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Este é o Som do Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bruno, começamos pela Ucrânia. A Rússia está a apertar o cerco em Pokrovsk. Estamos a falar da cidade que define o destino do Donbass e por essa razão é um bastião essencial para Zelensky. Já para Putin, a captura desta cidade significa o controle de quase todo o leste da Ucrânia. Bruno, esta pode ser a batalha que vai marcar este inverno?

Sim, é possível que continue a haver operações agora durante um período, até porque no momento atual em que os drones condicionam muitas operações, temos esse paradoxo que é mau tempo, em certo sentido, pode facilitar mais operações ofensivas, no sentido que torna a visibilidade mais complicada e, portanto, permite mais movimentos de tropas, que são mais difíceis quando os drones têm boa visibilidade. Em relação ao significado de Pokrovsk, eu acho que isso também depende um pouco das opções ucranianas e da evolução de uma série de fatores, mas à partida, a função de Pokrovsk como uma espécie de nó logístico que estava na encruzilhada de uma série de vias de comunicação, essa função já foi perdida há bastante tempo. E também dificilmente os russos conseguirão fazer grande uso da cidade nesse sentido. Os ucranianos também terão preparado linhas defensivas, a uns 10, 15 km da zona. Portanto, à partida, a queda não implicará necessariamente um colapso da frente. Agora, aparentemente, a Ucrânia está a decidir transformar Pokrovsk um pouco numa espécie de nova Bakhmut, ou seja, parece estar a concentrar uma série de unidades de elite nessa zona. Aí o risco é que, numa altura em que um dos grandes problemas da Ucrânia é a falta de efetivos, a dificuldade, de facto, em compensar as perdas na linha da frente, este redobrar dessa aposta para causar o máximo de baixas russas, e as baixas russas também têm sido sempre muito elevadas nestas ofensivas, que isso acabe por criar o risco de perdas muito significativas. Eu diria que sobretudo podia ter um efeito desmoralizador muito importante para tropas ucranianas que estão, em muitos casos, a combater com pouco descanso desde o início da guerra, haver uma perda significativa de forças, inclusive um aprisionamento de forças significativas, se houver realmente uma espécie de fechade deste saliente, que é sempre uma espécie de bolha na linha da frente, que é sempre uma área onde é mais difícil combater com eficácia e onde há o risco realmente de envolvimento dessas forças. Ou seja, se temos um saliente, uma espécie de bolha, se de repente essa bolha é cortada, a zona que liga esse saliente ao resto da frente é cortada, pode haver o risco realmente da perda de forças significativas. Sobretudo também num ambiente que se tornou muito mais perigoso, lá está, por causa desta saturação de drones, em que é mais difícil fazer uma retirada controlada e em segurança. O que parece evidente é que os dois lados estão claramente a apostar muito nesta cidade, mesmo que, do meu ponto de vista, em termos de funções, lá está, novamente, nó logístico, etc, a sua importância já tenha decaído muito e não é provável que volte. Há esse significado também político, que é a ideia de que permita à Rússia ter mais um bocadinho do Donbass e portanto, nesse sentido, reclamar uma vitória política. Mas realmente, a este ritmo, a Rússia ainda terá muito tempo e muitas baixas para conseguir isso, não havendo, de facto, um colapso da frente ucraniana.

Antes de passarmos para o Médio Oriente, um outro foco de tensão. Os Estados Unidos dizem que se a Rússia apoiar Nicolás Maduro, será cúmplice da morte de americanos. Bruno, Trump e Putin estão ou poderão entrar em colisão por causa da Venezuela, onde há concentração de forças americanas junto à fronteira?

Temos realmente falado isso. Eu comecei por destacar que o perfil da força era relativamente limitado e portanto apontava mais para ataques do gênero daqueles que já estão a acontecer, contralanchas e eventualmente ataques aéreos. Neste momento, a força já está a aumentar significativamente. Já estamos a falar não de 4500 soldados, mas talvez 10 mil. Estamos a falar de 10 meios navais significativos, também de uma concentração de aviões, nomeadamente F-35, inclusive usando também o Porto Rico e Trinidad e Tobago, que é uma ilha que se tornou bastante próxima dos Estados Unidos, um estado insular das Caraíbas, mas que está a poucos quilômetros da costa venezuelana. E temos também esta deslocação do porta-aviões do Gerald Ford a partir do Mediterrâneo, que realmente é um meio muito significativo. Só o Gerald Ford tem volta de 75 aviões, portanto, pode aumentar muito essa capacidade de ataques aéreos. Mas também há especulação de eventualmente até raids terrestres. Eu diria, para já, mesmo com este volume, não temos aqui um perfil que indique uma invasão em grande escala da Venezuela, que é um país 10 vezes maior que o Panamá. Os americanos, quando invadiram o Panamá em 1989, além de terem tropas no canal do Panamá, mobilizaram volta de 30 mil soldados. Portanto, apesar de tudo, ainda não estamos aí. Mas realmente há aqui números que apontam para uma concentração de forças muito significativa e portanto, isto pode em si mesmo ter aqui um objetivo de fazer pressão sobre o regime, mas há especulação crescente nesse sentido, que pode indicar pelo menos ataques aéreos mais significativos contra, eventualmente, bases militares ou eventualmente até raids terrestres. E claramente, o regime Maduro está desesperado por ajuda, ou seja, já temos notícia que apelou ao Irão para lhe fornecer drones e também terá apelado à Rússia, que são aliados tradicionais, que têm sido cruciais para manter o regime. Agora, o que é facto é que o regime russo também está muito condicionado pela guerra na Ucrânia. O Irão também sofreu aqui perdas grandes por causa do conflito com Israel, portanto, não é evidente que tenham assim tanta disponibilidade ou até interesse também em ajudar, porque realmente isso seria visto por Donald Trump claramente como uma provocação, um choque direto e portanto, poderia intensificar as tensões entre a Rússia e os Estados Unidos, e eventualmente levar os Estados Unidos, por exemplo, a libertar meios, coisas como os Tomahawks, por exemplo, para a Ucrânia.

Quanto ao Médio Oriente, a administração de Trump apresentou no Conselho de Segurança da ONU uma proposta para a criação de uma força internacional de estabilização na Faixa de Gaza. Teria um mandato de dois anos para controlar as fronteiras, proteger civis, treinar uma nova polícia palestiniana e desarmar o Hamas. Mas, Bruno, há vários oficiais israelitas preocupados com esta ideia, porque dizem que isso limita a liberdade de ação das IDF.

E à partida limita. A ideia toda é essa, que limite precisamente a liberdade de ação das IDF. Sendo que a contrapartida é que iriam ter como responsabilidade também garantir realmente o desarmamento dos grupos armados palestinianos, o Hamas e os outros. E nesse sentido também dar uma garantia internacional de segurança a Israel, mas com essa contrapartida, que é retirar margem de manobra a Israel, portanto, também dar mais garantias de segurança aos civis palestinianos, porque todo o trade off é esse. Enfim, pode-se perceber que isso causa algum desconforto em certos sectores em Israel, mas a verdade é que isso devia ser evidente desde o início do plano. Não se pode dizer que é propriamente uma surpresa ou uma novidade. E deste ponto de vista, não sei muito bem como interpretar aqui estas notícias de que há esse desconforto. Vamos ver se é um sinal de que o governo de Israel, de alguma forma, está aqui a procurar justificações para começar a colocar problemas desse ponto de vista, mas realmente, à partida, foi esse o plano com que o governo israelita se comprometeu com Donald Trump.

Ainda o Sudão. A guerra civil começou em 2023, mas os conflitos têm-se intensificado nos últimos tempos. Bruno, as Nações Unidas denunciam execuções sumárias e já houve mais de 3 milhões de pessoas que saíram do país.

Sim, há 12 milhões de deslocados, desses 3 milhões e mais o resto que se deslocou, foi forçado a encontrar refúgio no interior do próprio Sudão, pelo menos 150 mil mortos. E realmente, isto é uma espécie de crônica de massacres anunciados, porque o grupo que está envolvido nestas ações, nomeadamente este cerco em faixa na zona de Darfur, é um grupo que emerge a partir dos Janjawida, aquelas milícias que já foram acusadas de práticas genocidas contra os africanos de Darfur, precisamente há umas décadas atrás, no contexto da anterior guerra civil sudanesa, portanto, esta já é a terceira. Mas desde a independência, basicamente o Sudão teve 10 anos de paz, teve três guerras civis, uma multiplicidade de golpes de Estado. E realmente, no fundo, aqui a questão é: por que não houve mais alertas mais cedo? Esta já era a crise humanitária mais grave há muito tempo e portanto, mesmo as próprias Nações Unidas podem ser um pouco criticadas, porque realmente não pareceu ser a grande prioridade em termos de avisos, alertas das Nações Unidas, quando isso já se justificava há bastante mais tempo. Esperemos que agora haja uma maior reação da comunidade internacional, sendo que aqui temos esta questão, que é os protagonistas principais não são nem de perto, nem de longe aliados do Ocidente, em particular em relação a esta milícia. Estamos a falar da Rússia e dos Emirados Árabes Unidos como os grandes patrocinadores deste grupo. Aparentemente, os Emirados, que apesar de tudo têm relações mais próximas com o Ocidente, já sentiram alguma pressão e já há sinais de que estão, pelo menos publicamente, a dizer que estão a questionar esse apoio e que eventualmente irão fazer pressão no sentido de algum tipo de cessar-fogo, que está em cima da mesa por proposta norte-americana. Portanto, vamos ver se isso se concretiza.

Bruno Cartaxo Reis, muito obrigada pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno. Obrigada.

Bom dia. Obrigado.