uma incapacidade e uma falta de cultura de qualidade de políticas públicas em Portugal, uma incapacidade de as comunicar e também uma incapacidade nossa, verdadeiramente, enquanto sociedade civil, de pedirmos contas ao governo. Já agora, só para terminar rapidamente. Repara que, por exemplo, se tu fores ver os próprios As metas intermedias necessárias para os cheques do PRR chegarem, aquelas que depois são verificadas e que a comissão diz: "Sim, senhor, então aqui vai a nova trance de pagamento do PRR", muitas delas também padecem disso. É como misturar alhos com bugalhos. Há metas que são meramente a publicação de um diploma legal e depois há metas que já estão mais quantificadas. E, portanto, eu acho que o Governo não tinha... Se calhar a medida mais urgente que podia ter feito neste início de mandato era começar por resolver o problema da qualidade das nossas contas, das nossas pseudopolíticas públicas e da capacidade da administração pública de produzir informação realmente relevante.

Uma dessas medidas que ficou por concretizar e foi estabelecida como urgente por este governo é, por exemplo, o pagamento por partos acima da média dos últimos três anos. Iam ser pagos mais 750 € por parto aos médicos que fizessem partos acima da média. Ora, é uma das medidas, e tendo em conta o estado das urgências de obstetrícia e ginecologia, que ainda não foi concretizada, só para dar aqui um exemplo. João Marques de Almeida, o governo deu um passo maior do que a perna nos objetivos a que se propôs.

Lembro-me que quando, durante a campanha eleitoral, num dos nossos programas, houve vários durante a campanha eleitoral, eu disse que é sempre arriscado criar muitas expectativas em relação a resolver problemas, sobretudo nos setores da saúde, o Serviço Nacional de Saúde, e na educação pública. É arriscado. E agora é o que está a acontecer ao governo. Eu também concordo com a Susana que o governo não comete estes erros por qualquer maldade, propositadamente, é mais incapacidade. Mas o grande problema é que nós temos, por um lado, este jogo político permanente. Quem está no governo é criticado pelos problemas da saúde e da educação. Quem está na oposição ataca sempre os governos, independentemente de quem está na oposição e quem está no governo. Mas o que é verdade é que neste momento em Portugal, nós temos dois problemas muito complicados. Temos outros, mas estes dois, em políticas públicas absolutamente fundamentais, a saúde e a educação, temos dois problemas gravíssimos em Portugal e que isso já não tem nada a ver com quem está no governo. Já houve vários governos e os problemas mantêm-se. Eu acho que a Susana tem razão, que há uma grande incapacidade em Portugal de construir e depois de implementar políticas públicas corretas.

Mas foi o governo que colou a expectativa alta.

Claro, eu sei, mas é isso que eu estou a dizer. Eu disse logo durante a campanha, foi por aí que eu comecei, que era um risco criar expectativas muito altas, porque não iam conseguir concretizar. É impossível resolver os problemas da saúde e educação rapidamente ou como se costuma dizer, com cuspe, com cola. Essas coisas não se resolvem assim. E tem a ver com incapacidade de desenvolver, concretizar e implementar políticas públicas corretas. Por exemplo, nós olhamos para os partidos e aqui são todos iguais. Os partidos políticos não se preparam devidamente quando estão na oposição para virem implementar políticas públicas corretas quando estiverem no governo. Não há essa preparação. É tudo feito à última da hora, é tudo muito imediato. Até podia haver institutos próximos dos partidos políticos, independentes, mas próximos, com orientações doutrinárias, ideológicas, intelectuais, mais à direita, mais à esquerda, que fizessem trabalho sobre políticas públicas que depois ajudavam os partidos que lhes seriam mais próximos quando esses partidos estivessem no governo. Mas não há nada disso. Portugal é um país muito pobre em termos de construção de políticas públicas. E temos dois enormes sarilhos na saúde e na educação que neste momento eu não consigo ver nenhum governo resolvê-los rapidamente, nem este, daqui a quatro anos ou quando houver eleições, ou quando o PS voltar ao governo, e eu espero que não seja daqui a quatro anos, mas pode voltar perfeitamente, até antes. Vai ter o mesmo problema, porque estes problemas repetem-se permanentemente. Portanto, isto é uma incapacidade do país, não é só uma incapacidade dos governos. É verdade que os governos, sabendo isso, os partidos políticos sabendo isso, não devem criar expectativas demasiado altas.

E agora é este governo que está em funções. Luís Aguiar-Conraria, o Ministério da Saúde veio entretanto desmentir o diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, que tinha prometido para esta sexta-feira um balanço das medidas deste plano de emergência para a saúde. Pois bem, não foi esta sexta-feira. É mais um exemplo aqui da descoordenação e dessas falhas de comunicação?

Quer dizer, evidentemente que é um exemplo de descoordenação. Ou de falha de comunicação. Uma pessoa não sabe exatamente o que se passou, não sabe exatamente qual é o motivo, mas é evidente que há aí alguma descoordenação. Eu não consigo dizer muito mais do que isso. Mas deixa-me só aqui reforçar alguns pontos que quer a Susana, quer o João fizeram. É que não é só uma questão das expectativas que foram criadas e das promessas que foram feitas. Quer dizer, também há aqui uma entrada de leão por parte da ministra que me pareceu muito arriscada, pareceu a mim e a toda a gente na altura muito arriscada, que foi, por exemplo, correr com o CEO do SNS, que foi substituído. E portanto, isto numa altura em que o verão estava quase aí, portanto, a partir do momento em que altera dessa forma a estrutura das coisas, assume a responsabilidade se elas correrem mal, quer dizer, já não dá para culpar governos anteriores. Teve um discurso complicado quando falou das lideranças fracas, que na altura foi entendido como estando-se a referir aos administradores hospitalares, que depois veio desmentir, a dizer que foi mal interpretada. Quando um político com responsabilidades importantes vem dizer que foi mal interpretado, quer dizer que, no mínimo dos mínimos, comunicou mal. Aliás, isso levou até penso que à demissão de algumas administrações hospitalares, alegando perda de confiança. A partir do momento em que a ministra tem esta entrada, não só pondo as expectativas lá no alto, anunciando um plano de emergência já para o verão, mas depois também destruindo ou pelo menos atacando a estrutura existente de uma forma que me pareceu demasiado rápida e voluntarista, claro que depois sujeita-se a isto, e a ser responsabilizada pelo que está a correr mal, isto é inevitável. Custamos dizer que tenha sido um erro principiante, porque é uma senhora com experiência, mas sim, foi um erro e agora está a sofrer as consequências.

Jorge Fernandes, já aqui falámos na jogada extra que fizemos esta semana a propósito da nova comissária europeia, da gestão que o governo fez desse anúncio. Era para ser um anúncio na Universidade de Verão do PSD, pelo menos a notícia não foi desmentida, iria ser a convidada surpresa. Luís Montenegro ouviu críticas por alegadamente estar a misturar governo e partido numa indicação para um cargo que é internacional. Acabou por antecipar esse anúncio já depois do nosso programa, a reação do Presidente da República à escolha de Maria Luísa Albuquerque. Há quem concorde e quem discorde. O presidente não se pronuncia, foi o que disse Marcelo Rebelo de Sousa. Ora, quando foi indicada a anterior comissária Elisa Ferreira, a reação de Marcelo foi um pouco mais efusiva. Disse na altura que era um nome muito bom. Encontras aqui alguma explicação para esta diferença ou vês aqui, eventualmente, uma trapalhada, neste caso do presidente?

A palavra-chave nisto é efusivo. Na altura, tudo em Marcelo era efusividade, até há uns anos atrás. E até o caso das gémeas, tudo em Marcelo era efusividade, excesso. E claramente há um antes e um depois do caso das gémeas. Marcelo, acho que em praticamente todas as matérias, tem sido muitíssimo mais resguardado. No fundo, estes últimos meses, ele adotou um tom e uma postura, que na verdade deveria ter sido o tom e a postura que ele deveria ter tido desde o primeiro dia como Presidente da República. Porque apesar de toda esta contenção verbal, ao contrário da incontinência verbal que ele tinha antes, é o registo próprio de um Presidente da República. Para além disto tudo, para além das suas condições políticas objetivas, houve momentos, e todos sabemos disso, que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa tinham uma relação muito próxima, eles se apoiavam mutuamente. Basta lembrar, inclusive, que na altura em que foi esta situação de Elisa Ferreira, em 2019, António Costa ainda não tinha apoiado Marcelo Rebelo de Sousa para a recandidatura, mas viria a fazê-lo pouco depois. Portanto, na verdade, na altura havia uma simbiose muito forte entre governo, o Primeiro-Ministro e Marcelo Rebelo de Sousa, e essa relação, pelo menos para já, que saibamos, entre Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro, não está nesse patamar. Pelo menos que saibamos em público. Portanto, sob esse ponto de vista, acho que Marcelo agora adotou o registo. Acho que agora esteve bem na altura que tinha estado mal, porque na verdade, ele não tem nada que ver com a escolha.

Vanessa, já acabaste, Jorge?

É um trunfo ou contra?

Não é bem um trunfo, eu tenho uma explicação muito mais simples que o Jorge. Acho que o Jorge está a teorizar demasiado isto. A minha explicação é a seguinte: é verdade, como disse o Jorge, que em 2019 ainda se vivia aquela longa lua de mel entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. E António Costa, seguramente, não sei, mas calculo que tenha dito a Marcelo Rebelo de Sousa em privado, numa audiência: "Eu escolhi e vou nomear a Elisa Ferreira para comissária europeia antes de anunciar publicamente." Desta vez, Montenegro não fez isso. É muito simples. Não disse em privado a Marcelo Rebelo de Sousa: "Maria Luísa Albuquerque vai ser a comissária europeia, foi esta a minha decisão." Pode ter falado que havia alguns nomes, mas não disse isto a Marcelo, e Marcelo amuou. Ficou amuado. E como fica amuado, tem aquela reação típica de um menino amuado, porque ele quer que digam tudo. Ora, eu tiro o chapéu a Luís Montenegro por não sentir necessidade de informar Marcelo Rebelo de Sousa de decisões que são de exclusiva competência do governo. Não tem que estar sempre a informar Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, acho que haver um afastamento entre o Primeiro-Ministro e o Presidente da República é salutar para a democracia portuguesa. Mas Marcelo Rebelo de Sousa, aquilo foi a reação de um menino amuado. E Marcelo Rebelo de Sousa, apesar da sua idade real, continua a ser um menino, é uma criança, e amua. E está amuado, e amuou porque o Primeiro-Ministro não lhe disse antes de anunciar aos portugueses que a escolha dele era Maria Luísa Albuquerque. É essa a minha explicação.

Jorge, só para concluíres.

Concordo. Essa informação que o João deu de Luís Montenegro não ter informado Marcelo Rebelo de Sousa, não é público isso, mas parece não só perfeitamente plausível que Montenegro não o tenha feito, como parece perfeitamente plausível que Marcelo tenha reagido desta maneira, porque de alguma maneira foi posto de lado num processo do qual, na verdade, não tinha que fazer parte.

Luís Aguiar-Conraria, depois houve também esta questão a envolver o Presidente da República. Disse que não pode desencadear referendos, nem se pronuncia sobre a ideia do Chega de fazer um referendo à imigração, mas na Universidade de Verão do PSD respondeu mesmo a uma pergunta sobre esse assunto feita por um aluno. Só que acabou por, na nota pública que fez, omitir as perguntas. Só falou da resposta, mas a resposta foi sim sobre um referendo. Vês aqui também um lapso ou uma intenção deliberada por parte de Marcelo Rebelo de Sousa? E se sim, eventualmente, com que objetivo?

Acho que o Marcelo Rebelo de Sousa não comete lapsos. Realmente é deliberado, ainda mais quando é acusado de falar quando não deve sobre referendos e depois mostra as respostas e não mostra que as perguntas eram sobre o referendo. É evidente que isto é propositado e ele está a mentir propositadamente usando um órgão de comunicação da Presidência da República. Parece-me que é um caso grave. Mas só mesmo essa mentira é que é grave, porque tirando isso não vejo nada de especial em ele estar a falar. Eu também prefiro um presidente de República mais sensato, mais calado e que fale de facto quando é necessário. Mas dado o estilo de presidência que nós temos, o ele responder a estas perguntas e fazer comentários sobre imigração não tem nada de especial. Noutro presidente seria estranho, neste não é, e até acho que deu respostas azizadas sobre a questão da imigração e pôs as coisas nos seus devidos termos. Respondendo à questão, face ao estilo de presidência que ele tem, não me choca que ele tenha respondido, não me choca que participe numa academia de verão de um partido político. Acho que se tivesse sido convidado para participar na festa do Avante do PCP, se calhar também lá ia estar. Não me choca, é o estilo dele. Acho até que as respostas que deu são ajuizadas, eu gostei das respostas que deu. A mentira é uma coisa totalmente descabida e ainda por cima desnecessária, porque de facto não vejo necessidade nenhuma de estar com isto.

Mas tu achas que o PCP convida o Marcelo para ir à festa do Avante?

Eu não sei. O Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi à festa do Avante do PCP? Eu não aposto que se puserem à prova aquilo deve ser verdade.

Era público.

Mas ia como espetador, ia ouvir concertos, ouvir música, não foi convidado por um partido para fazer um discurso.

Não, claro.

É isso que eu digo.

Fazer discurso nunca, mas de repente participar num debatezinho sobre integração europeia, ele até alinhava nisso. Eu acho que ele tem jogo de cintura para isso.

Só sobre imigração o PCP era capaz de convidá-lo. Sobre integração europeia não sei se o convidava.

Agora já foge ao tema. A festa do Avante é uma festa, dejemo-nos só dizer, eu já fui à festa do Avante algumas vezes e aquilo é uma festa que é bastante aberta e com bastante pluralidade de opiniões. A ideia do Partido Comunista ser um partido totalmente fechado, pelo menos no caso da festa do Avante, é uma ideia errada.

Mas concordas que é o PCP que passa muito essa ideia para fora, não é uma coisa que nós inventamos do nada.

Claro que não.

Permitam-me nestes minutos finais olhar aqui ainda para um outro tema que talvez possamos encaixar aqui nesta nossa jogada da semana em várias frentes. Susana Peralta, o presidente e também o primeiro-ministro marcaram presença no posto de comando para acompanhar as operações de resgate na sequência desse acidente com o helicóptero que transportava membros da GNR, de que falámos no final da primeira parte. Mas para além disso, Luís Montenegro esteve inclusive numa lancha no rio Douro a acompanhar as buscas com os vários profissionais que estavam nessas buscas e foi questionado depois sobre porque sentiu essa necessidade. Disse que era para mostrar apreço pela missão perigosa dos mergulhadores. Pergunto-te se para além dos problemas de comunicação que vocês elencaram aqui, se o governo tem porventura também ilações a tirar sobre o tempo e o espaço em que os políticos devem intervir e aparecer.

Eu acho que há um equilíbrio a encontrar nestes casos de grandes tragédias acerca da presença necessária quanto a mim dos responsáveis políticos para mostrarem empatia, para mostrarem que estão preocupados, para perceberem o teatro de operações, para verem se têm que acionar eventualmente meios adicionais. Acho que isso é importante. Por exemplo, contraste completo com o que aconteceu na Madeira com Miguel Albuquerque a continuar as suas férias no Porto Santo, não indo ao encontro do que estava a acontecer, embora não tenha sido uma tragédia das mesmas dimensões, não houve perdas humanas. Eu acho importante que tenhamos tido o presidente e o primeiro-ministro realmente no teatro de operações, mas esse equilíbrio é um exemplo que deve ser um bocadinho difícil de encontrar. E de facto, ter o primeiro-ministro numa lancha operacional quando estão a decorrer buscas, quando essas buscas têm um limite, é sabido que quando anoitecer depois já não vão poder continuar, pois têm que aguardar para amanhã e que as famílias estão numa aflição porque querem recuperar os corpos, que muitas vezes quanto mais tarde se encontrar os corpos, menor é a probabilidade de encontrar. Eu tenho as minhas dúvidas acerca da utilidade e da oportunidade dessa estadia do Luís Montenegro na lancha. Eu percebo que há uma pressão para a política espetáculo. Eu por acaso estou aqui, como é sabido, na escola de verão da Comissão Europeia e à tarde estive um bocado a preparar a minha apresentação ali num café e estava realmente em direto a dar as buscas, naquela tendência das televisões muitas vezes para o direto quando não está a acontecer nada que seja noticiável. Eu percebo que nós vivemos realmente neste rodopio da política espetáculo e que Luís Montenegro tem um concorrente difícil, que é Marcelo Rebelo de Sousa, que é de facto uma pessoa especialista em aparecer e em estar permanentemente.

Não é concorrente do Montenegro, o Marcelo.

Alguma descrição. Desculpa?

Acho que o Marcelo não é concorrente de Montenegro nada. Aliás, Montenegro tem um estilo que é o oposto do Marcelo.

Desculpa, claro que não é concorrente nada, absolutamente, como é óbvio, o Marcelo de todos os maneiras já não faz concorrência a ninguém. Tem uma data para acabar e vamos ver. Mas eu digo, desse ponto de vista, é uma pessoa que apesar de tudo estabelece aqui alguma forma de estar na política que pode levar depois a estes exageros. Efetivamente, a mim parece-me um pouco estranho que o Luís Montenegro tenha tido necessidade de estar na lancha. Isto dito, o pior de tudo teria sido não aparecer. Eu agradeço ao primeiro-ministro ter estado lá.

Também há essa questão de às vezes poderem ser presos por ter cão e por não ter, os políticos. Temos de fechar este Fora do Baralho. Voltamos a encontrar-nos na próxima sexta-feira, depois das 19h, aqui na Rádio Observador. Estamos sempre em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz, bom fim de semana quatro ases e bom fim de semana aos nossos ouvintes. Até para a semana.