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Este é o sétimo e último Frente a Frente das Europeias 2024, na Rádio Observador. Editou o sorteio que fosse entre Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD, da Aliança Democrática, e Francisco Paupério, do Livre. Estão ambos à distância nesta edição destes Frente a Frente. São 20 minutos de debate. Eu sou o Ricardo Conceição. Bem-vindos.

Obrigado.

Olá, Ricardo.

Vamos começar por discutir a questão do aborto. Há uma proposta de resolução para incluir o direito do aborto na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que foi aprovada no Parlamento. PSD e CDS votaram contra. O Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD, tem uma proposta de inclusão do direito à habitação nesta mesma Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. O Sebastião Bugalho já justificou a opção da AD de votar contra a inclusão do aborto, explicando que se trata de uma questão jurídica diferente, sobretudo porque, segundo diz, a interrupção voluntária da gravidez coloca em confronto vários direitos, como por exemplo, o direito à vida ou o direito das mulheres de poderem decidir sobre o próprio corpo. Mas o PSD não levanta essa questão, Sebastião Bugalho, no aborto até às 10 semanas, ou seja, dá primazia ao direito de opção da mulher. O seu argumento da questão jurídica, Sebastião Bugalho, não cai por terra?

Se eu ouvi bem, porque estamos aqui à distância, é justamente isso que sustenta a lógica e o argumento jurídico da votação dos eurodeputados da delegação portuguesa do PPE, no que toca à inclusão da IVG na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.

Mas até às 10 semanas há a primazia do direito à opção da mulher.

Exatamente, mas é uma gestão entre os dois. Porque os direitos quando são fundamentais, não são absolutos. Portanto, é uma gestão, é um equilíbrio.

Mas o problema está resolvido até às 10 semanas para o PSD ou não está?

Claro que está e é um compromisso.

É um compromisso de não retrocesso. Já o tem dito.

Absolutamente, e do nosso lado também.

Mas isto não indicia que o problema aqui é que o Sebastião Bugalho está contra, não é por convicção religiosa, por convicção que for, está contra a hipótese do aborto ser uma opção?

Não, como lhe digo, e acho que já deixei isso claro em mais do que uma entrevista, mas não tem mal nenhum deixar claro mais uma vez. Eu não sou a favor da criminalização do aborto. E não sou a favor da criminalização do aborto só por estar em consonância com a posição do primeiro-ministro e da Aliança Democrática. É a minha posição pessoal e eu devo lhe dizer, eu imagino que o Ricardo Conceição não o esteja a fazer propositadamente, mas eu deixei muito claro na entrevista que dei em que esse tema veio à baila, no podcast do Daniel Oliveira, eu deixei muito claro que eu jamais legislaria com base em qualquer tipo de crença religiosa, que não confundo os dois panoramas. Portanto, ficou muito claro. Eu só lamento é que essa entrevista tenha sido divulgada e editada de forma a esconder essa posição que ficou muito clara. Eu acho que a minha posição é muito clara desde o início e acho que alguns dos meus adversários, eu aliás cumprimento o Francisco Paupério porque nunca tentou fazer isso, mas alguns dos meus adversários tentam criar uma confusão onde ela não existe.

Vamos também ouvir o Francisco Paupério, que será favorável à inclusão do aborto na Carta Fundamental da União Europeia. O que lhe pergunto, Francisco, é: tem noção que esta proposta de resolução está condenada ao fracasso? Porque uma coisa é passar no Parlamento Europeu, outra coisa depois é torná-la efetiva junto da Comissão Europeia. E aí há países como Polônia, Malta, Hungria, que podem chumbar.

Sim, nós temos essa noção e precisamente quando foi apresentada esta proposta, foi nesse sentido de também mostrar que apesar de saber que provavelmente não iria ser aceito, mas dar uma força a esta luta que tem sido feita não só em Portugal, mas em vários países europeus, e o objetivo foi desde o início alertar para esta situação em que temos dentro do espaço da União Europeia, diferentes regras para algo que consideramos ser um direito humano. O aborto não é um luxo, é um direito. E pode acontecer de forma legal ou acontece na mesma de forma ilegal e sobretudo sem cuidados necessários, afetando as mulheres. E nós consideramos que todas as mulheres devem ter a sua liberdade de escolha e autodeterminação. Relembrar também que esta AD, PSD e CDS também votaram numa decisão, que não era vinculativa na altura, sobre direitos reprodutivos e direitos sexuais. Ou seja, o que está acontecendo neste momento é que não há uma defesa dos direitos das mulheres por parte deste grupo político, e não é só em relação à questão do aborto. Mais uma vez, houve uma diretiva sobre os direitos reprodutivos e direitos sexuais, que também votaram contra no Parlamento Europeu no último mandato. E claro que isto é um sinal que é mandado para todas as mulheres e para todas as minorias do país e da União Europeia. E eu acho que aí não podemos esconder de que lado é que tem estado a AD, e apesar de tudo o que o Sebastião Bugalho tem dito ao longo da campanha, que defenderá todos esses direitos a partir de 9 de junho A verdade é que no passado nunca tivemos essa indicação do partido. E o que o Livre pede é que face até às posições de von der Leyen, que muitas vezes se alia a partidos ultraconservadores do PiS, por exemplo, que tiraram mesmo o aborto da Polónia e que perderam a eleição por causa disso, porque foram os jovens e foram as mulheres, sobretudo, que se manifestaram nas ruas e que deram o voto para este novo governo liderado pelo EPP, mas que também tem verdes e liberais presentes no governo. E é esse ponto que nós queremos chegar, é que nós não podemos confiar em partidos que votam num sentido e depois em campanhas eleitorais apontam para outro.

Vamos avançar também para a questão da habitação.

Ricardo, peço desculpa, posso só responder muito brevemente?

Claro, é um debate.

Eu percebo a lógica ou a tentativa de argumentação do Francisco Paupério, mas eu gostava só de relembrar que foi a comissão da Ursula von der Leyen que sancionou o PiS, justamente.

Não foi a comissão da Ursula von der Leyen, foi de Juncker.

Desculpe, tenho que confirmar a sua informação. A Ursula von der Leyen sancionou o PiS quando ela esteve..

Mas quem abriu o processo foi Juncker.

Francisco, não esperava isto de si. Porque quem consumou, como sabe, a sanção, foi a comissão von der Leyen. E digo-lhe mais, quando o PiS tentou diminuir os direitos das mulheres na Polónia, os deputados portugueses da Aliança Democrática apresentaram uma resolução no Parlamento Europeu de protesto contra essa diminuição de direitos. E deixe-me dizer-lhe mais, Ricardo, que eu acho que isto é mesmo importante. Quando a Convenção de Istambul, que é a convenção que se dedica à prevenção e ao combate à violência contra as mulheres, foi transposta para Portugal, foi transposta por uma deputada chamada Carla Rodrigues, que por feliz coincidência, é candidata ao Parlamento Europeu este ano pela AD.

Então como é que agora assumem essas posições? O problema é que neste momento estão bem em negociar com esses grupos que condenaram no mandato passado. E isso é que eu acho que tem que ser explicado, como é que antes condenam uma ação do PiS e agora estão dispostos a ir para uma Comissão Europeia com este grupo político. O problema é este, é de incoerência, é apenas esse.

Vamos avançar para outra questão, a questão da habitação e também a inclusão na Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia. E pergunto, uma vez que tudo isto terá também de passar pela Comissão, será esse o último portão pelo qual terá de passar esta proposta. Sebastião Bugalho, esta questão da habitação aqui também não é meramente proclamatória, uma vez que não obrigará a grandes mudanças por parte dos Estados-membros?

Ricardo Conceição, agradeço muito a sua pergunta e quero muito respondê-la, mas quero só deixar claro que nós temos linhas vermelhas e obviamente não vamos negociar com o PiS, não queremos negociar com o PiS, e convém relembrar que quem derrotou o PiS foi o PPE, de que a AD faz parte. Não, é só para deixar claro. Exatamente. Portanto, não faz sentido o Francisco Paupério estar aqui a tentar atacar-me por estar ao lado do PiS, quando foi o PPE, de que a AD faz parte, que derrotou o PiS ao lado dos Verdes, de que o Francisco Paupério também faz parte.

Temos de avançar para a questão da habitação.

É o PPE que está a dar a mão neste momento, não são os Verdes. Os Verdes lutaram contra e agora não dão a mão.

Portanto, o Francisco Paupério sabe bem que quem derrotou o PiS na Polónia foi o PPE, foi a AD e também foram os Verdes.

Senhores, temos de avançar para a questão da habitação ou não vamos ter tempo para mais nada. A questão da habitação é ou não é meramente proclamatória, Sebastião Bugalho?

Eu respondo-lhe à pergunta. Não é proclamatória e obviamente que nós não queremos que ela seja simbólica ou apenas simbólica.

Como?

Nós neste momento sentimos da parte dos portugueses e da parte dos europeus que há uma grande expectativa de que na Europa também se consiga resolver o problema da habitação. E neste momento a discussão da habitação na Europa está dividida essencialmente em dois grupos, e não estou a inserir o Livre em nenhum deles, mas alguns dos nossos adversários podem-se dividir em duas famílias na discussão da habitação. Temos uns que não querem falar do problema na Europa devido aos limites formais e legais, porque a habitação é uma competência dos Estados, e temos uns que querem prometer tudo a todos e desresponsabilizar os Estados, e muitas vezes a falta de execução de fundos europeus da parte dos Estados, no que toca à habitação. Aquilo que nós queremos fazer com a consagração do direito à habitação na Carta dos Direitos Fundamentais, universalizando um direito que até já estava na carta para os mais desfavorecidos, é abrir um horizonte legal para depois proporcionar um horizonte de esperança, mas não ficamos por aí. E eu não tenho ficado por aí nas minhas intervenções, Ricardo Conceição. Nós podemos, por exemplo, aproveitar o antigo plano Juncker, hoje o InvestEU, e abrir uma janela de juventude no plano da InvestEU e através do plano da InvestEU e dessa abertura de janela de juventude, oferecer uma garantia europeia para a primeira habitação dos jovens. Esta era uma forma equilibrada, social-democrata, com o mercado e ao mesmo tempo a Europa, para tentar resolver os problemas da habitação e alargar o nosso horizonte de esperança neste tema.

Francisco Paupério, apoiaria esta inclusão da habitação na Carta de Direitos Fundamentais?

Nós consideramos que sim, que a habitação deve ser também um pilar desta carta fundamental. Mas mais uma vez, apontar aqui incoerências na AD, porque temos mais um relatório feito neste mandato sobre as pessoas em situação de sem-abrigo, ou seja, na questão da habitação, e mais uma vez não votaram a favor dessa diretiva para essas pessoas. E o que se nota, o que é constante ou o que tem sido constante nesta campanha, é que realmente nós fazemos muitas intenções e falamos sobre muitas intenções e depois votamos de maneira diferente no Parlamento Europeu. Mas em relação à habitação, o que o Livre propõe, primeiro, nós temos que acabar com todos os vistos e acessos a cidadanias que promovam a especulação imobiliária. Está a haver uma crise habitacional não apenas em Portugal, mas em toda a Europa, e é importante dizer isto, não é uma situação apenas portuguesa. Claro que em Portugal é exacerbada, mas está a acontecer na Europa inteira e, portanto, precisamos de mecanismos europeus também para enfrentar esta crise. Uma das nossas propostas é, sobretudo, haver um plano, tal como há neste PRR, um plano de investimento de reabilitação de casas para acesso com rendas acessíveis, é que haja uma continuação após 2027 deste tipo de financiamento para habitação, para reabilitação de casas e, sobretudo, esta reabilitação que seja feita De forma energeticamente eficaz dessas casas, para também baixar a fatura da luz, para baixar a fatura para as pessoas, para reduzir o custo de vida, porque é este tipo de políticas que temos de implementar na União Europeia e a habitação é um setor em que podemos tratar não apenas do aspecto ecológico, mas também da parte social, e o LIVRE vai ser vocal nessa defesa.

Vamos avançar para outra questão.

Ricardo, deixa-me só dizer que fico-

São 10 segundos, por favor, Sebastião, senão não é possível

Só para dizer que fico contente e grato, esperando que o Francisco Paupério seja eleito ao Parlamento Europeu, que possamos aprovar a resolução que consagra ou pelo menos defenda a habitação como direito fundamental.

Fica aqui registada essa união. Os senhores são as cabeças de lista mais jovens, pelo menos candidatos em Portugal. O Francisco Paupério tem 29 anos, o Sebastião Bugalho tem 28. E para muitos jovens portugueses que querem morar sozinhos, ter filhos, ter uma família, ir para fora é nesta altura a melhor opção. Podia aqui fazer uma piada, dizer que o Francisco e o Sebastião também querem emigrar para Bruxelas, mas não é bem a mesma coisa. Ambos pertencem a esta geração que tem o mundo à disposição e a Europa muito perto. O certo é que esta fuga de cérebros e de jovens qualificados para fora é particularmente nociva para países como Portugal. O que é que Francisco Paupério, por exemplo, o LIVRE defende para conseguir fixar os jovens em Portugal para que eles não tenham de ir para fora?

Há vários motivos das pessoas emigrarem. Não é apenas puramente económico, muitas vezes pode ser cultural ou até a questão, no meu caso, eu sou investigador e portanto beneficio bastante de estar noutras faculdades e noutros tipos de métodos e metodologias que existem, não só na Europa, mas fora da Europa. Mas ficando no aspecto económico, que talvez é o mais prioritário neste momento, até ver as propostas do IRS Jovem, que afetam apenas uma parte dos jovens, sobretudo aqueles que recebem mais dinheiro e não os que recebem menos. Mas do aspecto da União Europeia, o que podemos fazer no Parlamento Europeu é, sobretudo, um aspecto de harmonização fiscal. Nós infelizmente, apesar de termos um mercado único, temos diferentes regras fiscais, o que permite também as empresas comportarem-se de maneira diferente em diferentes países e fixarem, sobretudo, em países específicos, países quase considerados paraísos fiscais dentro da União Europeia.

Mas acabar com essa competitividade fiscal, é isso?

E acabar exatamente com essa competitividade fiscal exacerbada, ou seja, nós não defendemos uma taxa única, mas defendemos que tem que haver uma maior harmonização, tem que haver uma taxa mínima alta, porque o que acontece é que nós vimos de 2000 para 2023, tivemos uma redução de 32% da taxa efetiva de IRC para 20%. Houve aqui uma redução enorme para as empresas, que não foi acompanhada no salário jovem, não foi acompanhada pelo aumento dos salários.

Mas consegue dar-nos um exemplo concreto, Francisco? Se for, por exemplo, para uma universidade holandesa ou italiana, tem vantagens fiscais em relação a Portugal, é isso que está a dizer?

Sim. Primeiro, temos contratos de trabalhos na área da investigação, que em Portugal não acontece, portanto, estamos mais protegidos também nestes países. Mas do ponto de vista de um trabalhador, por exemplo, que tenha alguns estudos e trabalhe na parte de informática e quer trabalhar numa grande empresa como a Amazon, como a Google, não poderá fazer em Portugal, porque em Portugal não temos essa capacidade de reduzir até 0% a 1% de taxa efetiva para essas grandes empresas.

Portanto, o problema é nosso ou é europeu?

Não considero que seja nosso, porque mais uma vez, ao estarmos a reduzir para estas empresas, estas empresas têm lucros excessivos, muitas vezes, e depois que não é acompanhado pelo salário. Não é questão de nós conseguirmos atrair. Nós em competitividade com os 27 países membros, nós não vamos ganhar a nenhum, porque vamos partir de trás, a nossa economia já parte de trás. E portanto, tem que haver aqui uma maior harmonização e uma maior até coordenação a nível económico europeu, para que países como o Sul da Europa, países do Leste da Europa, possam acompanhar a economia e se possam reindustrializar. E um aspecto muito importante que pode ser aqui, deixe-me só terminar, por favor, que é a questão do oceano. Nós podemos ser um polo da tecnologia azul, podemos ser um polo da indústria, podemos ser um polo do conhecimento e podemos atrair essas empresas. Mas claro que para isso temos que ter uma capacidade fiscal competitiva que neste momento é impossível Portugal ter face aos outros países.

Sebastião Bugalho, tem alguma receita para conseguir reter os jovens por cá ou dar-lhes condições para eles ficarem por cá, se quiserem, como é óbvio.

Ricardo, permita-me um comentário sobre essa questão.

Permito tudo.

Obrigado, Ricardo. Sobre essa questão, que é o fato de, além da doutora Marta Temido ter fugido ao debate na rádio do Observador ao frente a frente, portanto eu não posso confrontá-la com isso, não há uma palavra para os emigrantes no programa do PS para o Parlamento Europeu. Há no do LIVRE, há no da AD, não há no do Partido Socialista e acho que era importante que isso ficasse vincado, porque é disso que estamos aqui a tratar hoje.

Para os emigrantes, é isso que está a dizer?

Exatamente. Para aqueles jovens que o Ricardo Conceição falou que tiveram que sair do país em busca de outras oportunidades. Obviamente que nós achamos e consideramos que o empreendedorismo é um bom fator de fixação de populações, inclusivamente da juventude. Obviamente que nós olhamos para um acordo para a competitividade da energia limpa, ou seja, mantendo o mercado e a transição verde juntos para conciliar o mercado com a transição como uma oportunidade para os mais jovens. Obviamente, e olhando para o relatório Letta, que a inovação e a tecnologia são fundamentais e que só conseguiremos manter os jovens europeus na Europa se conseguirmos concretizar a união digital e nomeadamente fazermos um upgrade do espaço Schengen para a sustentabilidade empresarial que inclua esses jovens. Mas há aqui um ponto onde eu não concordo tanto com o Francisco Paupério e que acho que é importante esclarecer até do ponto de vista eleitoral, que é quando o Francisco fala na necessidade de competitividade fiscal, e eu percebo do ponto de vista da harmonização de políticas do ponto de vista financeiro, e eu percebo porque acho que é necessário até para a Europa se proteger num clima de competitividade intensa, num mundo que está em competitividade geoeconômica e geopolítica, há aqui um problema. E Francisco, corrija-me se eu estiver errado, ou se eu tiver percebido mal, porque isto é um debate. Mas no programa do LIVRE, o Francisco Paupério ou o LIVRE defendem o fim da unanimidade em matérias fiscais no Conselho, certo?

Exatamente.

Francisco, ontem no debate com todos, Francisco.

Temos de dizer, Sebastião, temos de avançar.

Eu acho que estou a ter o mesmo tempo para responder à pergunta do Francisco.

Sim, vamos à pergunta.

O Francisco Paupério manifestou uma preocupação que eu também tenho, que é os países mais ricos e mais fortes terem muitas vezes mais poder do que os países mais pobres e mais pequenos como Portugal.

Exatamente.

É uma coisa que nós partilhamos os dois. Mas Francisco Paupério, se nós acabarmos com a regra da unanimidade em matérias fiscais no Conselho, aquilo que vamos fazer é cada vez que Portugal queira ter uma competitividade fiscal para fixar jovens, por exemplo, que era a prioridade desta pergunta e desta questão, não vamos ter um poder de veto para nos protegermos. Se acabarmos com a unanimidade em matérias fiscais no Conselho, os países mais fortes e mais ricos como a Alemanha, como a França, vão impedir Portugal, ou pelo menos vão poder impedir Portugal de ter essa competitividade fiscal que poderia fixar os jovens. Isso é um problema, Francisco Paupério.

15 segundos para responder ao Sebastião.

Não necessariamente, porque a questão da maioria também dá maioria aos países do Sul e aos países de Leste. Portanto, nós conseguimos negociar entre nós algo que nunca foi possível com este poder do veto. E portanto, o que isso iria permitir era que os países do Sul e os países de Leste conseguissem aliar e defender os seus interesses e daí defendermos o fim desta unanimidade.

Portanto, o Francisco acha que os países do Sul vão querer ter a mesma competitividade fiscal e que vão conseguir suplantar a Alemanha e a França no que toca a isso.

Vai dar mais poder democrático aos países do Sul e aos países de Leste, à democracia europeia.

O que eu temo é que os países mais ricos, para variar, nos vão impedir a nós ter a competitividade fiscal que manteria os jovens em Portugal.

Vamos avançar para a última pergunta, porque claro, já acabámos com o tempo previsto. Vamos avançar mesmo para a última pergunta. Peço também a nossa capacidade de síntese, apelo isso. Francisco Paupério defende o reconhecimento imediato da Palestina. Ora, na Cisjordânia, a autoridade palestiniana é quem manda, na Faixa de Gaza é uma organização terrorista que venceu umas eleições, o Hamas. Reconhecer a Palestina é reconhecer quem, Francisco Paupério?

Segundo o LIVRE, e nós até apresentamos um projeto de resolução que está muito explícito, é reconhecer a autoridade palestiniana como o governo da Palestina.

Que não manda na Faixa de Gaza.

Exatamente, mas nós consideramos que é o que democraticamente faz mais sentido e defendemos essa solução.

Como é que ficava a Faixa de Gaza no meio disso tudo?

Claro que ao reconhecer o Estado da Palestina e ao reconhecer o governo da autoridade palestiniana, depois teriam que ser feitos esses contactos, não só diplomáticos, mas também perceber no terreno o que isto poderia significar ao nível do Hamas.

Isso não é uma fezada? Peço desculpa de pôr a pergunta desta forma.

Não, não é uma fezada. A verdade é que nós sabemos que a passividade levou estas 15 mil crianças a morrerem, a serem assassinadas na Faixa de Gaza. E o que o LIVRE defende desde 2014 é uma solução de dois Estados, e uma solução de dois Estados que tem que passar pela democracia. E, portanto, nós temos que dar essa fezada, mas também dar essa intenção e dar essa motivação e acompanhar também este processo do reconhecimento, é possível.

E falar com o Hamas.

Sim, terá que ser negociado tudo, não é?

Que é uma organização terrorista, ou não?

Exatamente, tratá-los como o grupo que são. E aí o LIVRE sempre foi vocal.

Portanto, o LIVRE negocia com terroristas.

Não é questão de negociar, é questão de perceber qual é a melhor solução para o povo palestiniano. E aí o Hamas tem que estar incluído nas negociações, tal como o governo de extrema-direita de Israel.

Nós aqui não concordamos, não é?

Exatamente. Mas o Sebastião Galho prefere esperar por mais Estados. Eu só queria perceber, Sebastião Galho, este esperar é esperar por quê? É esperar por ter mais países europeus a reconhecer o Estado da Palestina ou é uma posição oficial da União Europeia, de conjunto, os 27, é o quê este aguardar?

Eu já referi isso numa entrevista, mas eu compreendo que sejam tantas que não dê para apanhar. Não, mas eu acho que antes de esperar, temos que falar naquilo que é prioritário, e aquilo que é prioritário é um cessar-fogo, e é um cessar-fogo que proteja os direitos humanos na Palestina e que acabe, e eu aí concordo com aquilo que eu julgo que tem sido um crescente consenso da parte das famílias políticas portuguesas, que é o cessar-fogo e a proteção dos direitos humanos.

Sem cessar-fogo será impossível, mas e depois o reconhecimento do Estado?

Em relação ao reconhecimento do Estado, eu acho que não pode haver a hipocrisia de ser a favor dos dois Estados e depois não trabalhar para isso. Ou seja, qualquer caminho que seja possível para reconhecer os dois Estados, nós não podemos negá-lo à partida.

E é esperar por quem?

A nossa preferência, para responder à sua pergunta, é o reconhecimento o mais multilateral possível para ele ser o mais firme e robustivo possível.

Mas isso quantifique-nos isso, por favor, só para percebermos se são 10, 20 países, 30 países, é o quê?

É a proposta que o Ricardo Conceição enunciou na sua pergunta.

Da União Europeia.

Era o reconhecimento dos 27 da União Europeia, mas para isso acontecer, tem que haver uma autoridade democrática como interlocutora e um território a reconhecer. E neste momento, nem uma, nem outra existe.

E a autoridade do tempo impõe-se, não temos tempo para mais.

Ricardo Conceição, permite-me, sem querer interromper, só uma breve nota.

Sebastião, já estourámos o tempo.

Eu compreendo, mas é mesmo uma breve nota por uma questão de espírito democrático.

10 segundos. Vamos lá.

O Francisco Paupério foi o único adversário, o único oponente que não desferiu ataques pessoais e ataques pouco civilizados durante esta campanha.

Ficou registado.

E eu tendo-lhe aqui um cumprimento, porque a AD também não o fez.

Terminamos aqui com este espírito de concórdia. Obrigado, Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD, da Aliança Democrática, frente a Francisco Paupério do LIVRE. Este foi o último frente a frente na Rádio Observador. O PS não aceitou participar, evocou razões de agenda. Resta-me agradecer aos sete cabeças de lista dos partidos com assento parlamentar em Portugal e em Bruxelas que aceitaram participar. Todos estes debates estão disponíveis em podcast e fica uma chamada de atenção na próxima segunda-feira, dia 3, os oito cabeças de lista juntam-se no debate das rádios, que será obviamente também transmitido aqui em direto na Rádio Observador às 9h30 da manhã, a partir das 9h30 da manhã.