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Bem-vindo ao Gabinete de Crise, a reunião que todas as semanas analisa o estado da pandemia em Portugal e no resto do mundo. Esta é uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Os nossos comentadores residentes são a Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, e o Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vindos para mais uma reunião. Na segunda parte do programa vamos estar com Isabel Vaz, a presidente da Comissão Executiva do Grupo Luz Saúde. Numa altura em que se debate o papel do setor privado no combate à pandemia, vale a pena perceber se estamos perante uma tarefa entre concorrentes ou entre parceiros. Mas como sempre, começamos com os números da semana. São os números que lançam a análise dos últimos dias. Sónia, vamos começar por si. Qual é o seu número?
Olá, Carla. O meu número é um milhão, que é o número de testes rápidos que se prevê que vão chegar a Portugal e que vão começar a ser utilizados na primeira parte do mês de novembro. Já tínhamos várias vezes feito referência a estes testes, mas de facto neste momento esta notícia pode ser uma boa ajuda em termos estratégicos no combate à pandemia, até porque estes testes têm a vantagem de demorar apenas meia hora a dar um resultado, ou seja, a detetar a presença do vírus, mas também uma grande facilidade na sua utilização. E neste momento em que estamos com tanta dificuldade em rastrear todos os positivos e os seus contactos de maior risco, pode ser uma grande ajuda, de facto, na redução da transmissão e também na implementação mais precoce de medidas de saúde pública mais adaptadas a cada contexto e a cada situação em particular. Esta foi também uma estratégia decidida a nível europeu, que na última reunião refere apostar com força nesta estratégia. Mas atenção, tal como foi já também referido pelas autoridades, estes testes vão apenas funcionar como um complemento à estratégia de rastreio, sendo que o teste mais clássico do PCR continuará a ser utilizado como norma. E está previsto que estes testes sejam assim utilizados em pessoas sintomáticas ao quinto dia de sintomas, de forma a obter a maior precisão possível, e depois em pessoas sem sintomas, mas em situações muito concretas como sejam surtos, por exemplo, em lares, escolas ou outros estabelecimentos de ensino.
Um milhão para a Sónia Dias. E o Pedro, qual é o seu número?
O meu número é um número mais pequeno, é o número cinco, porque praticamente nós multiplicamos por cinco o número de pessoas que estavam internadas com Covid-19 em dois meses e meio, do final ou de meio de agosto até final de outubro. E isto é um salto de 330 pessoas para mais 1600 em média diária por semana. Agora, por que é que é importante e por que eu escolhi este número? Porque vem refletir duas coisas. Primeiro, como foi e é, e continua a ser, perigosa a afirmação de que a Covid-19 está sobretudo a afetar os jovens e, portanto, é menos grave. Pode até ser verdade que há mais jovens afetados agora, mas quantitativamente há muito mais gente a ter situações graves com Covid-19. Isso deve nos preocupar e vai nos preocupar em vários aspectos. E o segundo aspecto, ligado com este primeiro, é que toda esta evolução dos últimos tempos está a levar ao limite a capacidade disponível, quer o SNS, quer se calhar o sistema de saúde daqui a algum tempo, que é mais do que o SNS. E nisso estamos também muito parecidos com o que se passa nos outros países europeus. Portanto, estamos não numa jangada de pedra, mas num continente, a Europa, muito semelhante em todo lado. Tanto que a Comissão Europeia veio há poucos dias tentar trazer um conjunto de princípios acordados entre os vários países para ter uma resposta coordenada. Inclui a melhor partilha de informação a nível europeu. Já agora, poderíamos também ter melhor informação partilhada a nível interno e, por exemplo, confiar nos cidadãos e nas escolhas que eles possam fazer, em vez de estar a proibir viagens entre concelhos. A testagem mais rápida, como falou a Sónia, e muito deste milhão de testes que vêm tem mão da União Europeia em termos de fazer a sua compra conjunta e coordenada. A utilização das apps, que não me parece que venha a ser determinante. Definir estratégias de vacinação antecipadamente, que nós falámos aqui também a semana passada. Algo que nós temos falado muito é a comunicação com os cidadãos e a preocupação com as fake news. Assegurar os abastecimentos essenciais. Portanto, estamos aqui que isto multiplicar por cinco traz-nos todo um tipo de problemas que nós ainda não tínhamos sentido antes, nem no período mais grave nós tivemos tantos casos a começarem a aparecer.
E a multiplicação pode ser até a palavra que defina o que aconteceu esta semana. Os últimos dias têm sido marcados pela queda sucessiva de novos máximos, seja de internamentos, de crescimentos relativos ou de infeções. Espera-se que este sábado sejam decretadas novas medidas para tentar travar a pandemia no país. Sónia, já se olha para um novo confinamento como uma inevitabilidade, mesmo que num modelo muito diferente daquele que tivemos no início da pandemia?
Pois, isso não saberemos e teremos que aguardar, provavelmente, o resultado do Conselho de Ministros no sábado. Tudo indica que provavelmente ainda não, porque, como foi dito, nós estamos numa corrida que ainda vai ter bastantes meses pela frente e, portanto, é necessário ir adequando as medidas na justa medida, porque a corrida ainda vai ser muito longa. Eu gostaria de realçar até um pouco no sentido do que o Pedro tinha referido Esta semana, acho que há uma questão que é: apesar de toda esta imprevisibilidade que se vai falando, há vários indicadores que nos ajudam a prever, de facto, possíveis cenários e a planear respostas. O que eu acho que era muito importante é que temos que operar num contexto de incerteza com os melhores dados possíveis, mas eles nunca são perfeitos e se ficarmos à espera dessa evidência perfeita, nós não vamos conseguir avançar. E portanto, precisamos de agir mesmo sem ter estas certezas. E nós temos aqui alguns sinais que nos permitem prever algumas situações. Primeiro é que esta ideia de que o cenário é imprevisível, é inesperado, não me parece muito correta. Quer dizer, eu acho que esta situação epidémica, apesar de estar numa velocidade muito mais rápida, não era inesperada, se calhar o que aconteceu foi que, no fundo, passou-se um pouco antes do tempo que tínhamos previsto, mas não é inesperado. E também não é inesperado, quer os aumentos da transmissibilidade, mas dos infectados e depois internamentos e utilização de cuidados intensivos. E aqui ligava com a ideia de que foi sendo passada, ainda bem há pouco tempo, de que o serviço de saúde seria elástico e flexível e isto nos permitiria adaptar as respostas às diferentes necessidades, quer Covid, quer não Covid. E é verdade que há uma certa elasticidade, provavelmente na parte que nós também não queremos que aconteça, que é o impacto nos cuidados de saúde dos casos não Covid, mas sabemos também que todos os sistemas têm um limite. E aqui, em vez de ficarmos presos a uma discussão de qual é o número ou qual é o limite que define exatamente qual é a capacidade dos serviços aguentarem sem colapsar, acho que o mais importante é prevermos que provavelmente vai haver, de facto, e já está a haver, a grande pressão nos serviços de saúde e quais são as estratégias que nós vamos ter para lidar com esse aspecto. E aqui, liga-se até com a segunda parte do nosso programa, que é: qual é que é, então, e de que forma se operacionaliza a resposta num todo, incluindo o setor privado e o setor social. Depois, só para dar mais dois pontos. A questão da redução da transmissibilidade é fundamental. Nós sabemos que ela está a aumentar de forma, diria eu, quase exponencial. Costumamos ter todos os dias estimativas de colegas da estatística e da epidemiologia com modelos de que vai ser sete mil casos, vai ser oito mil casos, vai ser dois mil casos. O que é facto é que todas as semanas os números reais estão a superar as estimativas que estão a ser colocadas e, portanto, faz-nos prever que se calhar estamos a avançar para o pior cenário neste caso, e temos, e isso eu acho que tem que ser uma vantagem competitiva que temos, de facto, que utilizar, é ver o que está a acontecer com os nossos países vizinhos na Europa e utilizarmos essa grande estratégia, que foi, no meu ponto de vista, um fator muito importante para conseguirmos ultrapassar a primeira fase da pandemia e penso que deveremos claramente olhar para os nossos países vizinhos e ver o que está a acontecer e tentar aproveitar parte do que eles já estão a explorar. O último ponto: reforçar a questão da comunicação. Não consigo deixar de mencionar novamente este aspecto. O Pedro também já o referiu. Se vamos avançar com medidas locais, pontuais, fala-se em mapas de risco, claramente é preciso uma comunicação clara com as pessoas e nos últimos tempos temos assistido a vários exemplos que se percebe que talvez esta questão da comunicação ainda tenha tido pouca atenção e pouca ênfase e precisamos claramente de apostar nisto, até para não ter tanta contestação e vamos vendo isso a crescer cada vez mais para quem é assíduo das redes sociais, pode claramente testemunhar o que estou a referir-me.
São muitos aspectos que podem, devem ou deveriam ser prevenidos. Pedro, o que é que quer destacar desta última semana?
Desta última semana o que se destaca foi claramente a evolução negativa que houve, com o crescimento acelerado de todos os indicadores. E nem ultrapassamos largamente os piores valores dos primeiros meses da pandemia. E curiosamente, a preocupação coletiva neste momento parece ser menor do que era nessa altura. E portanto, temos aqui vários elementos em que pensar. Talvez o principal destaque desta semana seja a preocupação ter passado, em grande medida, para sabermos se há capacidade de resposta do sistema de saúde e do SNS ao centro dele, para o número de pessoas de COVID-19, e sobretudo aquelas que vão precisar de internamento. O que nos leva para o tema da segunda parte, a relação entre o setor público e o setor privado, nomeadamente na parte da hospitalização. E aqui, o que me preocupa neste momento é que esta relação público-privado, e agora até no contexto da pandemia, se tem caracterizado por uma certa hipocrisia do SNS, e que eu acho que impede uma abordagem séria e útil para o próprio SNS. Há uma antipatia pública, que eu acho que é clara de alguns atores políticos, por motivos de ideologia, com os prestadores privados, mas ao mesmo tempo quer-se aproveitar a sua existência quando há necessidade extrema no SNS. E portanto, parece-me legítimo e normal o SNS querer usar, sobretudo e em primeira mão, a sua capacidade instalada, parece-me razoável isso, mas nas atuais circunstâncias temos que preparar o pior, o que inclui, provavelmente, preparar para o que pode acontecer se começarmos a testar os limites de ação do Serviço Nacional de Saúde. E nessa antecipação deveria ter existido, talvez exista e eu desconheça, uma preocupação em estabelecer Ser em contento um contrato de prestação de serviços com os operadores privados, com ou sem fins lucrativos, qualquer que seja a sua natureza. Isto por quê? Porque se há capacidade de internamento do setor privado, ela tem que ser preparada e o SNS tem que saber em condições é que recorre a ela. Mas também é importante que o próprio setor privado saiba quais são as áreas em que o SNS vai querer recorrer lá e que previsões é que pode ter. E, por exemplo, parecer-me-ia natural que houvesse duas linhas de discussão. A primeira era haver equipes de trabalho conjuntas a perceber quais são os detalhes do que é que possa ser transferido do SNS para a operação privada. E a segunda é preciso saber também como é que é recompensado isso, como é que é feito o pagamento disso. Portanto, há três ou quatro princípios simples que deviam ser usados nesta relação contratual e que nós não ouvimos falar. Por exemplo, deverá ser claro que é sempre o SNS que decide quem é que é atendido pelo setor privado por referenciação, o que significa que se tem que definir quem decide e canais de comunicação existem entre os dois lados. Segundo, o valor que vai ser pago tem que também ser definido entre eles. Eu não preciso de o saber, mas gostaria ter o conforto de saber que já estava definido esse aspecto também, pra depois não se andar a discutir quanto é que é pago por isto ou quanto é que é pago por aquilo. E parece-me também razoável, se os operadores privados tiverem que ajustar as suas operações, ter um pagamento por disponibilidade pra prestar o serviço, que são aspectos econômicos complicados de lidar e por isso têm que ser feitos com tempo. Portanto, o que me preocupa é que estamos a ter uma discussão que vai, sobretudo, em termos de acusações entre entidades públicas e entidades privadas, em vez de termos uma discussão técnica que permita depois fazer funcionar bem, com processo bem preparado, este tipo de relação. Daqui a preocupação.
Muito bem, vamos ver, Pedro, se as suas preocupações ficam mais ultrapassadas depois da nossa conversa na segunda parte. Estamos quase a chegar ao intervalo, mas vamos ainda aos mitos e alertas. Vamos olhar para algumas ideias feitas ou então para sinais de alerta que é preciso ter em linha de conta. Sónia Dias, os jovens estão protegidos de terem sintomas mais severos da Covid-19?
Pois, esse é o meu alerta e vai até no seguimento do que falamos agora e o Pedro referiu na primeira parte, é que os jovens não devem presumir que são imunes às consequências desta doença e devem fazer tudo o que puderem pra evitá-la. Este alerta vem de professores da Harvard Medical School, que referem que embora a grande maioria dos jovens que se infectam com o SARS-CoV-2 não desenvolvem casos severos e não precisam de hospitalização, o que se está simultaneamente a assistir com o enorme número de infecções nas faixas etárias, principalmente entre os vinte e os quarenta anos, é que esta ideia não é apenas... É que, na verdade, o que se está a verificar é que com tanto aumento, eles acabam por também ter um aumento nos casos que se acabam por desenvolver mais graves e que podem resultar desta propagação de infecções maiores nestas faixas etárias.
Pedro, os testes rápidos de que a Sónia falou há pouco vão libertar-nos das outras preocupações?
Não. Apesar do aparecimento dos testes rápidos, do que falamos hoje e também já falamos há algumas semanas aqui, até nestas notas de esperança, nós não nos podemos esquecer que não vão substituir as precauções que nós sabemos que temos que ter: lavar as mãos, distanciamento físico e utilização das máscaras. Parar a transmissão depende muito disso também. E parece-me importante lançar aqui o alerta, dadas as imagens que nós vimos recentemente, quer da Fórmula 1 no Algarve, quer das ondas da Nazaré ainda ontem. Portanto, parece-me ser importante que não nos esqueçamos de que tem que ser um conjunto de tudo isto, testes e de precauções, a ajudar a conter a transmissão.
E por isso sublinhamos, não há nada que nos faça libertar para já dessa necessidade de distanciamento físico, da etiqueta respiratória e da lavagem das mãos. E não é por ser mais jovem que a doença vai ser necessariamente mais ligeira. Regressamos já a seguir com notas de esperança e também com a presidente da Comissão Executiva da Luz Saúde, Isabel Vaz. Até já. Estamos na segunda parte do Gabinete de Crise. Analisamos o estado do combate à Covid-19 com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco também com a presidente da Comissão Executiva da Luz Saúde, Isabel Vaz. Mas agora é tempo das notas de esperança. Será que é possível trazer algum otimismo nestes tempos de incerteza? O desafio é lançado todas as semanas. Sónia Dias, vamos a ele. O que é que conseguiu encontrar como nota de esperança pra hoje?
Olhe, hoje trago as auscultações, reuniões, encontros que decorreram esta semana, quer entre o presidente da República e entidades de vários setores, mas também primeiro-ministro e outros ministros com múltiplas personalidades, peritos, que até costumam reunir-se no Infarmed, médicos infectologistas, intensivistas, enfim, outros também na área da economia. E coloco exatamente estas reuniões como uma nota de esperança. E a esperança é que estas futuras reuniões permitam que as futuras decisões tenham por base um conhecimento real e abrangente da situação, por um lado, e por outro, que as novas medidas que tenham que ser impostas venham, no fundo, a ter um consenso político e social alargado para que possam ser mais efetivas no combate à pandemia. Vivemos agora um período em que é muito mais difícil que as pessoas aceitem novas medidas restritivas e, por outro lado, também é muito mais difícil que nas medidas a adotar haja um equilíbrio
De facto, satisfatório entre a preocupação com o impacto económico e social destas mesmas medidas e a protecção da vida e da saúde. E, portanto, fica assim, realmente, uma nota de esperança.
Fica sim. Pedro, qual é a receita contra o pessimismo que trouxe hoje?
Nesta semana, que já foi mais difícil encontrar alguma coisa, volto a falar de vacinas. E aqui a boa notícia foi que uma das vacinas que está em teste, ou está numa das fases finais, parece também funcionar muito bem com a população mais idosa. Sabemos que nesta altura ainda são resultados preliminares, mas se forem confirmados, vão trazer a necessidade de começar a preparar as prioridades de vacinação dessa população e a respectiva operação logística, o que não vai ser fácil. A esperança aqui é de conseguirmos ter, em meados do próximo ano ou se calhar até antes, uma maior protecção dos residentes em lares, no que tem sido uma das fragilidades da maior parte dos sistemas de saúde. E, portanto, é uma esperança que eu espero que seja acarinhada e preparada.
Muito bem, aqui ficam estas notas de esperança. Há menos de uma semana, a Ministra da Saúde assumiu a situação grave e complexa que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta e abriu a porta a uma maior intervenção do sector privado. Seguiu-se, entretanto, uma discussão política, técnica e ideológica sobre o papel e a vocação do sector social e privado no âmbito dos cuidados de saúde em Portugal e no âmbito desta pandemia. A convidada desta semana do Gabinete de Crise é a CEO da Luz Saúde, Isabel Vaz. Isabel, muito bem-vinda, muito obrigada por estar conosco.
Olá!
Vamos situar um pouco esta discussão. Por aquilo que ouvimos nos últimos dias ou nas últimas semanas, o que o sector privado da saúde tem feito nestes meses de pandemia em Portugal, afinal?
O sector privado tem feito tudo na prática. No início da pandemia, o sector privado, tal como todos os operadores, sofreu uma grande quebra de actividade numa primeira fase, até muito motivada pelo medo. As pessoas deixaram de recorrer aos cuidados de saúde, depois foi o tema do confinamento. Mas durante todo esse período, todo o sector privado, na prática, manteve toda a sua actividade, serviços de urgência. Nós, no nosso caso, cirurgia oncológica, partos, enfim, toda aquela actividade que de facto não era adiável.
Mas fez nunca com articulação com o Serviço Nacional de Saúde?
Não, sim, exactamente. Sempre o sector privado a trabalhar de forma independente, como é o habitual. A única coisa que nós temos são os programas estruturados que sempre existiram, como por exemplo, o programa de listas de espera, etc, mas já lá íamos. Ainda em março, antes do achatamento da curva, nós temos uma reunião com a doutora Graça Freitas, a Directora-Geral de Saúde, que nos faz um pedido muito concreto, muito específico e muito bem feito. Quer dizer assim: "Vamos entrar em fase de mitigação, o que é que o sector privado pode ou não ajudar, em igualdade de circunstâncias com o sector público? Ou seja, os doentes que vos chegarem pelas vossas urgências, vocês têm que atender e no fundo, passam a ser tudo doentes do SNS". E nós, no espaço de um dia, todo o sector privado se mobilizou e disse à doutora Graça Freitas o que é que podia fazer. E houve, desde a oferta muito diferenciada, como é o caso dos grandes grupos privados, que obviamente têm hospitais muito diferenciados. Era o caso do grupo CUF, Luz, Louriosa, em particular. O sector social também se mobilizou, porque há várias necessidades distintas para ajudar e toda a gente se mobilizou. Depois, como sabemos, felizmente, a curva achatou muito rapidamente, portanto, Portugal atuou, até politicamente na época, muito rapidamente com o estado de emergência, o confinamento. E a verdade é que o sector público, o SNS per si, conseguiu sem precisar de mais ajuda nenhuma, conseguiu, no fundo, servir o que tinha que fazer.
E, portanto, na prática, o sector privado não teve essa participação no achatamento da curva?
Não, teve a participação na medida que foi tratando a grande fatia de doentes que já hoje trata e já hoje ajuda o SNS nesse sentido. Ou seja, repare, os grandes grupos privados são responsáveis por milhões de consultas, milhares de cirurgias, centenas de milhares de cirurgias. Ou seja, já ajudamos nesse sentido.
É claro que sim. Isabel Vaz, eu estou a lhe fazer esta pergunta porque a Ministra da Saúde disse que o sector privado não respondeu aos apelos iniciais do SNS.
Não, isso é rigorosamente falso. Não só respondeu, como aliás a senhora ministra na altura disse que não precisava. Aliás, até na altura, infelizmente, até o fez de forma um pouco arrogante, da maneira que até disse: "Mas o que é que lhes passou pela cabeça para acharem que nós agora íamos pagar os doentes que entravam pelas urgências com Covid-19 e que eles tratavam?" Foi arrogante, porque tinha sido esse o pedido da Directora-Geral de Saúde, numa altura em que achou que ia ser assim. Lembram-se na altura, nós estávamos com o pesadelo de Itália, com o pesadelo de Espanha, entravam-nos pelas televisões imagens absolutamente dramáticas do que se estava a passar nos outros países e, portanto, o planeamento era esse. Depois, felizmente, a coisa correu bem e bastava na altura terem dito: "Olha, não precisamos nesta altura de acionar a contingência de privados" e tudo bem, e todos nós nos orgulhamos de um SNS que tenha sido capaz de responder naquela época ao que se estava a passar.
Então quando é que o sector privado volta a ser contactado ou pela Direção-Geral de Saúde ou pelo Ministério?
Entretanto, a coisa correu bem, entra o verão, que é uma situação agora substancialmente diferente, quando temos que enfrentar esta pandemia do que quando tivemos que enfrentar em março, porque em março, no fundo, tínhamos o verão à nossa frente Pudemos adiar muita doença para ganhar capacidade para esta nova doença. Agora não, agora temos o inverno à nossa frente, temos profissionais cansados, temos uma carga de doença que já não é passível de ser adiada. Temos doenças que se reforçam na altura do inverno. Também temos outras variações que são importantes para efeitos, por exemplo, de cuidados intensivos. Durante o confinamento, as pessoas tiveram menos acidentes, o que também pressionou menos cuidados intensivos. Hoje, com a economia que volta a não estar confinada, já voltámos ao normal em termos de acidentes de trabalho, etc., e acidentes de viação e por aí fora, que pressionam também os cuidados intensivos. Agora estamos com a força toda de doença que temos normalmente. Temos as doenças próprias do inverno que, em conjunto com o Covid-19, só pode correr pior, porque obviamente os sistemas imunitários vão por aí abaixo. Não é fácil. E temos, de facto, uma pressão enorme e, neste momento, temos as cadeias de transmissão julgo que absolutamente descontroladas na comunidade. Os casos estão a crescer e o SNS a ter que se adaptar, todos nós. Aliás, temos que nos adaptar quase diariamente e como muito bem já foi referido hoje, temos que lidar com a imprevisibilidade, mas ao mesmo tempo a ter que planear e a ter que andar para a frente.
Isabel, isso leva-nos até para as preocupações que o Pedro Pita Barros lançava na primeira parte do programa.
Exatamente.
Então vamos a elas. Está tudo previsto na articulação entre o Serviço Nacional de Saúde e o setor privado para o caso do SNS não conseguir dar conta do recado sozinho?
Esse é o ponto, exatamente, do enervamento esta semana. Por quê? Porque eu ainda em julho, até porque sou responsável, no caso particular do grupo Luz Saúde, sou responsável pela gestão de um hospital público, que está no epicentro desta crise, porque o concelho de Loures e Odivelas têm sido especialmente fustigados, tal como o da Sintra, agora o Tamir Sousa. Tentei em julho, precisamente, antecipando que íamos ter dois meses do verão com alguma acalmia, para começarmos a planear, efetivamente, o que ia acontecer em setembro. Isto numa lógica até do próprio SNS. E não tive qualquer resposta na altura, depois vim a perceber que a secretária de Estado estava de saída, e depois veio novo secretário de Estado, que com o qual só vou conseguir reunir na próxima semana. Isto até numa lógica só do próprio Hospital Beatriz Ângelo, que está muito pressionado. E para terem uma dúvida, só para perceberem, nós na quarta-feira estávamos com 78 doentes internados, quando temos só disponíveis 418 camas. Para ter uma noção, Santa Maria, que é o maior hospital do país, tinha, no mesmo dia, 61 doentes internados num total de 1058 camas. Só para se perceber o grau de pressão em que os hospitais estão. E Tamir Sousa tem sido, por exemplo, notícia esta semana com mais de 100 doentes internados, portanto uma situação completamente insustentável. Eu tentei prever isto em julho e ver até como é que eu, Luz Saúde, setor privado, podia até acudir ao meu próprio hospital público, do qual sou responsável, para fazer. Isso não aconteceu. O que já daí não adivinhava nada de bom do ponto de vista de planeamento. Neste momento, o planeamento é muito feito até em grupos do WhatsApp entre administradores hospitalares que vão tentando ajudar uns aos outros. Aí a surpresa, nós pensámos: "Pronto, OK." A retórica era que não é preciso o setor privado, e nós fomos fazendo os nossos planeamentos. Nós hoje atendemos doentes Covid, nós não fizemos a divisão das nossas redes, estruturámos na nossa pequena, na nossa humilde—
Isabel Vasques, mas sem articulação com o Ministério da Saúde, nem com a Direção Geral de Saúde?
Nunca nos foi pedida. Depois daquele pedido da doutora Graça Freitas, nunca mais nos foi pedida qualquer articulação. E o discurso era: não vamos precisar. E nós: "OK, ainda bem." Não há aqui qualquer ironia da minha parte. A gente achou que, efetivamente, o Estado estava a responder bem e não precisavam de nós, e nós continuámos a nossa vida, porque neste momento há uma pandemia, que se chama pandemia dos doentes não Covid, que estão agora a ocorrer e nós estamos completamente cheios. E achamos que estamos a fazer o nosso trabalho, porque também tratar os doentes não Covid é uma ajuda que se dá ao SNS. Eu posso vos dar uma noção, que quer nós, quer, por exemplo, o grupo CUF, estamos a fazer uma média de 660 cirurgias no SIGIC por mês. Ou seja, o que é uma grande ajuda, estamos a tratar listas de espera. Eis que não quando, esta semana, efetivamente, há uma reunião pedida pela RS de Lisboa e Vale do Tejo, com uma pergunta muito pouco específica: o que é que têm? Podem tratar Covid? Isto em cuidados de saúde, os hospitais são estruturas muito complexas, operacionalmente complexas, com muitas diferenças entre si. Ou seja, o Hospital da Luz em Lisboa não é igual à minha clínica da Amadora, ou até de hospitais de segunda linha dentro do próprio Luz Saúde. Esta pergunta tem que ser um bocadinho mais bem feita. Tem que ser um bocadinho mais específica. Enquanto que a doutora Graça Freitas, em março, faz-nos uma pergunta muito clara e como é que queria que nós nos articulássemos, que era: as vossas urgências passam a estar abertas para qualquer doente em igualdade de circunstâncias. Agora não me estão a fazer uma pergunta muito clara, estão a perguntar-nos quantas camas de Covid é que nos podiam dar. E o que é que são camas de Covid? Estamos a falar de quê? Estamos a falar de camas para convalescença, estamos a falar de casos sociais, estamos a falar de cuidados intensivos, do que estamos a falar? Ou seja, qual é o vosso plano? Onde é que os privados encaixam na vossa própria contingência? Isso não nos foi respondido e foi isso que nós pedimos que nos esclarecessem melhor, para nós melhor podermos responder. Porque senão é uma conversa muito vaga.
Isabel, tem aqui uma cronologia muito interessante do que tem acontecido. Deixe-me passar para os nossos comentadores do gabinete de crise. A pergunta tem que ser a mesma para os dois: ficam mais preocupados depois disto que acabámos de ouvir? O Pedro começou primeiro a falar de preocupações no início do programa. Quer explicar como é que está depois disto?
Mais descansado não estou, certamente. E por vários motivos. Primeiro, é evidente que numa situação de pandemia como a que temos, nunca é credível dizer-se: "Nunca o SNS vai precisar do setor privado." Porque não sabemos, de facto. Tinha que se preparar com o tempo uma contingência que poderia não vir a ser precisa, mas que pode vir a ser precisa. Nessa lógica de preparação, tinha que estar preparado, mesmo que o SNS optasse por não usar depois. Tinha que estar lá. A segunda parte aqui é que um planeamento por grupos WhatsApp é ágil, mas não sei se responde a esta preocupação de planeamento global. Claro que nós podemos ter uma decisão, que então poderia ser assumida, que se descentraliza os contratos com o privado, a relação com o privado, ao nível de cada hospital, por exemplo. Cada hospital do SNS depois decide como se relacionar com os privados da sua zona. Mas então tinha sido dito que seria assim e usaríamos sempre o WhatsApp. Agora, querer ao mesmo tempo ter uma certa centralização das respostas para coordenação global e ao mesmo tempo ter grupos WhatsApp em que as pessoas se tentam ir ajudando, parece-me um pouco um contrassenso no meio desta situação em que nós estamos, que exigiria, eu não queria dizer um certo rigor germânico no planeamento e na execução, mas quase, pelo menos suíço. Acho que valia a pena ter.
Sónia. Sim, claro, Isabel.
Só para explicar, mesmo do ponto de vista dos hospitais, obviamente, nós todos estamos no terreno e todos nos conhecemos há anos. Contrariamente à retórica política que possa existir, nós na prática, no terreno, temos que nos dar todos uns com os outros e conhecemo-nos há muitos anos. E as necessidades dos hospitais, do próprio planeamento, do próprio Serviço Nacional de Saúde, é muito complicado, porque repare, nós hoje temos os hospitais centrais, que no fundo são os hospitais de recuo, patologias e centros de referência, até de coisas mais diferenciadas, que não podem ser feitas em mais nenhum hospital. Eu não posso ter, por exemplo, um São João ou um Santa Maria, um central. Temos que saber até que ponto é que podem passar para lá cuidados intensivos, porque até o ponto em que não se podem, quando se fala em desmarcar cirurgia eletiva, é diferente desmarcar cataratas, e sem nenhum desprimor para as cataratas, ou se calhar cirurgia vascular pesada ou cirurgia cardíaca, que também concorrem para os cuidados intensivos. Isto tem que ser um planeamento, de facto, centralizado. Aliás, nós fizemo-lo ao nível mais pequenino e humilde das nossas redes hospitalares. Porque é para algo que são, percebe? Ou seja, por um lado, estamos a mandar todos os cuidados intensivos para as unidades centrais e as unidades centrais precisamente precisam dos cuidados intensivos para a patologia não Covid, que é premente. Quer dizer, pode não ser urgente, mas é premente. Deixar um doente de cirurgia cardíaca à espera ou de cirurgia vascular pesada, arterial, configura riscos, não é?
Isabel, peço desculpa, estamos mesmo quase a chegar ao fim do nosso tempo e ainda queria ouvir a Sónia Dias, porque o tema fica lançado e quero ouvir que observações é que lhe suscita o que acabámos de ouvir.
A mim suscita, para ser muito rápida aqui no comentário, é a questão da própria opinião pública e da confiança que também se vai gerando na população relativamente ao planeamento e à preparação que, como a Isabel dizia, fomos ouvindo também sempre que a preparação e o planeamento estava a ser desenvolvido e aqui e ali vamos recebendo algumas informações que provavelmente ainda há aspectos que são precisos de planear e de operacionalizar. E portanto, até do ponto de vista da opinião pública, era importante que estas questões e estas respostas que vão provavelmente ser necessárias, sabemos hoje, possam ser esclarecidas, possam ser resolvidas, até a bem da própria questão da confiança que a população tem em que, de facto, o país, no seu todo, estará pronto a responder aos desafios que são muitos e são complexos, até como a própria ministra da Saúde dizia, que temos pela frente.
Isabel Vaz, é uma pergunta curta e peço-lhe a resposta também. Podemos concluir que é um problema pessoal que está a impedir uma articulação mais ágil entre o SNS e os privados?
Não, seguramente que não. Eu acho que é um tema mesmo só de planeamento, de se ter, se calhar, sido demasiado otimista numa primeira fase e de planeamento. Mas obviamente, o que eu gostava aqui de reiterar é que todo o setor privado, e penso que posso falar em nome de todos os meus colegas, numa fase destas, acho que não é uma altura para discutir economias público-privada, é uma altura de o país estar junto e nós estaremos seguramente juntos da senhora ministra da Saúde para ajudar naquilo que for necessário e não cavalgar, digamos, em más discussões, porque não é isso que resolve o problema dos doentes e nós seguramente teremos todos a elevação para o fazer. E portanto, como nota positiva, apesar dos desencontros desta semana, estamos com a senhora ministra da Saúde para ajudar naquilo que ela necessitar, mas obviamente temos que ser mais pragmáticos na forma como vamos planear tudo isto e seremos seguramente rápidos. Nós trabalhamos 24 horas por dia, como o setor da saúde tem que fazer. E portanto, seguramente vamos mais do que a tempo de nos articularmos corretamente e estarmos com o país nesta altura e sem hard feelings. Ou seja, vamos embora para a frente e estamos com a senhora ministra da Saúde para o que ela necessitar. Não é altura de limpar armas, isso é a seguir. Agora, vamos vencer isto.
Isabel Vaz, muito obrigada por teres vindo ao gabinete de crise e por nos ter ajudado a perceber como é que está a decorrer esta articulação entre SNS e setor privado. A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão voltar para a semana à mesma hora. Vamos terminar naquele país onde os concertos já voltaram a ser quase o que eram antes da pandemia. Na Nova Zelândia houve dois mil casos de Covid-19 em cinco milhões de habitantes. Morreram 25 pessoas, com números invejáveis para a maioria dos restantes países. Os concertos já voltaram a ter público. Problema: os festivais continuam cancelados porque os artistas estrangeiros não têm permissão para atuar no país. Ficamos com a neozelandesa Benee. Até para a semana.
I bet that this got you stressed out. Wondering what can we do now. Baby, let it burn out. Well, I can't feel my face. When you twist it different ways. Wondering what can we do now. Baby, let it burn out. There's blood sparking on your heart now. Darling, don't you stay. I'm here wondering what to say. You're putting me upright now. I know it's getting late now, baby. Maybe you should stay here with me. Let us make it our own party. Stick together like glitter, glitter, glitter. Erase it into sunlight. Wanna have a long night. Life in stories, life in stories. Under spotlight. Don't let me out of your sight. Two energies, two energies. There's blood sparking on your heart now. Darling, don't you stay. I'm here wondering what to say. You're putting me upright now. I know it's getting late now, baby. Maybe you should stay here with me. Let us make it our own party. Stick together like glitter, glitter, glitter. I know it's getting late now, baby. Maybe you should stay here with me. Let us make it our own party. Stick together like glitter, glitter, glitter. Everyone else is left out. I bet that this got you stressed out. Wondering what can we do now. Baby, let it burn out. Out!