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Está no ar o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, esta manhã com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bem-vindo, professor. Bom dia.
Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.
Temos de começar pela Coreia do Sul. Professor, o que se passa? O presidente surpreendeu o país ao impor a lei marcial, que depois foi obrigado a levantar horas depois. Hoje continuam os protestos na rua, pedem a demissão do presidente. José Filipe Pinto, o mundo assiste a tudo isto com preocupação e com razão.
Muita preocupação, porque de facto, a situação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul nunca ficou definitivamente resolvida. E a Coreia do Sul, que hoje é uma democracia, até 1988 era também uma ditadura. E nós temos de perceber que os estados da declaração da lei marcial, se não estou enganado nas contas, já foi feita 13 vezes. E por isso mesmo, mostra que há ainda uma instabilidade muito grande na Coreia do Sul, que é uma referência para o mundo ocidental, porque se integra muito no nosso modo de vida, na ordem liberal. O que acontece é que este presidente, é um presidente que nas últimas eleições legislativas perdeu as eleições. Neste momento, o Parlamento é governado, é liderado pela oposição. E o que acontece é que há aqui um braço de ferro muito forte entre o presidente e o Parlamento. O que acontece é que quem pode decretar a lei marcial é o presidente, mas o Parlamento tem a possibilidade de negar razão ao presidente e, portanto, de declarar inválido esse decreto da lei marcial. Foi o que aconteceu. Portanto, vamos ter aqui uma situação que vamos ter de acompanhar com muito cuidado. A meu ver, o presidente deixou de reunir condições para permanecer no cargo e provavelmente vamos ter um impeachment, um processo que conduzirá à saída do presidente e uma nova escolha presidencial. Por quê? Precisamente porque o Parlamento é dominado pela oposição e, de facto, porque há muitos escândalos envolvendo o governo da Coreia do Sul. Porque o facto de ser uma democracia, não implica que não haja na mesma corrupção e escândalos. E há escândalos envolvendo, desde logo, a primeira-dama e depois vários ministros. Ora, com um presidente que verdadeiramente não é um político, ele vem do Direito, não tem aquela que se chama a subtileza, aquele jogo de cintura de perceber aquilo que se podem considerar as vicissitudes da política. E portanto, criou aqui um braço de ferro perfeitamente inconcebível neste momento e que a população não aceitou. Repare, quem manda nas Forças Armadas é o presidente. Percebemos qual foi o comportamento das Forças Armadas. Foram ao Parlamento, entretanto, o decreto da lei marcial foi recusado e a partir daí as Forças Armadas regressaram. É uma situação em que se percebe claramente que este presidente não tem campo para continuar na presidência.
Entretanto, Donald Trump diz que o Médio Oriente e os grupos palestinianos vão pagar um preço terrível se os reféns não forem libertados até à tomada de posse a 20 de janeiro. Professor, o que é que podemos esperar como reação?
O problema que está é que Israel já voltou a atacar o Líbano. E por quê? Porque o Hezbollah também atacou Israel. Mas, a meu ver, a afirmação de Trump e a afirmação do ministro de Israel, Katz, de que seu país deixaria de separar o Líbano do Hezbollah, são os dois dados mais importantes neste conflito. Por quê? Vamos começar por Israel Katz. Quando ele diz que não vai separar o governo do Líbano do Hezbollah, isto dito de uma forma muito clara, Maria João, significa que Israel está a responsabilizar o governo do Líbano e o seu exército por não conseguir desarmar o Hamas e não conseguir impedir de avançar para o sul do rio Litani. Este era um cenário altamente previsível, face a pelo menos a dois elementos. Primeiro, a enorme fragilidade tanto do governo como do exército libanês. E segundo, as condições, a meu ver, quase leoninas ou totais, que Israel impôs para assinar aquele cessar-fogo. Ora, face a isto, sabendo nós que Trump vai apoiar a causa de Israel e não vai prestar a mínima atenção à questão palestiniana, percebe-se que o Hamas está numa situação muito complicada, tal como o Hezbollah. E para juntar a tudo isto, repare, neste momento, a situação tem tudo para escalar, porque a Fatah e o Hamas, que são inimigos históricos. Por quê? Porque o Hamas quando ganhou as eleições na Faixa de Gaza, perseguiu e expulsou a Fatah. Ora, tanto a Fatah como o Hamas estabeleceram um pré-acordo para a formação de uma coligação ou de um comitê de 10 a 15 personalidades que não pertencem a nenhum destes movimentos. Para quê? Para administrar Gaza após a guerra. Esta solução não agrada nem aos Estados Unidos, nem a Israel. Portanto, o que é que vamos esperar daqui? Vamos esperar um regresso a uma escalada à violência, que verdadeiramente, eu disse sempre que isto não era um acordo de paz, era um cessar-fogo.
E por isso temporário.
Mais do que temporário, com muitas intermitências. E estas intermitências são gravíssimas, por quê? Porque é a história da ação-reação. Portanto, o Hezbollah faz um comportamento que Israel diz que não está no âmbito do acordo de cessar-fogo e Israel retalia, com uma agravante, retalia Já não apenas sobre o Hezbollah, mas ameaça retaliar sobre todo o Líbano. Portanto, a situação tem tudo para escalar.
Sobre a Ucrânia, que ponto de situação podemos fazer? Os Estados Unidos dizem que a Rússia usa o inverno como arma, o Kremlin diz que o novo pacote de apoio militar é mais combustível pra fogueira e Kiev avança que não vai aceitar garantias de segurança em substituição da adesão à NATO.
É muito engraçado, Maria João, porque nós estamos a assistir a um jogo de luz e sombra. No que diz respeito à luz, são as afirmações que a Maria João acabou de dizer e que nos entram casa adentro através dos meios de comunicação. E isso faz parte daquilo que eu designo como a diplomacia do politicamente correto. O ameaçar, mesmo que não se vá levar a efeito aquilo que se ameaça. Repare, o secretário-geral da NATO, o Mark Rutte, pediu o reforço da ajuda militar à Ucrânia. António Costa, o nosso antigo primeiro-ministro e agora presidente do Conselho Europeu, no primeiro dia dessa presidência, deslocou-se à Ucrânia pra manifestar apoio à causa ucraniana. Mas repare, ele fez-se acompanhar da comissária responsável pelo dossier do alargamento. E, a meu ver, isso é patente ser visto para levar o Zelensky a mudar de azimute. Eu vou explicar por quê. A Ucrânia continua a tentar chamar a NATO pra este conflito e continua a insistir, ainda ontem ouvimos o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, no convite por parte da NATO para a entrada da parte da Ucrânia na NATO. O que é que acontece? António Costa defende que isso seria um precedente muito perigoso, porque legitimaria a alteração das fronteiras pela força. Não pode entrar apenas meia Ucrânia ou um terço da Ucrânia, ou entra a Ucrânia toda ou não entra a Ucrânia. Além disso, aqui nós, no Ocidente, sabemos que a Rússia não iria conviver nada bem com a entrada da Ucrânia ou parte da Ucrânia para a NATO. Daí que António Costa, a meu ver, esteja a acenar o Zelensky com outra adesão, a entrada da Ucrânia, sim, mas na União Europeia. Repare, neste momento estão reunidos os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO. Eles vão protelar o convite. Mas a verdade é que o verbo não devia ser protelar, o verbo devia ser procrastinar, que é a palavra certa para respeitar tanto a impossibilidade de tomar uma decisão por parte dos líderes ocidentais, como a posição de Trump, ou seja, adiar indefinidamente a entrada da Ucrânia na NATO. E este indefinidamente é mesmo ad eternum.
Tempo ainda, professor, pra olharmos pra visita de Joe Biden a Angola. Esta é a primeira vez de um presidente dos Estados Unidos. Esta é mais do que uma visita simbólica, pode ser também uma jogada de influência contra China e Rússia?
Claramente. Aliás, quando eu fiz a minha tese de doutoramento, eu encontrei documentos outrora secretos num dos arquivos dos Estados Unidos, em que aconselhava a administração norte-americana a apoiar o MPLA, e não a UNITA, nem a FNLA, o MPLA. E por quê? Porque dizia que o MPLA tinha quadros e, portanto, seria mais fácil a negociação de um país que tinha inúmeros recursos mineiros. A partir daí, a situação deixou de fazer manchetes. Aliás, provavelmente nunca fez manchetes porque vinha de um documento secreto. Agora, o que nós percebemos claramente é que, neste momento, está em vigor a questão dos aliados, que nunca são perpétuos, e dos inimigos, que nunca são eternos. Os interesses é que são eternos e perpétuos. E por isso mesmo, o que acontece? É que Joe Biden, que está a terminar o seu mandato, que percebemos que não vai levar grande legado, não é apenas a questão do perdão ao filho, é a questão de verdadeiramente não ter conseguido resolver nenhum dos conflitos. Joe Biden vai tentar virar o azimute dos Estados Unidos para a África, percebendo as enormes potencialidades deste continente. Neste caso, o que é que ele está interessado? Está interessado no Corredor do Lobito para a exportação de minérios para os Estados Unidos e de matérias-primas, mas também está interessado em diminuir a influência chinesa. Mas repare, Maria João, a China há muito que tinha vindo a fazer a cooperação win-win. E é aquilo a que se chama uma cooperação sem perguntas. Em termos reais, a China abria linhas de crédito, mas era para uma ajuda ligada. Significava que essas linhas de crédito seriam usadas, por exemplo, por Angola, mas a concessão teria que ser dada a uma empresa chinesa. Ora, pela primeira vez, a recuperação do corredor da linha férrea do Lobito foi vencida por uma empresa não chinesa, é um consórcio em que entra, por exemplo, inclusive uma empresa portuguesa. Ora, este é um dado novo. E aí já está também a mão dos Estados Unidos. Os Estados Unidos aperceberam-se do enorme potencial que representa a Angola, tal qual como antigamente representava, e continua a representar ainda na atualidade, a África do Sul. Só que Angola vai rivalizar com a África do Sul. É um dos países emergentes em África e, por isso mesmo, tendo tantos recursos, o que a administração Biden faz? Vai tentar diminuir a influência russa, principalmente a influência chinesa no domínio econômico, através da cooperação ligada, mas vai tentar rentabilizar o seu ativo do investimento, porque os Estados Unidos veem aí um presidente que é um presidente que vê o país como uma empresa. E é evidente que, verdadeiramente, apesar da corrupção que grassa em Angola e que ainda não está resolvida, é um país que tem tantos recursos que todo o investimento tem rentabilidade praticamente garantida.
Professor José Filipe Pinto, muito obrigada pela análise. Um bom dia pra si.
Eu é que agradeço, Maria João. Bom dia para si.