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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, sou o Miguel Cordeiro, vou falar nos próximos minutos com Pedro Nascimento, investigador de história militar. E vamos começar com o Médio Oriente, com o conflito no Irão. Essa é uma primeira noite consecutiva de ataques norte-americanos ao Irão. Há declarações de Marco Rubio. Falou durante as últimas horas nas Filipinas, durante um encontro de ministros dos estrangeiros da Associação de Nações do Sudeste Asiático. Ele disse que o Irão não está seriamente empenhado nas negociações. A frase é esta: "Se forem sérios, nós somos sérios. Se não forem, nós fazemos o que for necessário para proteger os nossos interesses e os interesses dos nossos aliados". Pedro Nascimento, bem-vindo ao Gabinete de Guerra. Há, de fato, falta de seriedade por parte do Irão? Está Marco Rubio a extremar esta posição?

Olá, Miguel. É um gosto encontrá-lo novamente e cumprimentar todos os ouvintes. Eu, desde o início desta crise, tenho defendido uma ideia muito simples: que o problema aqui nunca foi apenas o programa nuclear. Isto é um verdadeiro debate sobre um equilíbrio de poder no Médio Oriente e naturalmente cada uma das partes tenta defender e passar uma imagem para fora da sua posição. E esta acusação não me surpreende, e não digo que não tenha razão, mas vem na sequência deste jogo. Eu creio que Rubio e pelo menos os mais atentos sabem perfeitamente que o Irão não está na mesa de negociações apenas para chegar rapidamente a um acordo. O Irão negocia para ganhar tempo, até pela posição militar em que se encontra, para reduzir a pressão internacional, para reorganizar as suas capacidades ou tentar e para preservar alguma margem de manobra. E isto não é de todo surpreendente. E eu sei que muitas vezes faço este apontamento e sei que muita gente descura, que muita gente diz que a história não é um julgamento, que a teoria não joga com o que acontece no terreno, mas isto é uma prática muito antiga e não há aqui qualquer contradição. Na história militar, negociar e preparar a sua guerra nunca foram atividades incompatíveis. E eu creio que Rubio pelo menos sabe isso. E o Ocidente quer continuar a ver as coisas desta forma e eu entendo que é um erro colossal. Eu acho que é um erro imaginar que o Irão olha pra uma negociação como um fim em si mesmo. Não olha, definitivamente. Para o regime iraniano, isto de negociar é um instrumento de poder. E é por isso que eu continuo a dizer que este é o verdadeiro trunfo do Irão. Não é o urânio, é esta incerteza. É conseguir manter os seus adversários sem saberem exatamente até onde é que está disposto a ir, o que está realmente disposto a ceder, qual é o custo de pressionar demasiado. Isso exatamente pela posição em que o Irão se encontra, porque sabemos que em termos militares não tem propriamente capacidade para fazer a frente que gostaria de fazer e então serve-se de outros instrumentos. Daí que sim, e eu entendo, claro, podemos entrar aqui no jogo de que os Estados Unidos estão a dizer que o Irão não é sério, o Irão também dirá que os Estados Unidos não são, mas esta é uma estratégia iraniana da qual eu não consigo ver de outra forma.

Vamos continuar a falar de negociações, porque Marco Rubio vai ter um encontro com o ministro russo Sergei Lavrov. O que se espera deste encontro? Do que se espera que se fale? Certamente das guerras na Ucrânia e da região do Golfo, mas há aqui mais aspetos em cima da mesa?

Miguel, eu acho que este encontro entre Rubio e Lavrov merece uma atenção especial, porque revela, pelo menos para as pessoas que acompanham isto de uma forma mais geral e não tão minuciosa, que há aqui uma evolução dentro da própria administração norte-americana. Porque todos sabem que Donald Trump acreditou que uma relação mais direta com Putin iria abrir caminho a um entendimento sobre a Ucrânia, mas a realidade mostrou-se bem mais complexa do que aquilo que Trump esperava. A guerra continua, a Rússia não altera os seus objetivos estratégicos e a Ucrânia passou meses particularmente difíceis, com dúvidas sobre a continuidade e o apoio norte-americano, com todas as consequências daí adiantes. Marco Rubio tem uma leitura diferente, pelo menos assim mostra. Ele tem sido provavelmente uma das vozes mais lúcidas da administração no que diz respeito a este conflito. E percebe que Moscovo continua a negociar a partir de uma posição que, independentemente daquilo que as pessoas possam entender, objetivamente é a de força, porque na verdade é a Rússia que está no território ucraniano e não o contrário. E qualquer diálogo com uma força que está nesta posição só terá utilidade se for acompanhado de uma pressão política e económica e ultrarrácico militar, naturalmente. Mas é neste contexto que eu interpreto esta reunião. Não é um gesto de aproximação, nem um sinal de que a paz esteja alegadamente iminente, mas é um contacto que é necessário entre duas potências que continuam profundamente divididas, mas que têm que manter um canal de comunicação aberto, como foi no passado, mesmo na Guerra Fria, para perceber até onde cada uma delas está disposta a ir. E ao mesmo tempo, eu creio que Rubio procura com isto transmitir uma mensagem muito clara para a Rússia, que é: os Estados Unidos continuam disponíveis para falar, mas não estão disponíveis para aceitar qualquer solução. Ou seja, o diálogo mantém-se, mas a expectativa de concessões unilaterais por parte dos Estados Unidos, eu creio, parece ter diminuído, pelo menos comparando com aquilo que Trump falava anteriormente. E há outro aspeto que me parece relevante. Esta reunião acontece numa altura em que os Estados Unidos estão simultaneamente envolvidos, ainda que indiretamente, na Ucrânia, têm o dossiê iraniano, estão com as questões prementes do Indo-Pacífico, ou seja, isto obriga os Estados Unidos a gerir várias crises em simultâneo.

Sim, são negociações em várias geografias.

Exatamente. E têm que manter um canal aberto, o minimamente aberto com a Rússia, para ter uma forma de impedir que todas essas frentes se agravem ao mesmo tempo. Por isso, eu vejo este encontro como um exercício mais de uma gestão estratégica, não propriamente como um sinal de reconciliação ou que se vai chegar a uma solução, porque o diálogo existe, mas esta rivalidade continua, não desapareceu.

Pedro Nascimento, muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador. Mais uma edição do Gabinete de Guerra.