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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Os serviços secretos norte-americanos partilharam com vários governos europeus planos de escalada do Kremlin que revelam que a Rússia estará a preparar novos ataques com drones na Europa, mas com os alvos desta vez a serem países do Mediterrâneo como Espanha, França ou Itália. Pergunto-lhe se acha que estes planos podem mesmo avançar e se estes países estariam preparados para repelir os ataques.
Olá Lara, muito boa noite. Muito obrigado pelo convite e boa noite aos ouvintes da Rádio Observador. O primeiro ponto é que deve-se ter alguma cautela e haver confirmação de que essa informação é verificável e factual, e que diz respeito a uma ameaça real. Isso porque houve algumas reações, em particular de Itália, dizendo que não havia necessidade de alarmismos e portanto era preciso diminuir a tensão relativamente a este tipo de anúncios, referindo-se à notícia do "El Mundo", que foi quem primeiro deu conta deste relatório. O segundo ponto é o mais importante, é uma mensagem de acalmar as populações e de não criar pânico junto às populações. Eu acho que há por trás desta ameaça ou desta potencial ameaça, digamos assim, uma intenção clara de Vladimir Putin de criar, por um lado, insegurança nas populações, que provoque algum tipo de reação cívica junto dos seus governos. Estamos a falar de três países que enfrentam eleições no próximo ano e, portanto, as reações dos eleitores a este tipo de ameaças contarão, obviamente, no momento da sua decisão e no seu voto e qualquer tipo de instabilidade que seja provocada por via destes cenários hipotéticos e possíveis, acaba por ter uma influência na forma como as pessoas encaram os processos eleitorais. Portanto, eu acho que há aqui necessidade de diminuir o impacto possível que esta ameaça tenha, sem a desvalorizar, obviamente, e tendo em atenção, eventualmente, que ela pode ser possível ou que a Rússia pode ter efetivamente possibilidade de a concretizar, mas sem entrar em grandes alarmismos. E o terceiro ponto é que, para além desta intenção de criar algum alarme social, entra mais uma vez numa tentativa de Putin de criar divisão no próprio seio dos processos de decisão de liderança europeus. Isso porque Espanha tem sido uma das vozes mais dissonantes, digamos assim, naquilo que é a prossecução da nova estratégia de autonomização militar que a Europa tem vindo a seguir, nomeadamente criticando ou não estando muito disponível para realizar os investimentos que Donald Trump terá pedido à Europa, que a Europa faça no seio da NATO. Portanto, esta imagem de que a Rússia pode efetivamente atacar agora Espanha acaba por dar corpo àquilo que Mark Rutte já tinha alertado e de certa maneira pressionar o governo espanhol a ter uma mudança de visão relativamente a esta estratégia europeia e com isso estar mais comprometido com os investimentos que poderiam ser feitos. O quarto ponto, e para terminar muito rapidamente, é que eu acho que é necessário que a Europa tenha sangue frio e se acautele, tenha mecanismos de resposta imediata prontos no terreno para defender a soberania, a integridade territorial e proteger a Europa do ponto de vista defensivo de qualquer ataque hipotético eventual, mas não entrar numa lógica de reação imediata e intempestiva perante qualquer ataque que a Rússia possa fazer deste nível de natureza híbrido, que será sempre de baixa dimensão, porque isso obviamente contribuiria para um escalar de um conflito que só interessa à Rússia e no qual eu acho que a Europa não tem nenhum interesse em participar, a não ser, obviamente, no apoio incondicional à Ucrânia.
Vamos mudar de tema. O presidente chinês chegou ontem aos Estados Unidos para uma visita oficial, a primeira em mais de uma década. Donald Trump foi receber Xi Jinping na chegada ao aeroporto, algo que não é muito comum para um presidente norte-americano. Hoje os dois líderes assistiram a uma demonstração militar com caças a sobrevoar a Casa Branca, algo também bastante raro. Entretanto, os democratas já vieram criticar a recepção de Donald Trump a Xi Jinping. Dizem que o presidente dos Estados Unidos tem uma atração inata por ditadores. De facto, Donald Trump vai deixando ao longo dos anos alguns elogios a líderes de regimes considerados ditatoriais. O presidente norte-americano está agora a tentar agradar ao presidente chinês?
Eu faria dois pontos prévios antes de partir diretamente para a análise. O primeiro é, de facto, esta quebra protocolar. Não faz parte do protocolo das administrações americanas receberem os seus homólogos internacionais no aeroporto, esperam por eles na Casa Branca e portanto isto é uma quebra protocolar que indicia essa reverência que Donald Trump tem por líderes mais autoritários e por figuras mais autoritárias. Tivemos já vários exemplos no passado e parece que se confirma mais uma vez também nesta visita, por algumas palavras elogiosas que foi tendo. E o segundo ponto prévio, que eu acho que também é notável e do qual é importante dar nota, é a falta de cobertura por parte dos meios de comunicação norte-americanos que aconteceu desta visita, ou pelo menos das declarações do presidente americano, por via do boicote que Donald Trump impôs a alguns órgãos de comunicação social, em particular à CNN, ao Político e à MSNBC. Portanto, houve um boicote sinalizado da parte das outras estações Que tem sido levada a cabo ao presidente americano. E na análise, eu acho que os pontos mais importantes são até do ponto de vista da ótica chinesa. Eu acho que esta visita de Xi Jinping vem reforçar aquilo que o próprio, de certa maneira, tentou diminuir de importância. Ou seja, quando fala Xi Jinping nesta segunda visita, pela segunda vez, da Armadilha de Tucídides, fazendo referência à Guerra do Peloponeso e ao conflito entre duas potências, uma emergente e uma já estabelecida, Xi Jinping, de certa maneira, tenta diminuir a tensão entre as duas partes. O discurso foi muito conciliador de dizer que a competição entre os dois é possível e que pode existir de forma pacífica entre Estados Unidos e China, mas esta referência não deixa de, de certa maneira, demonstrar que na visão chinesa, na ótica chinesa, a China está a conquistar aquilo que era o espaço da influência americana e que os Estados Unidos são uma potência em ocaso, estão a atingir o seu pico e entrar numa fase de grande decadência. Eu acho que toda a ótica, quer na postura dos dois presidentes, quer na forma como mostram postura de Estado, como olham para os diferentes assuntos internacionais e apresentam a sua visão global, confirmam aquilo que é uma diferença muito significativa, quase tão grande quanto a geográfica, entre os dois presidentes, com Xi Jinping a levar uma grande vantagem sobre o presidente Trump. E o último ponto que eu acho que é importante relevar é que Donald Trump pode ter mesmo dado um passo muito em falso e com consequências muito significativas quando iniciou o conflito no Irão. Por vários motivos, pelas consequências diretas do ponto de vista económico que os Estados Unidos estão a sentir e a dificuldade que está a colocar em toda a economia mundial, mas porque a China tem um forte ascendente sobre o Irão e a China está a utilizar esse ascendente que tem sobre o Irão, de certa maneira, como uma moeda de troca para assegurar que os Estados Unidos não interferem naquilo que é o grande objetivo de Xi Jinping e o grande objetivo da China há várias décadas, que é as suas pretensões em relação a Taiwan. E esta moeda de troca é fundamental para Xi Jinping e é obviamente algo que Xi Jinping utilizará de qualquer forma para garantir que, no caso de a China de fato avançar para a tomada efetiva do controle do território de Taiwan, os Estados Unidos não interferem. Isso já tinha acontecido na primeira visita em que os Estados Unidos tinham cancelado um envio de apoio militar no valor de 12 mil milhões de dólares, se não me falha a memória. Portanto, há aqui, de facto, vários pontos a ter em consideração e aquilo que resulta desta visita é, ou parece ser, a afirmação inequívoca da China como a nova grande potência mundial, sobrepondo-se até ao grande poderio americano que se verificou ao longo dos últimos séculos.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, discursou hoje na Assembleia Geral da ONU, onde homenageou António Guterres, defendeu que o sucessor deve ser ambicioso e firmemente comprometido com o direito internacional, tal como considera que é o atual secretário-geral. António Costa, que disse também que António Guterres foi um farol a guiar o caminho. Pergunto-lhe que legado é que deixa António Guterres na ONU. Foram, sem dúvida, dois mandatos bastante exigentes.
Eu começava por aí e depois, se me permite, ainda ia um pouquinho ao discurso de António Costa. Eu acho que António Guterres teve um dos mandatos mais difíceis da história de liderança das Nações Unidas, porque entrou numa fase em que obviamente as Nações Unidas já estavam numa situação de grande decadência do ponto de vista financeiro, da capacidade de exercício das suas competências ou da missão que lhe era confiada, por via obviamente da evolução que o mundo foi tendo, da afirmação de potências, do equilíbrio de forças entre as diferentes potências e o fato de as Nações Unidas não terem conseguido operar ao longo dos tempos uma reforma que seja ou que tivesse sido consonante com essas alterações, em particular, e é mais gritante, obviamente, a manutenção do Conselho de Segurança com o direito de veto dos cinco membros. E António Guterres depois teve, para além disso, enfrentar uma retirada muito acentuada do apoio que os Estados Unidos sempre conferiram à organização, o que obviamente teve um grande prejuízo para o funcionamento e para a operação que as Nações Unidas tinham capacidade de ter. Não obstante isso, eu acho que na mensagem, naquilo que foi grande parte da ação de António Guterres, serviu sempre como um alerta, e eu acho que a expressão de António Costa é muito feliz no sentido de um farol que sempre alertou o mundo para um conjunto de problemas que de fato só podem ser resolvidos por via da cooperação multilateral, ao invés da operação individual de cada um dos Estados. Eu acho que esse é o ponto principal do discurso de António Costa e que de certa maneira coroa aquilo que foi a missão de vida de António Guterres ao longo do período em que esteve à frente das Nações Unidas, que é este confronto que nesta Assembleia Geral ficou mais visível do que nunca. É o confronto entre aqueles que consideram que a cooperação entre os países, entre os povos, é de fato o caminho para a resolução de problemas comuns. António Costa falou da inteligência artificial, falou da questão do desenvolvimento sustentável, do clima e até das próprias relações comerciais entre os países e aqueles que, como Donald Trump, como o presidente argentino Milei, vieram afirmar que só de fato a força da força é que tem efeitos nas relações internacionais e que é através da aplicação da lei do mais forte que acaba por se verificar o destino da humanidade e o nosso destino comum. Portanto, foram estas duas visões que estiveram em confronto e eu acho que António Guterres personificou a primeira, tentando fazer uso da sua força e influência para que houvesse maiores mecanismos de cooperação. E eu acho que infelizmente, ao contrário daquilo que era o seu desígnio e a sua intenção, neste momento estão a triunfar por cima dessa visão as forças que pretendem destruir essa visão multilateral e pretendem entrar numa lógica de lei da máfia em que o medo e a força são dominantes por cima da cooperação entre os povos.
Muito obrigada, João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Obrigada pela sua análise.
Muito obrigado, Laura. Uma boa noite.
Fica por aqui o Gabinete de Guerras, está de regresso amanhã.