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Este é o Som do Gabinete de Guerra das Manhãs 360. Esta segunda-feira, a análise é do tenente-general Marcos Serronha. Muito bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia e obrigado.

Começamos pelo Médio Oriente. As forças israelitas assumiram o controle da fortaleza histórica de Beaufort, no sul do Líbano. Netanyahu fala num ponto viragem decisivo. General, que leitura faz desta operação? É uma espécie de xeque-mate ao Hezbollah ou é uma rutura de Israel com os apelos de contenção de Donald Trump?

Olá, bom dia mais uma vez a quem nos ouve também. Nós sabemos que está a decorrer o processo negocial entre os Estados Unidos e o Irão e o que Israel percebeu é que muito provavelmente, e isto é uma exigência que o Irão tem e que Donald Trump não terá grande hipótese de fugir se quiser garantir outras coisas do seu interesse, nomeadamente a questão do urânio enriquecido e a questão nuclear neste acordo de entendimento. Israel percebeu que neste momento tem que andar o mais rápido possível até este acordo poder ver a luz do dia. Poderá ser rápido, em dois ou três dias, ou poderá demorar algum processo negocial de acordo com as resistências que o Irão for pondo e Israel também for pondo. Portanto, isto é mais uma manobra de natureza de aproveitamento de uma situação para tentar garantir o máximo de posse de território.

Que pode mudar a qualquer momento, exactamente.

Exato. O acordo de entendimento, se for aprovado, muito provavelmente vai conter uma cláusula que exige que as operações parem também no Líbano. Portanto, Israel quer garantir que tem pelo menos aquela faixa defensiva que idealizou como necessária para ter maiores garantias de segurança no norte de Israel, enquanto irá decorrer depois um processo negocial também paralelo, naturalmente, entre o Líbano e Israel, que envolva também, com certeza, a questão do Hezbollah, que vai ter que ser envolvida e na qual o Irão também tem o interesse. Portanto, eu julgo que é uma questão de aproveitar este tempo da negociação para conseguir, no terreno, garantir posições, sob o ponto de vista da segurança de Israel, mais favoráveis.

Sobre o conflito entre Estados Unidos e Irão, a Casa Branca diz que o memorando está praticamente fechado. Teerão fala em especulação. Facto é que o tempo político e económico não corre a favor de Washington. Já Teerão insiste em não abdicar do nuclear e exige acesso aos fundos congelados. Quem é que, na sua opinião, General, tem neste momento mais margem para esticar a corda? Trump, que precisa de conter o preço dos combustíveis antes das eleições intercalares, ou os aiatolás, que parecem dispostos a asfixiar a própria economia para cansar militarmente os Estados Unidos e também o Ocidente?

O Irão, nesta guerra, enveredou por uma perspectiva de controlo da geoeconomia global, naturalmente, com a questão do fecho do estreito. E tem-se mantido nessa postura, tendo em consideração que percebe que é daí que pode vir os ganhos sob o ponto de vista estratégico, de uma possível vitória, se nós pudermos falar nisso, uma possível vitória estratégica na guerra, porque isto é sempre complicado de assumir desta maneira quando o Irão foi destruído numa boa parte das suas capacidades militares, embora mantenha outras, naturalmente. Portanto, o Irão, com esta questão da gestão desta parte da guerra sob o ponto de vista da geoeconomia, tem de facto um elemento de pressão grande sobre os Estados Unidos. Embora, Donald Trump, sob o ponto de vista retórico, põe isso muitas vezes de lado, dizer que tem o tempo todo do mundo e que não o prejudica, o que nós sabemos que não é verdade, além de que vai também prejudicar a economia mundial e prejudica outros, naturalmente, e os outros também exercem pressão sobre os Estados Unidos. Portanto, é nesta linha de pressão de uma perspectiva que o Irão tem sobre o tempo dos Estados Unidos, que pode também não ser a mais correta. Normalmente, o que pode acontecer é que um dos opositores pensa que tem umas expectativas sobre a gestão do tempo do outro com maior efeito e eficácia do que na realidade depois tem. Mas o Irão tem-se mantido nesta postura e que também lhe traz, naturalmente, e essa é a outra face da medalha para o Irão, também lhe traz sérios dissabores sob o ponto de vista da sua economia, que está muito degradada, como sabemos. Portanto, o Irão também tem um tempo. Não tem um tempo ilimitado, porque a questão da sustentação do mínimo da economia iraniana é fundamental para a estabilidade do regime também. A estabilidade dentro daquilo que é possível. Portanto, eu julgo que estão ambos pressionados pelo tempo. Têm uma perspectiva sobre o tempo do outro, que às vezes não é a mais correta, e é isso que tem, de algum modo, contribuído para que uma assinatura deste acordo de entendimento tenha sido empurrada com a barriga para a frente, com prejuízos para os dois lados e para a economia mundial, naturalmente.

Entretanto, o secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, suspendeu o destacamento de tropas para a Polónia e Roménia e disse que acabou a era em que Washington subsidiava a defesa de países ricos. General Marcos Serronha, este desinvestimento americano é o abanão de que o velho continente precisava para assumir a sua autonomia estratégica ou é um abandono, se assim se pode dizer, perigoso, que deixa as nossas fronteiras expostas à Rússia?

Sim, vamos lá ver. Eu julgo que mais do que o efeito prático, é a mensagem que passa essencialmente para a Rússia. Porque isto tem sido utilizado pelos Estados Unidos de forma até relativamente intermitente e às vezes até dando a ideia que nem tem grande racional por trás. Porque isto aconteceu há três semanas ou quatro, depois o presidente Donald Trump veio dizer que afinal que não para a Polónia, porque a Polónia é amiga, vão os militares. Agora Pete Hegseth diz exatamente o contrário.O que nos leva a entender que isto são coisas, por um lado, mais de natureza tática, para a gestão da pressão que os Estados Unidos querem pôr sobre os europeus, porque muito provavelmente não deixaram ainda de pensar que os europeus os possam vir a ajudar no Médio Oriente. Isto é uma concessão que os Estados Unidos têm e que, dentro daquele esquema que têm de manter a pressão sobre os aliados, vão construindo. Também sabem que estamos a caminho de uma cimeira da NATO, que será uma cimeira importante, naturalmente, porque a NATO não está de boa saúde. A cimeira de Istambul vai ser muito importante, naturalmente. Há esta pressão. Agora, aqui o mau sinal é o que transmite, de facto, à Rússia, porque isto, por assim dizer, estraga muito a capacidade de dissuasão, não só da Aliança Atlântica, como da própria Europa sobre a Rússia. O mais perigoso que pode acontecer é a Rússia perceber que há aqui um intervalo de tempo onde os Estados Unidos poderão não querer fazer aplicar o artigo quinto no caso de haver um problema qualquer com a Rússia nos Bálticos ou em qualquer lado. Isso é perigoso, porque a Rússia, se perceber, aliás, como aconteceu com o início da guerra da Ucrânia, se perceber que os Estados Unidos não estão interessados em mandar militares para ajudar os europeus, pode vir a aproveitar essa janela de oportunidade, mesmo que a guerra da Ucrânia não tenha acabado. Enfim, é pouco crível que isso aconteça, mas pode acontecer imediatamente nos próximos dois a três anos, o que é sério para os europeus. Mas vamos lá ver, pela pergunta que fez e com toda a lógica, isto é um processo que dá razão a uma maior autonomia dos europeus e do pilar europeu da NATO e da própria estrutura da União Europeia e dos países eles próprios, naturalmente. Porque alguns irão, que é o caso de Portugal, terá todo o interesse em manter algum grau de relacionamento bilateral com os Estados Unidos, naturalmente, mas tem que não pôr os ovos todos no mesmo cesto, por assim dizer, e conceber uma estratégia de maior autonomia, porque a autonomia europeia é uma ideia que a expressão prática é um maior grau de autonomia dos países. Naturalmente, a autonomia estratégica europeia é uma coisa que não nasce do nada. É preciso os países terem capacidades militares e terem estratégias adequadas para a sua segurança e para a segurança da Europa. Isso baseia-se muito nos países, porque o modelo da União Europeia, como sabemos, é esse, é governamental, não é uma federação.

Sobre a guerra na Ucrânia, general, mesmo a terminar, que ponto de situação podemos fazer depois dos ataques russos deste fim de semana?

Dos ataques russos e ucranianos.

E ucranianos também, que responderam, exatamente, a vários pontos.

A situação sob o ponto de vista operacional e estratégico está, de facto, em um ponto de viragem, com a Ucrânia a ter um grau de iniciativa grande em áreas muito sensíveis para a Rússia. Logo, no primeiro caso, a capacidade que a Ucrânia tem demonstrado e voltou a demonstrar ainda esta noite, relativamente à capacidade de ataque sobre as infraestruturas físicas e energéticas da Rússia. Tanto a capacidade de atacar comboios que transportam combustível, como refinarias e o sistema de distribuição dos gasodutos e dos oleodutos dentro da Rússia. E fazendo revelar uma capacidade de destruir, por um lado, ou inibir as defesas aéreas russas, que estão neste momento praticamente incapacitadas de conseguir destruir os drones e os mísseis ucranianos. Por outro lado, na linha de frente, a mesma coisa. A Ucrânia conseguiu, com o seu sistema de drones relativamente imunes à guerra eletrónica russa, bloquear completamente a sustentação logística russa às suas unidades da linha de frente, o que está a produzir efeitos relativamente graves. O reverso da medalha para o lado da Rússia é a dificuldade que a Ucrânia tem em ter sistemas de intercepção, principalmente para os mísseis balísticos. Quando se faz ataques com muitos mísseis e muitos drones, é evidente que há uma boa parte dos mísseis que passa, porque não há interceptores.

A Rússia sabe dessa fragilidade, não é?

Sabe dessa fragilidade e é o único instrumento, neste momento, que tem para fazer de algum modo afetar a capacidade e o moral dos ucranianos, porque de resto, na linha da frente, a situação está bastante complicada para a Rússia, porque já percebeu que não vai conseguir atingir os seus objetivos, que era a conquista do Donbass, nos próximos, eu diria, anos, se se manter essa incapacidade das Forças Armadas russas de reporem na linha de frente as pessoas que vão perdendo. E isso degrada o potencial militar da Rússia também, naturalmente, e cria uma pressão enorme junto do Kremlin para provavelmente ter que fazer aquilo que o Putin nunca quis fazer, que foi uma mobilização forçada de não voluntários para irem combater na Ucrânia, o que pode quebrar aquilo que nós chamamos o contrato social entre Putin e os russos, que é não mexer na juventude, principalmente dos oblasts da Rússia europeia. De São Petersburgo, Moscou, dos outros oblasts aqui mais da zona oeste da Rússia, que são esses que de algum modo têm, se não apoiado, pelo menos permitido que o regime russo de algum modo mantenha este figurino autocrático. E, portanto, a situação para a Rússia não está muito famosa. Aliás, Zelensky disse, e com uma certa razão, que a Ucrânia perspectiva que consegue manter essa superioridade até o inverno que vem. E, portanto, é aqui que quer agora apostar na negociação com a Rússia.

Tenente-general Marcos Serronha, muito obrigada pela sua análise. Boa semana para si.

Muito obrigado.

Muito obrigada, um bom dia.

Obrigado, bom dia. Boa semana também.