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Abrimos agora o Gabinete Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, está comigo o Luís Soares e esta manhã contamos com a análise e opinião de Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Bom dia, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito bom dia. Obrigada.
O secretário de Estado norte-americano Antony Blinken está em Kiev para se encontrar com Zelensky, num dia que fica novamente marcado por ataques à capital ucraniana, precisamente, mas também ao porto de Odessa. Mónica Dias, o que é que podemos esperar desta visita?
Sempre quando há visitas, temos também muitos ataques, os ataques são diários, mas obviamente nestas ocasiões aparecem reforçados. E temos aqui um sinal muito importante por parte dos Estados Unidos de que está com a Ucrânia e quer continuar a apoiar, não só militar e financeiramente, mas também politicamente, sobretudo quando temos também notícias de que a Coreia do Norte quer apoiar militarmente a Rússia e, portanto, os Estados Unidos já emitiram um aviso muito claro e acutilante contra a Coreia do Norte. E esta visita prova isso mesmo, que este é um território firme, consagrado na lei internacional e os Estados Unidos estão aqui para apoiar com todos os seus aliados, também com a NATO. E aqui onde os ataques acontecem, Odessa, uma cidade muito importante também por causa do porto que aqui se encontra, com muitos armazéns, é daqui que partem os navios com os cereais através do mar e depois para outros continentes, com certeza. Portanto, esta visita tem um enorme significado a vários níveis, mas o mais importante é dizer que, de facto, os Estados Unidos são um aliado que cumpre e que está ao lado de Zelensky.
É importante, e como dizia Mónica Dias, a Casa Branca diz que a Coreia do Norte vai pagar um preço se fornecer armas à Rússia. Isto a propósito da visita de Kim Jong-un, que planeia fazer ainda este mês a Moscovo, embora o Kremlin não o confirme. Que reação podem ter os Estados Unidos a esta aproximação entre Rússia e Coreia do Norte?
A Coreia do Norte já é um país absolutamente isolado, internamente e por vontade própria, mas também é considerado um Estado pária pelos Estados Unidos e no concerto das Nações Unidas é também, obviamente, um Estado completamente à parte. Um regime de uma ditadura, um regime totalitário, com a sua população também a sofrer há décadas, portanto um país muito em particular. E obviamente que, temos que agora recordar, quando ouvimos estas declarações dos Estados Unidos, a visita de Donald Trump à Coreia do Norte. Não foi há tanto tempo, foi em 2019, em que Donald Trump, de uma forma também muito polêmica na altura e com muita contestação e críticas internas do próprio Estados Unidos, mas também da Europa e de outros membros da NATO, visitou, apresentando-se como um grande amigo, como se este líder pudesse ser, de facto, um parceiro de confiança. Obviamente que Trump, na altura, esperava conseguir alguma conciliação, talvez com a Coreia do Sul, ou tinha outras ideias na sua cabeça. Com Trump é sempre muito difícil acertarmos o que poderá acontecer ou quais são os verdadeiros planos, porque geralmente não há planos. Mas o que é importante, e eu menciono isso, é porque na altura foi dada a possibilidade a uma colaboração, uma tentativa dos Estados Unidos darem a mão a este Estado para que pudesse sair do seu isolamento. E neste momento, os Estados Unidos é que dizem que cai tudo por terra e Kim Jong-un está ainda mais isolado e haverá mais sanções e mais dificuldades na arena internacional e, sobretudo, em relação aos Estados Unidos. Todas as perspectivas criadas no passado, e sobretudo com Donald Trump, não se vão realizar. Portanto, é uma forma muito poderosa de reagir imediatamente às declarações, porque, como disse, e eu acho que isso é importante, o Kremlin ainda não confirmou, mas, na verdade, Putin não tem muito por onde escolher. Este não é o parceiro ideal para Putin, porque aliás é um Estado pária, não engrandece em nada a Rússia e também não o próprio Putin, mas Putin está desesperado em todas as linhas de combate, não só no campo de batalha, mas também na sua economia, e precisa desesperadamente obter mais munições e obter mais apoios que possa ter também na arena internacional. Portanto, esta visita a acontecer, que ainda não está certa, mas vai outra vez proporcionar a Putin aquelas imagens que ele gosta muito, com muitas pessoas a aclamar, um encontro, copos de champanhe, brindes, e que vão apresentar Putin na sua imprensa, que não é uma imprensa, mas uma máquina de propaganda, vai apresentá-lo novamente como um grande estadista que se reúne com líderes de todo o mundo, agora com Kim Jong-un. A meu ver, esta atitude mostra o desprezo, perdão, o estado de desespero de Putin também, e agarrar-se a qualquer aliado que possa ter, não há muitos. E, por outro lado, os Estados Unidos imediatamente reagirem e dizerem que este será um caminho perigoso até para a própria Coreia do Norte.
No sentido do que está a dizer, Mónica Dias, Vladimir Putin voltou a atacar Zelensky, disse que o Ocidente colocou no poder um judeu que esconde a glorificação do nazismo. O conselheiro de Zelensky já respondeu a dizer que isto é uma confirmação de que o presidente russo vive no próprio mundo. Estamos nesta altura, ou Vladimir Putin está nesta altura a tentar voltar à narrativa do início da guerra? Ele esgotou outros argumentos para sustentar esta invasão
Sim, é uma pergunta muito pertinente. Eu acho é que não voltou ao início da sua narrativa, porque nunca deixou de ter esta narrativa, porque não tem outra. Portanto, esta narrativa da grande Rússia, do combate contra os nazis, esteve sempre presente ao longo de toda a guerra, é apresentada como a grande causa da guerra e obviamente já se percebeu que não corresponde à verdade. Aliás, é completamente absurda, no sentido em tornar alvo o próprio Zelensky nesta acusação de ser um antigo judeu que agora se tornou nazi. E obviamente não podemos esquecer na nossa análise que, de facto, na Ucrânia há também grupos de extrema-direita, há grupos radicais, sempre houve, e curiosamente muitos desses estavam precisamente alinhados com a Rússia. Temos que obviamente ser objetivos na nossa avaliação e dizer que esses fenómenos existiram e existem também na Ucrânia. Contudo, com Zelensky e com um governo cada vez mais estável e com um desenvolvimento, sobretudo a partir do novo milénio e sobretudo a partir de 2010, a partir dessa altura, 2014, sobretudo quando Zelensky foi eleito, há uma tentativa de tornar a Ucrânia cada vez mais um Estado de direito, com divisão de poderes, com uma sociedade civil forte, com precisamente denúncias destes grupos radicais de extrema-direita que se opõem ao Parlamento e ao funcionamento positivo, claro e regular do Estado de direito. Não faz qualquer sentido esta narrativa e eu acho que da parte de Putin não podemos esperar qualquer discurso sensato, porque nenhum discurso faz sentido, nenhum discurso sobre nenhum dos temas, porque no mundo de Putin esta invasão é uma defesa e aquilo que é a guerra é chamada de operação de paz. Temos que lembrar-nos aqui de Orwell e deste texto famoso que é "1984". Eu nunca pensei, quando li pela primeira vez nos anos 80, que algo como isso podia vir a repetir-se, e pensar: "Mas como é que isto foi possível? Como é que, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, foi possível se acreditar isso?" Porque há uma máquina de propaganda muito forte, hoje também disseminada nas redes sociais. Há muitas outras causas, a situação de constante propaganda nas escolas, quando começa já desde 2000 da sociedade russa. Temos que entender que esta narrativa não surge de repente, é uma narrativa que se desenvolve e que esta propaganda marca todas as instituições, as universidades, as escolas russas. É esta a realidade, com a inexistência, neste momento, a inexistência mesmo de uma imprensa livre na Rússia e também com a inexistência de políticos moderados e partidos moderados que querem, por exemplo, denunciar a própria corrupção dentro da Rússia. Navalny, mas também Kara-Murza estão na prisão com penas elevadíssimas. Tudo isto para dizer que este discurso de Putin é uma construção que justifica a sua invasão, a sua guerra, a sua própria existência, se quisermos.
E que ele vai defender até ao fim, não é?
Sim.
Mónica Dias, entretanto soube-se que o piloto russo que desertou para a Ucrânia com a ajuda dos serviços secretos militares e que levou com ele um helicóptero de carga, vai receber uma recompensa de cerca de 466 mil euros. Por que esta recompensa monetária? Há aqui algum objetivo de tentar atrair outros combatentes russos?
É uma questão interessante, mas eu devo ser sincera, porque sabe-se pouco ainda sobre todo este processo. Não há dados suficientes, não sabemos, em meu entender, ou eu, melhor, deve haver alguém que saiba muito bem, mas eu não tenho informações que permitam fazer aqui uma análise rigorosa. Parece-me que esta história é muito conveniente também à Ucrânia e obviamente ao Ocidente. Seria muito interessante haver uma recompensa, seria obviamente para com isso atrair mais soldados russos e combatentes russos a precisamente desertarem e a trazerem não só prêmios tão valiosos da batalha para o lado da Ucrânia. Obviamente que eu gostaria, e nós gostaríamos muito que isso fosse assim, mas não sabemos também em que medida é que não está a ser aqui utilizado também para a narrativa da Ucrânia e nossa este argumento. Sabemos pouco, devemos ser prudentes na nossa análise e observar que sim, é alguém que passa de um lado para o outro e que denuncia, mas temos que ter muito cuidado na nossa análise.
Professora Mónica Dias, o grupo Wagner vai ser oficialmente reconhecido no Reino Unido como uma organização terrorista, vai passar a ser ilegal ser membro ou apoiar o grupo. Por que agora ou por que só agora?
Neste momento, há um projeto de lei nesse sentido, que foi apresentado pelo governo, e a ideia é de que o Grupo Wagner esteja numa lista de organizações terroristas, tal como a Al-Qaeda ou também o alegado Estado Islâmico. Equiparar o Grupo Wagner ao terrorismo surge agora quando há dois cenários muito interessantes. O primeiro é que, obviamente, o Grupo Wagner ficou decapitado. Está, neste momento, em reorganização, não é o Grupo Wagner que existia há muito tempo. E, por outro lado, não esquecer que este projeto existia há muito tempo. Repare que o Grupo Wagner é um grupo composto por combatentes que operam à qualquer margem de convenções internacionais, que os Estados têm de cumprir. É uma organização extremamente violenta, comete várias atrocidades: tortura, fuzilamentos, violações. Vimos as imagens de Bakhmut, mas na Síria, em 2015, este grupo já estava a operar, exactamente com toda a sua violência, mas também na Líbia, no Sudão, na República Central Africana, e isto para nós é muito importante, por exemplo, em Moçambique, em 2019. Aí este Grupo Wagner ajudou o governo de Moçambique a repelir precisamente o alegado Estado Islâmico. Agora, não podemos esquecer que sempre foi um grupo com métodos terroristas. Até agora não era um grupo terrorista, porque tinha uma organização muito concreta, e servia o Estado russo. E neste momento, após a queda de Prigozhin, aí sim, o governo inglês formaliza e apresenta formalmente este projeto, porque, de facto, diz que, nas palavras da ministra Suella Braverman, que ameaça a segurança global e está ao serviço da Rússia e que os seus membros devem ser julgados num tribunal especial, por causa dos crimes graves que cometeram. Eu creio que isto se justifica porque o Grupo Wagner está, neste momento, em reestruturação, portanto, é o momento certo para fazê-lo, mas na verdade, devia ter sido feito já há muito mais tempo, porque apesar de o terrorismo ter definições diferentes, formalmente, este é um grupo de combatentes, aliás, muitos deles são prisioneiros libertados, pessoas extremamente violentas, criminosos. Não criminosos de guerra, só criminosos mesmo. E portanto, é um grupo que deve ser absolutamente marginalizado e quem pertence a esse grupo deve também ser criminalizado. Portanto, saúdo esta decisão e espero que esta declaração formal fosse também tomada por muitos outros Estados.
Professora Mónica Dias, gostámos muito de a ter connosco. Muito obrigada por fazer parte deste Gabinete de Guerra. Um bom dia, professora.
Obrigada. Muito obrigada.
Muito obrigada.