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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do Francisco Lourenço, Garcia militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo, Francisco.
Bom dia, boa tarde.
Bom dia, bem obrigada. Começamos por Donald Trump, que voltou a sublinhar que vai ter sucesso com a anexação da Gronelândia, a bem ou a mal. Francisco, o presidente norte-americano deixou para breve revelar o quão longe está disposto a ir. Há uma grande expectativa para o discurso de hoje no Fórum de Davos. Acredita que, mesmo que implicitamente, podemos ter uma declaração de guerra? Ontem ouvimos Macron dizer que não aceitaremos a lei do mais forte.
Declaração de guerra comercial já temos.
Já temos, sim.
Estamos há um ano. Tem sido um ano estonteante com as declarações constantes dele, com sanções, tarifas e ameaças, mas é preciso levá-lo a sério. Só que eu tenho alguma esperança porque, que ele se contenha. Ontem o discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos é uma coisa magnífica. Devíamos ter líderes daqueles na Europa para ver qual é a determinação do país e do apelo à unidade. De maneira que o Donald Trump também ouve esses discursos. Depois, Macron teve uma posição muito interessante para a União Europeia, a falar pela Europa. E depois temos o problema interno, é que em novembro vamos ter eleições intercalares nos Estados Unidos e os republicanos já vieram dizer que uma coisa são as guerras, as tarifas, as outras são a anexação de territórios de países aliados. De maneira que os próprios norte-americanos, penso eu que vão ser os próprios republicanos que vão travar. Não somos nós, quer dizer, nós mostramos alguma força, mas temos sido sobretudo fracos. De maneira que penso que vão ser os próprios norte-americanos a fazer alguma contenção. Hoje o discurso tem sido daqueles discursos que começam a ser longos demais, já começa a lembrar o Fidel Castro, que tinha discursos intermináveis. O Trump agora também tem discursos intermináveis de autoelogio. Vamos ver quais vão ser as inovações que ele hoje vai trazer, quais são as surpresas. O a bem ou a mal, pode ser extremamente caro, porque temos que lhe mostrar que ele tem muito a perder se entrar em confronto com a Europa. Estamos numa nova ordem internacional, que está a ser definida com novas regras a quais nós temos que nos habituar, onde hoje o que conta é a lei do mais forte, voltamos aos tempos antigos e temos a noção real hoje que o direito internacional no qual nós acreditávamos, só ser de fato os pequenos poderes, os poderes intermédios, mas a legitimidade do exercício ou o ato consumado passa a ser aquilo que é outra realidade. Temos que nos habituar a essa realidade, temos que nos moldar a ela, mas também temos que a condicionar, porque se não condicionarmos, então qual é a nossa figura? É o cata vento, andamos aqui de um lado para o outro. E sobretudo, muito importante e interessante o discurso do primeiro-ministro do Canadá é: temos que nos manter unidos.
Unidos, pois.
Porque nós somos pequenos. Veja, Portugal é um país tão pequenino, somos 2% da União Europeia em nível econômico, financeiro e comercial, quer dizer, somos 10 milhões num mundo globalizado. Se nós não estivermos unidos e mais integrados, o que será de nós, não é? De maneira que temos que mostrar firmeza perante a adversidade.
Sim. Sendo a Gronelândia território dinamarquês, membro da NATO, levantam-se questões sobre como fica a aliança. Trump descarta a saída dos Estados Unidos, mas o Pentágono planeia reduzir a presença militar na Europa. Francisco, a ideia é, em vez de retirarem as tropas de uma só vez, não vão substituir o pessoal à medida que os postos terminarem. É um processo que pode durar anos, mas que impacto é que isto vai ter e que medidas deve a Europa começar já a ter?
O primeiro é quanto mais tempo demorar, melhor, porque nós só tivemos paz na Europa porque tivemos a presença das tropas norte-americanas e criamos, depois, instituições como a União Europeia. Isto deve-se à presença norte-americana. Se eles retirarem subitamente, podemos ter problemas securitários internos graves. De maneira que se eles fizerem isso gradualmente, tudo bem. Quando falamos em autonomia estratégica, temos que, de fato, assumir as nossas responsabilidades. Agora, eu lembro uma coisa, quer dizer, nós temos a NATO. A NATO somos mais de 30 países, não são só os Estados Unidos. A base são os Estados Unidos, porque tem algumas capacidades, sobretudo a capacidade nuclear, de reconhecimento, de transporte estratégico e muitas outras. Bom, e se eles forem embora? Se forem embora, a organização acaba. Bom, as organizações também morrem, mas temos que criar outra que nos dê as mesmas garantias que os de cá dão. E tem que ser um processo gradual. Se tiver que ser súbito, é súbito. Morre ou sai o parente rico. Bem, nós temos que viver com aquilo que temos agora. Não devemos ter medo, devemos fazer tudo para preservar a organização, os seus princípios e os seus valores. Mas se for a NATO sem os Estados Unidos, é a NATO sem os Estados Unidos. Continuamos a ter o Canadá e continuamos a ter vários países da União Europeia e outros membros que não são da União Europeia, como a Inglaterra e a Noruega. É fundamentalmanter-nos unidos. Não temos que ter receio. Ele quer ir embora, vá embora. Temos que nos adaptar, vamos adaptar. Temos capacidade nuclear dentro da NATO sem ele? Temos. Temos o Reino Unido e temos a França. Isso dá-nos algumas garantias de segurança em relação às ameaças. Nós temos muitos homens, temos é que nos organizar. Ganhar autonomia súbita. De repente é lançado: "Olha, agora é um miúdo que aos 18 anos vai estudar para fora de casa". Tem que se desenrascar.
Tem que se começar a pensar assim, quase.
Não temos que ter receio que as organizações morram. As organizações são criadas num determinado momento e têm vida que nós seres humanos, crescem, têm uma função útil e também desaparecem e transformam-se. Se tiver que ser outra organização, é outra organização, sem americanos, de preferência com americanos. Se eles quiserem ir embora é porque nós não os soubemos cativar para estar conosco, mas eles são racionais e são mais do que Donald Trump. E sabem a importância que é para eles a ligação à União Europeia, para eles a ligação manter o elo transatlântico, a segurança de todo o Atlântico Norte e o grande mercado em competição com outros grandes mercados e com outras grandes potências. Se eles não estiverem conosco, nós temos que ter as alianças são coerentes, mas são sobretudo convenientes e de acordo com valores e com princípios. Se os norte-americanos não quiserem estar conosco, nós temos que procurar outras alianças ou então Sermos adultos e tornarmos adultos na sala com todas as responsabilidades. Não temos que ter receio. Morreu, foi embora. De preferência, é bom que fique, mas se for embora, paciência. Temos que sobreviver com o que temos, não é estar agora a chorar sobre leite derramado, como se diz.
É verdade. Sobre Gaza, Trump terá convidado Israel para integrar o Conselho de Paz e ontem a Casa Branca confirmou também que convidou Vladimir Putin para fazer parte, também convidou Ursula von der Leyen, sendo que, Francisco, a ideia deste Conselho de Paz era garantir a reconstrução da Faixa de Gaza, mas a carta de apresentação dos estatutos não menciona o enclave palestiniano e isto faz aumentar as especulações de que o organismo pode ter como objetivo criar uma alternativa ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e uma alternativa dominada pelos Estados Unidos.
Estas organizações têm uma vida, morrem e nascem outras. Ele já está a criar outra coisa. Inclusive, ele é o presidente eterno, vitalício, e as regras são as dele. Mas ele faz isso porque pode e porque nós deixamos. Ele convida quem quer, ele dita as regras e nós deixamos, porque precisamos. Bom, está bem, mas então se integrarmos esse tal Conselho de Paz, temos que aportar os valores da União Europeia, e impor também algumas regras. Mas essa é a realidade. A velha ordem que nós estamos habituados e que nós queremos preservar, está em profunda alteração. Então mais vale participar na construção da nova, do que ser apanhado depois do comboio já ter partido e nós perdemos o comboio. É importante ter essa noção. Aquilo foi criado para Gaza. Bom, já está. Extrapolar para além de Gaza, não resolvemos o problema de Gaza. Nisto, mais vale estar dentro do que estar fora e comentar. Estando dentro, consegue-se influenciar, consegue-se dar algum rumo, dar ideias. De maneira que se ele criar esse Conselho de Paz, em alternativa ao Conselho de Segurança, sou dessa opinião. Apesar de contra, mais vale estar dentro do que estarmos fora.
Claro. Em relação à segunda fase do acordo de paz em Gaza, que Steve Witkoff disse já estar em curso e que implica desarmar o Hamas, o que está a ser feito para que isso aconteça, quando há um grande ceticismo sobre o sucesso dessa operação?
Mas eu pensava que o desarmar do Hamas era a primeira fase.
Estão passando fase em fase, porque não conseguem.
Nós passamos para a segunda fase sem ter findado a primeira. É dinâmica, é evolutivo, pode ser uma forma de pressão. E o que o Hamas diz? O Hamas desarma? Não desarma? O que dizem os turcos, o Qatar e o Egito? Conseguem fazê-los desarmar? Voltando às gírias populares, estamos a pôr a carroça à frente dos bois. Não desarmamos o Hamas e já estamos a partir para um governo provisório feito de tecnocratas, estamos a partir para uma situação. Mas é uma forma de evolução, mas não se garantiu desarmar o Hamas e eles ainda não entregaram o corpo-
Do que faltava, pois
... ainda não cumprimos a fase um. Está bem, vamos para a fase dois, vamos ver como é que corre. Pode ser uma forma de pressão. Enquanto o Hamas não estiver desarmado, vamos ter operações militares de Israel reflexivas e a violência vai continuar. Não, graças a Deus, com a dimensão que tinha há dois ou três meses, mas a violência vai continuar. Veja, se o Hamas ficar com armas, quem é que depois vai governar? Governa quem tem as armas naquelas regiões.
É assim que funciona.
É assim que funciona, de maneira que tudo na mesma. Eu não acredito, parece-me excessivo estarmos a mudar de fase, mas pode ser uma forma de pressão. Vamos acreditar que vai resultar.
É isso. Francisco Проença Garcia, muito obrigada pela sua análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia. Obrigada.
Muito obrigado. Bom dia.