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Gabinete de Guerra na Rádio Observador é o programa em que analisamos os principais focos de tensão, um pouco por todo o mundo. Contamos esta noite com a análise de Liliana Reis, investigadora, especialista em relações internacionais, a quem agradeço por ter aceitado o nosso convite. Seja muito bem-vinda, Liliana.

Muito obrigada.

Foi notícia de que Trump fez uma lista de países bons e maus para os Estados Unidos, por forma a poder punir os países que não considera aliados, entre eles está, por exemplo, Espanha, França e Reino Unido. Ora, o Chipre pode avançar com uma cláusula de defesa mútua, que no fundo pode querer dizer que a União Europeia pode iniciar aqui um modelo de quadro de autonomia do ponto de vista militar. Liliana, qual a importância desta medida inédita, de acordo também com a sua experiência? Dizia Mayoff que esta medida foi conseguida uma vez e agora, neste momento, dada esta instabilidade e estas declarações de Donald Trump ou dos Estados Unidos, neste caso, o que está a passar neste momento e o que a União Europeia pode fazer pra ter alguma independência dos Estados Unidos? E já agora, se isso é, de facto, o caminho que deve ser seguido neste momento.

O Político, por acaso, noticiou que havia um documento que tinha sido feito antes da visita de Mark Rutte, secretário-geral da Aliança Atlântica, a Washington, em que a administração norte-americana teria, eventualmente, dividido os aliados da Aliança Atlântica entre bons e maus. Entre os Estados maus estaria efetivamente a Espanha, o Reino Unido e a França, como diz, mas nós não sabemos efetivamente como poderá vir a penalizá-los, nem como poderá vir a beneficiar os Estados que considera bons. E entre os bons estará, porventura, a Polônia, a Romênia, a Bulgária e agora com a vitória de Rumen Radev, ainda mais, os Estados bálticos, nomeadamente Estônia, Letônia e Lituânia, e a Alemanha. E aqui o que é adiantado é que poderão vir a receber apoio adicional por parte dos Estados Unidos. Ora, esta informação, provavelmente, e também o ataque que o Chipre, nomeadamente a base aérea britânica na costa sul da ilha recebeu de um drone iraniano Shahed, recentemente, levou a que a atual presidência do Conselho da União Europeia, que está até junho com o Chipre, colocasse a cláusula de defesa mútua, que é o artigo 42º, parágrafo sétimo do Tratado da União Europeia, em cima da mesa. Este artigo só foi acionado uma vez, em 2015, pela França, depois dos ataques terroristas do Bataclan, e na verdade, é uma cláusula muito próxima do artigo quinto da Aliança Atlântica. Aliás, é a cláusula que nós temos efetivamente no quadro da União Europeia e do ponto de vista da política comum de segurança e defesa, que mais se aproxima de uma segurança coletiva para os Estados membros da União Europeia. Isto é particularmente importante neste momento, porque há efetivamente alguma desconfiança relativamente a esta administração norte-americana por parte dos europeus e ao elevado quadro de incerteza em que nós vivemos, mas também é muito importante porque vem reforçar a questão da autonomia estratégica da União Europeia e porque há alguns Estados membros da União Europeia que não pertencem à NATO, nomeadamente o Chipre, como eu dizia, tem atualmente a presidência do Conselho, Malta, Irlanda e a Áustria. Ora, aquilo que nos pode revelar também esta reunião que hoje está a acontecer no Chipre, é que os Estados membros da União Europeia podem estar a assumir compromissos mais vinculativos na área da defesa, e não apenas ao nível do desenvolvimento de capacidades militares, mas também ao nível normativo e da autonomia estratégica do ponto de vista também legal. E isso é bastante relevante.

E a Europa, neste caso a União Europeia, tem condições para suportar essa autonomia?

Isso só se conseguir o primeiro elemento que eu dizia, que é o desenvolvimento das capacidades militares. E não se desenvolvem capacidades militares num curto prazo, como nós sabemos, e vão necessitar, naturalmente, da articulação das nossas universidades e dos centros de investigação, das empresas europeias e naturalmente também de uma vontade política de cada Estado-membro da União e também de Bruxelas. Mas neste momento, a União Europeia não tem as capacidades militares pra essa autonomia estratégica, nem esta cláusula de defesa mútua garante o mesmo chapéu e a mesma proteção na área da defesa que garante, naturalmente, o artigo quinto do Tratado do Atlântico Norte. Ainda assim, e isso também deve ser sublinhado, ou por isso mesmo, é que a Suécia e a Finlândia, depois da agressão russa à Ucrânia, não obstante pertencerem à União Europeia, aderiram efetivamente à Aliança Atlântica, porque consideravamQue a Aliança Atlântica garante uma proteção muito maior em caso de uma agressão do que garante a União Europeia, mas isto já é the first step, ou seja, é já quase o primeiro passo para que a União Europeia se comprometa efetivamente com outro tipo de quadros e de um quadro analítico muito mais virado para a área da defesa, porque a política comum de segurança e defesa esteve basicamente estagnada até 2022. Aliás, quando a bússola estratégica, também um mês logo após a agressão russa, vem destapar também as nossas vulnerabilidades nesse sentido, nomeadamente ao nível das capacidades.

No que toca ao conflito no Irão, o ministro da Defesa israelita afirmou hoje que Israel está à espera de luz verde dos Estados Unidos para completar a eliminação do que diz ser a dinastia Khamenei e devolver o Irão, vou citar: "à idade das trevas". Israel fala num ataque mais mortífero e devastador do que os anteriores. Liliana Reis, numa altura em que Donald Trump já disse que o cessar-fogo não tem prazo, essa pode ser uma má notícia para Israel.

Pode ser uma má notícia para Israel, mas também do ponto de vista dialético, este tipo de declarações também pode comprometer aquilo que Donald Trump possa estar a pensar ao nível negocial. Aquilo que nós sabemos é que hoje Donald Trump veio também colocar na sua rede social, na Truth Social, que na verdade o Irão não estava pronto para negociar, porque não se percebe muito bem quem é que está a liderar estas negociações. Sabemos que efetivamente há aqui três braços. Em primeiro lugar, o Aiatolá Mostafa Khamenei e os clérigos que constituem o Conselho dos Sábios. Por outro lado, a Guarda Revolucionária controla as operações militares, mas também Ahmad Vaidi, que é o comandante supremo do corpo da Guarda Revolucionária, pode estar a assumir as negociações. E depois, em terceiro lugar, o poder político, nomeadamente o presidente do Parlamento, Ghalibaf, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi. Aquilo que nós já percebemos é que há aqui algum grau de autonomia, e recuperando as palavras até há pouco, a propósito da análise à União Europeia, há aqui algum grau de autonomia confiado pelos Estados Unidos a Israel em relação ao Hezbollah e àquilo que é a resolução do conflito diretamente entre Israel e o Hezbollah. Não me parece, até porque os Estados Unidos, a nível interno, também estão a ficar com algumas complicações, não me parece que haja esse grau de autonomia para a ação, quer militar, quer diplomática, em relação àquilo que possam vir a ser as operações de Israel para o Irão. Ou seja, se por um lado os Estados Unidos quase que passaram uma carta branca para Israel lidar com o Hezbollah, isso já não se verifica em relação ao Irão. Até porque nós temos aqui uma situação também muito pragmática: é que a resolução dos poderes de guerra dos Estados Unidos de 1973 limita a 60 dias o prazo para finalizar uma guerra sem autorização formal por parte do Congresso, e o prazo termina no próximo dia 1 de maio. Ora, aquilo que nós sabemos neste momento é que as sondagens começam a mostrar alguma rejeição a esta guerra e o movimento MAGA também começa a revelar algum descontentamento.

Mas Donald Trump está preocupado com isso, uma vez que não se pode candidatar novamente à presidência dos Estados Unidos?

Eu acho que deve estar pelo menos preocupado com as midterm elections que se vão realizar no final deste ano e pode perder, efetivamente, a Câmara dos Representantes. O que nós temos vindo a observar é várias saídas, a última das quais a Secretária de Trabalho, mas também já saiu a da Segurança Interna, a da Justiça e ontem, aliás, agora estava-me a recordar, ontem, o Secretário da Marinha dos Estados Unidos, Sean Kellen, também abandonou o seu cargo. Nós não sabemos se foi demitido por Pete Hegseth, o Secretário da Defesa, aliás, que se intitula da Guerra, ou se apresentou o pedido de demissão. Mas nós sabemos que numa altura em que a Marinha assume uma importância enorme, nomeadamente pelos serviços marítimos no bloqueio aos portos iranianos e do Estreito de Ormuz, também tivemos esta demissão. Ora, não me parece que neste momento Donald Trump também não queira ou queira afastar por completo as negociações. Aliás, eu acho que o Irão e os Estados Unidos querem efetivamente negociar e têm interesse em fazê-lo. Repare, o Irão está a perder cerca de 150 milhões de dólares por dia em receitas provenientes do petróleo. E os Estados Unidos, como eu disse, para além deste quadro político interno, nós também não sabemos como é que os mercados vão reagir a este quadro de incerteza diário. E por isso, parece-me que pode haver aqui alguma vontade dos Estados Unidos assumirem claramente a liderança ao nível das negociações. Do lado iraniano, há efetivamente esta dúvida de quem é que poderá estar a assumir a liderança das negociações. A este respeito, permita-me só também que transmita o seguinte: o Economistpublicou um artigo no dia 19 de abril intitulado da seguinte forma, a tradução para português: "Com qual Irã estará a América a lidar?" Que efetivamente poderá estar a haver uma luta pelo poder na República Islâmica do Irã, e comparou inclusivamente a situação atual do Irã com os primeiros meses caóticos da revolução iraniana, nomeadamente ao nível da disputa de fações, mas que poderia também estar a haver aqui alguma facção que poderia também estar mobilizada para a negociação. Por isso, essa frase que me transmitiu inicialmente por parte do governo israelita, também pode ser para comprometer, efetivamente, as negociações entre o Irã e os Estados Unidos.

Olha, Liliana, e na sua análise, por que é que Donald Trump passou de dizer que não ia estender o cessar-fogo com o Irã, para dizer que neste momento é um cessar-fogo que não tem prazo, portanto, o conflito fica em pausa até que haja uma proposta do lado de Teerão.

Sim, "end finish the war". Porque eu acho que ele já percebeu que não consegue finalizar esta guerra. Ele não sabe como, quando e de que forma esta guerra vai ser finalizada. E então, antes de continuar a estipular prazos, repare, nós já tivemos aqui um conjunto de quadros cronológicos que eu já não consigo sequer-

Já ninguém consegue, Liliana.

Exatamente. Já não consigo. Peço desculpa pela minha incapacidade, mas já não consigo mesmo. E é exatamente porque começa a perceber que ele próprio não consegue liderar esta timeline, que neste momento avançou para esta situação de cessar-fogo ilimitado. E eu acho que também, para além desta questão da incapacidade de controlar o processo negocial, há outra dimensão, que é abrir também espaço a um grau de confiança por parte do Irã, para que o Irã apresente maior confiança para as negociações, nomeadamente se for esta linha mais dura do Ahmad Vahidi, do líder da Guarda Revolucionária, que é mais duro do que o Ministro dos Negócios Estrangeiros ou o presidente do Parlamento.

Temos aqui um minuto e meio, mas eu não quero deixar cair a Ucrânia, que de alguma forma tem ficado esquecida das manchetes por causa de todas estas atualizações que vão chegando do Médio Oriente. O empréstimo de €90.000 milhões da União Europeia foi hoje oficializado. António Costa diz que é altura agora de dar o próximo passo e começar a tratar das primeiras negociações no que toca à adesão da Ucrânia ao bloco europeu. Que garantias é que Kiev pode dar neste momento?

Neste momento, parece-me um passo um pouco precipitado. Primeiro, porque a Ucrânia ainda está em guerra. Mas só revelar efetivamente este apoio, o desbloqueio dos €90.000 milhões, e também, aqui há uma questão também importante, me parece, nesta altura deve ser sinalizada, porque também foi aprovado o 20º pacote de sanções à Rússia e o Orbán não compareceu neste Conselho da União Europeia, apesar de alguns ainda esperarem que ele estivesse, porque o Péter Magyar ainda não assumiu, efetivamente, a liderança ao nível da política externa. Aquilo que isso sinaliza é que há efetivamente uma união e uma vontade dos europeus em acelerar o processo de adesão da Ucrânia. Parece-me que é um pouco prematuro por uma questão, porque nós temos aqui, para além da resolução do conflito em si, temos outra questão que é os outros Estados candidatos a membros, como os países dos Balcãs, podem vir também a reclamar que sejam aceleradas estas suas candidaturas. E falo, por exemplo, da Sérvia, da Bósnia-Herzegovina, do Kosovo. Ora, acelerar o processo de candidatura para um Estado-membro pode ser observado do ponto de vista negativo por outros Estados-membros. E depois há aqui outra questão, que me parece também que é de todo o interesse da União Europeia no acelerar do processo da Ucrânia. É que a Ucrânia está-se a tornar uma potência do ponto de vista militar.

E com a experiência.

E com a experiência, exatamente. E a integração da Ucrânia no bloco europeu iria efetivamente melhorar as capacidades ao nível militar e ao nível da defesa por parte da União Europeia.

Liliana Reis, muito obrigada por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra. Obrigada pelas suas explicações e até uma próxima. Bom resto de semana.

Muito obrigada.

O Gabinete de Guerra regressa amanhã.