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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360, eu sou Maria João Simões, a análise é do Bruno Cardoso Rai, historiador e autor do programa Cinco Continentes. Bom dia, Bruno, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Olá, Bruno. Começamos pelo Irão. Trump diz que o tempo se está a esgotar para Teerão negociar um acordo nuclear e ameaça com um ataque pior do que o do ano passado. Na reação, o conselheiro do Aiatolá diz que se os Estados Unidos atacarem o Irão, a retaliação irá atingir o coração de Tel Aviv. Bruno, como é que olhas para tudo isto? Acreditas num possível confronto ou o Irão vai reconsiderar e sentar-se à mesa para negociar?

Acho que é possível realmente um confronto, ou seja, Donald Trump já mostrou no passado que está disposto a atacar o Irão, embora a verdade é que sempre o fez de uma forma relativamente limitada. Portanto, os dois casos, no primeiro mandato ainda, o ataque contra o general Soleimani, o comandante da Guarda Revolucionária, e depois, agora já neste mandato, há uns meses, o ataque conjunto com Israel contra o programa nuclear. Infelizmente, isto já não irá ajudar os milhares de mortos. Há estimativas que chegam aos 30 mil de elementos da oposição iraniana, mas realmente aquilo que parece ser o foco do Donald Trump é a questão do programa nuclear, é isso que ele refere no tweet em que renova também essa ameaça. E a verdade é que temos aqui a concentração de meios muito significativos, meios militares adicionais muito significativos, portanto, isso parece, para já, ser claramente uma forma de pressão militar sobre o Irão. Agora, se de fato irá depois passar à fase seguinte, realmente haver um ataque, se, entretanto, o regime, até porque está enfraquecido também internamente e até externamente, se irá procurar negociar, isso é algo que teremos de ver, mas realmente acho que há aqui claramente, novamente, uma escalada de tensão e um risco real de um choque armado.

Entretanto, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reúnem-se hoje em Bruxelas para decidir novas sanções, não só à Rússia, mas também aos responsáveis pela repressão no Irão. Bruno, é melhor do que nada, mas não é com sanções que se param estes milhares de mortes no Irão. A comunidade internacional não pode fazer mais?

Realmente é essa a questão, e é uma questão que depois levanta outras. Portanto, quando realmente se diz: "Com as sanções não vamos lá". Isso é bastante evidente, embora também seja evidente que as sanções têm algum impacto, porque, nomeadamente, muitas das dificuldades econômicas do Irão têm a ver realmente com o regime muito pesado de sanções. Também tem a ver com a simples incompetência do regime, com o fato de o regime dar prioridade em termos de gastos a manter a sua própria elite. Supostamente, é um regime muito austero, mas, na verdade, há imensa gente a ganhar imenso dinheiro, inclusive com o regime de sanções, as questões do contrabando e tudo isso, que beneficiam as elites do regime. Obviamente, gasta imenso dinheiro nestas ambições na região, que criam imensos problemas a vários países da região, armando grupos que depois desestabilizam outros países, etc. Mas tudo isso tem sido uma prioridade para o regime. Agora, é verdade que só por si, de fato, não trava o regime, porque se travassem, já tinham feito isso há muito tempo, porque realmente, como eu digo, este regime de sanções já existe há anos e anos. Agora, realmente, qual é a alternativa? A alternativa, à partida, seria, por exemplo, uma ação armada muito mais musculada, mas isso coloca questões em termos de direito internacional, em termos também dos custos, dos riscos que isso coloca. E a verdade é que mesmo uma ação militar, pelo menos uma ação militar mais limitada, não é garantido também que produzisse resultados, como temos visto também. Já aconteceram realmente ações militares contra o regime, por parte de Israel e dos Estados Unidos, e não foram suficientes para o regime cair.

Bruno, temos também de falar sobre as declarações de Mark Rutte, que diz que a Europa não consegue defender-se sem os Estados Unidos. Como é que devemos olhar para esta narrativa do secretário-geral da NATO? E que impacto é que isto pode ter?

Eu acho que realmente, infelizmente, confirma-se que Mark Rutte não consegue perceber bem qual é a natureza do seu papel. É verdade, qualquer analista dirá isso, que a Europa terá enormes dificuldades em se defender sem os Estados Unidos. Pior ainda, do meu ponto de vista, o real problema, a grande questão, é que os Estados Unidos são completamente insubstituíveis, não propriamente neste ou naquele meio, nesta ou naquela capacidade. E é verdade que têm capacidades únicas, que não é que a Europa não tenha, é que mais ninguém tem, porque também mais ninguém tem o orçamento de defesa dos Estados Unidos. Os Estados Unidos sozinhos gastam quase um trilhão, ou se quisermos em português, um bilhão de dólares. O país mais próximo disso, o número dois a seguir, vem a China com pouco mais de 300 mil milhões, que é mais ou menos o valor que o conjunto da Europa também gasta. Mas o problema é, sobretudo, que a presença de tropas americanas na Europa e a ideia de que os Estados Unidos iriam defender países europeus membros da NATO é um elemento dissuasor que é insubstituível, porque precisamente os Estados Unidos são a maior potência militar do mundo, são a segunda maior potência nuclear. Portanto, vamos dizer que a Rússia ataca um país báltico. Mesmo que as coisas corressem bem, na melhor das hipóteses, acabava com uma guerra direta com os Estados Unidos. Portanto, isso é um elemento dissuasor que não é substituível. Agora, este tipo de argumento de Rutte, e por que eu digo que ele não percebe o seu papel, que é ser secretário-geral, ou seja, o porta-voz da organização e do conjunto dos países, procurando promover as boas relações entre o conjunto dos países membros, não é ser embaixador dos Estados Unidos na NATO, porque isso é um papel que já existe, tal como existe o papel de embaixador de Portugal Na NATO. E portanto, aqui realmente o problema é que ele está sistematicamente a desvalorizar, a criticar, de uma forma inclusive injusta, os países europeus, dando ideia que basicamente são completamente incapazes ao nível da defesa, alimentando esta ideia de que, por exemplo, se pode fazer equivaler o investimento em defesa dos Estados Unidos à defesa da Europa. Ora, o investimento em defesa dos Estados Unidos é pra ser gasto no mundo todo. Não é pra ser gasto apenas ou exclusivamente, ou principalmente na Europa. Se há aliados dos Estados Unidos que têm capacidades militares importantes e que realmente têm mostrado a disponibilidade para ajudar os Estados Unidos, são os países europeus. Sobretudo, e para terminar, é fundamental que os países europeus realmente gastem mais a rearmar-se. Ora, se o responsável principal da NATO diz: "Tudo isso é inútil, não vale a pena", como é que se consegue mobilizar esforços, recursos, exactamente para esse esforço de rearmamento? Portanto, tudo isto realmente não faz nenhum sentido. Acho que são declarações lamentáveis do secretário-geral da NATO.

Entretanto, a França opõe-se ao plano da União Europeia para a compra de mísseis pra Ucrânia. A posição de Paris, pretende que o empréstimo de 90 mil milhões a Kiev seja gasto na União Europeia. Bruno, isto é revelador também do cansaço europeu no apoio à Ucrânia. Acreditas que outros líderes se juntem a Emmanuel Macron?

Do meu ponto de vista, é a posição errada, porque a prioridade deve ser dar o mais possível, o mais depressa possível, as melhores defesas possíveis à Ucrânia. Agora, acho que infelizmente é revelador, e provavelmente é uma tendência que se vai reforçar, esta ideia de que, no fundo, não é possível a Europa gastar todo esse dinheiro a ir comprar equipamento militar, basicamente, aos Estados Unidos. E, portanto, temo que realmente esta tendência se venha a reforçar.

Bruno Cartaxo Reis, obrigada pela análise. Bom final de semana, Bruno.

Obrigado. Boa semana, obrigado.