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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professora Liliana Reis, sem dinheiro e quase sem tempo, foi o alerta esta segunda-feira da Casa Branca, porque há risco de o Congresso dos Estados Unidos não aprovar mais financiamento para a Ucrânia. De resto, o presidente da Câmara dos Representantes anunciou hoje mesmo que não vai apoiar mais ajuda militar. Volodymyr Zelenskyy dirige-se hoje aos senadores norte-americanos para os convencer a dar luz verde. Sabemos que ele é hábil na comunicação, mas conseguirá desatar este nó?
Parece muito difícil. Repare que neste momento, Joe Biden enfrenta uma dificuldade dupla. Se, por um lado, na verdade, na guerra da Ucrânia, a oposição em relação a este apoio é, sobretudo, oriunda do Partido Republicano e foi sendo visível, sobretudo depois das mid-term elections, das eleições intercalares, que permitiram que a Câmara dos Representantes virasse para o Partido Republicano, e naturalmente que esse questionamento ao apoio militar à Ucrânia tornou-se efetivamente mais visível. Neste momento, e não podemos excluir também aquilo que falávamos há pouco, o conflito entre Israel e o Hamas veio expor feridas internas mesmo dentro do Partido Democrata. E Joe Biden tem que lidar e tem que acomodar interesses, quer do Partido Republicano, para assegurar a continuidade do apoio à Ucrânia, e que se vê muito difícil. Aliás, Stoltenberg, secretário-geral da Aliança Atlântica, tinha alertado já na semana passada que as dificuldades que se prevê neste momento para a Ucrânia serão ainda maiores e serão, naturalmente, por causa da dificuldade da assunção de compromissos financeiros por parte dos principais aliados, mas por outro lado, também porque um dos setores do Partido Democrata também começa a olhar com alguma desconfiança para este apoio da administração Biden em relação a Israel. Com estes dois conflitos em simultâneo, naturalmente que Joe Biden, e já pensando nas primárias que começarão em fevereiro, começa a perceber que tem que acomodar efetivamente interesses quer do Partido Republicano, por um lado, mas também dentro do seu próprio partido. E antes mesmo de começarem as primárias, deixe-me também só partilhar esta questão, nós vamos ter eleições em Taiwan dia 14 de janeiro, o que também podem vir, de certa forma, a comprometer ainda mais a instabilidade do sistema internacional.
Uhum.
A Agência Nacional de Segurança da Polônia prevê, em menos de três anos, um ataque da Rússia contra países da NATO. Esta parece uma previsão realista ou será mais resultado da ameaça que a própria Polônia sente?
Naturalmente que a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Polônia, a Finlândia e a Suécia têm uma perceção da ameaça muito maior do que outros países da União Europeia ou mesmo da Aliança Atlântica, como porventura Portugal. Até porque do ponto de vista da proximidade geográfica, é maior. Agora, não seria surpreendente, e estas palavras da Polônia devem ter a leitura não apenas da perceção maior da ameaça, mas também de uma real probabilidade. Tudo depende se o sistema internacional beneficiar a Rússia ou não. Neste momento, aquilo que nós começamos a perceber é que há efetivamente um conjunto de atores internacionais. Ainda não percebemos liderados por quem, mas até pode ser aqui lideranças partilhadas, mas que os aproxima algo em comum, que é a discussão da hegemonia norte-americana ou pelo menos da hegemonia da ordem liberal ocidental, com os Estados Unidos, com a União Europeia, Canadá, Austrália, Japão, Nova Zelândia, e que querem assegurar uma transição de poder. E por isso é que as palavras da Polônia também devem ter a necessária prudência que nos é exigida, porque não seria uma ideia completamente absurda. Aliás, a Polônia sabe do que fala pelo seu passado, como nós sabemos, durante a Segunda Guerra Mundial.
Precisamente. Vladimir Putin visita amanhã a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos com foco na energia e no conflito Israel-Hamas. O presidente do Irão, por seu turno, vai a Moscovo na quinta-feira. Podemos presumir que há aqui, de alguma forma, uma tentativa de tirar partido do que se passa no Médio Oriente?
Claro. Aliás, eu tinha dito que era amanhã, mas afinal é na quinta-feira. Obrigada por essa correção.
Não tem mal.
Na verdade, aquilo que neste momento também se começa a observar é que Vladimir Putin procura junto dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, também conseguir algum capital político. Nós não nos esqueçamos que a Arábia Saudita é tradicionalmente muito mais próxima Estados Unidos do que da Rússia, até porque o Irão é o principal aliado da Rússia na região. Mas há algo que neste momento tentam acomodar. É que esta visita surge dias depois da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, liderada pela Arábia Saudita, nomeadamente, ter anunciado o corte de produção do crude entre 600 mil e um milhão de barris por dia em 2024. E isso contraria a pretensão da Nigéria e de Angola, que até queriam aumentar a produção de crude no próximo ano. Nós também começamos a perceber que há países produtores de petróleo que têm interesses que não são convergentes. Naturalmente, aquilo que os países produtores de petróleo tentam assegurar é aquilo que beneficia cada um individualmente. Também não podemos esquecer este fim de semana e aquilo que pode acontecer em relação à Venezuela nesta matéria, aliás, também com o novo foco de instabilidade em relação à Guiana. E repare, todos estes focos que nós começamos a ficar muito claro é que os tais promotores da instabilidade têm criado focos de tensão, ou pelo menos explorado esses focos de tensão, em alguns aliados, pelo menos nos principais aliados no quadro regional dos Estados Unidos, como por exemplo, a Guiana em relação à Venezuela.
Professora Liliana Reis, só em 30 segundos, a Rússia e o Irão assinaram hoje uma declaração conjunta contra as sanções ocidentais. Pode ter algum efeito prático?
O efeito prático imediato que tem é um posicionamento comum e porque consideram, mais uma vez, que as sanções do Ocidente são efetivamente um instrumento de política externa que tem, de certa forma, comprometido os interesses, quer do Irão, quer da Rússia, em variadas matérias, nomeadamente em questões económicas.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.