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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, investigador e professor catedrático. Bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, como está?

Bom dia, como está? Começamos pelo Médio Oriente. Os Estados Unidos destruíram vários petroleiros iranianos em resposta a mísseis lançados contra a Marinha norte-americana. Como retaliação, a Guarda Revolucionária atacou instalações dos Estados Unidos na Jordânia e deixou avisos ao Kwait e ao Bahrain. Professor, a Marinha norte-americana ainda conseguirá proteger a rota do Golfo ou o Estreito de Ormuz está, de facto, fora de controle?

Eu não sei se consegue proteger a rota do Golfo. Estamos há meio ano com o Estreito de Ormuz fechado. Não conseguiram abrir, não conseguem garantir a passagem dos navios em segurança, de maneira que não controla, pelo menos não controla o estreito. Serve de tampão ali no Golfo de Omã e no mar Arábico, mais nada. Agora o resto não controla. Agora, isto é um processo de retaliação constante de um lado e do outro, porque nenhum quer ceder, mas ambos vão ter que ceder, porque senão o petróleo continua a disparar. Já se fala em chegar acima de 120 dólares. Veja o impacto que isso vai ter na carteira dos norte-americanos. Na nossa já está a ter. Esta semana tivemos mais um aumento da gasolina e vai continuar. O impacto que isto tem em toda a cadeia de produção, em toda a logística. E eles vão ter eleições intercalares, de maneira que penso que o presidente Donald Trump tem que mostrar que está a fazer alguma coisa e que não está a obter resultados. Serve de desculpa estes bombardeamentos. Por outro lado, tem que negociar, porque senão não encontramos uma solução para o estreito e para o preço dos combustíveis. De maneira que isto vai continuar. Houve os hutis, que funcionam em regime de telecomando a partir de Teerão, e que também atacaram um grande aliado e um grande produtor de petróleo, que é a Arábia Saudita, aliado dos Estados Unidos, e até atingiram uma refinaria. Nós estávamos todos à espera que isto acalmasse, face ao aproximar das eleições, mas pelo contrário, tem até agravado. Mas ambos precisam disto para soluções internas, mais do que para a resolução do problema em si, têm que ter justificativas para a política interna, quer no Irã, quer nos Estados Unidos. É um mau sinal, porque senão vamos resolver o problema.

Sim, espera-se que nos próximos dias Omã e Irão apresentem um corredor de navegação temporário, que concordaram em estabelecer no Estreito de Ormuz. Francisco Proença Garcia, o Irão tem mesmo interesse em deixar o comércio fluir com o apoio dos vizinhos árabes ou qualquer solução temporária está condenada ao falhanço enquanto esta crise militar no Golfo não parar?

Eu acho que enquanto houver crise militar, não vai haver circulação, pelo menos nos moldes que havia anteriormente, aqueles 120, 140 navios por dia. Está menos uns 10, às vezes cinco, 12, varia, mas são muito poucos os que estão a passar. Omã pode ter esse acordo com Teerão, mas se os Estados Unidos continuarem a fazer um tampão ali no Golfo de Omã e no mar Arábico, os navios não entram nem saem, podem passar no estreito. Aqueles que eles autorizarem podem passar no estreito. Eu penso que vai haver, eventualmente, maior fluxo de navios, sobretudo navios dos aliados dos norte-americanos, porque eu acho que eles aí não vão impedir a passagem dos navios dos seus aliados, dos navios dos Emiratos, dos navios do Kwait, eventualmente a pagarem uma taxa a Omã, e eles vão tentar impedir que isso aconteça, mas depois qual é a justificação que têm para os seus aliados? "Não, nós estamos a impedir que vocês passem porque não pagarem uma taxa pela normalidade". E os chineses, depois como é que vão fazer? Vão deixar passar os navios chineses, de maneira que temos que aguardar para ver os resultados. Os Estados Unidos são contra este acordo. Vão se opor, certamente, e vão ter ações militares para impedir isso, mas depois qual é a justificação que têm para os seus aliados? E aí os iranianos ficam com esse argumento: "Não, nós até temos um acordo para passar, arranjamos com o nosso vizinho dois corredores de passagem. Agora os maus dos americanos é que não estão a deixar passar". Temos que aguardar para ver o resultado disso, mas há sempre esperança que haja alguma coisa melhor.

Sim, sobre isso que estamos a falar, o Qatar veio alertar para uma catástrofe industrial global se a crise em Ormuz continuar e fez este aviso na imprensa norte-americana. Este alerta do Qatar é o sinal que o impacto económico do conflito fugiu mesmo de vez ao controle dos Estados Unidos e dos seus aliados.

Veja o preço da energia, já não falo no preço do diesel, nem no preço do jet fuel. As viagens vão ficar cada vez mais caras. A liberdade de circulação é afetada por isto, os preços estão caríssimos, mas depois, veja, toda a indústria, uma grande parte da indústria pesada e da indústria na Europa e nos Estados Unidos funciona com gás. O Qatar é um grande produtor de gás. Moçambique tem grandes reservas, mas ainda não está a produzir em quantidade suficiente para substituir o Qatar. Se o Qatar não consegue exportar o seu gás, claro que há muito menos oferta no mercado, o preço dispara, a indústria é toda ela afetada. É uma catástrofe para a indústria, para a economia no geral, para os despedimentos. Veja-se o centro da Europa, a Alemanha, está a despedir cerca de 10 mil trabalhadores por mês.

Exatamente.

Os despedimentos estão a ser em massa, a Volkswagen só três fábricas.

E Donald Trump deve estar a ser muito pressionado pelos aliados, não é?

O Trump é pressionado, mas e o que é que tem adiantado? Eu penso que nós já não sabemos. Para já, temos grandes dificuldades em percebê-lo. E depois, como não o percebemos exatamente, que ele tem um pensamento muito diferente do nosso e uma atuação errática, não é confiável, de maneira que nem sabemos se é com pressão, é com elogios, não sabemos como é que havemos de fazer. A esperança eram as eleições intercalares. Vamos ver se isso ajuda alguma coisa.

Sim, vamos ver.

Mas vamos ter aquilo que se perspetiva nos estudos que há da energia E do impacto na economia e mesmo na segurança internacional, são estudos de agravar a situação. E o impacto agora vai ser dentro de um mês, um mês e meio, dois meses, com o preço a aumentar, os impactos na nossa carteira vão ser imediatos e depois no resto de toda a cadeia de produção vão se prolongando ao longo do tempo e depois é difícil repor isso, não se repõe no dia seguinte. É uma coisa que depois demora.

Sobre a guerra na Ucrânia, Zelenskyy diz que Trump quer usar um avanço na paz da Ucrânia como trunfo para as eleições que estamos a falar, as intercalares nos Estados Unidos. Insinua que Putin pode dar essa ajuda diplomática a Trump sem que isso signifique o fim real da guerra. Professor, o medo de Zelenskyy deve ser o de ver a Ucrânia a ser empurrada para um acordo feito à medida da campanha de Washington e dos interesses de Moscovo, não?

Washington tem que apresentar alguns resultados. Se não consegue no Médio Oriente, tem que mostrar que um problema que ele disse que resolvia no dia seguinte, já lá vão três trimestres, vão nove meses de Trump e ele ainda não resolveu o problema. De maneira que tem que apresentar resultados. A Ucrânia não tem poder, tem sido fantástica na contenção do avanço russo, tem se aguentado estes quatro anos e meio, tem sido fantástica a proteger a Europa e a combaterem e a morrerem diariamente pelo resto da Europa. E nós, sem reconhecermos isso, apoiamos militarmente com a assistência de material e de informações, mas pouco mais fazemos. De maneira que Zelenskyy é capaz de ter razão e estar receoso disso, porque já conhece os aliados que tem, já conhece o vizinho poderoso que tem e ele acaba por ser uma moeda de troca. E ele disse que não quer perder território, e bem, mas se calhar vai ter que ceder território. Sente-se, como se costuma dizer na gíria, o elo mais fraco. Vai ter que gerir e lidar com essas consequências, que podem ser temporárias, podem ser só até à campanha, porque ele está-se a preparar para um inverno devastador, com os ataques. O alastrar dos ataques dantes era às cidades, nós já sabíamos, e nos combates da frente, mas agora são as infraestruturas civis. As infraestruturas energéticas vão voltar a ser atacadas, os hipermercados a ser atacados. Ele está-se a preparar para um inverno horrível.

Francisco Proença Garcia, muito obrigada pela sua análise. É mais um Gabinete de Guerra, já tinha saudades suas. Um bom dia. Obrigada. Obrigada, Francisco.

Obrigado por me receber. Muito obrigado.