Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise do major general João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pela situação no Médio Oriente. Donald Trump anuncia que conversou com Netanyahu para não enviar tropas a Beirute, que diz que vai haver um cessar-fogo entre Israel e o Líbano e que as conversas com o Irão estão a fluir. No entanto, hoje o Irão anunciou que suspendeu as negociações com os Estados Unidos e ameaçou fechar o Estreito de Hormuz por considerar que a frente ativa no Líbano era uma violação da trégua geral. Pergunto-lhe se este anúncio de cessar-fogo no Líbano, por parte de Donald Trump, tem como objetivo convencer os iranianos a voltar à mesa de negociações, tendo em conta que Trump diz agora que as conversas estão boas.
Sim, efetivamente é essa a situação em termos de sequência. Ou seja, a partir do momento em que o Irão cessa o processo negocial e também faz determinadas ameaças, designadamente até relativamente ao estreito de Bab-el-Mandeb, no âmbito dos proxies, há uma resposta imediata de Trump, no sentido de ir ao encontro daquilo que também foi dito pelo presidente, nesse caso, Péseshkian, que também tinha a ver, e não só ele, mas que a questão do Líbano era fundamental para todo o processo de paz. E portanto, lá esteve novamente Trump a falar com Netanyahu, arranjou contactos também para falar com o Hezbollah, no sentido de travar mais uma vez a situação no Líbano, de maneira a que a situação da guerra com o Irão continuasse as negociações. Da parte do Irão ainda não temos resposta, mas o que vemos efetivamente, em termos de análise, é permanentemente Israel a bloquear todo o processo negocial, o que vemos é permanentemente Trump a ser influenciado, a ser desautorizado e até envergonhado, entre aspas, por Netanyahu.
Também fazer uma pergunta à procura de uma futurologia mais arriscada, tendo em conta a história recente deste conflito e da história recente do Médio Oriente, mas acredita que este cessar-fogo no Líbano vai ser cumprido?
No Líbano, e nós temos a experiência de 1982 até 2000, também houve uma série de cessar-fogo, eu não acredito. Não acredito até porque Israel tomou determinadas posições, inclusivamente para além da linha amarela, daqueles cinco a 10 quilômetros que pretensamente seriam o terreno donde com artilharia o Hezbollah bombardeava o norte de Israel. Ultrapassou essa mesma linha, conquistou inclusivamente, como nós ouvimos, o Castelo de Beaufort, que fica a 14 quilômetros e meio. Está no terreno. Aquilo que Trump disse há pouco foi que nem um nem outro mexiam. Eu não acredito. Nenhum de nós acredita, apesar de o acordo de cessar-fogo ter sido feito com o governo do Líbano e não com o Hezbollah. Agora, é evidente que foi fundamental parar este processo no Líbano para que o processo de negociação continuasse, e aí teve que intervir mais uma vez por reação Donald Trump. Agora, na realidade, vamos ver o processo negocial onde é que vai parar. Eu tenho as minhas dúvidas que Israel volte novamente às suas fronteiras originais. Agora, tenho a certeza que depois disto que disse Trump, não vai bombardear hoje Beirute. Hoje. Amanhã veremos. Ou seja, naquela região, as questões do cessar-fogo têm uma interpretação diferente, como nós temos visto, quer da parte dos Estados Unidos e do Irão, quer da parte de Israel e do Hezbollah.
Eu queria agora mudar de tema, falarmos um bocadinho sobre a guerra na Ucrânia. Isto porque Volodymyr Zelensky deu uma entrevista à CBS News onde disse que há agora uma janela para se negociar com a Rússia e que a Ucrânia nunca esteve numa posição tão boa. Zelensky fala também em algumas condições favoráveis para se pressionar Vladimir Putin, diz que os russos perdem 35 mil soldados por mês e que o país está à beira de uma crise com o povo. Considera que agora é mesmo essa a melhor altura para se tentar empurrar e pressionar Vladimir Putin para a mesa das negociações?
Também considero. Considero fundamentalmente pela questão da gestão das perceções. Neste momento, em função da guerra do Irão ter desviado a atenção, mas também em função do ataque, da ação ofensiva da Rússia para a primavera ter falhado, houve alguma recuperação da parte, em termos militares, da parte da Ucrânia, digamos que também aliada àquilo que é o ataque em profundidade e destruição de centros energéticos, de centros logísticos, de centros de comando com grandes baixas. Portanto, isso corresponde efetivamente à verdade e daí a resposta da Rússia para obviamente destruir determinado tipo de objetivos, como centros de produção de drones no centro de Kiev. É dissuasão a chegar a este ponto de destruir alvos na capital. Quer dizer que a situação já está muito má e que em termos de teatro de operações está derrotada na linha da frente. Há grandes fragilidades também na Crimeia. Nós nunca temos toda a informação, mas efetivamente ao fim de quatro anos e meio, estes indicadores que eu dei agoraSão dos melhores para negociação da parte da Ucrânia em termos de liberdade de ação negocial. Concordo, é preciso é que haja apoio da parte dos Estados Unidos e apoio da parte da Europa, ou pressão, esse apoio ser de pressão pra negociação, porque até hoje, desde o primeiro dia, a Rússia não abdicou de um único objetivo e em todas as negociações que houve, as primeiras na Turquia e estas últimas eram exatamente iguais. A cedência da Crimeia, para eles já é considerada Crimeia, dos quatro oblasts, e imposições sobre as questões políticas para um Estado soberano, designadamente o não pertencer a organizações internacionais, a redução do arsenal militar era uma rendição, um entendimento daquilo que eram as imposições da Rússia. Não cedeu em nada até agora. O Zelensky e não só o Zelensky, os europeus em geral, compreendem que este será dos melhores momentos para pressionar a Rússia à mesa das negociações, por razões ligadas ao teatro de operações, por razões políticas, quer de política interna, quer de política externa.
Mas entende que em termos da política interna, a Rússia pode estar mesmo em crise com o povo?
Nós isso nunca sabemos. Aliás, poucos dias antes da ira de Berlim, toda a gente achava que estava tudo normal. É muito difícil num regime autocrático, mesmo na própria China, com indicadores econômicos que também nunca sabemos se correspondem à verdade, mas sobretudo na Rússia, que tem sempre a desculpa de estar em guerra. Condiciona todos os dados, alguns deles em termos econômicos, nós conhecíamos no início da guerra, mas depois ele travou esse tipo de informação para aquilo que era a diretora do Banco da Rússia na altura. Nós nunca temos noção concreta daquilo que se está a passar ao nível económico e muito menos ao nível social. É muito difícil no caso da Rússia.
É sempre difícil ter essas informações por parte desse tipo de países. Queria lhe perguntar sobre a central de Zaporizhzhia, que tem sofrido vários ataques por parte da Ucrânia. A Rússia acusou hoje a Ucrânia de estar a querer causar uma catástrofe nuclear para justificar ajuda internacional. Acha que a Ucrânia correria um risco tão grande para obter ajuda?
Acho que não. Acho que isso faz parte do tal processo que falámos há pouco. Ou seja, a Rússia está-se a agarrar a todo o tipo de argumentos para reduzir a tal perceção favorável da Ucrânia, não só em termos militares, mas em termos políticos e em termos de imagem. E esta é uma maneira de penalizar a Ucrânia por parte da Rússia. Não temos a noção se corresponde totalmente à verdade ou não, mas na minha perspectiva faz parte desse processo de tentativa de alterar a gestão de percepções.
Como se fosse propaganda militar.
Sim, e obviamente que já deve ter notado uma queimadura que ciclicamente, e sobretudo quando a Rússia está numa situação mais frágil, este tema aparece. Aparece sempre essa central. É um indicador que há dificuldades da parte da Rússia. Vamos ver, no futuro saberemos melhor quando tivermos dados mais concretos.
Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado, Major-General João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Obrigado. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, disponível em podcast.