Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está aberto o Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos conversar com Pedro Nascimento, advogado e investigador de história militar. Vamos falar dos conflitos em curso. Muito boa tarde, Pedro Nascimento. Vamos começar por situação na Ucrânia, porque a Rússia diz que apoia um plano de Orbán, um plano da Hungria para uma troca de prisioneiros e um cessar-fogo durante o período de Natal entre Rússia e Ucrânia. Como é que vê esta possibilidade de termos este cessar-fogo durante esse período e também uma troca de prisioneiros?

Olá, Miguel.

Boa tarde.

É um gosto estar aqui. Obrigado uma vez mais pelo convite. Nós poderíamos até ver com bons olhos, até fazendo aqui lembrança daquilo que aconteceu na Primeira Guerra Mundial e aquela famosa trégua de Natal. Mas a verdade é que o apoio da Rússia a este plano de Orbán não é sobre paz, é antes sobre travar o relógio da guerra a seu favor, para consolidar os territórios ocupados antes que a Ucrânia tenha tempo de alterar a situação. Este apoio da Rússia ao plano de Orbán reflete uma jogada claramente estratégica que Moscou já utilizou noutros conflitos anteriores, aliás, como por exemplo, na Síria e também na Geórgia. Esta troca de prisioneiros, nós podemos dizer que é uma tentativa de humanização desta iniciativa, mas o objetivo principal da Rússia é cristalizar seus ganhos territoriais no leste e sul da Ucrânia, onde mantém o controle sobre regiões importantes como Donetsk, Lugansk e Zaporizhzhia. Aqui está um pequeno aparte, eu acho que é muito importante e mesmo útil para vincar que há paralelismos históricos que nos ajudam a compreender que embora as circunstâncias e os atores mudem, a verdade é que estas dinâmicas fundamentais dos conflitos internacionais permanecem constantes. Como por recursos, territórios e influência, e já vamos explanar isso. Agora, mas sendo mais conciso, relativamente aos objetivos da Rússia, para Putin, apoiar este plano serve dois propósitos. Desde logo, projetar-se como um ator disposto a negociar e tentando melhorar assim a sua imagem no domínio internacional. E, por outro lado, criar divisões no bloco ocidental, especialmente dentro da União Europeia, onde a Hungria tem sido, eufemisticamente dizendo, um aliado reticente da Ucrânia e crítico das sanções à Rússia. Invertendo aqui o tal paralelismo histórico que eu lhe falei, reportando-me aqui à Segunda Guerra Mundial. Durante este conflito, a Alemanha, a Nazi e a União Soviética, apesar de serem opositores, usaram táticas semelhantes para dividir alianças entre os aliados, como, por exemplo, o famoso Pacto Ribbentrop-Molotov, em 1939, aquele acordo entre Hitler e Stalin que dividia a Europa de Leste e ofereceu uma aparência de um acordo diplomático, mas serviu para consolidar os interesses territoriais de ambas as partes. Hoje, nós temos aqui Orbán a desempenhar um papel semelhante ao de políticos colaboracionistas, como nessa altura da Segunda Guerra foi Philippe Pétain em França. Ou seja, negociam com potências autoritárias para preservar os seus próprios interesses, mas muitas vezes à custa de uma unidade de alianças maiores. E para terminar aqui esta parte, daqui acaba por resultar um entendimento sobre o atual impacto geopolítico. É que a aceitação do plano por parte da Rússia coloca os líderes ocidentais perante uma bifurcação. Se rejeitam a proposta, arriscam a parecer-se um bocado insensíveis aos custos humanos da guerra. E, por outro lado, se a aceitarem, legitimam claramente os ganhos territoriais da Rússia.

Este conflito entre Rússia e Ucrânia trouxe também muitas sanções à Rússia, muitas mudanças naquilo que é a economia, principalmente na parte europeia, muitas relações cortadas entre a Europa e Rússia, e muitos países sofrem ainda hoje também por causa dessas decisões, como por exemplo, a Alemanha, mudar muito a sua economia naquilo que era a ligação à Rússia. Hoje, o comissário europeu da energia prometeu avançar com um plano para cortar as relações energéticas com a Rússia, cortar todas as relações energéticas entre a União Europeia e a Rússia. Está a União Europeia preparada para conseguir fazer mesmo isto?

Miguel, permita-me aqui neste ponto fazer um pequeno intróito, e é importante referir isto. Não obstante tratar-se de alguém com um historial bastante controverso e de quem eu não gosto particularmente, mas aqui versamos um fato que é meramente objetivo. Na Assembleia Geral da ONU em 2018, Donald Trump alertou a Europa, e particularmente à Alemanha, que estava a ficar completamente dependente da energia russa, uma situação que ele considerava perigosa pra segurança geopolítica europeia. E naquela altura, Trump criticou os projetos como, por exemplo, o gasoduto Nord Stream 2, e alegou que isso alçava a influência russa sobre a Europa e enfraquecia a NATO, e ao mesmo tempo que os Estados Unidos assumiam os custos da defesa da região, mas isso é outro assunto, não obstante estar na ordem do dia. Mas voltando a este tema das afirmações do comissário europeu, trata-se de mais um passo que reflete a tentativa de evolução da política energética da União Europeia desde o início da guerra da Ucrânia. É que antes de 2022, a Rússia fornecia entre 40 a 50% do gás natural consumido pela Europa, e hoje esse número, a verdade é que caiu drasticamente. Mas a transição para essas alternativas tem sido marcada por muitas dificuldades econômicas e sociais. E nunca vai ser fácil. Este plano, por aquilo que eu estive a ver, tem três pilares principais. Desde logo, o investimento em energia renovável, que é esta aceleração da energia solar e eólica Visa não só substituir os combustíveis fósseis, mas também garantir essa independência energética da União Europeia. A aposta em infraestruturas, nomeadamente em terminais de gás natural liquefeito, particularmente na Alemanha e nos países bálticos, e depois a diversificação de fornecedores. Hoje já temos mais investimento a partir de países como a Noruega, Argélia e mesmo os Estados Unidos, que se tornaram parceiros energéticos estratégicos. Só que, que desafios atuais nós temos agora? É que essa transição energética enfrenta a resistência de vários Estados-membros que dependem fortemente do gás natural, quer para a indústria, quer para o aquecimento. Daí que eu acho que vamos perceber já a curto prazo, nomeadamente neste inverno de 2024, que se adivinha rigoroso, e que será um teste à resiliência da União Europeia e à sua capacidade de implementar um plano sem causar danos sociais significativos.

Sim. Entretanto, no Médio Oriente, há novidades, principalmente no Líbano. Israel anuncia a primeira retirada do Líbano após o cessar-fogo. Anunciou essa primeira retirada de uma localidade no sul do Líbano, onde foi substituído por soldados libaneses após a entrada em vigor deste cessar-fogo. É importante dar seguimento a esta estratégia definida para o Líbano e avançar com este acordo de cessar-fogo na totalidade.

Definitivamente. A retirada de Israel do sul do Líbano, do meu ponto de vista, não pode ser encarado como qualquer sinal de fraqueza, mas é um movimento perfeitamente calculado para evitar que as chamas de um novo conflito se possam tornar incontroláveis. Esta retirada parcial após um cessar-fogo, eu creio que reflete uma tentativa de evitar uma nova escalada, apesar do Hezbollah não estar em condições de fazer frente a Israel neste momento. E Israel continuará focado nos seus objetivos em Gaza. E apesar desta retirada, Israel mantém uma presença militar muito reforçada nas fronteiras. E mostrando que o cessar-fogo é uma medida temporária, mais pragmática do que uma verdadeira reconciliação, é o que me parece, porque agora também vamos perceber quais são os desenvolvimentos que haverá ali ao lado. Numa dimensão regional, o Hezbollah continua apoiado pelo Irão e apesar de estar enfraquecido, permanece como a força mais significativa ali no sul do Líbano e há de representar sempre uma ameaça permanente para Israel. E este cessar-fogo pode ser visto como uma pausa tática para um lado e para o outro. E a retirada também pode ser interpretada como um sinal para a comunidade internacional, por parte dos israelitas, de que estes não procuram expandir o conflito, especialmente depois das críticas crescentes pelas suas ofensivas. Ou seja, Israel retira-se estrategicamente, mas, do meu ponto de vista, mantém claramente a capacidade de reentrar no Líbano se necessário. Quanto a um impacto geopolítico, o Líbano continua numa situação de fragilidade política e econômica extrema. O que agrava o risco de uma nova escalada, porque o Hezbollah pode interpretar esse cessar-fogo, aliás, cá pra fora vai interpretar sempre uma retirada como uma vitória e pode, naturalmente, alimentar novas tensões para o futuro.

Sim. Entretanto, continua a situação na Síria, esse avançar desta nova vida, nova realidade na Síria. Hoje temos informação de que os Estados Unidos estão a pedir uma proximidade entre Tel Aviv e Washington perante os desenvolvimentos na Síria. Lloyd Austin, o secretário da Defesa norte-americano, disse ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel que os dois países devem estar em contacto próximo sobre os acontecimentos na Síria, sendo que já esta tarde, Netanyahu já disse que Israel vai fazer o que for preciso para se proteger das ameaças que venham da Síria. Portanto, Israel continua aqui num papel muito ativo em território sírio. O que é que podemos tirar desta ligação que os Estados Unidos da América querem com Israel sobre aquilo que se passa na Síria?

Ó Miguel, há meses que o panorama na Síria se torna mais incerto depois da queda de Assad. É evidente que dali é muito difícil nós conseguirmos perceber o que vai acontecer. Mas Israel, aliados naturalmente, não querem que aconteça na Síria aquilo que aconteceu noutros países da região, como por exemplo, já aconteceu no Iraque. Mas aqui eu creio que devemos fazer desde logo o apontamento sobre o atual estado das coisas, relativamente, não às forças beligerantes no terreno, mas à influência. Temos claramente como derrotados o Irão e o eixo da resistência. O Irão tinha expandido a sua rede de milícias pra garantir um corredor terrestre até ao Mediterrâneo. E este eixo Beirute-Bagdá-Irão caiu e a Rússia, claramente já enfraquecida pela guerra na Ucrânia, perdeu agora bases estratégicas na Síria, como por exemplo, Tartus. E depois temos aqueles que não podemos dizer vencedores, mas em melhor posição. Temos uma Turquia focada em combater a presença curda no norte da Síria, que vai consolidando essas zonas-tampão ao longo da sua fronteira. E temos os Estados Unidos, que viu cair o eixo da resistência sem ter que tomar grandes medidas. Mas Washington vê Israel e Tel Aviv como um aliado indispensável, não só para conter uma expansão iraniana, mas também para monitorizar os desdobramentos na Síria. Israel está um pouco dividido entre manter uma política ofensiva contra o Irão e evitar um envolvimento excessivo que possa fragilizar a sua posição. Ou seja, é uma questão muito complexa e que naturalmente será encarada com muita mais assertividade se Washington e Tel Aviv atuarem concertados. Mas agora, se me permite também, e uma vez porque falei nesses paralelismos históricos e gostava de trazer isto aqui ao programa, gostava de fazer aqui um remate. É que a Síria enfrenta desafios monumentais E nomeadamente a sua consolidação e reconstrução, que a distingue de outros processos históricos, como por exemplo, eu falei há pouco da Segunda Guerra Mundial, do pós-Segunda Guerra Mundial. É que na Europa de 45, apesar de haver uma destruição em massa muito maior até que na Síria, as sociedades eram relativamente mais homogêneas. E havia uma presença de estruturas de Estado que eram muito mais fortes e isso facilitava a tarefa dos governos. O povo, na altura, já estava exausto pela guerra, como aqui está, mas era mais propenso a uma cooperação e permitia que os Estados exercessem um controle sem grande resistência. Mas na Síria a realidade é bem diferente. Nós, desde logo, temos uma fragmentação social e sectária. A Síria é um mosaico de grupos étnicos e religiosos. Sunitas, alawitas, curdos, cristãos, entre muitos outros, e muitos dos quais estiveram em lados opostos do conflito. Ora, esta diversidade é exacerbada por uma violência sectária e vai tornar uma qualquer coesão nacional quase impossível. Depois, há também uma situação que se verificava na Palestina e verifica aqui: a ausência de um Estado funcional. E ao contrário de um pós-Segunda Guerra Mundial, os governos reconstruíram nações com um apoio de aliados externos. Mas a Síria é hoje um campo de batalha entre potências regionais e globais. Depois temos também a questão dos deslocados e dos refugiados. Milhões de sírios que foram deslocados vivem como refugiados e a reconstituição das comunidades inteiras vai ser um desafio que vai muito além de infraestruturas. Exige-se aqui uma reconciliação de pessoas com memórias traumáticas de violência. E depois, por fim, temos uma economia completamente destruída. O país não tem recursos financeiros próprios pra reconstrução e qualquer ajuda externa vai ser condicionada por interesses geopolíticos, como tem sido a guerra. Olhando pra isso num panorama geral e tendo em conta aquilo que o Miguel questionou, é evidente que os Estados Unidos e Israel têm todo o interesse em estarem concertados para fazer frente àquilo que há de vir à Síria.

Será um trabalho difícil a fazer na Síria durante os próximos meses. Pedro Nascimento, advogado e investigador de história militar, muito obrigado por ter estado conosco aqui esta tarde na Rádio Observador em mais uma edição de Gabinete de Guerra.