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Gabinete de Guerra, programa da Rádio Observador em que falamos de conflitos em curso. Sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa nos próximos minutos com o Major-General Isidro Morais Pereira. Muito obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Comecemos pelo que sai da União Europeia. Há um entendimento falhado. Ministros das Defesas da União Europeia não conseguem chegar a acordo quanto à entrega de Patriots à Ucrânia. Foi divulgado isto na última hora. Major-General, o que se passa aqui na União Europeia e que problemas pode isso trazer para a Ucrânia não haver este entendimento?
Todos nós sabemos que uma das grandes deficiências ou algo que precisa de ser colmatado, uma vulnerabilidade, melhor dizendo, das Forças Armadas ucranianas neste momento, é a falta de sistemas de defesa antiaérea, fundamentalmente aqueles que permitem combater com eficácia os mísseis balísticos. E não são muitos os sistemas capazes de combater com eficácia os mísseis balísticos no mundo. Com capacidade séria e comprovada, são as baterias Patriot, fundamentalmente aquele que se designa por PAC 3, que é diferente do PAC 2. Foi construído e concebido para atingir alvos de pequenas dimensões, designadamente mísseis que se movem em grande velocidade. Portanto, nós sabemos que pelo menos na Ucrânia existe uma bateria de Patriot PAC 3. Israel também tem o sistema que foi concebido com base no Patriot PAC 3, que é o sistema Arrow 3, que foi utilizado agora, fez este fim de semana, uma semana, e que permitiu interceptar a grande maioria dos mísseis balísticos. E depois temos na Europa, de fabrico exclusivamente europeu, só há verdadeiramente um sistema capaz de detetar, monitorizar, seguir e depois interceptar mísseis balísticos que movem a grande velocidade e nas camadas altas da atmosfera ou mesmo na ionosfera ou troposfera. Portanto, a mais de 100 km de altitude, que é o sistema que é conhecido, é um sistema de fabrico franco-italiano, é um consórcio francês e italiano, e o sistema é conhecido por vários nomes, é o Aster 35 SAMP/T, também muito conhecido pelos SAMP/Ts. Ainda agora o chanceler Scholz, alemão, disse que na iniciativa que está a ser capitaneada exatamente pela Alemanha, no sentido de conseguir enviar pra Ucrânia mais sistemas desta natureza, ele próprio terá dito que na Europa existem vários sistemas SAMP/T. E o sistema SAMP/T também é eficaz. Não tem o alcance que tem o Patriot PAC 3, que consegue interceptar alvos desta natureza a mais de quase 200 km de distância. O sistema Aster 35 SAMP/T consegue uma distância ligeiramente inferior, vai conseguir o máximo até aos 120 km. Mas de qualquer maneira, é um belíssimo sistema e funciona também muitíssimo bem. Portanto, não se chegou a acordo na União Europeia por uma razão muito simples: é o que a União Europeia já nos habituou. Quer dizer, depois de três, quatro reuniões, finalmente, utilizando aquele mecanismo de convencimento dos mais renitentes, que é normalmente o fornecimento de determinados fundos, determinadas facilidades que os países ambicionam, depois de algumas sessões, acaba por se chegar a acordo. É a forma de funcionar da União Europeia.
O que estamos a assistir neste momento é a Rússia constantemente a conseguir avanços. Só notícias de hoje: "Rússia ganha terreno e aproxima-se com sucesso da cidade de Chasiv Yar, em Donetsk". Depois, "Rússia reclama a tomada da vila de Novomykhailivka, a sul de Donetsk". Portanto, estamos a ver notícias dessas todos os dias, avanços constantes, que mostram que a Ucrânia, de facto, muito diferente daquilo que aconteceu o ano passado, em que tinha uma contraofensiva de verão. Este ano, parece que estamos a assistir a constantes avanços russos e este entrave que vem dos aliados, Europa e Estados Unidos. Estados Unidos desbloqueou no fim de semana o envio de armamento e de financiamento pra Ucrânia, mas estes atrasos constantes nos aliados estão a dificultar o combate ucraniano?
Estão. Sobretudo, estão a dificultar o combate ucraniano e estão a provocar um conjunto de baixas militares, de mortos e feridos no dispositivo militar ucraniano, que se a Europa e o Ocidente têm sido mais lestos, mais rápidos a fornecer aquilo que a Ucrânia, de facto, necessita, se calhar teriam sido evitadas muitas mortes. E também muitos ataques que têm sido feitos a infraestruturas civis ou que apoiam a vida das populações ucranianas, porque a Ucrânia é um país imenso. Na Europa Ocidental, não há nenhum país do tamanho da Ucrânia. O país da Europa Ocidental de maior dimensão é a França, e a França não é tão grande como a Ucrânia. A Ucrânia tem quase mais de 200 mil km², não é? Portanto, é um país imenso e que pra ter uma cobertura antiaérea eficaz Já que não têm aviões, a cobertura antiaérea e a defesa do espaço aéreo de um país faz-se com duas componentes: uma componente baseada em aviões que estão no ar constantemente em patrulha aérea, prontos pra interceptar outras aeronaves em luta aérea, helicópteros ou até mesmo mísseis. E faz-se, fundamentalmente, e com grande proficiência, com armas antiaéreas de longo alcance, de médio alcance e de curto alcance, baseadas em terra, num sistema em várias camadas. Dou-lhe o exemplo de Israel, que talvez no mundo seja o país que está melhor defendido ou com melhor defesa dos países.
A Ucrânia até pediu um sistema semelhante.
A Ucrânia pediu um sistema semelhante. É evidente que pra fornecer à Ucrânia um sistema semelhante àquele que tem Israel, o Ocidente tinha que se desdobrar num esforço gigantesco.
E é preciso tempo.
E é preciso tempo. Grande parte do problema ficaria solucionado se muitos países europeus fornecessem uma parte substancial dos sistemas de defesa antiaérea que têm. Porque foi feito um levantamento, inclusivamente pela Alemanha, e na Europa existem cerca de 100 baterias Patriot. Estamos a falar de 100, uma centena de baterias Patriot. A Alemanha, que já tinha fornecido duas baterias Patriot, neste momento já estará na Ucrânia mais uma bateria Patriot e estará a caminho, talvez na semana que vem, fazendo fé naquilo que foram as palavras do CEO da Diehl Defence, que é um grande consórcio industrial militar alemão, mais uma bateria IRIS-T. A Alemanha, daquelas sete baterias que o Kuleba, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia pediu aos seus aliados ocidentais, dizendo: "No mínimo, nós precisamos de mais sete baterias Patriot ou semelhantes". As únicas que existem similares ao Patriot é a bateria SAMP/T, a Aster 35 SAMP/T, também conhecida por Mamba, e que existem algumas na Europa. E depois existem também, por exemplo, na Grécia, por isso é que está a ser feita uma pressão grande sobre a Grécia e até sobre a Espanha. A Espanha é mais sistemas Patriot e a Grécia tem muitos sistemas S-300 do tempo da União Soviética, que também funcionam. E a Grécia está também sendo pressionada a fornecer parte desses sistemas S-300 à Ucrânia. Agora, vamos lá ver, se parte desses sistemas fossem fornecidos, a Ucrânia teria parte do problema resolvido. Nunca teria do pé pra mão um sistema de defesa antiaéreo tão eficaz como tem Israel, até porque falta a componente aérea. Os F-16 ainda não chegaram. Os F-16 são lá pra junho.
Jorge Arnold, enquanto temos este impasse quanto a armamento e sistemas de defesa, tivemos agora a informação também de que a União Europeia vai avançar com o 14º pacote de sanções à Rússia. Não se sabe muito bem como, nem para quê as sanções aqui.
Já há umas indicações.
Sim.
Portanto, este 14º pacote de sanções, eu julgo que a União Europeia tem vindo a aprender com as sanções e com o efeito que elas, na realidade, têm vindo a produzir na economia russa e na sua capacidade, inclusivamente, de produzir armamento de qualidade ou tecnologicamente avançado. E é com base precisamente nas lições aprendidas que neste momento me parece, e aquilo que eu li, que consegui de alguma forma apreender da informação escassa, as partes que existem acerca desse 14º pacote, é que esse 14º pacote será muito mais direcionado. Não será um pacote de largo espectro e que está a ser fundamentalmente direcionado sobre entidades e empresas que estão de alguma forma a evadir as sanções e a conseguirem, de forma indireta, continuar a fornecer determinados equipamentos tecnológicos à Rússia. Parece-me que é por aí. E igual metodologia também está a ser utilizada pelos Estados Unidos nas sanções que agora pretendem também continuar, não apenas a impor à Rússia, mas também desta feita ao Irão e à China. A China está a ser avisada que pode ser fortemente sancionada, porque continua a fornecer muitos equipamentos de duplo uso. A China diz: "Não, isso não tem nada a ver com armamento", mas tem, porque são equipamentos a partir dos quais se podem extrair os microchips que depois permitem fabricar armamento moderno e de alta precisão.
Jorge Arnold, vamos claro depois aguardar por esse pacote de medidas e detalhá-lo melhor noutras edições do "Guerra e Paz". Eu gostava de falar aqui também um bocadinho sobre o Irão, porque hoje foi dito pelo presidente de Israel, Isaac Herzog, numa entrevista concedida ao jornal Politico, que a Europa tem de acordar e enfrentar a ameaça do Irão. Isto foi o que disse o presidente de Israel. Como é que são estas palavras?
É um facto. Aliás, estas palavras não são palavras originais, e por que eu digo isto? Na sequência da aprovação pela Câmara Baixa norte-americana, no último sábado, destes quatro projetos de lei que permitem que os Estados Unidos finalmente libertem quase 100 bilhões de dólares em ajuda, quer à Ucrânia, quer a Israel, quer a Taiwan, quer outros necessitados no mundo Foi referida uma frase lapidar: finalmente os republicanos acordaram para a verdade. Finalmente os republicanos perceberam que existe um eixo do mal que está a desafiar os Estados Unidos. Os Estados Unidos ficaram malvistos quando, em 2021, de forma apressada e desorganizada, acabaram por se retirar do Afeganistão, dando uma ideia de fraqueza. Os Estados Unidos, neste momento, acordaram para a existência de um eixo do mal que desafia uma ordem internacional vigente, erigida no pós-Segunda Guerra Mundial, baseada em regras, onde se pretende que impere a força do direito e, neste caso, o direito internacional e o direito internacional humanitário sobre o direito da força, e que o princípio da inviolabilidade das fronteiras esteja devidamente consagrado na Carta das Nações Unidas e que diz claramente que os diferendos entre os países se resolvem pela via da negociação. A guerra é um ato ilegítimo, a não ser em determinadas situações, como nós sabemos, está no artigo 51 da Carta das Nações Unidas, que consagra a legítima defesa no caso de haver uma agressão, mas que deve ser proporcional. Portanto, há aquelas condições todas. Ou, como está no artigo 52, que também abre uma exceção, perante uma ameaça nas fronteiras comprovadamente existente, os países podem levar a cabo ações preventivas. São as únicas duas exceções na Carta das Nações Unidas, e todos os países concordaram com isto. E os americanos, de uma forma geral, estão a perceber que há um conjunto, e quando falo do eixo do mal, o Irão está lá incluído. É a Federação Russa, a Coreia do Norte, que não nos admira, é o Irão e, neste momento, é a China. É precisamente este conjunto de países. O Irão, e já que me falou sobre o Irão, é comprovadamente o maior patrocinador do terrorismo internacional de raiz islâmica extremista, como nós sabemos. Grande parte dos atentados terroristas que são levados a cabo, não apenas no Médio Oriente, mas muitas vezes até por lobos solitários na Europa ou nos Estados Unidos ou no Canadá, no mundo ocidental, e até mesmo no Médio Oriente. Porque nós sabemos que os países muçulmanos não são uniforme. Existem ali duas correntes que se digladiam fortemente umas às outras. Os sunitas e os xiitas não fazem muito por eles, uns para os outros são infiéis. São como os cristãos e como os judeus.
Para concluir, mais uma vez.
O presidente israelita tem toda a razão quando diz que o Irão é o principal patrocinador desta instabilidade, quer no Médio Oriente, e que se não for contida, pode ser uma instabilidade que se pode propagar a todo o mundo ocidental, fundamentalmente, e é preciso conter o Irão, de facto. É preciso levar esta ameaça iraniana a sério. Não é fazer de conta que ela não existe ou varrê-la para debaixo do tapete. É fundamentalmente isso que Isaac Herzog pretende dizer ao mundo ocidental.
Claro. Major-general Izidro Morais Pereira, muito obrigado por ter estado conosco em mais uma edição de "Ponto de Vista".
Nada, obrigado eu. É sempre um gosto.