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Muito bom dia. Começa agora uma nova edição do Gabinete de Guerra, com análise e opinião do Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE e da Academia Militar. Bruno, bom dia. Muito obrigada por estares conosco.

Bom dia, obrigado.

Olá, Bruno. A Rússia está desde cedo a celebrar o Dia da Vitória, cerimônia organizada com várias medidas de segurança. O presidente russo já discursou na Praça Vermelha, voltou a passar culpas da guerra ao acusar a Europa e os Estados Unidos de elevarem nazistas. Deixou um novo aviso ao Ocidente. "Ambições desmedidas acabam em tragédia", palavras de Putin, e disse ainda que quer criar uma Rússia pacífica. Bruno, foi um discurso de 10 minutos, vamos à análise. Que mensagens quis verdadeiramente Putin passar a nível interno e externo?

Eu acho que foi mais do mesmo. É uma espécie de acentuar ainda deste discurso, que é uma completa caricatura grotesca da realidade, em que o agressor é transformado no agredido, em que um país que utiliza cada vez mais uma retórica genocida, que diz que a Ucrânia não tem direito a existir, portanto, uma retórica que tem, ela sim, semelhanças com o nazismo, vem acusar os outros de serem nazistas. Enfim, insiste nesta ideia de que o Ocidente é que é o culpado de todos os males do mundo. Nisso, diga-se, não é o único. É um discurso que tem alguma popularidade, mas isso, até do ponto de vista histórico, é mais uma vez uma caricatura grotesca. Se o Ocidente estava tão interessado em destruir a Rússia, por que não deixou os nazistas destruírem a Rússia? Convém recordar esse aspecto, que é sempre esquecido na versão soviética da história, que é, por um lado, a União Soviética não combateu o nazismo desde o início. Quem fez isso foram os países ocidentais entre 1939 e o verão de 1941, portanto, até a União Soviética ser invadida pela Alemanha nazi, a União Soviética, na prática, era um aliado da Alemanha nazi. E depois disso, a União Soviética só conseguiu sobreviver e acabou por vencer porque estava a combater em conjunto com os países ocidentais o regime nazi e porque recebeu imenso apoio ocidental. Eu estava aqui a rever os números. Estamos a falar de 400 mil jipes e caminhões que foram enviados pelos Estados Unidos, 12 mil blindados. Estamos a falar agora de poucas centenas enviados à Ucrânia. Foram enviados 12 mil à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive 7 mil carros de combate ou tanques. Estamos a falar de 11 mil, quase 12 mil aviões de combate. Mais uma vez, a Ucrânia só recebeu aquelas versões de aviões soviéticos. Portanto, de facto, tudo isto é uma caricatura grotesca e eu acho que essencialmente tem como fim justificar as enormes dificuldades daquilo que agora Putin já reconhece que afinal é uma guerra. Tem essencialmente um uso interno, portanto, de propaganda interna, lá está, justificar estas dificuldades junto à população russa e depois procurar algum apoio externo entre aqueles países e sobretudo aquelas elites de países, por exemplo, no sul global, que têm já uma tradição de hostilidade em relação aos países ocidentais, geralmente regimes autoritários, repressivos, cleptocráticos, que encontram na Rússia um dos seus poucos apoios e portanto, no fundo, partilham também esta retórica. É interessante notar que neste desfile estiveram basicamente seis líderes de antigos estados que faziam parte da União Soviética, basicamente os países da Ásia Central e depois também a Arménia. Aqui há umas semanas, o The Economist vinha caracterizar os países mais próximos da Rússia no que eles chamavam de três círculos, um deles era o que eles chamavam o clube da memória da União Soviética e portanto incluíam vários destes estados. Mas isto não é só uma questão de nostalgia, é que também são países que até pela sua geografia e pela sua economia continuam muito ligados à Rússia, estar muito dependentes da Rússia, têm muitas comunidades também muitas vezes imigrantes que depois enviam muitos recursos financeiros de volta para as suas famílias que estão emigrados na Rússia e portanto isso também ajuda aqui a explicar a sua presença, mas é bem o sinal do extremo isolamento da Rússia e pelo menos desta versão mais extremada do discurso antiocidental.

No Ocidente, precisamente, assinala-se hoje o Dia da Europa. A presidenta da Comissão Europeia celebra a data com uma visita à Ucrânia. Ursula von der Leyen está pela quinta vez em Kiev, onde vai reunir com o Zelensky. Bruno, esta é uma visita muito significativa. Pode dizer-se que von der Leyen considera que a Ucrânia já é parte integrante da União Europeia?

Ela tem insistido muito nesse discurso, que é ao lado prático de adesão, que demorará o seu tempo, tem as suas fases, mas há aqui este ato fundamental, e acho que foi até ela das primeiras, se não a primeira, que usou esse termo, esta ideia de que de facto a Ucrânia pertence, faz parte da família europeia. Portanto, já é um membro da família europeia, em termos, nomeadamente, não só culturais, mas em termos também dos valores e portanto que é realmente um país que obviamente tem os seus problemas. É uma democracia imperfeita, como aliás são todas. Aquilo que caracteriza os regimes realmente democráticos, efetivamente democráticos, pluralistas, é aceitarem a sua própria imperfeição e terem instrumentos depois de alternância, válvulas de escape, terem mecanismos também que permitam a mudança e a revisão de políticas. E portanto, a Ucrânia, realmente, com todos os problemas que tem, que são aliás muitas vezes até partilhados com outros países do bloco soviético ou parte da União Soviética, nomeadamente a questão de níveis muito elevados de corrupção, a verdade é que tem efetivamente eleições Eleições livres e pluralistas que de vez em quando resultam na mudança de liderança. De vez em quando resultam na oposição assumir o poder de forma pacífica, algo que, por exemplo, não acontece na Rússia desde que Putin assumiu o poder há 22 anos. Portanto, desse ponto de vista, acho que essa é uma mensagem importante e obviamente é muito importante que neste contexto também Ursula von der Leyen vá hoje a Kiev. No fundo, o Dia da Europa obviamente é muito importante para as instituições europeias e portanto, onde a presidente de uma das instituições mais centrais da União Europeia, da Comissão Europeia, escolhe passar o dia, obviamente também é altamente simbólico e acho que é um sinal político importante de solidariedade e também uma mensagem de esperança e de moralização para os ucranianos que obviamente continuando a estar num contexto de guerra que causa todos os dias mortes, baixas militares e civis, que há apesar de tudo aqui um horizonte de esperança. Um dos grandes objetivos da Ucrânia, realmente, desde a saída da União Soviética, isso sobretudo na última década, tem sido aproximar-se e garantir a possibilidade de vir a ser membro da União Europeia.

Bruno, a Ucrânia decidiu comemorar ontem o Dia da Vitória para não coincidir com os russos. Zelensky deixa claro que esta vitória contra aquilo que chama o russismo é a melhor maneira de honrar a memória da Segunda Guerra Mundial. Diz mesmo ele que o sucesso da Ucrânia contra a agressão russa é o antídoto para outras agressões. Zelensky tem agora mais razões para estar tão otimista.

Eu acho que ele não pode deixar de mostrar algum otimismo. Apesar de tudo, ao contrário, por exemplo, de Putin, Zelensky sempre foi equilibrando esse otimismo com o reconhecimento dos sacrifícios, dos mortos, das dificuldades. No fundo tentar ter aqui um estilo, podemos dizer, um pouco mais churchiliano. Procurando transmitir uma mensagem de alguma esperança, no entanto, não esconder completamente as dificuldades da guerra e com isso também ganhar algum crédito. Acho que ele aí manteve-se fiel a esse estilo. Não tenho dúvidas que a Ucrânia vai passar agora por uma fase bastante difícil, digamos que um novo teste às suas capacidades. Esta nova fase mais ofensiva que parece estar a ser adiada também muito por causa de questões climatéricas. O clima está a mudar ou está muito mais instável. Está a haver uma primavera bastante mais chuvosa, mais úmida até mais tarde. Agora parece estar a chegar o tempo mais quente, mas de facto para haver uma grande ofensiva é preciso condições climatéricas mínimas. A par disso a Ucrânia tem estado obviamente a aproveitar para treinar, para equipar as suas forças, para ir integrando o equipamento mais avançado ocidental que tem estado a chegar. Mas aí nunca se consegue estar a 100% com tudo aquilo que se queria e portanto há um momento em que se tem que decidir avançar e isso obviamente é um momento de grande risco. Na guerra não há vitórias à partida e as ofensivas são sempre operações de elevado risco para quem está a atacar. Tem de sair das posições defensivas, tem de optar por atacar em certos locais, esperar que o inimigo não esteja aí à espera deles, que consiga-se criar algum elemento de surpresa, conseguir flanquear defesas que a Rússia tem tido tempo também para ir preparando. Imagino que também Zelensky tenha muito presente isso e esteja aqui também num esforço de moralização dos ucranianos para mais esta fase muito importante e que terá um nível de risco incontornável e que mesmo que corra bem certamente provocará novamente muitas baixas.

Entretanto a NATO ativou o estado de prontidão mais elevado depois do episódio de domingo em que um avião polaco foi intercetado por um caça russo no Mar Negro. A Polónia é o Estado mais sensível para a NATO naquela zona estratégica do mundo.

Eu acho que provavelmente não será por acaso que os russos visaram um avião polaco, mas a verdade é que já não é a primeira vez. Este caso é do meu ponto de vista até agora o mais grave porque estamos a falar, por um lado de um avião tripulado, por outro lado um avião tripulado que não estava armado, um avião de vigilância. Acho que isto é um novo passo nesta escalada de tentativa russa de intimidação destes esforços de vigilância pelos países ocidentais no Mar Negro. Não tenho dúvida que isso reflete a frustração russa, o discurso, a retórica dos líderes russos. Não sei se reflete exatamente as suas intenções, espero que não. Ou seja, espero que os líderes russos ainda estejam num registo racional e que percebam que continua a ser indispensável evitar um choque direto e neste caso quase literal entre os países da NATO e a Rússia. Agora acho que isto é realmente um novo passo nesse sentido e é bastante preocupante e acho que realmente a NATO deve sinalizar que está aqui com o nível de prontidão mais elevado e deve retaliar em proporção no caso de vir a acontecer algum incidente mais sério. Isso aliás não levará necessariamente à Terceira Guerra Mundial. Eu recordo, por exemplo, ainda há poucos anos atrás, a Turquia que é um membro aliás da NATO, abateu um avião russo que não respeitou as suas indicações, também parecia estar aqui neste contexto do conflito na Síria em que a Turquia apoiava um lado, a Rússia apoiava o outro. Houve aqui uma certa dinâmica de escalada e depois no momento em que realmente a Rússia pisou uma linha vermelha, a Turquia abateu esse avião. Obviamente eu espero que isso não aconteça e seria sempre péssimo e qualquer retaliação deve ser proporcional. Agora obviamente não se pode permitir que a Rússia pense Que pode abater aviões de países da NATO. Desta vez acho que é especialmente preocupante. No episódio anterior, tratava-se apesar de tudo de um avião não tripulado e os Estados Unidos mostraram a contenção que têm mostrado sempre e que contraria toda esta propaganda, esta retórica que vem da Rússia, que ao mesmo tempo passa dia sim, dia não, ameaça com ataques nucleares contra os países ocidentais e depois nos outros dias queixa-se que está a ser atacado pelos países ocidentais. Mas contrariando essa retórica, realmente os países ocidentais, os países da NATO têm mostrado uma grande contenção, inclusive a própria Polónia, que é de facto o país que mais tem apoiado a Ucrânia, que mais cedo apoiou a Ucrânia e que alertou para o risco do expansionismo cada vez mais agressivo da Rússia. Mas por exemplo, quando houve aquele episódio trágico no final do ano passado, que resultou na morte inclusive de dois civis polacos, rapidamente veio dizer que se tratava, por um lado, de um acidente, portanto não de um uso deliberado, não de um ataque deliberado, e depois acabou por se concluir até que provavelmente seria como resultado do funcionamento da antiaérea ucraniana, sendo que obviamente, em última análise, a culpa da situação é sempre da Rússia, porque não seria necessário haver antiaéreas ucranianas se não houvesse ataques aéreos russos mesmo junto à fronteira da Polónia.

Bruno, um em cada cinco ucranianos pensa que Kiev deve aceitar algumas concessões à Rússia para acabar com a guerra. Esta é a conclusão de um estudo ucraniano da Fundação para as Iniciativas Democráticas. Como é que devemos interpretar este estudo, sabendo que na Ucrânia há muitas ligações pessoais e familiares à Rússia?

Sim, eu acho que é assim, tendo em conta que estamos num conflito extremamente prolongado, que provoca um enorme desgaste, muitos mortos, um enorme custo económico, milhões de refugiados e deslocados, realmente não me espanta que haja, apesar de tudo, 22% que acreditam que deve haver espaço para negociar, mas é isso que estamos a falar, de uma minoria da população ucraniana ainda. Só 8% é que dizem que a Ucrânia deve estar disposta a aceitar quaisquer condições, ou seja, que a prioridade absoluta deve ser o fim da guerra e que isso deve incluir inclusive cedências de território. 67%, nessa mesma sondagem, continuam a dizer que se deve rejeitar qualquer negociação e se deve apostar tudo numa vitória militar. Portanto, acho que não são números tão estranhos. Acho que provavelmente refletem uma certa erosão como resultado do prolongar da guerra, mas apesar de tudo, uma ampla maioria continua a apostar ainda essencialmente na via militar. E eu acho que isso, no fundo, é o ponto em que estamos. Aliás, o próprio secretário-geral, António Guterres, veio dizer numa entrevista ao "País", que não havia neste momento condições mínimas para as negociações. Os dois lados continuam a achar que a solução será essencialmente militar, mas que ele tem esperança que isso venha a mudar. E portanto, é normal que estes números também venham a mudar. Em relação ao número daqueles que defendem uma paz a qualquer preço, esse seria aqui o número crucial. Porque isso seria o sinal de que passaria a haver uma disposição na maioria da população para a rendição. Estamos longe disso, continua a ser um grupo bastante minoritário. Agora, estes números são realmente bastante importantes. Por quê? Porque a Ucrânia é, ao contrário da Rússia, um regime essencialmente democrático e portanto, aqui a opinião pública conta. E mais, o próprio presidente Zelensky disse que iria submeter qualquer acordo que viesse a fazer com a Rússia a um referendo. E portanto, esta opinião conta duplamente. Conta porque é uma indicação importante para a liderança ucraniana em termos de abrir negociações e depois também conta porque os termos dessa negociação depois terão de passar sempre pela aprovação da população ucraniana. Pelo menos é esse o compromisso assumido por Zelensky. Enfim, pode haver depois aqui alguma mudança, mas esse é o compromisso assumido por Zelensky, obviamente, um completo contraste com aquilo que é a postura na Rússia, em que basicamente Putin é que decide estas coisas.

Prigozhin diz que ainda não viu pessoalmente as munições que Moscovo lhe prometeu. Por outro lado, a Ucrânia tem dúvidas de que a alegada falta de armas do grupo Wagner seja real. Não notaram que estivessem em falta de armamento, antes pelo contrário, falam numa intensidade dos bombardeamentos. Há muito que Prigozhin faz este tipo de declarações. Pressionar a Rússia é também uma forma estratégica de iludir a Ucrânia?

Bem, eu próprio tinha essas suspeitas, falámos um pouco disso, que era uma das possibilidades, que fosse aqui uma pura manobra de desinformação. Mas eu acredito que haja alguma escassez de munições. Também é normal que os ucranianos não cituem necessariamente, porque para os ucranianos não faz grande diferença se quem está a disparar são as forças da Wagner, ou se são as forças regulares russas. E é verdade que este fim de semana, nestes últimos dias, assistimos a um aparente intensificar desses esforços, inclusive com imagens muito impressionantes de bombardeamentos com aquelas bombas de fósforo, que produzem uma espécie de efeito também de queima de oxigênio e procuram tornar a vida ainda mais difícil, sobretudo a tropas que estão entrincheiradas. Portanto, realmente percebo que os ucranianos digam isso e que desconfiem sempre de tudo que são declarações que vêm do lado russo. E acho que fazem muito bem. Seria péssimo os ucranianos confiarem cegamente nas declarações que vêm da Rússia, que sistematicamente temos visto que em muitos casos não têm qualquer credibilidade, ainda mais num contexto destes, ou seja, o pior que poderia acontecer era haver aqui algum baixar da guarda por parte da Ucrânia que pudesse realmente criar uma oportunidade para um novo ataque ou um ataque reforçado da Rússia perante forças que estivessem menos preparadas ou menos alerta. E portanto, acho que os ucranianos fazem bem em desconfiar. Mas também acredito que haja realmente alguma escassez de alguma munição, que nesse contexto temos sinais de que realmente estes grupos mercenários muitas vezes não são a prioridade. E percebe-se que estando o Ministério da Defesa, as Forças Armadas com a necessidade de racionar munições, até para se prepararem para a ofensiva, possam no fundo privilegiar as suas próprias forças em relação a estes grupos de mercenários e que Prigozhin também esteja a usar isto um pouco como um álibi para eventuais dificuldades futuras. Mas isto também quer dizer que sobretudo me parece que se trata, para já, não de uma escassez que pudesse pôr em perigo a própria viabilidade militar da ação russa, mas de uma gestão de munições que também tenha em conta esta questão da ofensiva. Ou seja, tal como os ucranianos precisam de acumular tropas, material, munições para a ofensiva, os russos também precisam ter reservas de tropa, de material, de munições, para responder a essas ofensivas. E portanto, é normal que isto não corresponda a uma efetiva escassez e a Rússia possa agora ter decidido libertar o Ministério da Defesa, as Forças Armadas, libertar mais munições para esta zona de Bakhmut, em vez de as manter em reserva para a fase ofensiva ucraniana.

Bruno Carlos Loja, muito obrigada por ter estado conosco em mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, Bruno.

Obrigado, bom dia.

Obrigada