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Bem-vindo Francisco Lourenço Garcia a mais um gabinete de guerra da Rádio Observador e hoje começamos inevitavelmente pelo Médio Oriente a essa notícia de há cerca de uma hora do primeiro-ministro israelita que deu conta de que foi eliminado o chefe do Hamas em Gaza, Mohammed Sinwar, era um dos mais procurados líderes da organização, irmão mais novo também do falecido líder do grupo, Yahya Sinwar. Esta é uma vitória importante para Netanyahu até para justificar os ataques que têm sido realizados sobre a faixa de Gaza.
Ora boa tarde, Gustavo. Finalmente, pode ser que seja o prenúncio de que vamos ter um cessar-fogo, porque ele agora já tem uma justificação objetiva: "Olha, apanhei um grande terrorista e esta nossa ação militar serviu para isto". Pode ser isso. Mas o mais importante é que isso traga um cessar-fogo, porque começa a ser intolerável. O papel da União Europeia e da comunidade internacional começa a dizer que é intolerável aquilo que está a acontecer. Não está em causa o 7 de outubro e o reclamarem o 7 de outubro e toda a ação punitiva que eles devem fazer, mas que agora já começa a ser um pouco de mais. De maneira que pode ser que isso seja um sinal, agora capturei, posso abrandar. Vamos ver se é esse o sinal.
De resto, o Hamas disse também hoje que concordava com os traços gerais da proposta de cessar-fogo do enviado especial norte-americano ao Médio Oriente, o Steve Witkoff. Será que poderá ser desta que poderemos avançar para um entendimento, tendo em conta que Israel não tem feito aqui grandes declarações nem tomado grandes posições sobre as propostas que os Estados Unidos vão fazendo para um cessar-fogo?
Tem havido dificuldade em os Estados Unidos forçarem os seus parceiros a encontrar um cessar-fogo. Mas veja, a pressão dos Estados Unidos é muito intensa. A pressão dos vizinhos também é intensa. E agora a União Europeia tem pressionado muito, sobretudo Espanha, França. A própria Alemanha ontem veio dizer, e a Comissão Europeia, que começa a ser um pouco de mais, de maneira que essa pressão toda talvez leve Netanyahu a parar. Mas só os Estados Unidos não têm conseguido fazer isso. De maneira que penso que com esta pressão alemã e europeia, se estiver em causa o acordo comercial, penso que isso vai forçá-lo a pensar mais duas vezes. Mas Netanyahu penso que está determinado. Pode ser apenas um alto, um pequeno alto, digamos assim, uma paragem momentânea, mas ele está obstinado a acabar definitivamente com o Hamas. Agora acabou com mais um dos líderes importantes e no território. Pode ser que isso lhe traga um argumento para ele ter uma justificação dentro do seu próprio governo para poder parar, mas vamos ver. Eu acho que ainda é cedo. É um resultado tático imediato, mas a pressão política internacional tem sido forte e da União Europeia tem sido muito incrementada, sobretudo com as declarações de von der Leyen e do chanceler alemão. Quando a Alemanha toma uma posição dessas, os Estados Unidos forçou e não conseguiu. Às vezes é a atrição entre o momento em que se solicita e que se faz a pressão e os acontecimentos terem lugar, pode ser essa atrição, esse intervalo de tempo. Pode ser que dê resultado desta vez. Temos de ter alguma esperança.
O Francisco tem estado a falar da questão da pressão. Houve também um telefonema que foi classificado como tenso entre o presidente norte-americano e o primeiro-ministro israelita sobre um tema que está relacionado, que são os possíveis ataques de Tel Aviv ao Irão, sendo que Washington tenta nesta altura também negociar um acordo nuclear com o Irão, que terá motivado esse descontentamento por parte de Donald Trump. Benjamin Netanyahu corre o risco aqui de estar cada vez mais a perder um aliado, alguém que o pode ajudar.
Não vai perder. Eu não acredito que Donald Trump o deixe cair e o deixe isolado. Agora, ele tem uma preocupação real, que é se o Irão fica com capacidade nuclear, se o acordo não levar à desnuclearização e ao desmantelar das infraestruturas que levam a uma possível militarização da capacidade nuclear do Irão, da futura capacidade nuclear, isso altera todo o equilíbrio geopolítico regional. Quer dizer, o Príncipe da Arábia Saudita quer, o Egito quer, todos eles vão querer. De maneira que para Israel, isso é uma ameaça muito séria. Eles tinham a intenção de ir lá e bem, os americanos não deixaram. Para já não é fácil atingir aquelas infraestruturas, porque elas são muito protegidas e enterradas, digamos assim, um alvo militar difícil. E depois ia escalar todo aquele processo de instabilidade. Se se conseguir resolver isto diplomaticamente, melhor. Israel só pode ir lá se tiver o apoio dos Estados Unidos. Se não tiver o apoio dos Estados Unidos, será penso, um grande risco para Netanyahu e com consequências gravosas para o Estado de Israel durante os próximos tempos. Eles eliminaram todos os proxies ou quase todos os proxies. Agora, mais um do Hamas, já foi o Hezbollah que está a atacar os últimos. Está bem, mas se forem ao Irão, a gente não sabe qual vai ser a resposta do Irão. O Irão não deve ser uma potência nuclear regional para o equilíbrio dos poderes regionais. Vamos ver, eu espero que haja contenção do lado de Israel.
E entretanto há aqui esta declaração que vai um pouco ao encontro daquilo que o Francisco estava a explicar. O líder da oposição israelita Yair Lapid, que acusou Netanyahu de estar a destruir as relações de Israel com os Estados Unidos, que é uma declaração que está a ser citada pelo "Times of Israel". É um pouco aquilo que estava a explicar, ou seja, internamente também há essa pressão para que Netanyahu possa ir ao encontro daquilo que são as pretensões também da comunidade internacional e dos Estados Unidos em particular
Um dos grandes problemas é a eternização do Netanyahu no poder. Ele só consegue eternizar-se no poder e livrar-se dos problemas judiciais que tem através de manter as ações ofensivas que tem tido ali na vizinhança com a Hezbollah, com a Hamas, o problema de Gaza. Todo esse intensificar dessa pressão que encontra a sua narrativa e justificação, mas é para satisfazer algumas necessidades pessoais e outras dos seus aliados de coligação, porque senão ele deixa de ser governo. É um homem que está habituado a ter poder, vai fazer tudo para se manter no poder. E se for preciso continuar a guerra, vai continuar a guerra. E isso é que é lamentável. Mas ouça, quem estuda Ciência Política sabe que o poder é inebriante. Pode perder um aliado hoje, mas ganha dois amanhã. O importante na região e para os Estados Unidos tentarem fazer essa força é recuperar os acordos de Abraham. Mas veja, a posição de Netanyahu tem sido muito inflexível e muito determinada nos últimos tempos. Agora até fala de face às pressões da União Europeia que anexar parte da Cisjordânia é não resolver o problema, é continuarmos a alimentar esse problema, ou seja, ele eternizar-se no poder, porque enquanto o problema persistir, ele está no poder.
E enquanto isso continuam os ataques a israelitas na Faixa de Gaza, como falávamos. Há também um artigo de opinião do antigo primeiro-ministro israelita, o Olmert, que acusa Netanyahu de estar a cometer crimes de guerra. Falávamos das questões da pressão interna e externa. Também internamente, Netanyahu sente a pressão daquilo que são os atos que tem levado a cabo.
E começa a ter pressão na rua, que é muito importante, porque nós não dizemos que eles não tenham sofrido aqueles horrores em 7 de outubro, mas já lá vai mais de um ano. E estas ações iniciais que se compreendiam, hoje são interpretadas quer por grande parte da população israelita que querem seus reféns libertados. Não está em causa a libertação de reféns, mas está o tipo de ação. O que estamos a fazer àquelas populações que estão indefesas? Impedir a assistência humanitária nas condições que deviam minimizar o sofrimento daquelas populações com bombardeamentos constantes, com mobilidade das pessoas ora para norte, ora para o sul. As mortes constantes de alguns inocentes. Tudo isso configura crimes de guerra. Não é novo para nós. Falamos disso há bastante tempo. Agora, entre a pressão internacional e a vontade de mediação da situação, vamos ver é como é que se encontra a solução. A Europa veio falar nos dois Estados, voltar a criar dois Estados, e ele veio com a ameaça: "Bem, se houver os dois Estados e se vocês reconhecerem a Palestina, eu ocupo parte da Cisjordânia". É muito complexa a situação, não tem uma solução simples, ou seja, é uma coisa que dura décadas. Neste momento, estamos numa fase muito intensa do problema. Não tem uma solução simples, mas a solução passa por eventualmente Netanyahu ter que sair do poder. Veja, é a única democracia que há no Médio Oriente. Só a própria população israelita, mediante eleições, é que pode alterar a situação, porque até agora as pressões internacionais pouco ou nada têm feito para solucionar a questão. De maneira que depende muito do que o povo israelita quer e como é que eles se sentem e qual a capacidade que eles têm para alterar o regime que neste momento governa.
E daí também a importância dessas declarações internas.
Exatamente. Ou seja, a contestação que não é recente. Há a contestação, a oposição, mas a coligação que ele consegue, aqueles equilíbrios que ele tem internos para se manter no poder, permitem e forçam a ter este tipo de atitude, senão perde apoio e perdendo apoio, sai do poder. Mas felizmente há mais contestação e penso eu para todos que é altura de parar. E Netanyahu um dia vai ter que parar. Infelizmente, não me parece que seja para breve que isso vá parar, ou se parar agora será por alguns meses e depois ele vai voltar. Até como ele diz, que a sua intenção é eliminar completamente o Hamas. Isso não é possível, mas fisicamente vai exaurir mais a sua capacidade militar. Vamos ver. Só o tempo dirá, mas enquanto eles tiverem o poder, não prevejo que haja solução de uma paz duradoura naquela região.
Francisco Pereira Garcia, vamos falar também um pouco daquilo que se passa no conflito entre a Rússia e a Ucrânia, sendo que houve uma declaração dos Estados Unidos que diz que o presidente da Rússia está a brincar com o fogo depois daquele telefonema, depois das declarações que ouvimos esta semana sobre loucuras. Estará Donald Trump a perder a paciência com Vladimir Putin?
Eu penso que o presidente Donald Trump disse que resolvia a situação simbolicamente num dia, já lá vão mais de 100. Não resolveu, de maneira que deve estar a perder a paciência, porque é uma promessa eleitoral dele que resolvia a situação. Agora já começa a dizer que não é uma guerra criada por ele. Está a cair na realidade e nas dificuldades que é lidar com o presidente Putin e ameaçar com sanções. Mas ele também ameaça com sanções à Europa e depois cede, e depois ameaça a China e depois cede. O Putin percebe perfeitamente qual é o jogo de Donald Trump e vai jogando ele com o tempo. Imagine que agora Donald Trump diz que ameaça com as sanções sobre o petróleo, quem comprar petróleo tem 500% de penalização. Até isso acontecer, o Putin vai jogando com o tempo e vai avançando no terreno paulatinamente, devagar, mas consolidadamente Prepara uma grande ofensiva ou tudo indica que está a preparar uma ofensiva para agora para o verão, para consolidar a sua posição, de maneira que ele joga com o tempo e joga com o feitio de Donald Trump. Entre as palavras de Donald Trump e a ação, vai um longo tempo e esse tempo joga a favor do Putin. Quando isso se for concretizar, aí o Putin é capaz de eventualmente reconsiderar e mudar um pouco de atitude, mas sempre a ganhar tempo, porque ele tem um objetivo bem determinado, que avisou há muitos anos qual era. E nós sabemos há vários anos quais são exatamente seus objetivos. E ele ainda não concretizou completamente esses objetivos. De maneira que as conversações que têm estado a haver não levaram a um cessar-fogo, não levaram a um envolvimento diplomático sério para encontrar uma solução duradoura. Nem um cessar-fogo de 30 dias conseguimos obter. E a pressão militar russa continua a existir. Agora o chanceler alemão veio de facto dizer: "Bom, vamos libertar os nossos mísseis com maior alcance para serem utilizados." É um sinal que a Europa está ali, mas não causa conosco. Nós ao mesmo tempo que ajudamos muito a Ucrânia, continuamos a comprar muito petróleo. O valor líquido do petróleo que a Europa compra à Rússia é maior que o valor da ajuda militar à Ucrânia. De maneira que está a ver, nós por um lado ajudamos militarmente, mas por outro lado estamos a alimentar o monstro, digamos assim. Temos que ser consequentes.
Mas deixe-me perguntar-lhe também se estas declarações que têm sido feitas, nomeadamente pelos Estados Unidos relativamente às posições tomadas pela Rússia, até onde é que isto tudo nos pode levar no limite? Podemos estar aqui perante uma escalada e que os Estados Unidos tomem uma atitude mais proativa perante este conflito ou vamos continuar numa troca apenas de argumentos e de bocas, digamos assim, entre os dois?
Para já, no imediato, acho que somos uma troca de argumentos e o Putin joga com isso para ganhar e conquistar território e ganhar o seu tempo. No médio prazo, eu acho que os Estados Unidos não se vai envolver nesta guerra, quer dizer, não consegue e vai libertar esse fardo para a Europa. Mas nós vamos ter grandes dificuldades sem ter o apoio dos Estados Unidos. De maneira que a libertação dos Estados Unidos ou desligar deste conflito, nós temos que fazer tudo para que eles não se desinteressem desse conflito. E os russos estão a fazer tudo para que eles se desinteressem. De maneira que é sempre um jogo do tempo. Os Estados Unidos, temos que garantir que se mantêm firmes no apoio à Ucrânia, porque senão, como é que a Europa tem capacidade de sustentar militarmente todo o esforço da Ucrânia? Não tem. Veja, e a dependência energética que nós temos. De maneira que estas nossas inconsistências é que levam a que Putin se sinta confortável para continuar na gíria, digamos assim, a ficar para o lado. Nós todos ameaçamos e fazemos declarações e ele continua com as suas movimentações militares, com a sua máquina militar, agora com exercícios no Báltico, a reforçar na fronteira com a Finlândia, de maneira que ele continua no seu programa. E nós penso que andamos distraídos e ainda não levamos a sério. Como é que eu hei de dizer isto? Nós ainda não compreendemos plenamente o Putin e quais são os seus objetivos e pensamos que o vamos parar. Ele não vai parar enquanto não alcançar os objetivos a que se predispôs. E veja, é neutralizar a Ucrânia. Ele tem afirmado isso, de maneira que não se senta em mesa de negociações, de conversações, seja o que for. E os Estados Unidos, corremos o risco de se desinteressarem da situação, porque a narrativa é esta guerra não é minha e podem-se ir embora. Isso é gravíssimo para toda a Europa, porque nós não temos capacidade autónoma de dar resposta a esta resposta.
Francisco Lourença Garcia, muito obrigado por ter estado neste "Gabinete de Guerra". Está de regresso amanhã.
Muito obrigado.