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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta terça-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, Trump encontrou-se com Netanyahu na Casa Branca, mas os dois parecem não ter a mesma visão a respeito de um país chave como o Irão ou até mesmo quando será possível paz em Gaza.
Sim, realmente Trump tem uma ligação a Israel e uma proximidade a Israel. Trump e a direita americana de um modo geral, sobretudo em relação ao atual primeiro-ministro, que realmente é excepcional e sobretudo no contexto atual, em que realmente quase todas as alianças estão sob ataque desta ala mais nacionalista do Partido Republicano. Mas isso não quer dizer que haja, de facto, uma completa identificação, que esse nacionalismo muito transacional desapareça completamente. Há muito este lado que realmente está manifesto agora às suas implicações, que é dar um pouco carta branca a Israel para fazer militarmente o que entende. Mas isso não quer dizer, por exemplo, que em relação ao Irão, que Donald Trump não ache também, como acha em relação a quase todos os outros países e inclusive em relação a regimes autoritários muito repressivos que no passado eram vistos quase como inimigos naturais dos Estados Unidos, que não é possível fazerem um acordo e, portanto, um acordo pragmático. Realmente aí parece haver alguma diferença. Netanyahu provavelmente está preocupado com isso, será uma das razões pelas quais veio. Também o facto de Israel ter sido atingido por esta guerra comercial, mas nomeadamente em relação ao Irão, no fundo, procurar aqui afirmar algumas linhas vermelhas, prioridades da parte de Israel, mas, por exemplo, Donald Trump o que insiste é, inclusive quebrando lá está até um precedente, que é a necessidade de negociações diretas, por exemplo, também com a Rússia já fez isso. Os seus antecessores tinham recusado isso, viam isso até em si mesmo como uma concessão, mas, por exemplo, é ele que insiste nessas negociações diretas com o Irão, até mais do que o próprio regime iraniano. Não é evidente, aliás, já completamente não é claro se serão realmente diretas ou não, mas vai de facto haver negociações em Omã neste fim de semana. Isso mostra que há limites para este grau de solidariedade entre Israel e os Estados Unidos. Se o presidente Trump achar que tem alguma coisa a ganhar negociando diretamente, por exemplo, com países árabes ou com o próprio Irão, com uma potência islâmica xiita, como é o Irão, muito hostil a Israel.
E não sei se tem precisamente a ver com isso que estás a dizer, mas antes deste encontro com Netanyahu, Trump falou por teleconferência com líderes da França, Egito e Arábia Saudita. Isto é relevante?
Sim, é relevante. Desde logo, é relevante desta habilidade também do presidente Macron, que assume aqui um papel de liderança, apesar de politicamente até estar enfraquecido em termos internos e se calhar até um pouco para compensar isso. Realmente liderança do pouco da Europa. A França continua a ter um papel com algum relevo no Médio Oriente e até alguma presença militar, mais do que a maioria dos outros países europeus. Macron tomou a iniciativa de se reunir com o príncipe herdeiro, no fundo, o governante da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, também com o presidente do Egito. A França e o Egito têm uma cooperação militar muito forte, inclusive com muita venda de armamento importante francês ao Egito. Isso permitiu-lhe depois ter aqui um argumento também para, de alguma forma, perceber junto a Donald Trump como é que estão as coisas a evoluir, antes de ele falar com Netanyahu, eventualmente procurando também garantir que não havia aqui uma aproximação completa às posições israelitas e que as posições destes países árabes, que são realmente muito importantes para os Estados Unidos e para Trump, em particular a Arábia Saudita, que é o principal comprador de armamento norte-americano, que é o que Donald Trump valoriza muito, também eram tidos em conta.
Entretanto, Bruno, os ucranianos enterraram ontem nove crianças mortas no ataque russo na cidade natal de Zelensky. O que isto nos diz sobre este dito cessar-fogo?
Eu acho que nos diz praticamente tudo. Realmente não é um cessar-fogo, nem nos termos limitados em que ele foi definido parece estar a funcionar, ou seja, parece continuar a haver alguns ataques a infraestruturas energéticas e portuárias também, porque essa dimensão de uma pacificação marítima também avançou ainda menos.
No fim de semana também tivemos os ataques a Kiev com mísseis balísticos, não é?
Exatamente. Sobretudo o que parece haver aqui, pelo contrário, é uma escalada dos ataques aéreos. Este é o maior número de crianças que é morto num ataque indiscriminado. Isso foi sempre típico da Rússia, mas neste caso usando munições de dispersão, aquelas bombas com imensos explosivos que depois se dispersam por uma área enorme e que estão desenhadas para causar o máximo de baixas. Mesmo o seu uso na frente de batalha é contestado. Houve muita gente que, por exemplo, atacou os Estados Unidos por fornecerem este armamento para a Ucrânia, depois de ele ter sido usado sempre pela Rússia desde o início da guerra, apesar de haver a garantia de que seria apenas usado na frente de batalha, para lidar com soldados inimigos. Mas a Rússia usa isto num centro populacional, basicamente contra um parque infantil, um parque onde as crianças brincam num bairro residencial de uma das cidades ucranianas, que é realmente a cidade natal de Zelensky. Talvez isso explique politicamente porque é frequentemente escolhida como alvo, mas sobretudo o que parece haver aqui realmente é não um processo de redução das hostilidades, de redução do número de mortes civis, que seria o normal num cessar-fogo ser o prioritário, e seria um indicador também de boa-fé das partes, ou seja, de que havia alguma disponibilidade para tentar ir reduzindo a intensidade dos combates. Mas aquilo que parece acontecer do lado russo é realmente a continuação destes ataques indiscriminados e até eventualmente a sua intensificação por via aérea, por via de ataques aéreos contra alvos civis ucranianos.
Bruno, e tu que estás aí em Washington, que impacto poderão ter as manifestações deste fim de semana contra Trump e Musk? Os chamados checks and balances nos Estados Unidos vão sobreviver a esta administração?
São duas questões distintas, mas que não deixam de estar interligadas. Por um lado, temos o lado institucional. Donald Trump não é, de facto, um ditador. Há várias outras instituições com poderes importantes, nomeadamente o Parlamento, o Congresso e o Supremo Tribunal. A grande questão é que quer um, quer outro estão controlados por maiorias de direita que parecem muito alinhadas e muito dispostas a seguir a liderança de Donald Trump. Portanto, desse ponto de vista, não é que eles não existam no papel, mas na prática não parecem estar a funcionar muito. Por que eu digo que pode haver aqui uma ligação? É porque na medida em que haja realmente uma reação popular, ou seja, haja uma crescente impopularidade das medidas de Donald Trump e como resultado disso, uma reação popular hostil a essas medidas, seja em termos de sondagens, de um grau de apoio público, seja em termos de algo que aqui é muito tradicional, que é, por exemplo, os congressistas fazerem reuniões semanais em sítios públicos, numa escola, num ginásio, etc, com eleitores do seu círculo eleitoral, os círculos aqui são sempre uninominais, já isso notava um crescente de hostilidade, perguntas muito críticas, muitas críticas às políticas de Donald Trump, sobretudo de despedimentos e de fechamento de serviços públicos. Agora temos esta questão da crise na bolsa, do colapso da bolsa e do eventual impacto económico das tarifas. Estas manifestações que realmente foram numa escala que não se tinha visto ainda neste mandato, ou seja, mais de mil por todo o país, centenas de milhares de pessoas, por exemplo, aqui na capital. Realmente, se isso se mantiver, se estas dimensões de mobilização popular visível, que também aparece nas sondagens, etc, se mantiverem, é possível que tenha como efeito os congressistas, mesmo os congressistas republicanos, começarem a ser mais críticos, eventualmente a mostrar mais oposição a Donald Trump, porque é importante recordar isso aqui, todos os membros da Câmara dos Representantes, da Câmara Baixa e um terço dos senadores vão a eleições daqui a dois anos apenas. Portanto, isso obviamente será algo que é importante para o seu futuro político.
Bruno, e a terminar. As coisas já não são o que eram entre Donald Trump e Elon Musk. Os rumores de uma possível saída do dono da Tesla não serão um teste, um preparar do terreno para o que aí vem?
Por aquilo que sabemos de Donald Trump, sabemos que realmente a lealdade é algo que ele preza muito em relação a ele, mas não é algo que depois dê muito em torno. É verdade também que sempre se falou aqui um pouco de choque de egos, de alguém com muito protagonismo, que tira alguma visibilidade do Donald Trump. A mim parece-me que o Musk tem uma grande vantagem que outros não tinham, que é ser o homem mais rico do mundo e ter recursos para financiar campanhas, financiar ação política, o que é algo muito valioso para Donald Trump. Agora, realmente, ele faz declarações do gênero, ele pode ficar o tempo que quiser, mas parece-me que ele em breve vai regressar às suas empresas. Isto na linguagem de Donald Trump, geralmente, é um sinal de que, de facto, a saída estaria para breve. Vamos ver se isso se confirma, até porque realmente estes despedimentos e este fechamento um pouco caótico de serviços públicos está se a revelar impopular, mesmo, por exemplo, em zonas rurais onde estes serviços são muito importantes e há muitos apoiantes de Donald Trump. E ao mesmo tempo, nesta questão da guerra comercial global, Musk realmente faz parte de uma corrente claramente minoritária que considera que isto é um erro. Desde logo, um erro muito custoso para ele e para as suas empresas, mas até em termos da economia americana. Veio defender publicamente, por exemplo, um acordo de livre comércio, basicamente tarifa zero entre a Europa e os Estados Unidos. Ora, essa não parece ser a linha dominante e a linha mais querida de Donald Trump. Vamos ver se também isso levará aqui eventualmente a uma ruptura. Mas realmente o Musk é diferente, apesar de tudo, de outros casos, porque tem aqui alguns ativos literais, ativos financeiros que fazem uma grande diferença em relação a outros protagonistas passados desta relação sempre complexa de Donald Trump com os seus seguidores.
Vamos ter que esperar para ver. Bruno Cardoso Reis, obrigada pela análise a partir dos Estados Unidos. Até quinta-feira.
Até quinta.
Até quinta, Bruno. Obrigada.
Bom trabalho.