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Este é o "Som do Gabinete de Guerra" das manhãs 360 desta quinta-feira, com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Olá, Bruno. Começamos por Zelensky, que diz que a Ucrânia tem, juntamente com os aliados ocidentais, um plano traçado para pressionar e forçar Putin a pôr fim à guerra. Bruno, olhando para a atual escassez de defesas aéreas e para a pressão no terreno, que alavancas reais este plano pode ter para obrigar Moscovo a ceder?
Me parece que isto faz parte de uma estratégia da Ucrânia para gerir um eventual retomar do interesse norte-americano pela mediação, tentar evitar que isso volte a significar uma pressão maior sobre a Ucrânia, um certo alinhamento com as posições russas, sobretudo do principal mediador, que tinha assumido essa tarefa, o Steve Witkoff. E parece-me que também faz parte desta estratégia, ou seja, o que me parece que está por trás dessa ideia é reforçar os argumentos de Zelensky para dizer que ainda que haja problemas de escassez de interceptores, sobretudo do sistema Patriot, que pelo menos uma parte deles, uma percentagem deles deve continuar a ser fornecida à Ucrânia, pelos Estados Unidos e também pelos aliados europeus, mas aqui sobretudo pelos Estados Unidos, que é quem tem o controle dessa produção, porque essa realmente tem sido a área onde a Rússia tem conseguido ganhos mais significativos nas últimas semanas. A Ucrânia tem tido muitas dificuldades em interceptar mísseis balísticos, porque de facto não tem os interceptores. Tem os sistemas, mas não tem a munição para alimentar esses sistemas de intercepção.
Entretanto, com a Europa a intensificar as operações de apreensão contra navios da chamada frota fantasma russa, o Kremlin, Putin avisa que vai responder na mesma moeda e que isso poderá acontecer em qualquer lugar. Bruno, isto quer dizer que vêm por aí ações de sabotagem ou pirataria contra navios ocidentais em águas internacionais?
Primeiro temos de sublinhar que muitas vezes as ameaças russas não são para levar a sério. Apesar de tudo, eu acho que esta ameaça é mais credível objetivamente do que, por exemplo, aquela tentativa constante de chantagem nuclear, de que se ia lançar mísseis nucleares sobre a Europa. Desde logo, também porque é feita por Putin. Muitas dessas ameaças não eram feitas por ele, mas pelos propagandistas do regime. E depois, porque realmente a Rússia tem esses meios. É verdade que, à partida, mesmo só a Europa, não só gasta mais em defesa que a Rússia, mas tem, à partida, tudo somado, uma Marinha, uma capacidade naval mais significativa. A Rússia tem a vantagem de as ter sob um comando único e, sobretudo, esta questão em qualquer parte, ou seja, por exemplo, na zona do Báltico, que é onde tem havido mais tensões, mais intercepções, ou no Canal da Mancha, aí há uma vantagem clara das Marinhas Ocidentais, sobretudo se, à parte das Marinhas europeias, também somarmos a Marinha norte-americana. E isso é evidente, mas cada vez menos podemos dar isso como certo, que os Estados Unidos irão alinhar solidamente com os aliados europeus. Mas noutros mares, isso já não será necessariamente assim. E de facto, a Rússia tem esta desvantagem, mas também esse potencial, que é ter uma Marinha muito dispersa. Por exemplo, vemos que no Mar Negro isso é uma enorme desvantagem. Basicamente, a Ucrânia conseguiu paralisar a frota russa. Mas, por exemplo, no Extremo Oriente, a Rússia tem também uma frota e portanto aí também circulam navios europeus, por vezes, ou que vêm para a Europa. Sobretudo, eu acho que a Rússia conta sempre com esta questão, que é, mesmo que provavelmente a Rússia não consiga interceptar tantos navios, como é o caso da Europa, ou não tenha verdadeiras razões para o fazer, por exemplo, inclusive ambientais. Ainda há pouco tempo vimos um petroleiro desta frota fantasma russa causar um enorme problema ao encalhar no Golfo Pérsico, um problema ambiental. Mas a verdade é que os países europeus são muito mais sensíveis a essas questões. Portanto, se tivermos tripulação com marinheiros europeus, se tivermos um navio europeu, de facto, envolvido, isso provavelmente tem um impacto maior em sociedades como a europeia, onde não só os soldados, mas também os marinheiros não é suposto serem carne para canhão, que é muitas vezes como a Rússia trata os seus soldados e marinheiros.
Sobre os Estados Unidos, Bruno, foi agora confirmado que uma ameaça credível com um míssil portátil vindo do Irão esteve na origem da fuga secreta de Trump em Ancara, que teve de ser escondido num caminhão de catering e mudar de avião em segredo. No entanto, ao mesmo tempo que a tensão atinge este nível sem precedentes, Washington e Teerão continuam em negociações. Isto reforça a ideia de que Trump não pode dar-se ao luxo de deixar a crise arrastar-se e precisa mais do que nunca de um acordo rápido
Eu acho que este episódio que se conheceu agora, embora já tenha acontecido há um mês, na altura da Cimeira da NATO, em Ankara, realmente mostra que ao mesmo tempo que temos estas declarações de Donald Trump a falar de controlar 100% o Estreito de Ormuz, quando, na verdade, de acordo com os últimos dados credíveis, que são de terça-feira, passaram oito navios no Estreito. Antes de os Estados Unidos controlarem supostamente o Estreito a 100%, passavam em segurança 120, 150 navios por dia. Mas, sobretudo, isto mostra que Donald Trump e o seu avião presidencial têm o mesmo problema que a navegação comercial no Estreito. Ou seja, o Irão não precisa ter uma forte aviação convencional, que está em grande parte destruída, e além do mais, era muitíssimo mais fraca do que a aviação militar norte-americana. Não precisa ter isso para ameaçar, inclusive o próprio avião presidencial, juízos com suficiente credibilidade para justificar todo este teatro para tentar enganar os iranianos. É verdade, temos que ter aqui alguma prudência. Por exemplo, o Washington Post vem dizer: "Isto é uma informação do lado israelita e que, por exemplo, a própria CIA não via como muito credível". Mas em todo o caso, obviamente não se quer correr riscos, que é também o problema das companhias de navegação no Estreito de Ormuz. E portanto, eu percebo que tenha acontecido essa mudança. Acho que já é mais questionável que não tenham avisado os civis no potencial avião-alvo, nomeadamente os jornalistas, de que eles podiam estar em risco e que poderiam não querer prosseguir viagem. Mas realmente essa opção parece-me compreensível, tentar evitar que o presidente pudesse eventualmente tornar-se alvo dos iranianos. Em relação à questão das negociações, isso também acontece. Eu insisto muito nesse ponto, a diplomacia não é uma recompensa para amigos, é uma necessidade, muitas vezes, nas relações com adversários e até com inimigos.
Bruno, temos também de falar de Israel. O primeiro-ministro do Líbano acusa Tel Aviv de destruir de forma sistemática o sul do Líbano. A reação surge depois do ministro da Defesa israelita ter reiterado que as tropas não se vão retirar do Líbano, da Síria e de Gaza. Bruno, com Tel Aviv a pôr em causa os acordos promovidos por Washington, Netanyahu está a demonstrar que a Casa Branca já não tem qualquer poder de travagem, de limitar as decisões de Tel Aviv?
De facto, o Departamento de Estado, não foi propriamente o presidente, mas supostamente é a voz da diplomacia americana, veio realmente criticar, condenar essas declarações. A mim parece-me que nós estamos aqui neste estado, que é uma tragédia, há muitas décadas no Médio Oriente, que é, no caso de Israel, uma preocupação legítima com a segurança, mas que depois se traduz numa aposta constante na via militar e nesta ideia de que ocupando mais território, ocupando território que não é de Israel, que isso de alguma forma aumenta a segurança de Israel. Ora, aquilo que as últimas décadas têm mostrado é que realmente não é assim. Ou seja, simplesmente Israel passa a ter ataques nesses territórios, passa a ter de defender também esses territórios e em muitos casos, os inimigos encontram forma de contornar esses territórios, inclusive com a nova tecnologia militar, para continuar a atacar civis em Israel. E Israel também não consegue conquistar a sua segurança, ao mesmo tempo que com esse tipo de estratégia, também torna praticamente impossível chegar a acordos mais duradouros com os seus vizinhos árabes.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana.
Obrigado, igualmente.
Obrigada, Bruno. Bom dia.