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Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise. Mais uma semana em que analisamos o estado do combate à pandemia da Covid-19. É uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa e contamos sempre com o professor de Economia da Universidade Nova, Pedro Pita Barros. Boa tarde, Pedro.

Boa tarde.

E também com Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública. Olá, Sónia, boa tarde.

Olá, muito boa tarde.

Temos setembro aqui à porta, a chamada rentrée, e já com a notícia de que a meio do mês o país volta a estar em estado de contingência. É o efeito do regresso às aulas e ao trabalho para milhares de portugueses. E é precisamente sobre a forma como as empresas se vão reorganizar e garantir a segurança dos funcionários, o tema que trazemos aqui para o Gabinete de Crise. O professor António de Sousa Uva, especialista em Medicina do Trabalho da Escola Nacional de Saúde Pública, junta-se a nós na segunda parte. Para já, e antes da análise da semana, os números que marcaram os últimos dias. Vamos a eles, é só lançar os dados para cima da mesa. Que número é que traz hoje, Sónia?

O meu número hoje é o 59%, portanto, é uma percentagem que corresponde àqueles que responderam que no regresso à normalidade gostariam de fazer teletrabalho em termos parciais na sua atividade profissional. Temos também que uma em quatro pessoas gostaria apenas de ter esta opção muito esporadicamente e uma em 10 pessoas, cerca de 10%, não gostaria de todo que esta fosse uma opção. Este foi um estudo dos colegas da Escola Nacional de Saúde Pública, o professor Sousa Uva, que vai estar conosco na segunda parte, e do professor Florentino Serralheira, a mil respondentes que tiveram experiência de teletrabalho em tempos de Covid-19. A questão do teletrabalho deverá ser pensada, de facto, de forma mais consistente, pois foi uma modalidade que grande parte dos trabalhadores vivenciou no momento de confinamento, mas que poderá ser novamente bastante utilizada nos tempos que se avizinham. E neste sentido, há outros dados do questionário que se podem realçar, tais como, por exemplo, que metade dos inquiridos revela que trabalhou mais horas do que habitualmente, que 40% considerou não ser possível desligar-se do trabalho para poder descansar e uma percentagem semelhante considerou que as exigências do trabalho são maiores quando se está em teletrabalho. Estes resultados estão em linha com outros estudos, que referem que na maioria das situações, os trabalhadores trabalham mais tempo do que o previsto e em condições menos adequadas do que aquelas que existem nos escritórios ou nos seus locais de trabalho. E, portanto, para terminar, direi que, de facto, no teletrabalho podem haver situações, por exemplo, como a desadequação do mobiliário, com mesas e cadeiras das casas, um exemplo bastante prático, que não foram pensadas exatamente para se passar oito horas diárias em trabalho, ou até a utilização de equipamentos portáteis como computadores e tablets, que também estão desadequados, e aquilo que nós ouvimos muito falar na dificuldade de conciliar as exigências de um longo período de trabalho com, por exemplo, ter que lidar com os filhos menores enquanto estudam ou trabalham, e até algumas pessoas que lidaram muito mal, em termos mais da saúde mental, com o isolamento que o teletrabalho muitas das vezes traz. Portanto, todas estas questões constituem um grande desafio pra medicina do trabalho e de todas as áreas relacionadas com a saúde dos trabalhadores. E, portanto, é algo que temos que ter em atenção.

São várias as perguntas que vamos poder fazer ao professor António de Sousa Uva, precisamente também sobre essa matéria. E o Pedro traz números sobre repetições?

É, eu trago o número dois esta semana, e é o número dois de segunda vez. E isto porque começamos a ver pela segunda vez algumas decisões públicas e alguns acontecimentos. Vamos ter novamente um estado de contingência em todo o país. Ainda não é novamente aquela lógica de confinamento forte como foi em março, abril. É bom que seja claro que não é confinamento, é só estado de contingência. O retomar dos encontros entre os políticos e os técnicos no Infarmed, no que eram as reuniões do Infarmed. Foi a notícia do primeiro caso de segunda infecção confirmada em Hong Kong. E, portanto, tudo isto nos começa a trazer uma sensação de que estamos a reviver algo pelo qual já passamos. No caso do estado de contingência, temos que ter o cuidado de pensar o que vão ser as respostas para o caso de haver subida de casos e de saber como é que vamos identificar cadeias de transmissão. Vai também trazer a necessidade de nós começarmos a tornar claro o que aprendemos com o que se passou depois de maio, quando se saiu do desconfinamento, como cidadãos que têm a sua vida normal, mas também para as empresas e para os trabalhadores. Os encontros do Infarmed é também um sinal de que o processo de transferência de informação, que era suposto acontecer depois das outras reuniões terem terminado, não funcionou bem. Ou é sinal da necessidade de um novo consenso político pra medidas que venham a ser necessárias. Esta segunda vez, as reuniões serão mais utilizadas para combate político do que foram da primeira ou não. Portanto, temos várias perguntas que vão surgindo aqui. Talvez o mais importante desta segunda vez é, no caso da reinfecção, também dizer que foi numa pessoa sem sintomas, que fez um teste pra poder viajar De certa forma, o notável até agora nesta segunda vez da reinfecção é que depois de vários milhões de casos um pouco por todo o mundo, só agora se tem encontrado uma segunda reinfecção clara. Portanto, em vez de ser motivo de alarme, deveria ser quase motivo de descanso, de só agora estar a surgir. De qualquer forma, o número dois acaba por ser muito o número desta semana. Por isso, estamos a revisitar coisas pelas quais já tínhamos visto e já tínhamos discutido no passado.

E essa sensação de estarmos a reviver alguns dos receios do passado coincide com esta entrada no outono, com o receio da segunda vaga e também ao nível político, com as negociações para o orçamento do Estado que recomeçaram agora. Vamos agora para a análise da semana. Uma semana muito marcada primeiro por médicos e governo em pé de guerra, depois de uma tentativa de tréguas, mas a paz não durou nem 24 horas. Ainda tudo por causa da gestão do surto no lar de Reguengos de Monsaraz. Foi o bastonário da Ordem dos Médicos quem pediu para ser recebido por António Costa, depois do vídeo de uma conversa privada com jornalistas do Expresso ter chegado às redes sociais. Ouvimos o primeiro-ministro chamar cobardes aos clínicos. Do encontro em São Bento saíram Costa e Miguel Guimarães lado a lado, mas o bastonário não gostou da comunicação pública das conclusões desse encontro. Considera que o chefe de governo não se retratou da mesma maneira que o fez em privado, que não foi fiel. Pedro Pita Barros, como é que olha para este conflito? Parece-lhe grave que não tenha sido devidamente ultrapassado?

Parece-me grave, pelo menos que haja estas divergências tão claras, ou pelo menos esta manifestação de divergência tão clara sobre questões que deviam ser resolvidas de uma forma mais privada, mas pelo menos mais cordata entre as partes. O fazer uma reunião no final da qual o resolver de um mal-entendido resulta num outro mal-entendido, não parece grande solução. Agora, para a situação em si, temos uma parte que me parece relevante e uma parte que eu acho que é muito acessória, as tais chamadas plumageiras. A parte mais relevante é como é que nós lidamos com o processo de aprendizagem dos surtos. E nós sabemos que isso vai existir ao longo do tempo, nos próximos meses, surtos aqui e ali que vão ter que ser resolvidos e provavelmente alguns vão criar tensões deste género. O que é que é a parte das plumageiras? Não me pareceu que o primeiro-ministro tenha chamado cobardes a todos os médicos. Eu acho que ele estava num contexto, que foi possível perceber de, provavelmente um ou dois médicos específicos, naquele caso, naquele surto específico, não terem tido o comportamento que lhe tinha sido solicitado. E isto, se olharmos desta forma, coloca toda esta polêmica num contexto de como é que se geriu um surto, mais do que uma afirmação geral. E daí eu achar que a parte importante aqui, a lição a tirar daqui, é como é que nós devemos aprender a gerir os surtos também na componente política e também na componente da relação entre a autoridade de saúde e os profissionais de saúde. Neste caso, foi os médicos, numa situação futura poderá ser outro profissional de saúde. Portanto, pode ser bom nós conseguirmos separar as duas coisas. Agora, é evidente que a parte de discussão política e de sensibilidade à flor da pele que uns e outros têm, também tem que ser gerida neste contexto e tem que ser algo que, aí sim, politicamente, o primeiro-ministro e o bastonário da Ordem dos Médicos tenham que arranjar uma forma de se entenderem neste tipo de situações.

Sónia Dias, os médicos têm razão de queixa, merecem uma posição mais forte de confiança por parte do primeiro-ministro, tendo em conta que têm um papel crucial durante a pandemia e sempre, mas neste contexto em particular?

Eu estou completamente, e já até respondendo um pouco a sua pergunta, mas eu acho que eu estou completamente de acordo com aquilo que o Pedro acabou de referir. Acho que há aqui um ato também de algum empolamento e de mediatismo relativamente a este assunto, que numa parte deve ser resolvido entre as duas componentes e que pouco no fundo traz para a resolução de uma situação que é bastante complexa e que se prevê em momentos e num futuro próximo, tempos que vamos precisar que todos estejamos do mesmo lado e a remar para a mesma parte. Portanto, nesse sentido, até fazendo um pouco também a minha opinião relativamente à pergunta que fez, penso que estamos a entrar numa fase, e vamos falar também um pouco disso, mas mesmo os nossos dados e os dados da Europa mostram que provavelmente estaremos a voltar a uma fase em que é preciso que todos estejamos unidos e deixar de lado de alguma maneira questões menos relevantes. Eu penso que a questão diretamente com os médicos, também vejo isto como um caso muito particular. Em nenhum momento os médicos e todos os outros profissionais de saúde e todos os que apoiaram nesta estrutura da resposta à Covid, foram sempre bastante apoiados e houve várias manifestações, quer por parte do governo, mas também da sociedade em geral, de grande agradecimento pelo empenho fortíssimo que os profissionais deram, empenhando-se, prejudicando-se muitas das vezes na sua vida pessoal, porque também não nos podemos esquecer que os profissionais de saúde têm de facto esta missão de tratar da saúde de todos, mas também são humanos, têm famílias, têm riscos e portanto, colocaram-se nesta missão e penso que todos, governo, partidos políticos, sociedade, estiveram de facto ao lado destes médicos. E portanto, eu acho que isto é uma questão, para terminar, é uma questão muito específica, que foi de alguma maneira também empolada, mas penso que estamos no momento de entrar numa nova fase em que precisamos, de facto, de nos concentrarmos nos grandes desafios que vamos ter pela frente.

Os grandes desafios do inverno. Quanto à evolução da pandemia esta semana, o tom voltou a ser de alerta por parte da ministra da Saúde.

Estes resultados sublinham a fragilidade daquilo que são as nossas conquistas.

Cá está Marta Temido, a ministra, a dizer aqui que há conquistas frágeis até aqui. Os resultados da última semana, dos últimos dias, têm vindo a mostrar isso mesmo. Pedro Pita Barros, há quase mês e meio que não havia tantos novos casos de Covid-19 em Portugal.

Sim. Esta semana que passou foi curiosa nesse aspecto, porque foi uma semana de alguma calma nos números de internados com Covid-19 e nos óbitos. Nada de muito diferente das últimas semanas, mas que houve uma subida do número médio de novos casos, quer em Lisboa, que muitas vezes tem sido isolada em termos de medidas, quer no resto do país. Porque em Lisboa foram 125 novos casos diários, em média, nesta última semana do gabinete de crise, de sexta a quinta, quando anteriormente tinham sido 115. Mas no resto do país, foram 115, quando tinham sido 81 na semana anterior. Temos agora uma situação em que, de repente, se calhar foi uma semana anômala, em que voltamos a ter uma rampazinha a subir, em vez de estar a descer. Mas mais importante e provavelmente menos claro do que significa, é que foi uma semana onde houve mais oscilações de dia para dia. Tanto fomos a um valor relativamente baixo, como depois fomos a valores relativamente elevados, chegando quase aos 400 no dia de ontem. E não se consegue saber, neste momento, ou pelo menos eu não tenho a informação que permita saber isso, se isto foi resultado de oscilações nos registros e temos tido uma situação mais uniforme de fato e que simplesmente as oscilações que nós vemos de dia para dia são de haver maior ou menor registro em cada dia, ou se são oscilações associadas com surtos. Nomeadamente os surtos que têm sido indicados em lares, que dão um salto de novos casos no dia em que são detectados, mas depois volta a baixar. E nós se calhar percebermos o que é agora esta variabilidade dentro da própria semana, pode ajudar a perceber se estamos a ter uma rampazinha crescente, de repente, que é difusa e um pouco por todo lado, ou se são a tal situação de surtos que são relativamente localizados, relativamente mais numerosos do que foram nas semanas anteriores, seja em número de surtos, seja no número de pessoas afetadas em cada surto, e o que se está aqui a passar. E essa é a parte importante para depois perceber que políticas poderão ser adotadas.

E vamos ver na próxima semana se o fato de Portugal ter sido integrado nos corredores aéreos do Reino Unido, também vai ter aqui algum reflexo ou não. Sónia Dias, e os casos do norte do país estão a conhecer aqui uma nova evolução, é de preocupar?

Não lhe sei totalmente responder a essa pergunta, porque de facto estamos, como o Pedro dizia, nesta semana que foi de grande oscilação e, portanto, ainda é muito cedo e não temos ainda essa informação para perceber exatamente a quê provavelmente se deve este aumento nestes últimos dois dias. Mas eu acho que aqui deveríamos ter, e penso que também é essa a visão até do governo, quando começa a dar alguns sinais de que precisamos perceber que estamos com uma pandemia a braços e que provavelmente os próximos tempos serão bastante exigentes, quando já vai dando nota do que vai acontecer daqui a 15 dias. E podemos também ir aprendendo e utilizando os exemplos do que está a acontecer em outros países da Europa, em que, de facto, houve uma explosão do número de casos. Portanto, é provável que isso possa estar também, ou já a acontecer em Portugal e já reflexo também daquilo que foi a maior mobilidade do período de férias dos portugueses, ou pelo menos será até um alerta para que nos possamos voltar a reorganizar para uma maior precaução e com a adoção já de medidas e de planos para lidar com, por exemplo, o regresso ao trabalho. E grande parte dos portugueses voltarão ao trabalho, provavelmente, durante esta e a semana seguinte. Sabemos que o mês de agosto é um mês normalmente típico de férias dos portugueses e daqui a duas semanas, com o início das escolas, mas muitas delas, das crianças mais pequenas, irão já reabrir agora em setembro. Portanto, há aqui, de facto, a preparação para uma nova fase. Provavelmente estes dados, até mesmo que não demonstrem que já estamos com um aumento de casos mais sério, e seja apenas o reflexo de diferenças na notificação dos casos, etc, pelo menos serviram como um sinal amarelo para que os portugueses percebam, provavelmente depois de um período de férias e de maior relaxe, e de algum esquecimento do que estamos a viver, esta pandemia sirva para nos alertar de que temos que voltar a reorganizar-nos neste novo início de ano de trabalho e de escola.

Vamos ver como é que correm as próximas semanas e a chamada round três. Estamos quase no fim da primeira parte, mas temos ainda mitos e alertas. Hoje vamos desmistificar e alertar, as duas coisas. Sónia, hoje traz um mito.

Por acaso, Vanessa, trago um alerta.

Um alerta. Sim.

Que é a ideia de fumar, incluindo cigarros eletrônicos, aumenta o risco de contrair Covid-19. Nós não tínhamos ainda dados muito conclusivos sobre a associação entre fumar ou usar cigarros eletrônicos, e o maior risco de contrair Covid, embora fosse expectável que fumar diminuísse a imunidade e aumentasse o risco de contrair esta doença, como se verifica em associação com outras. Mas mais recentemente, um estudo conduzido numa universidade americana, baseado numa população de jovens residentes nos Estados Unidos e com informação recolhida já durante a pandemia, concluiu que o risco de contrair a Covid-19 entre jovens que fumam cigarros eletrônicos, é cinco a sete vezes superior aos que não usam este tipo de cigarros. E assim, apesar de os jovens acreditarem que pela sua idade estão mais protegidos do vírus e dos seus efeitos e sintomas, este estudo demonstra que isso não é verdade para os jovens que fumam cigarros eletrônicos ou até os que fumam cigarros tradicionais, que têm o risco mais elevado. E não é um ligeiro aumento, é de facto um aumento bastante elevado. Por outro lado, outros estudos sugerem que parar de fumar, pelo menos até quatro semanas, já melhora a função imune dos pulmões, o que ajuda a reduzir o risco de desenvolver a doença e as complicações do vírus. Portanto, temos aqui uma boa razão para procurar deixar de fumar.

Um bom alerta e uma boa razão para deixar de fumar. O Pedro é que traz um mito sobre o teletrabalho.

Podemos pôr entre mito e alerta. Foge um pouco à tendência de olhar apenas para os efeitos da doença enquanto tal. É ilógico que o teletrabalho é de reduzir os riscos da Covid-19 para as pessoas. Mas também é preciso ter em conta que o teletrabalho vai criar riscos de cibersegurança para as empresas e para os trabalhadores. O teletrabalho vai abrir oportunidades de ataque informático às empresas. Não sendo isto um alerta ou um mito clínico, é um alerta para os trabalhadores e empresas no que vai ser o seu regresso à atividade depois das férias de verão. Esquemas que procuram obter informação indevida, como acesso a contactos de clientes ou informações internas da empresa, passwords, sistemas de phishing ou aqueles sistemas que agora, se uma pessoa carregar num link, encripta o disco do computador para depois pedir resgate. Tudo isso pode ser facilitado pela lógica de teletrabalho e por as pessoas estarem a utilizar muito mais comunicações remotas do que antes. Não sendo uma consequência direta da doença, pode ser uma consequência indireta do teletrabalho, que é usado para ajustar à existência da Covid.

E é precisamente sobre o trabalho em tempo de pandemia que vamos falar já na segunda parte, dar aqui uma ajuda às empresas para garantirem a segurança dos trabalhadores no regresso das férias, agora a partir de setembro. O professor António de Sousa Uva, da Escola Nacional de Saúde Pública, é o nosso convidado. Até já. Estamos de volta para esta segunda parte. O gabinete de crise continua aqui reunido com os membros residentes, Sónia Dias e Pedro Pita Barros, que não vão de férias porque há uma pandemia com uma evolução que é preciso analisar todas as semanas. Daqui a pouco, junta-se a nós o professor da Escola Nacional de Saúde Pública, António de Sousa Uva. Primeiro, e porque também precisamos delas, as notas de esperança. Pedro Pita Barros, qual é a sua nota de esperança?

Minha nota de esperança para esta semana é a entrada de Portugal no corredor turístico inglês. Porque ao mesmo tempo que outros países saíram desse corredor, tiveram um aumento considerável de casos, Portugal entrou. E traz alguma esperança econômica ao setor do turismo, que como sabemos, tem sido muito afetado pela Covid-19. Mas também esta esperança tem uma grande responsabilidade, que vai ser a de garantir que não há subida de contágio nessas zonas. É que foi em parte o que sucedeu no sul de França e em zonas turísticas de Espanha, quando abriram o turismo, tiveram um aumento de casos, que agora se está a repercutir num aumento ainda mais generalizado. Aqui vamos ter que tentar perceber como é que cada estabelecimento ou cada zona de turismo, que quer fazer o melhor possível para si em termos de recuperar economicamente o ano e não quer perder turistas nestes últimos dias de verão, como é que eles vão ter em conta os efeitos que possam existir num aumento de contágios e criar outros pontos de contágio, que depois levem à exclusão de Portugal. Vai haver uma responsabilidade de todos, dos agentes turísticos e da autoridade, em garantir primeiro que os turistas podem vir em segurança, mas que ao mesmo tempo, esses turistas não comprometem a segurança de saúde nos locais onde vão ficar. Vamos ter que manter aqui algo que tenha a ver com a segurança do trabalho, a guiar como é que toda esta parte do turismo pode responder a esta abertura e à entrada de Portugal no corredor turístico inglês.

Pode haver aqui um equilíbrio difícil, mas também já vamos explorar isso com o professor António de Sousa Uva. Sónia Dias, a sua nota de esperança tem a ver com os nossos hábitos ou pelo menos aqueles em que devemos apostar em tempos de Covid.

Exatamente. A minha nota de esperança enquadra-se no momento em que o verão está a terminar e vamos regressar, muitos de nós, ao trabalho com a abertura das escolas. É importante reforçar assim que parece haver cada vez mais evidência científica de que um estilo de vida saudável pode contribuir para reforçar as defesas naturais do nosso organismo. Conseguimos, de alguma maneira, com esta evidência, ter uma parte ao nosso alcance para nos mantermos saudáveis e também podermos gerir a nossa saúde, não só física, mas mental e emocional. E sabemos que nestes tempos de Covid, isto é uma parte importante. Ainda mais para nos prepararmos para aquilo que poderá ser uma tal segunda vaga que possa então surgir no outono e inverno. Esta semana saiu uma notícia no New York Times que relata dois estudos que demonstravam que atletas ou praticantes de atividade física com alguma intensidade obtinham maior imunidade, por exemplo, relativamente com a vacina contra a gripe, do que as pessoas menos ativas. Tínhamos também exemplos de alguém que, tendo estado afetado, porque tinha um estilo de vida mais saudável, conseguiu, de alguma maneira, ter efeitos menos fortes na gestão da doença. Temos boas razões para procurar iniciar ou manter estratégias para uma alimentação saudável, forma física, deixar de fumar ou até melhorar o nosso sono. E isto poderão ser estratégias preventivas importantes para alcançarmos uma melhor defesa contra o SARS-CoV-2.

Notas de esperança que levamos para o fim de semana, um bom pretexto para passear e fazer exercício. E agora sim, o convidado desta semana, que se junta a esta nossa mesa virtual do gabinete de crise, António de Sousa Uva, professor da Escola Nacional de Saúde Pública e especialista pela Ordem dos Médicos em Medicina do Trabalho. Boa tarde, bem-vindo ao gabinete de crise.

Boa tarde.

Doutor António de Sousa Uva, vamos falar da segurança no trabalho em tempos de pandemia neste programa, mas não posso deixar de lhe perguntar sobre este episódio que marcou a semana, o atrito entre os médicos e o primeiro-ministro. O que é que correu mal aqui, para além das críticas privadas aos médicos que chegaram a público com António Costa a usar o termo cobardes?

São atritos. Na minha opinião, eu acho que não devemos desfocar a nossa atenção no momento em que necessitamos de concentrar esforços e não divergir. Como dizem agora com a anglofonia, são fight divers. São fé divers, são aspectos que eu acho que não devemos centrar de forma muito focada.

E já agora, o que pensa do regresso das reuniões de especialistas e políticos no Infarmed?

Tudo que contribua para a informação, a transmissão dessa informação e o acesso facilitado a essa informação é positivo. E as reuniões de Infarmed têm uma característica, eu nunca lá estive presente, muito própria, que é juntar pessoas de inúmeras origens e esta abordagem transversal é sempre positiva, na minha opinião.

Passamos agora para o tema central deste gabinete de crise. As férias estão a acabar e apesar de o país voltar a entrar em estado de contingência a partir do dia 15 de setembro, acredita que os trabalhadores vão regressar às empresas?

Eles já lá estão .

Mas muitos ainda estão em casa.

A maior parte das empresas continuaram a laborar. O teletrabalho é um fetiche, diria eu, do setor terciário, dos serviços. A maior parte da produção, onde é necessário trabalho físico, não se faz por teletrabalho. Portanto, eu diria que da população ativa civil empregada, que são cerca de quatro milhões e meio de cidadãos, em teletrabalho terão estado no máximo um milhão, um milhão e meio. A grande maioria não esteve em teletrabalho. Eles estão lá. Naturalmente que em alguns casos, fundamentalmente no setor terciário, poderá haver o regresso do teletrabalho. Algumas pessoas ainda estarão em teletrabalho, mas o teletrabalho também tem outros problemas. Isto agora é uma espécie de competição de problemas. A maior parte das empresas mantiveram a laboração. Nós habitualmente em saúde ocupacional, isso é uma coisa muito antiga, adapta-se muito bem agora à Covid. Às vezes chamam macho ao Covid. A Covid é fêmea. Mas dizia eu, há três aspectos relacionados com o risco na perspectiva da saúde pública. O problema do risco é que toda gente fala de risco, eu dou aula sobre conceitos de risco. O risco epidemiológico é um determinado risco, o risco bancário é outro, o risco numa seguradora é outro, o risco em termos da população é outro e portanto há muitos conceitos de risco.

E há aqui riscos dentro das empresas, ao nível da segurança e da medicina do trabalho.

O risco, na minha opinião, que nos interessa é a maior ou menor probabilidade de uma determinada coisa acontecer. E estes níveis de risco, é muito importante estratificá-los, que durante algum tempo nesta luta contra a pandemia houve alguma confusão, na minha opinião, porque não há risco zero e é bom que as pessoas tenham essa noção. Aquilo que existe é aquilo que nós chamamos o risco específico, o risco geral acrescido e o risco geral. Eu costumo dar o exemplo, quando falo disso, de uma picada de uma abelha que pode matar uma pessoa e às vezes mata. Eu sou alergologista, além de médico do trabalho, e mata mesmo, não é uma figura de retórica. É diferente se uma pessoa tiver uma picada de abelha sendo apicultor, sendo jardineiro ou sendo professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa. Está a ver? Não são exatamente a mesma coisa, porque as probabilidades são diferentes. Em relação ao coronavírus, ao SARS-CoV-2, acontece exatamente a mesma coisa. O risco não é o mesmo num profissional de saúde que lida diretamente com doentes ou suspeitas de doença, ou de uma pessoa que trabalha, por exemplo, numa bomba de gasolina, num supermercado ou numa pessoa que dá aulas dentro de uma faculdade.

Mas apesar de haver aqui riscos diferentes, o que é imprescindível garantir em termos de saúde, segurança e medicina do trabalho dentro das instalações das empresas?

O que é necessário é que a medicina do trabalho e a saúde ocupacional fosse algo que as empresas e os outros atores, os próprios trabalhadores e até o poder político valorizem, que não é o caso. As empresas organizam serviços de medicina do trabalho, eu diria que de forma simétrica a eu pagar IRS.

Apenas como uma obrigação.

É um imposto, ponto final. Maioritariamente, não quer dizer que não haja exceções. Mas o que aconteceu foi que os serviços de saúde ocupacional ou de saúde e segurança do trabalho não estavam preparados para lidar com uma pandemia destas e com um risco destes. Com exceções, por exemplo, nos hospitais houve serviços de saúde ocupacional ou de saúde e segurança do trabalho que funcionaram muito bem em termos de proteção dos trabalhadores, médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, técnicos de diagnóstico e terapêutica, que lidavam diretamente com estas pessoas. Mas, por exemplo, em supermercados, para dar um exemplo concreto, nós na Escola de Saúde Pública Fomos sondados várias vezes sobre perspectivas de saúde pública, de reduzir o risco em termos da venda a retalho de grandes superfícies, para dar um exemplo concreto. E depois há o risco geral, que é aquilo que a população mais valoriza, mas o risco geral não é propriamente do âmbito da higiene e segurança do trabalho ou da saúde e segurança do trabalho, a não ser na componente que a saúde é una. E naturalmente que nós devemos preocupar com a saúde do trabalhador, independentemente de estar relacionada com o trabalho ou não, e devemos cooperar com as autoridades de saúde e com as outras unidades de saúde que lidam com este problema.

Mas assim sendo, as organizações não estão a levar tão a sério, como deviam, as doenças profissionais. Pedro Pita Barros, tem esta percepção, isto já acontecia antes da pandemia e agora pode ser mais difícil de resolver, tendo nós um tecido empresarial que são pequenas e médias empresas, também podem ter mais dificuldades.

Sim, de alguma forma esse negligenciar tem existido, mas é preciso distinguir muito entre as grandes empresas que têm capacidade para poder ter sistemas de medicina do trabalho e pensar na segurança do trabalho de uma forma, e as pequenas e médias empresas, e sobretudo as muito pequenas empresas, empresas de base familiar, que tenham quatro, cinco pessoas apenas, muito dificilmente conseguirão, só por si, ter capacidade sequer de pensar o que significa agora uma proteção contra a Covid-19 e numa lógica de segurança no local de trabalho, e numa lógica de medicina do trabalho, o que possa ser para eles isso. E aqui a questão que se coloca é: como é que se pode ajudar neste momento as pequenas e médias empresas a estarem alerta e a conseguirem ter alguma capacidade de ação nessa área, sendo que muitas vezes a nossa forma de pensar está muito ligada a como as grandes empresas funcionam. E dá uma noção que deverá ser muito diferente. Eu não conheço muito bem como é que isso poderá se fazer, mas provavelmente o António de Sousa Uva tem boas ideias sobre o que fazer.

É uma pergunta para o Dr. António de Sousa Uva, precisamente. Tendo em conta que o grosso do tecido empresarial português são as PMEs, o que elas podem fazer neste âmbito da medicina do trabalho?

Esse problema já está identificado há décadas. No nosso país, em números redondos, mais de 95% das empresas são microempresas, têm nove ou menos trabalhadores, e empregam mais de um terço da população ativa desempregada. Portanto, elas podiam ser muitas e empregar pouca gente. E isso é um problema muito complexo, porque a maior parte dessas empresas não tem sequer nenhuma cultura de saúde e segurança do trabalho, como é de esperar, se é um pequeno café ou uma pequena oficina que o próprio patrão é um dos dois trabalhadores que abre e fecha a loja, é natural que sinta grandes dificuldades em dedicar alguma atenção a este tipo de matérias. E aquilo que eu julgo que fazem é mimetizar o que os amigos, ou o que ouvem, ou o que leem nas normas da Direção Geral da Saúde, e vão improvisando por mimetização, e não propriamente por conscientização ou cultura do risco que está a haver.

Deveria haver aqui algum tipo de apoio do governo extra para estas questões da medicina do trabalho?

Devia seguramente haver programas, mas há muito tempo. Agora, eu costumo dizer que a Covid foi uma lupa de aumentar 10 vezes ou 40 vezes o problema que já existia. Portanto, isto no fim, o que vem é pôr a nu, aliás, não só no aspecto da saúde e segurança do trabalho, em muitos aspectos. Veja-se o que aconteceu com os lares ilegais. Toda a gente sabe que há três dígitos ou quatro dígitos de lares ilegais, toda a gente, mesmo em termos públicos e das autoridades sobre essa matéria. E isso veio pôr a nu, de facto, esse problema. Nas pequenas e médias empresas, eu diria mais nas pequenas, as médias hoje em dia são a maioria, as grandes empresas cada vez existem menos, porque pulverizam, em termos de formas de gestão, esse tipo de organização. E as pequenas empresas são a maioria e são elas que têm a grande dificuldade. E todos nós tropeçamos nisso, entre comas. Quando vamos comprar uma bilha de gás, quem usa bilhas, ou vai abastecer o automóvel numa bomba de gasolina, ou vai a um café ou a um pequeno restaurante, apercebe-se deste tipo de problemas que sempre existiram e que agora a Covid amplifica.

Mas esse apoio extra por parte do governo poderia traduzir-se em quê? Em dinheiro, em formação, em quê?

Fundamentalmente, na minha opinião, era necessário criar condições para que fosse mais fácil o acesso a medidas de gestão do risco. E isso faz-se de muitas maneiras. Faz-se diferenciando, por exemplo, essas pequenas empresas com ajudas pecuniárias, faz-se diferenciando essas pequenas empresas com formação específica através de vários modos sobre esta matéria, empoderando um pouco mais as pessoas. Mas eu não vejo grande preocupação governamental, devo dizer, com essa matéria. Não é de agora. Agora deveria haver um bocadinho mais do que havia antes, que era quase nada. E não vejo isso muito, a não ser, se recorda aqui há um mês e meio, quando os surtos começaram a surgir em empresas, por exemplo, da construção civil, apareceram alguns surtos e depois ali, por exemplo, na zona da Azambuja, mas em grandes empresas, aí, sim.

E é na construção civil onde há uma grande parte dos acidentes de trabalho. Sónia Dias, a Escola Nacional de Saúde Pública tem feito vários trabalhos sobre esta questão, sobre o teletrabalho também. O teletrabalho que vai continuar a ser uma solução para uma parte, pelo menos, dos trabalhadores portugueses, até por causa destes receios da segunda vaga. A percepção que existe aqui, em termos de medicina do trabalho, é qual? Se houver um acidente em casa, por exemplo, há pessoas que têm esse receio, não é?

Se o local de trabalho passou a ser o seu local de casa, é isso?

Exato. Uma preocupação com os acidentes de trabalho em casa.

Sim, temos o especialista aqui, o professor Sousa Uva, que provavelmente saberá responder muito melhor que eu do ponto de vista mais legal, porque o teletrabalho também pode ser enquadrado do ponto de vista legislativo. E grande parte das empresas, provavelmente, estarão a fazê-lo quando os seus trabalhadores optaram por essa condição. E portanto, nesse sentido, o teletrabalho pode e está legislado e terá toda essa proteção. Mas como o António dizia, há aqui uma série de questões relacionadas com o teletrabalho e que têm a ver, muitas das vezes, com a própria saúde dos trabalhadores, que muitas das vezes são descuradas. Como referia, por exemplo, os materiais que estão disponíveis como os computadores, os tablets, as secretárias, as cadeiras, a proteção do seu tempo livre. Há aqui uma série de questões que foram, no fundo, de alguma maneira descuradas numa primeira fase, em que fomos os que tiveram essa possibilidade, quase obrigados, no bom sentido, mas fomos todos para casa e todos os que podiam trabalhar de casa o fizeram quase como uma solução imediata, mas provavelmente levantar-se-ão também aqui questões extremamente interessantes e complexas nas questões do teletrabalho, que são possíveis de serem resolvidas e ponderadas futuramente, se o teletrabalho passar a ser uma componente mais frequente de atividade profissional.

Então vamos imaginar, António de Sousa Uva, que eu estou em teletrabalho, tenho um acidente nesse contexto, que capacidade de intervenção é que a minha entidade patronal pode ter dentro de minha casa?

Nenhuma. Eu não vou abordar os aspectos de direito do trabalho, porque não sou jurista, apesar de hoje em dia já sou um bocadinho de tudo. Sou multidisciplinar internamente.

Mas se eu tiver um acidente?

É um acidente de trabalho, seguramente, estando em teletrabalho. O problema é que a caracterização, em termos jurídicos, chama-se caracterização do acidente de trabalho, envolve naturalmente grande complexidade, porque é num espaço que é oculto, que nós não temos acesso. Eu, como médico do trabalho, eu não tenho acesso. Se alguém estiver a trabalhar em casa, é suposto que eu conheça as condições de trabalho e a atividade que a pessoa faça, porque só assim é que posso prevenir riscos profissionais. Nós, por exemplo, no inquérito que fizemos na Escola Nacional de Saúde Pública, no barômetro, constatamos, para dar um exemplo concreto, que apenas um dígito magro de pessoas, a empresa pagava as comunicações. Se eu estou a trabalhar em casa, as comunicações têm que ser pagas pela empresa. Todo o equipamento tem que ser pago pela empresa. Eu até vou mais longe. Uma boa cadeira para trabalhar tem que ser paga pela empresa. A mesa onde eu trabalho tem que ser paga pela empresa. E isso coloca questões muito complicadas. O teletrabalho existe há 60 anos, 40 ou 50 anos. Olhe, por exemplo, nos media, na comunicação social, onde as pessoas fazem essas peças, mas isso abrangia uma percentagem ínfima de pessoas. Hoje em dia, isso coloca problemas muito complicados, até porque as empresas, naturalmente, servem para criar riqueza, constataram que isso até é bom. Os trabalhadores em casa trabalham a mesma coisa ou mais ainda. A gente poupa na renda de casa, na água, na luz, no papel higiênico, na cera, em tudo e portanto é bom, entre comas. Peço desculpa da brincadeira com as palavras.

Temos seguramente vários desafios pela frente.

Coloca problemas complicadíssimos, na minha opinião, que têm que ser vistos em termos de saúde e segurança do trabalho, mas também em termos de direito do trabalho.

António de Sousa Uva, muito obrigada por nos ter ajudado a perspetivar como é que vai ser esta rentrée para empresas e trabalhadores, a esclarecer dúvidas e aquilo que também não pode falhar. O especialista em medicina do trabalho e professor na Escola Nacional de Saúde Pública. Muito obrigada mais uma vez.

Obrigado eu.

Estão quase aí de volta às lides profissionais. Setembro está à porta, voltam as rotinas, novas rotinas em casa e no trabalho, mas longe vão os tempos de ser comodantes. É o novo normal, como canta Sérgio Godinho, que faz nos próximos dias 75 anos e está prestes a completar 50 de carreira. Cantou a revolução que libertou Portugal da ditadura, canta agora esta revolução tão diferente, tão inesperada, ainda em curso, com as reflexões de todos nós e os lembretes destes novos dias que vivemos. Boa tarde, até para a semana.

O novo normal há cidades inteiras, por onde rasgaram invisíveis poeiras, malignas, benignas, ninguém sabe se é santo, nem que acaso ou que destino nos cabe. O novo normal é terreno minado de acasos. O novo normal é terreno minado de acasos. No novo normal caem corpos à sorte, em valas comuns, num silêncio de morte, cortado somente por soluços distantes. Longe vão os tempos de ser comodantes

Nunca nada vai ser nunca igual. No novo normal nunca nada vai ser nunca igual. Dadas as circunstâncias, mantém as distâncias, respeita os espaços, controla essas ânsias de beijos e abraços, refreia as audácias, as inobservâncias. Escolhe bem as audácias. Refreia essas ânsias de beijos e abraços. Dadas as circunstâncias, respeita os espaços, respeita os espaços. No novo normal nunca são contas feitas. Acordaste informado, ignorante te deitas. E amanhã pela manhã será que algo mudou? Tudo não passou de um pesadelo fugaz, uma história do medo largada ao ouvido em segredo. Uma história do medo largada ao ouvido em segredo. No novo normal, olha as filas da fome. Não estão desgastados, têm deixado de ter nome. Até que o medo não tenha racionais fundamentos e seja só um buraco negro no céu, um horizonte de eventos, memorial do que se viveu. Um horizonte de eventos, memorial do que se viveu. Dadas as circunstâncias, mantém as distâncias, respeita os espaços, controla essas ânsias de beijos e abraços, refreia as audácias, as inobservâncias. Escolhe bem as audácias. Refreia essas ânsias de beijos e abraços. Dadas as circunstâncias, respeita os espaços, respeita os espaços.