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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Ontem tivemos um ataque com um drone que atingiu a base aérea britânica no Chipre. Temos também França, Reino Unido e Alemanha a considerarem entrar no conflito. Tudo isto aumenta o risco de retaliação iraniana em solo europeu, Bruno?

Me parece que o que os europeus estão a dizer, o caso mais claro é o britânico, porque tivemos ontem aquele ritual do regime parlamentar britânico, do debate com o primeiro-ministro e o que ele disse foi: "Nós achamos que isto é uma guerra mal pensada, sem um objetivo claro. Não nos vamos envolver diretamente nos ataques ao Irão. Não acreditamos", como ele disse, "em mudança de regime a partir do ar, mas vamos defender os nossos aliados na região e vamos permitir também aos nossos aliados usar as nossas bases para se defenderem". Portanto, parece ser uma participação mais indireta. Agora, a grande questão é que o plano de resposta iraniano parece mais bem pensado, ou seja, aquilo que os líderes iranianos têm estado a transmitir. Por exemplo, estava a ver no Financial Times que entrevistou vários responsáveis. Aquilo que eles dizem muito claramente é: a nossa ideia é prolongar o conflito. Estávamos, aliás, a falar disso ontem, é replicar, no fundo, o modelo de comando do que se chama mission command em termos de táticas de operações militares. Ou seja, no fundo, eles delegaram os poderes de comando com objetivos muito gerais aos comandantes que estão dispersos, portanto, aos comandantes das diferentes lançadores de mísseis, etc. Para garantir que mesmo com uma decapitação dos comandos superiores, a máquina de guerra continua a funcionar e o objetivo basicamente é multiplicar os alvos, inclusive violando a lei internacional, isso também é dito de forma mais ou menos clara, atacar aeroportos, hotéis, etc, por exemplo, nos países do Golfo, precisamente para criar um custo econômico muito grande para esses países, afastar, por exemplo, o turismo, tornar muito difícil conseguir novo investimento, fazer uma guerra econômica global com a questão do petróleo e do gás natural, por exemplo, o Golfo ainda é mais importante para o gás natural do que para o petróleo. No fundo, prolongar a guerra com custos muito elevados, nomeadamente em termos econômicos, para tentar forçar os Estados Unidos e Israel a pararem o conflito e garantir que o regime sobreviva. Agora, em relação a ameaças para a Europa, eu diria que são sobretudo indiretas. Tirando para esses países, nomeadamente o Chipre, aliás, a Grécia, que tem uma ligação também histórica, linguística, etc, enviou também reforço para lá, tirando o Chipre e uma pequena zona da Grécia, à partida, mesmo os mísseis e os drones de mais longo alcance do Irão não vão além dos 2000, 2500 km. Portanto, o pode acontecer é outro tipo de retaliação em que o regime também tem provas dadas no passado, e também sempre violando a lei internacional, que é o terrorismo, ações de sabotagem, ciberataques. De fato, isso é algo que o regime pode fazer, uma espécie de retaliação assimétrica e até ao longo do tempo também, não precisa ser necessariamente agora.

Agora já, pois. Na lógica do Irão, a base das Lajes é um alvo militar, mas Bruno, como dizias, não há nenhum míssil iraniano capaz de fazer esse trajeto. Essa pode ser também uma das razões para Portugal não seguir o exemplo de Espanha, que recusou aos Estados Unidos a utilização das suas bases?

Eu penso que, de fato, é um alvo, lá está, com esses meios militares convencionais que o Irão não tem capacidade de atingir. Em termos também desse tipo de ataques, à partida, sendo uma ilha, é suposto haver mais controle e ser mais fácil, apesar de tudo, controlar. Há menos gente a chegar de fora, portanto, isso tudo torna mais difícil mesmo um tipo de ataque não convencional. Me parece que aquilo que explicará a decisão é, por um lado, termos um governo de esquerda e até com uma coligação muito à esquerda em Espanha, que não tem tido problemas, pelo contrário, em ter posições de choque direto com Trump. Isso claramente para certas pessoas é uma coisa boa. Tem uma longa tradição que recua ainda ao período do próprio Franco, que se mantém, por exemplo, até com o próprio rei Juan Carlos. Não é por acaso que ele está exilado nos Emirados, o rei emérito Juan Carlos, que quando abdicou e depois daqueles escândalos, sempre teve uma relação muito próxima, por exemplo, com os monarcas do Golfo. A Espanha sempre investiu muito nas relações com o mundo árabe também, mais do que Portugal, embora Portugal também dê alguma importância. Acho que Portugal parece estar a apostar nesta ideia que apesar de tudo, é um dos aliados de confiança dos Estados Unidos. Essa é a interpretação mais generosa e mais estratégica. Eventualmente a outra é que há aqui uma espécie de inércia ou de receio de dizer que não aos Estados Unidos. Isso já me pareceria um disparate. Acho que Portugal pode dizer que não e se calhar, se os aliados europeus começarem a dizer que não mais aos Estados Unidos, os Estados Unidos percebem que afinal precisam de aliados e que as bases que eles têm na Europa não são a favor aos europeus, mas são uma grande mais-valia estratégica para os Estados Unidos.

Entretanto, Emmanuel Macron anunciou o reforço do arsenal nuclear francês, falou numa nova dissuasão europeia. Bruno, que leitura fazes de tudo isto e nesta altura, a segurança do continente está a mudar?

Está e tem necessariamente mudar. Os europeus realmente têm que ter mais autonomia estratégica e aí há que reconhecer, os franceses às vezes podem ser um pouquinho chatos ou arrogantes, mas têm tido muita razão nisso. No caso nuclear, têm toda a razão. A França é a única verdadeira potência nuclear europeia. A Grã-Bretanha Tem meios nucleares, mas eles não são autônomos dos Estados Unidos. Precisa, por exemplo, de mísseis americanos. E a França realmente sempre quis ter um programa nuclear inteiramente seu, e agora está se vendo a mais-valia, a importância disso. Portanto, parece-me que está muito em linha também com uma crise generalizada da proliferação nuclear, que é um reflexo, nomeadamente, da guerra na Ucrânia. Ou seja, a Ucrânia abdicou de armas nucleares em 1994, em troca de garantias, em troca do tal direito internacional, de garantir que não há guerras de agressão, e viu o seu resultado. E os europeus também podem confiar menos, claramente, na garantia de segurança dos Estados Unidos. Portanto, nós temos este conceito na estratégia nuclear da extended deterrence, uma dissuasão estendida, estender o chapéu da dissuasão nuclear a países aliados. Os Estados Unidos fazem isso historicamente com uma série de países, não só na Europa, mas, por exemplo, o Japão, que também está abertamente a repensar nisso. Se há um país onde há um tabu forte em relação ao nuclear é o Japão, que foi o único país onde foram usadas armas nucleares, mas o governo atual já sinalizou que se calhar vai ter que repensar isso. Portanto, o que estamos assistindo aqui é uma espécie de extended deterrence, esta dissuasão estendida no modelo europeu. Agora vamos ver, isto é Europa. À partida, parece não ser apenas retórica, parece haver aqui uma coisa mais pensada, mas vamos ver depois, na prática, como é que é, quem é que paga, e se realmente se o acordo tem aqui suficiente solidez. Mas era muito importante que sim, em particular a Alemanha e a Polônia estão muito interessadas nisso, obviamente, por causa da ameaça crescente russa.

Claro. Sobre o ataque desta noite do Irã à embaixada dos Estados Unidos em Riade, Donald Trump já disse que vai responder. Que mais pode os Estados Unidos fazer, além do que já está a ser feito? O Irã também diz que vai lançar ataques ainda mais fortes.

Em certo sentido, é o início e o fim, ou se quisermos, o início e a fase mais recente do regime iraniano a tocar. O regime iraniano atual começou a sua vida com uma violação grosseira do direito internacional, que foi atacar a embaixada norte-americana, raptar durante mais de um ano os diplomatas norte-americanos. Ora, como nós sabemos, desde a Antiguidade, que há esta ideia da imunidade dos diplomatas. Quando alguém aparece com uma bandeirinha branca, no meio de qualquer conflito, à partida, não é a seguir preso ou maltratado pelo inimigo. O Irã começou assim em 1979, e é também isso que explica muito a hostilidade histórica entre o Irã e os Estados Unidos desde aí, o fato que desde 1980 os Estados Unidos e o Irã não terem relações diplomáticas. E agora, este também é mais um exemplo desse tipo de ataques indiscriminados e violando a lei internacional. Em termos da reação americana, vamos ver. Como eu digo, eu não tenho, e muitos analistas também americanos, e até alguns elementos do próprio partido. Talvez uma das coisas mais interessantes ontem foi uma entrevista do Erik Prince, que foi o responsável da Blackwater, daquela empresa de segurança privada, portanto, não é propriamente um pacifista, e um apoiante do Donald Trump, com o Steve Bannon, outro apoiante do Donald Trump, a dizer: "Bem, aqui o plano parece ser partimos tudo e depois logo se vê como é que os outros vêm colar isto". Portanto, acho que realmente não há aqui uma ideia muito clara. Vamos ver se em termos militares as coisas estão melhor preparadas. À partida, as Forças Armadas americanas continuam a ser muito competentes, mas realmente não sei exatamente o que isso quer dizer.

O que significa, sim.

E o presidente também não esclareceu.

Mas Bruno, arrastar tropas militares para uma guerra não é uma ação popular. Muitos votaram em Donald Trump por dizer ser o homem da paz. Trump não está preocupado com as eleições intercalares.

A mim parece-me que ele se convenceu e continua convencido, por exemplo, com a experiência da Venezuela, que realmente consegue controlar estas coisas e consegue com muito poucos custos ter ganhos, declarar aqui uma vitória. Ainda ontem ouvimos, penso que foi o Pete Hegseth dizer: "Isto acaba quando o presidente decidir que acaba". Isso é uma declaração absolutamente extraordinária. Eu acho que aqui o inimigo é capaz de ter um voto. Mas o presidente americano controla o que o Irã vai fazer, assim sem mais. Portanto, parece-me que talvez por isso, de facto, houve aqui uma eventual subestimação do que isso podia custar, nomeadamente em termos econômicos e também em termos políticos no interior dos Estados Unidos. Mas isso também pode querer dizer que realmente Trump estará determinado a acabar isto com alguma rapidez e que possa haver depois alguma convergência de interesse com o próprio regime iraniano. Portanto, se for um conflito não muito prolongado, realmente os custos, mesmo todos estes custos econômicos, no fundo, só se tornam reais se o conflito se prolongar e se começarem a traduzir, não em especulação em bolsa ou preços virtuais ainda, mas depois preços, por exemplo, na bomba de gasolina, com todos os impactos que depois vêm a seguir. Isso realmente implica um conflito que não dure apenas alguns dias. Portanto, vamos ver.

Sim. Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise. Boa semana, Bruno.

Bom dia. Obrigado.

Obrigada. Bom dia.