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Bem-vindo Vítor Gabriel Oliveira a mais um Gabinete de Guerra. Obrigado por se juntar de novo a nós. Começávamos por este conflito entre a Rússia e a Ucrânia e as chamadas telefônicas que têm existido, nomeadamente entre Washington e Moscovo. Donald Trump e Vladimir Putin tiveram ontem uma longa conversa para discutir essas negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Que conclusões é que podemos tirar, por um lado, da iniciativa e, por outro lado, do que resultou dessa conversa?
Muito obrigado à Rádio Observador pelo convite, mais uma vez. Aquilo que sabemos, que já prevíamos, e nós temos vindo a falar disso bastante na Rádio Observador, em vários Gabinetes de Guerra, é que as conversações, se não era de Trump com Putin diretamente, havia e há conversações entre as equipas que estão à volta dos dois presidentes para que este momento possa acontecer e que seja público. Sabemos que a conversa durou mais ou menos duas horas e que a conversa com Zelensky durou muito menos, até porque os Estados Unidos estão muito mais em contacto com Zelensky do que com Putin, mas sabemos que isto é o início. Já foi o início, na semana que passou, com a abertura pública de parte a parte para que isso pudesse acontecer. Provavelmente de semanas ou penso eu até meses que possamos passar em conversações, em jogos de parte a parte, em movimentações, quase como se fosse um jogo de xadrez entre Estados Unidos, Ucrânia, Rússia e outros intervenientes que estão mais ou menos à margem, como é o caso da União Europeia e da China, e outros intervenientes que poderão ser mediadores mais ou menos próximos. Portanto, será um processo evolutivo, como vimos no Médio Oriente e como vimos noutras situações. Não vai haver uma resolução num dia, numa reunião em que isso aconteça. Isto será, sobretudo, um processo de grande carga emocional também de parte da Ucrânia, mas de grande carga de trabalho diplomático e de abertura de portas e de voltar a sentar os líderes à mesma mesa. Este será principalmente o primeiro trabalho, líderes que sempre disseram que não se sentariam à mesa um com o outro e agora já começaram a abrir a porta. Portanto, passaremos aqui por essa fase. Do lado da Ucrânia, Putin pede à Ucrânia, para iniciar esta abertura real para a assinatura do acordo de paz, pede à Ucrânia uma desmilitarização da Ucrânia e a limitação da influência ocidental na região, o que para Zelensky é inaceitável. E Putin também reiterou que qualquer cessar-fogo dependeria de acordos apropriados, que ele chama de acordos apropriados, mas são sobretudo acordos que beneficiem os interesses da Rússia. E isso passa por controle de regiões que Zelensky também entende que não deve ceder. Portanto, estamos no início e os dois pontos ainda estão muito longe, mas já há uma luz ao fundo do túnel.
Ou seja, é o início de um processo que poderá ter resultados mais à frente, eventualmente.
Exatamente. É um processo que neste momento se está a construir, ou seja, os pares, as duas partes com o mediador Estados Unidos e com mais mediadores que estão a fazer pressão nas várias áreas e nas várias regiões do globo, estão neste momento a montar o cenário, para simplificar, eu gosto de objetivar e simplificar para os ouvintes, é quase como se fosse um estádio de futebol e estão a montar todo o cenário para que aconteça o jogo. E neste momento é isso que está a acontecer. Todos estes intervenientes que estão na área da mediação estão a tentar aproximar vontades e opiniões. E isso é o mais difícil, até se chegar ao momento, mas penso que estaremos muito longe ainda da assinatura de um acordo de paz.
E é isso que explica, Vítor Gabriel, que, por exemplo, Donald Trump tenha feito saber, já depois desse telefonema, que não vai aplicar novas sanções a Moscovo por achar que isso pode dificultar a evolução das negociações com a Rússia. E, por outro lado, temos a Europa que ainda hoje aprovou mais um pacote de sanções e que já prepara um próximo. Temos aqui estratégias diferentes. Tem a ver exatamente com isso que nos estava a explicar, com esta tentativa de aproximação de partes, estas estratégias diferentes da Europa e dos Estados Unidos?
Essa é uma excelente questão, como já nos habituou, obviamente. Mas é uma excelente questão por quê? Porque isso permite-nos perceber como é que os dois blocos, ou seja, os Estados Unidos e a União Europeia, têm visões completamente diferentes. Enquanto os Estados Unidos estão próximos e a negociar diretamente e a intermediar diretamente com a Rússia, a União Europeia nem sequer está neste processo, nem sequer é incluída neste processo. Então aquilo que está a fazer a União Europeia, coordenando com a Ucrânia, é aumentar a pressão da União Europeia e do bloco europeu mais Reino Unido, portanto, União Europeia 27 mais 1, mais Reino Unido, sobre a Rússia. Só para lhe dar aqui, penso eu, se não me falha a memória, o 17º pacote de sanções contra a Rússia.
Da União Europeia é o 17º.
Exatamente, peço desculpa, o 17º pacote da União Europeia contra a Rússia, assim é que é. Tem em vista principalmente a sombra da frota russa, que são embarcações que transportam petróleo e commodities cerealíferos, que a União Europeia entende que são roubados à Ucrânia e que para evitar sanções ocidentais São transportados através de vários países. Também temos o congelamento de ativos e a proibição de viagens para várias empresas e indivíduos de vários países, nomeadamente os Emirados Árabes Unidos, a Turquia e Hong Kong. São esquemas que a Rússia tem utilizado para contornar as sanções e que a União Europeia, neste momento, visa sancionar para fazer ainda mais pressão e para evitar que esses ativos e essa circulação de dinheiro e de capital consiga entrar na Rússia e provavelmente evitar que consigam continuar a ter um financiamento de guerra. Isso por quê? Porque aquilo que temos assistido é que há esta abertura da parte da Rússia, mas os ataques de contra-drones não têm parado, a Rússia não tem parado. A Rússia sabe que quanto mais prolongar o conflito, estatisticamente mais está próxima de ganhar mais território. É isso que a União Europeia quer. Sabendo que os Estados Unidos, de um lado, estão a negociar e têm uma linha aberta com Putin, que não existia com Biden e que não existe com a União Europeia, do lado e a par da Ucrânia, mais o Reino Unido, estão a pressionar a Rússia indiretamente onde lhe dói mais, que é na área do capital e na área que utilizam para financiar a guerra.
Depois, do outro lado da moeda, temos Donald Trump a admitir afastar-se das negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia se Putin não decidir acabar com a guerra na Ucrânia. É uma pressão adicional do presidente norte-americano para tentar chegar a um resultado positivo nestas negociações?
Sim, eu penso que isso não irá acontecer, até porque os Estados Unidos, neste momento, ao contrário do que dizia Trump antes de ganhar as eleições, não podem sair. Não há possibilidade, neste momento, com o acordo de minerais, com aquilo que é potencialmente ganhador pra economia americana nesse aspecto e pras empresas tecnológicas americanas. Os Estados Unidos não podem abandonar a Ucrânia assim. Há muitos ativos indiretos e muitos investimentos indiretos que estão a ser potenciados para serem levados pra Ucrânia também na área das commodities. A estratégia que Trump tinha está pouco a pouco a ser materializada junto do governo ucraniano. Não acredito que isso aconteça. Agora, claro está, Trump vai utilizando esta retórica também para dizer: "Eu sou importante, eu vou conseguir mover Putin". Aliás, Donald Trump disse há cerca de uma semana, uma semana e meia, e hoje já teve o telefonema de duas horas com Putin. É isso que eu falava há pouco, este avançar e recuo de várias partes, este jogo de xadrez que vai ser consecutivo e evolutivo nas próximas semanas irá continuar a acontecer.
E é um jogo de xadrez em que duas das peças principais são a Rússia e a Ucrânia, sendo que do lado da Rússia há uma tentativa de que não exista uma pressão para finalizar esse acordo, e Zelensky acusa a Rússia de estar a tentar ganhar tempo para continuar a guerra. Estas duas posições não são necessariamente contraditórias.
Não são. Eu dizia há pouco isso mesmo. Quanto mais tempo o acordo tardar mais território ganham. Aliás, Putin pede uma coisa à Ucrânia. Há poucas horas vimos declarações de Zelensky a dizer que isso era inconstitucional. Ele próprio, como presidente, não poderia fazer isso legalmente pela Constituição do país, que era retirar. Uma das coisas que Putin pede é retirar tropas ucranianas de território ucraniano. Zelensky não pode fazer isso e sabe que não pode fazer isso. Daí que, coordenadamente com a União Europeia, estejam a ser aplicadas as sanções que falávamos há pouco. E Putin sabe que ao pedir uma concessão que não pode ser dada pela pessoa com quem está a negociar, sabe que só está a prolongar esse momento. Isso é também um jogo da parte de Putin. Agora, cabe também aos Estados Unidos e à União Europeia estarem concertados para que se objetive e que não deixem Putin levar durante meses esta negociação.
Vítor Gabriel Oliveira, vamos agora também olhar um pouco para a situação do Médio Oriente, numa altura em que se intensificam os ataques israelitas na Faixa de Gaza, apesar também de haver apelos para que Israel retome a ajuda humanitária. Já foi autorizada a entrada de alguns caminhões, mas aquilo que eu lhe queria perguntar é se este aumento de violência e depois também da declaração das IDF de esvaziar a população para sair da área de Khan Yunis para um ataque sem precedentes, aquilo que eu lhe queria perguntar é se estes ataques que temos noticiado nas últimas horas já correspondem a essa ameaça que foi feita pelas Forças de Defesa de Israel. Já estamos perante uma escalada neste momento?
Sim, penso que isso é evidente. Já era evidente nas últimas semanas com algumas declarações de alguns dos dirigentes israelitas, também com uma proposta para dividir Gaza ao meio, fazer um corredor de divisão de Gaza ao meio, que era inaceitável por parte do povo palestiniano. Neste momento, objetiva-se, em termos militares, essa escalada, mas a escalada já tinha vindo a ser feita com algumas ameaças, com algumas declarações que já deixavam antever esta matéria. Aliás, nós sabemos que Donald Trump não referiu sequer a questão da Israel e pensamos que haveria um convite até de Netanyahu para que Donald Trump pudesse visitar Israel, e isso não aconteceu nesta visita que esteve agora No Médio Oriente, na semana passada. Isso já foi um sinal do desconforto de Donald Trump. Há algum desconforto da administração americana com esta escalada, porque começa a ser difícil de justificar por que acontece desta forma. Isso é aquilo que para a União Europeia e para o Ocidente começa a ser difícil de aceitar. Isso tem sido noticiado nos últimos dias, ainda há alguma doutrina diferente em vários países, nomeadamente na União Europeia, na condenação do tipo de ataque e da maneira como o hão de condenar ou não. Isso está a ser acertado ainda na União Europeia pelos 27 para que saia uma declaração única, mas penso que estamos a caminhar para que haja uma condenação mais alargada da ação de Israel. É aquilo que penso que está a ser concertado na União Europeia.
E é essa ação de Israel que também explica o impasse nas negociações para um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, que aparentemente estão estagnadas, não há aqui avanços.
Sim, não poderá haver avanços quando há uma escalada de uma parte. É a visão de Israel. Quando estou a comentar e quando a Rádio Observador me convida, tentamos fazer um comentário de objetividade e de simplificação para que os ouvintes quando ouvem possam perceber e entender o porquê de algumas coisas. E quando digo que havendo uma escalada de um lado, não deverá haver um acordo potencial entre o Hamas e Israel, isso é uma objetividade. Se há um lado que escala e há um lado que faz ataques e há um lado que agora alguns caminhões, penso que sete ou nove caminhões que deixaram passar hoje com ajuda humanitária, mas tiveram retidos ainda algum tempo. Há uma escalada objetiva de um lado, que não vai permitir que o Hamas se queira em certo acordo de paz. E não sei se é isso realmente que Israel quer ou não. Havendo esta objetividade nos ataques que se está a fazer. Poderá ser outro objetivo. Sabemos que Netanyahu e o seu governo, ao seu lado por elementos que o encorajam bastante à intervenção militar, torna-se complicado haver um acordo de paz nessa matéria. Eu terminava só com esta nota sobre esse assunto: só os Estados Unidos e só, neste momento, Donald Trump têm na mão uma solução para travar aquilo que estamos a assistir em Israel, pela influência, primeiro, que têm sobre Netanyahu e pela influência que os Estados Unidos têm sobre Israel e pela frota que têm no Mediterrâneo, frota de porta-aviões que têm no Mediterrâneo, que evitou, por exemplo, ataques massivos de mísseis a Israel, com vários caças americanos a conseguirem também reverter esses ataques. Neste momento só os Estados Unidos conseguirão travar esta escalada, neste caso da parte de Israel.
Vítor Gabriel Oliveira, muito obrigado por ter estado em mais um "Gabinete de Guerra", da Secretária-Geral da Séde Europa. O "Gabinete de Guerra" está de regresso amanhã.